sábado, 17 de janeiro de 2026

Conservadores se rendem ao biquíni. Não sobrou nada para a modéstia.


Recentemente, houve grande repercussão nas redes sociais em torno do tema do uso do biquíni. O debate, no entanto, revela menos uma controvérsia moral genuína e mais a confusão generalizada de conservadores católicos acerca da natureza da virtude da modéstia.

Há dois anos, publicamos neste blog o artigo “Conservadores se rendem à imodéstia”, no qual já se apontava um processo de regressão moral: costumes que haviam sido corretamente rejeitados por católicos do espectro conservador passaram a ser novamente tolerados e, depois, defendidos. Desde então, o quadro apenas se agravou. Muitos que se autodenominam conservadores passaram a adotar, na prática, os mesmos critérios morais do progressismo, apenas com uma linguagem diferente.

O episódio mais recente envolve a influenciadora Aimê Gumiero, católica recém-convertida, que afirmou publicamente que o uso de biquíni em praias e piscinas não constitui pecado. Sua argumentação segue um padrão já bastante conhecido.

Primeiramente, ela afirma que a modéstia “não é um conjunto de regras”. Essa afirmação, embora verdadeira em sentido estritamente técnico - pois a modéstia é uma virtude e não um código de direito -, é quase sempre usada de forma sofística. Na prática, serve para esvaziar qualquer critério objetivo e tornar a modéstia refém do julgamento subjetivo do indivíduo. Trata-se de um erro frequente: negar padrões razoáveis em nome de uma virtude supostamente “interior”, quando, na realidade, toda virtude moral possui atos externos regulados pela razão.

Em seguida, Aimê apela à virtude da prudência. Argumenta que a prudência exige adequação da vestimenta ao ambiente: não se usaria biquíni em uma missa, mas seria legítimo usá-lo na praia ou na piscina, pois “é isso que o ambiente pede”. Aqui se encontra um erro clássico: confundir prudência com simples rendição ao ambiente local.

A prudência não consiste em adaptar-se automaticamente aos costumes vigentes, mas em aplicar corretamente os princípios às circunstâncias concretas. Um determinado ambiente pode ser, ele mesmo, objetivamente imodesto. Nesses casos, o católico não apenas não deve conformar-se a ele, como deve evitá-lo, se possível; e, se não for possível evitá-lo, deve agir de modo mais virtuoso do que a média.

Esse princípio é claramente exposto por Pio XI ao tratar de eventos públicos de ginástica:

"Que os pais mantenham suas filhas longe do público de jogos e competições de ginástica, mas se as suas filhas são obrigadas a frequentar essas exposições, deixá-los ver que elas estejam totalmente e modestamente vestidas." (AAS, 1930, vol. 22)

Em outras palavras, se não houver necessidade, devem ser evitados; se houver necessidade, exige-se vestimenta plenamente modesta. O ambiente não legitima a imodéstia; ao contrário, agrava a obrigação de resistir a ela.

A pergunta central, portanto, não é se o biquíni é aceito socialmente na praia, mas se há causa justa para homens e mulheres permanecerem juntos em estado de seminudade. A teologia moral responde negativamente.

Antonio Peinador Navarro em "Cursus Brevior Theologiae Moralis":

"Não devem ser escusados de pecado grave as pessoas de diferente sexo que mutuamente se olham, conversam, passeiam, etc., quase nuas, nos balneários públicos, com trajes sumaríssimos que cobrem apenas as partes genitais dos homens ou das mulheres e os seios destas últimas. Embora não se procurem movidos por má intenção, entretanto o convívio demorado será necessariamente gravemente excitante. Ademais, quem assim se expõe à contemplação pública, comete pecado de grave escândalo" (COCULSA, Madrid, 1956, t. III, p. 596.)

Henry Davis em "Moral and Pastoral Theology":

"Os banhos de sol e de ar tomados juntos por membros de ambos os sexos e sem fantasias são fontes férteis de pecados graves, e não há justificativa para eles. [...] Nos exercícios de ginástica, mesmo quando se usam uniformes, deve-se ter cuidado especial com a modéstia cristã das moças e meninas, que é tão gravemente prejudicada por qualquer tipo de exibição em público." (p. 228, vol. II)

Antonio Royo Marin em "Teologia Moral para Seglares"

"Apresentam especiais perigos as excursões campestres com banho misto em açude ou rio; pois aos inconvenientes do banho público em geral devem acrescentar-se os que provém da frivolidade, leviandade e liberdade excessiva de um dia de excursão. Os pais católicos não permitirão jamais às suas filhas semelhantes excursões mistas." (Moral Especial, 551.6)

Outro ponto relevante é a contradição interna no discurso apresentado por Aimê. Afirma-se que o uso do biquíni seria moralmente aceitável apenas em determinados ambientes; contudo, ao divulgar imagens de si mesma de biquini para toda a internet, elimina-se qualquer noção coerente de “adequação ao ambiente”. A internet não é um espaço privado nem restrito, mas um meio de difusão universal.

Do ponto de vista moral, isso agrava a culpa da influenciadora, pois introduz o elemento do escândalo. A teologia moral é clara ao afirmar que a difusão de imagens provocantes constitui escândalo, na medida em que expõe um número indeterminado de pessoas a tentações.

Relembremos o que disse Teodoro Del Greco em "Compêndio de Teologia Moral" a respeito da divulgação de fotos e imagens de mulheres de biquíni:

"Concursos de Beleza. Outra ocasião de pecado e de cooperação no mal, com escândalo, é constituída hoje pelos chamados "Concursos de Beleza", subproduto de uma sociedade depravada. São concursos de caráter regional, nacional e universal, nos quais é escolhida a jovem que apresenta maiores perfeições de beleza física, para receber o título de "Miss" ou "Rainha". O atual processo seletivo é repugnante não só à consciência cristã, mas também a qualquer pessoa que tenha o mínimo senso de pudor. As candidatas ao título devem usar trajes reduzidíssimos, geralmente de tecido muito sutil, que permita os relevos de todo o corpo, até nas suas partes mais intimas. O exame é longo e minucioso, e o chamado desfile realiza-se perante numeroso público. O fato é reprovável sob todo e qualquer ponto de vista, porque constitui ocasião direta de pecado. A responsabilidade agrava-se, outrossim, pelo escândalo que causa o comparecimento da jovem ante o público muita vez heterogêneo. Isso, sem falar nas fotos e minuciosas mesuras levadas aos quatro ventos pelos rápidos veículos de publicidade, quais são a imprensa, o cinema, o rádio e a televisão." (n. 147)

"É reprovável o costume vigente em muitas academias de exibir aos pintores modelos de mulheres, cobertas somente nas partes genitais. Aqueles que, por necessidade, são obrigados a frequentar tais academias, usando as necessárias cautelas, estão justificados. [...] São escusadas, desde que usem as devidas cautelas somente se isto é o único meio para se livrarem da miséria. (n.226)"

Observa-se que a única razão que a teologia moral justifica uma mulher ficar seminua perante o sexo oposto é a grave necessidade, como realizar um trabalho imodesto para não passar fome. Aimê, no entanto, sem necessidade alguma, divulga imagens suas de biquíni voluntariamente.


O progressismo conservador entra em cena

Depois das declarações iniciais da influenciadora, houve uma reação forte. Muitos católicos perceberam corretamente o problema moral envolvido e criticaram tanto a posição quanto a exposição pública da influenciadora. Até aí, nada de inesperado. O que chama a atenção é o que acontece em seguida.

Entra em cena aquilo que podemos chamar de a ala dos conservadores progressistas. Pessoas que mantêm uma aparência conservadora, mas que, diante de qualquer tensão com o mundo, tendem sistematicamente a ceder nos princípios. É o opusdeísmo cultural por excelência.

Um dia após a polêmica, o Pe. José Eduardo resolve se pronunciar. E aqui precisamos ser claros quanto ao peso disso. Trata-se de um dos sacerdotes mais conhecidos do meio conservador no Brasil, ao lado do Pe. Paulo Ricardo, do Frei Gilson e do Pe. Leonardo Wagner. E esses três têm posições públicas claras e coerentes sobre o tema do biquíni.

O Pe. Paulo Ricardo, ao tratar dos remédios contra a pornografia, insiste na tolerância zero com aquilo que ele chama de soft porn, e cita explicitamente modelos de biquíni como exemplo.


Frei Gilson também já se posicionou contra o uso de biquínis e sungas. 



E o Pe. Leonardo Wagner deu, à época, a resposta mais conhecida e direta sobre o assunto, que se tornou viral.


Aliás, é preciso ressaltar que o Pe. Leonardo Wagner forneceu a visão moral correta acerca da frequência às praias, em plena consonância com o consenso dos teólogos:


Vemos assim que, do ponto de vista da teologia moral, a expectativa era simples: uma resposta objetiva, alinhada com a tradição moral da Igreja e com aquilo que sempre ensinaram os moralistas e os próprios sacerdotes citados. A saber: a condenação do biquíni em banhos mistos.

Mas isso não acontece com o Pe. José Eduardo. Vejamos sua resposta ao problema:

A TRETA DO BIQUÍNI

O debate “biquíni: pode ou não pode?” já nasce defeituoso porque troca a pergunta moral pela pergunta material. E a teologia moral, quando é séria, não começa pela “coisa” (tecido, centímetros, modelo), mas pelo ato humano enquanto escolhido. É exatamente isso que São João Paulo II recorda na Encíclica Veritatis Splendor (nº 78), retomando São Tomás: o “objeto” moral não é a descrição física do que se faz, mas a electio, a escolha deliberada pela qual a vontade assume aquela matéria como expressão de um sentido: de um fim próximo, de um “para quê” concreto.

Em linguagem tomista: o ato moral recebe sua espécie do objeto enquanto ordenado pela razão e querido pela vontade (cf. S. Th. I–II, q. 18). Por isso, “usar biquíni” é uma fórmula moralmente vazia, porque descreve apenas a matéria externa. A mesma matéria pode estar sob escolhas moralmente diversas. Uma mulher pode usar um traje de banho num contexto terapêutico (fisioterapia, tratamento dermatológico, reabilitação), ou num ambiente ordinário de lazer, ou ainda como instrumento de vaidade exibicionista, de sedução deliberada, de provocação calculada. A matéria pode ser parecida; a eleição é outra. E é a eleição que especifica moralmente o ato.

Quando a discussão fica no nível do “pode/não pode”, ela transforma a moral em um catálogo de objetos materiais, como se o pecado estivesse nas coisas; e isso não é catolicismo nem tomismo nem moralidade, é caricatura e burrice qualificada. O que pode ser pecado, quando o é, não é “usar X”, mas escolher X como meio para um fim desordenado: por exemplo, a ostentação de si para dominar olhares, a intenção de excitar a concupiscência alheia, o desprezo prático pela caridade e pelo bem espiritual do próximo, ou a recusa habitual da modéstia como virtude que guarda a dignidade da pessoa.

E aqui aparece por que a internet é um lugar péssimo para esse “debate”: porque o discernimento moral exige atenção às circunstâncias (ambiente, cultura concreta, intenção, previsibilidade do efeito, responsabilidade pelo escândalo em sentido próprio) e até à formação da consciência, coisas que não cabem num tribunal de cliques. Perguntar “biquíni é pecado?” é perguntar errado; a pergunta moral é: que escolha estou fazendo com isso, em que contexto, com que intenção, e que bem estou servindo ou ferindo? Se a conversa não sobe a esse nível, ela não é teologia moral: é só gente brigando por rótulos, com a matéria no lugar onde deveria estar a electio e tentando enfiar a própria ignorância na ignorância do outro.

Eu me pergunto: o que chama mais a atenção, de fato, uma mulher normal de biquíni ou uma mulher estranha parecendo uma muçulmana bem na praia? Ou, será que você está tão bem na pista que vai chamar a atenção dos outros quando nem o seu marido se sente muito interessado em você? Não sei…

Eu não tenho o costume de andar por aí sem camisa, mas, se o fizesse, quem se sentiria atraído por um bucho, cheio por acolá, que nem um boi andando de pé? Imodéstia? Acho que é mais mortificação ao próximo!...

As pessoas ficam nas nuvens, opinando a partir do seu próprio autoritarismo, quando a vida é mais simples para quem é sensato. A minha experiência, francamente, é que ninguém está muito aí para a gente.

A questão é irrelevante, a pergunta está errada e o debate é ocioso.


Em vez de responder diretamente à questão moral - o uso de biquíni na praia - o Pe. José Eduardo passa grande parte de sua manifestação afirmando que “a pergunta está errada”. E aqui já aparece um problema sério. Quando alguém insiste que a pergunta está errada, mas evita responder ao ponto central que move o debate, normalmente isso indica uma fuga do assunto.

Quando o padre afirma que “usar biquíni” é uma fórmula moralmente vazia, ele está abstraindo o problema real. Porque ninguém está discutindo um cenário terapêutico, médico ou de necessidade extrema. O contexto concreto é o banho misto, a praia moderna. E, nesse contexto, a teologia moral nunca considerou a matéria moralmente indiferente.

Quando finalmente o sacerdote se aproxima da resposta concreta, ele abandona completamente o registro teológico e passa ao deboche:

"Será que você está tão bem na pista que vai chamar a atenção dos outros quando nem o seu marido se sente muito interessado em você?"

Isso não é teologia moral. É ironia fingindo complexidade.

O padre introduz ainda um critério que simplesmente não existe na teologia moral: a autopercepção estética. 

Quando os teólogos tratam de banhos públicos e mistos, não há um único que apresente a autopercepção estética como fator moderador da modéstia, porque ela não pode depender de um critério tão subjetivo, uma vez que busca uma regra comum, objetiva e válida para todos.

E o critério sempre foi este: não é lícito a ninguém - seja gordo, magro, bonito ou feio -expor-se nu ou seminu diante do sexo oposto sem causa grave. Isso decorre do direito natural. As partes íntimas e menos honestas do corpo estão ordenadas à procriação e à intimidade, e por isso devem ser cobertas.

Aliás, todos sabem disso na prática. Basta observar o comportamento em ambientes como baladas. Mulheres que desejam atrair olhares encurtam deliberadamente suas roupas, usam decotes, vestidos justos, minissaias. Isso demonstra que a exposição do corpo não é moralmente neutra e não depende da autopercepção subjetiva, mas da própria natureza do corpo humano e de seus efeitos previsíveis.

Além disso, o critério proposto pelo padre é completamente inútil do ponto de vista moral. Pessoas consideradas feias namoram. Pessoas consideradas feias se casam. Sempre haverá quem se sinta atraído por elas. Logo, a modéstia não pode depender de como alguém se percebe esteticamente. 

O mais grave é que o Pe. José Eduardo sabe disso. Como teólogo moral, ele conhece perfeitamente esses princípios. O problema não é ignorância (ele é muito inteligente), é omissão e tergiversação. E isso ocorre porque ele se encontra engajado numa batalha constante contra grupos tradicionais, que são os que mais combatem a imodéstia. Nota-se no padre que a paixão da disputa domina e a razão começa a ceder.

E isso tem consequências. Almas se perdem. Fiéis se sentem autorizados a continuarem com a vergonhosa defesa do biquíni. A influenciadora que iniciou toda a polêmica se viu confirmada em seu erro. 



O escândalo se espalha.

Aqui precisamos falar também do problema específico das redes sociais. O Pe. José Eduardo tornou-se, na prática, um comentador compulsivo. Tudo vira conteúdo. Tudo vira resposta. Tudo vira provocação. Ele já não fala como teólogo, mas como influenciador que reage ao fluxo da internet. E isso é profundamente nocivo ao múnus sacerdotal.

Aqui relembremos conselhos fundamentais de Santo Afonso de Ligório em "A Selva" para a piedade sacerdotal, que servem muito bem aos nossos tempos marcados por padres influenciadores e tagarelas:

"O padre deve falar pouco. Quem fala muito com os homens, mostra que fala pouco com Deus. As almas de oração são avaras de palavras; quando se abre a boca do forno, escapa-se o calor. Tomás de Kempis diz: É no silêncio que a alma faz progressos. E S. Pedro Damião: O silêncio é o guarda da justiça. O mesmo nos ensina o Espírito Santo: No silêncio e na esperança estará a vossa força. Está no silêncio a nossa força, porque nunca se fala muito sem algum pecado."

"Com doçura: não se deixe ir à cólera nos seus discursos; não deixe escapar palavras injuriosas, mais próprias para azedar os ânimos, que para mover à piedade."

"Por S. Gregório de Nissa é o padre chamado um mestre da santidade. Mas, se o mestre é orgulhoso, como há de ensinar a humildade? Se é intemperante, como há de ensinar a mortificação? Se é vingativo, como ensinará a doçura?"

"Sede pacientes na humilhação. Eis o que nessas circunstâncias é necessário fazer: não se irritar nem se queixar, mas receber esses desprezos como justos castigos dos próprios pecados."

O sacerdote é chamado a ser mestre de santidade. Mas se se deixa dominar pelo orgulho, pela ironia, pela agressividade ou pela necessidade constante de responder, como ensinará humildade, moderação e prudência? O sacerdote ao perder o silêncio perde também a autoridade.

Mas o problema não terminou aí. Em seguida, em nova intervenção, o Pe. José Eduardo declarou estar “preocupado com os homens da nossa geração”, afirmando que muitos não conseguem olhar para uma mulher em traje de banho sem se sentirem tentados. E aqui precisamos parar e analisar com calma, porque essa fala introduz uma inversão moral extremamente grave.



Essa linha de raciocínio dialoga diretamente com o discurso do feminismo católico. Como já analisamos inúmeras vezes, a imodéstia feminina é uma bandeira central do feminismo. Quando mulheres são corrigidas por se vestirem de modo indecente, a resposta quase automática é: “os homens que se controlem”, “cuidem da própria taradice”, “o problema está no olhar masculino”.

É evidente que o homem é moralmente responsável pelo seu olhar. Ninguém nega isso. Homens chamados à castidade devem lutar contra pensamentos, desejos e movimentos desordenados. Contudo, disso não se segue - nem nunca se seguiu - que a mulher esteja dispensada da obrigação da modéstia. A Igreja sempre tratou essas obrigações como complementares, não como excludentes.

Além disso, homens verdadeiramente empenhados na castidade tendem, justamente por isso, a ser mais severos com as ocasiões de pecado. Eles não apenas resistem melhor às tentações, como também continuam exortando contra os trajes indecentes, tanto para elevar o padrão moral da sociedade quanto para evitar recaídas futuras. Como adverte São Paulo: “Aquele que pensa estar de pé, cuide para não cair” (1 Co 10,12).

No contexto concreto dessa polêmica, não se está discutindo “trajes de banho” em sentido genérico. Está-se falando do biquíni, o menor traje de banho existente, que se aproxima o máximo possível da nudez sem sê-lo formalmente. O esforço pela modéstia é unilateralmente do homem neste caso. Não há nenhuma razão proporcional para que mulheres andem com ele em público. Ele é indecente por si mesmo no contexto do banho misto. Por isso, homens estão plenamente justificados em exortar contra o seu uso público, independentemente de se sentirem pessoalmente atraídos ou não.


PS: O padre foi dirigido por padres do Opus Dei... Que surpresa... Só podia ser o Chaves, não?

Aqui ocorre outra distorção grave.

A luta ascética positiva é válida e necessária nas circunstâncias ordinárias da vida: trabalhar, estudar, circular pelas ruas, cumprir os deveres de estado. Nessas situações, o cristão não pode fugir do mundo e deve, de fato, educar seus sentidos e seu interior.

Mas isso não se aplica às ocasiões próximas de pecado. A tradição espiritual é absolutamente clara: diante de uma ocasião próxima e voluntária de pecado, a regra não é “treinar virtude”, mas fugir. A luta, nesse caso, é NEGATIVA. Evita-se o ambiente. Afasta-se da situação. Ninguém é chamado a provar sua virtude se expondo inutilmente ao perigo.

Colocar-se voluntariamente numa ocasião grave sem necessidade é, em si, um pecado. E diversos autores espirituais ensinam que, nessas circunstâncias, Deus não concede a graça eficaz para resistir. Não existe “luta ascética positiva” contra uma praia cheia de pessoas seminuas. O mandamento é simplesmente fugir.


O padre ignora completamente o contexto real em debate. Ou melhor, omite. Uma praia moderna, com milhares de mulheres seminuas, não exige “bisbilhotice” para provocar tentação. Basta enxergar. Apenas um cego não vê. Os exemplos dados - andar na rua, ser abordado por uma mulher mal-vestida - não são comparáveis, porque não envolvem busca voluntária da ocasião. A ida à praia envolve.


Aqui a confusão continua seu curso.

Sim, o mundo oferece inúmeras ocasiões de pecado. Mas isso não significa que todas sejam equivalentes. A teologia moral sempre distinguiu ocasiões remotas de ocasiões próximas, e ocasiões necessárias de ocasiões voluntárias. Pessoas não andam ordinariamente seminuas nas ruas, nos mercados ou nos ambientes de trabalho. A própria defensora do biquíni reconhece isso ao dizer que ele só seria “adequado” à praia e à piscina.

Ao equiparar o ambiente público ordinário à praia moderna, o padre legitima justamente o pior dos ambientes. E, ao fazer isso, libera a prática para os fiéis. É o que se constata nos comentários da publicação.






O resultado é previsível: seguidores sentem-se autorizados não apenas a manter esse costume objetivamente desordenado, mas também a suspeitar de homens que exortam contra ele das piores perversões sexuais possíveis. 


E o mais grave: o argumento não prova absolutamente nada. Não prova que o uso do biquíni seja lícito. Nem prova que quem o critica esteja errado. Pelo contrário.

Primeiro ponto: quem pratica uma virtude adquire maior clareza intelectual para identificar e combater os vícios contrários a ela. O vício, ao contrário, obscurece o juízo prático. Um homem habituado à pornografia torna-se progressivamente mais tolerante às ocasiões próximas. Ele normaliza a nudez, depois a seminudade, e deixa de perceber o problema moral. Esse é um efeito clássico da habituação ao vício. Não há qualquer sentido em pervertidos sexuais serem mais rigorosos com a modéstia do que os virtuosos.

Por isso, todos os conselhos espirituais sérios para o combate à pornografia insistem na eliminação das ocasiões próximas. O Pe. Paulo Ricardo, como vimos, ensina explicitamente que o homem deve evitar olhar mulheres de biquíni. Não se combate uma cultura pornográfica ampliando estímulos sensuais, mas restringindo-os.

Segundo ponto: mesmo que alguém que defenda a modéstia esteja pessoalmente lutando contra um vício sexual, isso não invalida em nada o argumento moral. A verdade de um princípio não depende da santidade subjetiva de quem o enuncia. Um pecador pode exortar legitimamente à virtude.

Um homem pode condenar a gula mesmo sendo obeso. Santo Tomás era obeso, e isso jamais invalidou sua doutrina sobre a temperança. Do mesmo modo, um homem que luta contra a pornografia pode - e deve - condenar trajes imodestos, porque está promovendo um bem objetivo para toda a sociedade.

Mesmo que fosse um hipócrita, o erro estaria apenas na incoerência pessoal, não na verdade defendida. 

No fundo, o que estamos vendo é uma inversão completa: transforma-se a imodéstia em algo neutro, e a defesa da modéstia em suspeita de perversão sexual. Os inimigos da Igreja fazem algo parecido. O movimento LGBT, por exemplo, acusa a Igreja de ser homofóbica justamente por muitos dos seus líderes serem homossexuais, esquecendo-se que isso não torna o pecado da sodomia em algo virtuoso. Esta inversão é satânica, pois consiste exatamente em chamar o mal de bem e o bem de mal.


Conclusão 

Para concluir, é preciso deixar isso absolutamente claro: não estamos discutindo preferências pessoais ou costumes culturais, mas princípios objetivos da moral da Igreja. Quando esses princípios são relativizados, as consequências não são abstratas - são espirituais. Consciências se confundem, o pecado perde sua gravidade e as almas ficam mais vulneráveis à ação do Inimigo.

A modéstia não é opcional nem circunstancial. Ela é uma exigência do direito natural e uma forma concreta de caridade. Enfraquecê-la não protege ninguém; ao contrário, expõe os mais fracos e normaliza ocasiões próximas de pecado.

Sacerdotes têm uma responsabilidade particular nesse ponto. Suas palavras formam consciências. Quando a clareza é substituída por ambiguidades ou por omissões calculadas, o resultado é o escândalo. O sacerdote deixa de ser luz e torna-se pedra de tropeço. 

Por fim, o católico precisa escolher se seguirá a tradição moral da Igreja ou se continuará tentando conciliar a verdade com o espírito do mundo. Essas duas coisas são incompatíveis. É da obediência à verdade que depende a salvação da nossa alma e a vitória de Cristo sobre o pecado.

sábado, 27 de dezembro de 2025

"Vocação para trabalhar fora?" Pe. Scaramelli refuta o feminismo católico.


Já tratamos neste blog, em diversas ocasiões, do chamado “feminismo católico”, mostrando as múltiplas vias pelas quais ele tem penetrado inclusive no meio conservador. Longe de arrefecer, esse fenômeno renova-se continuamente, alargando sua influência e assumindo novas formas.

Entre seus traços mais característicos está a defesa do trabalho externo da mulher casada. Trata-se de uma marca constante do feminismo moderno. A tradição católica, expressa no ensinamento de inúmeros papas, teólogos e santos, sempre manifestou sérias reservas diante da cultura que afasta a mulher do lar e do cuidado da família para conduzi-la à busca de interesses próprios fora dele. Sobre isso, já publicamos diversos textos, entre os quais:

"O Trabalho da Mulher Casada e a Direita Feminista"

"Ser do lar pelos filhos, sim! Pelo marido não. O feminismo conservador ataca novamente."

"REACT - Live do Pe. José Eduardo e Jéssyca Jacóbus."

Aliás, deveria ser evidente, à luz do discernimento espiritual, que, se o dever impele ao cuidado do lar, o seu o contrário - o trabalho externo -, nada mais é do que um impulso suspeito, com cheiro de tentação.

Mais recentemente, o argumento tem sido reformulado. Sustenta-se agora que a mulher possuiria “múltiplas vocações”, que não se esgotariam na esfera doméstica, e que negar tais vocações equivaleria a uma violência contra si mesma. Essa tese foi retomada por diversas influenciadoras conservadoras. Aqui, porém, examinaremos a forma mais articulada dessa ideia, apresentada em um vídeo de Letícia Cazarré.

Letícia Cazarré é esposa de Juliano Cazarré, ator da Rede Globo, atualmente no elenco da novela Três Graças. Não se vê razão plausível para a admiração quase acrítica de que o casal goza em certos ambientes conservadores católicos.

Nos últimos anos, Juliano participou de diversas novelas, algumas das quais lhe impuseram cenas românticas com outras atrizes, apesar de seu estado matrimonial. Ora, segundo a doutrina moral católica, profissões que expõem habitualmente ao pecado grave devem ser abandonadas. Acrescente-se a isso o fato de Letícia ter divulgado, em 2024, imagens de sua família no Rock in Rio, evento amplamente criticado e evitado por católicos conscientes, inclusive por sacerdotes de orientação conservadora, como o Pe. Paulo Ricardo.

Não há, portanto, fundamento razoável para que o casal seja erigido como referência espiritual ou convidado para eventos religiosos. Ainda que adotem algumas posições conservadoras, permanecem profundamente inseridos no modo de vida próprio do meio artístico secular.

Sabe-se, ademais, que são próximos do Opus Dei. Um sacerdote verdadeiramente preocupado com sua salvação, exercendo a caridade na forma mais elevada - a franqueza -, aconselhá-los-ia a afastar-se de um ambiente que os conduz continuamente a concessões morais.  Esperamos que algum sacerdote corajoso os ajude nessa virada de chave.

Voltemos, porém, ao ponto central.

Após anos dedicados ao lar, Letícia Cazarré - já como girl boss - publicou um vídeo intitulado “Lugar de Mulher Católica é em Casa?”, no qual apresenta sua experiência pessoal como fundamento para uma revisão do ideal tradicional. O núcleo de seu argumento é simples: cada mulher teria uma história própria; logo, o modelo da mulher do lar não poderia ser universal.


Comecemos com a descrição do vídeo:

"Durante muito tempo se repetiu que o lugar da mulher católica era, exclusivamente, em casa. Essa visão ganhou força, encantou muitas de nós e parecia o ideal perfeito no papel. Mas, com o passar do tempo, o que parecia belo trouxe também frustração, cobranças internas e até culpa por não conseguir se encaixar nesse molde. A verdade é que cada mulher tem uma história, dons e caminhos únicos diante de Deus — e não existe uma forma única de viver a vocação feminina. Neste episódio do *Vai Por Mim*, vamos conversar sobre como essa ideia surgiu, por que tantas mulheres tentaram segui-la e o que aprendemos com essa experiência. Se tem feito sentido pra mim olhar para isso com mais clareza e liberdade, pode fazer pra você também. Vem comigo!"

Essa linha de raciocínio não é nova. Trata-se de uma aplicação típica do nominalismo feminista à teologia moral. Quando o ensinamento universal da Igreja não pode ser diretamente negado, procura-se relativizá-lo pela exceção subjetiva.

A Igreja, entretanto, sempre ensinou que, no matrimônio, a prioridade da mulher está no cuidado do lar e da família. Esse princípio não é fruto de circunstâncias históricas passageiras, mas de uma compreensão objetiva da ordem natural e sobrenatural. Diante disso, feministas recorrem a uma teologia ad hoc de “vocação”. Vejamos o que Letícia diz a respeito:

"Eu vivi 6 anos totalmente dedicados à minha casa e à minha família e eu posso falar que foi essencial. Foi um dos momentos mais marcantes, importantes e transformadores da minha vida. E eu, Letícia, particularmente, faria tudo de novo. Só que pra mim chegou um momento em que eu precisei lembrar de quem eu era. Veio uma inquietação, uma coisa silenciosa, em que eu precisei me perguntar: E minha contribuição para o mundo lá fora? [...] Eu sentia que eu tinha algo dentro de mim, um chamado, uma vocação para criar, ensinar, para transformar vidas, não só dentro da minha casa, mas também fora de casa. Como diz uma amiga minha: "Essa vontade de trabalhar também foi Deus que colocou no nosso coração.
A psicologia do desenvolvimento humano, por exemplo, mostra que a gente tem múltiplas vocações, simultâneas. E que negar totalmente uma delas - como a intelectual ou a profissional - gera sintomas ruins. Gera ansiedade, frustração, perda de sentido. [...] A psicologia mostra que quando uma parte de quem a gente é é negada por muito tempo acontece um desequilíbrio. Não porque você está errada, mas é porque é como se estivesse incompleta. A teologia e Tradição cristã também falam disso. Elas valorizam o lar, mas também honram o trabalho. Santa Zélia, Santa Gianna, Santa Teresa D'Ávila, todas elas trabalhavam."

Convém, portanto, esclarecer o termo. Em sentido teológico clássico, vocação é o chamado sobrenatural de Deus a um estado de vida. Tradicionalmente, reconhecem-se três: sacerdócio, vida religiosa e matrimônio. Vocação não se confunde - erro comum dos conservadores olavetes - com profissão, talento ou inclinação psicológica. Uma pessoa pode exercer diversas profissões e ter muitos talentos, mas não há múltiplas vocações divinas.

Uma vez assumido o estado de vida, toda a personalidade, bem como os talentos naturais, devem ordenar-se a ele. É o estado que define a identidade fundamental da pessoa.

Letícia, porém, afirma ter experimentado uma “inquietação” que a levou a questionar “quem ela era”. Tal afirmação revela uma dissociação entre identidade e estado de vida. Ora, é precisamente o estado de vida que manifesta quem a pessoa é: o sacerdote como sacerdote, o religioso como religioso, o casado como casado.

Aqui é oportuno recordar o ensinamento do Pe. Giovanni Battista Scaramelli. Em sua obra "Discernimento dos Espíritos", ele ensina que todo impulso que leva alguém a desgostar-se de sua vocação ou a desejar algo estranho a ela deve ser considerado suspeito. A constância no estado assumido é condição ordinária de santificação:

"O espírito que, depois de feita a eleição do estado, anseia outro estado, deve-se ter por muito suspeito, porque o Apóstolo quer que cada um se mantenha constante em sua vocação. E acrescenta Santo Efrém, que naquele estado a que temos sido chamados, deixemos a âncora e atemos ao cabo o nosso barquinho, se não queremos nos perder no mar lamacento desta vida. E por isso, quando alguém se tem fixado em algum estado, não deve aspirar a outro, mesmo que pareça ou seja na realidade mais perfeito, senão que deve procurar a sua perfeição naquele em que Deus o colocou.

[...] 

Assim procedia o Apóstolo com os novos cristãos da primitiva Igreja. Caminha, dizia-lhes, retamente, segundo a forma da vocação pela qual Deus os chamou. Vossa vocação requer humildade, mansidão, paciência e caridade. Trilhais este caminho, e chegareis seguros à pátria celestial. Assim fazia São Bernardo, que para caminhar com retidão e segurança pelo caminho da perfeição colocava sempre diante de si mesmo sua vocação. Daí se segue que certas resoluções, ainda que santas à primeira vista, de abandonar a própria vocação, para passar a outro estado (ou mais retirado, ou mais austero, ou mais trabalhador, ou mais devoto), de ordinário devem atribuir-se ou à inconstância da natureza ou à ilusão diabólica.

[...]

O espírito que é levado a coisas incomuns (fora do costume), singulares e que não são próprias de seu estado, é grandemente duvidoso. Assim, seria duvidoso o espírito de um religioso de vida ativa ou mista que amasse demasiado a solidão, o retiro e a contemplação. Duvidoso também o espírito de um religioso de vida contemplativa que quisesse atender à saúde espiritual dos outros com a pregação e demais obras, próprias da vida ativa. Duvidoso é o espírito de uma casada que não quisesse acomodar-se a seus empregos, mas que desejasse fazer vida de monja em sua casa, e de um casado que quisesse viver como religioso no exterior. Duvidoso seria o espírito daquele monge de claustro que, relativamente ao vestir, comer e outras operações cotidianas, quisesse afastar-se do que prescrevem as regras e os costumes de seu monastério." (p. 111)

Letícia não se detém nesse discernimento. Parte do pressuposto de que a inquietação interior é necessariamente divina, simplesmente porque confirma seus desejos. Não distingue a voz de Deus da própria vontade.

A preocupação com o “legado” pessoal e com a “contribuição para o mundo” revela, além disso, um traço típico de vaidade espiritual. Pe. Scaramelli, novamente, alerta contra esse tipo de impulso descrevendo como uma moção tipicamente diabólica:

"O demônio, sabendo que as coisas novas e singulares, de ordinário, excitam admiração em quem as vê e vaidade em quem as pratica, é muito amigo de sugeri-las aos entendimentos menos humildes e pouco cautelosos, e de atraí-los a essas coisas com aparência de uma rara virtude."

"O demônio vem disfarçadamente para nos enganar com bons afetos, e com pensamentos aparentemente devotos, mesmo que em princípio cause algum deleite, no fim deixa sempre a alma inquieta e turbada."

Nesse discurso sobre “minha contribuição para o mundo”, subjaz ainda o vício da especialidade: o desejo de ser vista como alguém singular, indispensável. Trata-se menos de caridade e mais de ego. A caridade olha para a necessidade; a vaidade, para si.

Afirmar, ademais, que só se contribui com o mundo mediante uma profissão externa equivale a negar o valor social e espiritual do trabalho doméstico - o que é manifestamente falso - como ensina São João Paulo II:

"A experiência confirma que é necessário aplicar-se em prol da revalorização social das funções maternas, dos trabalhos que a elas andam ligados e da necessidade de cuidados, de amor e de carinho que têm os filhos, para se poderem desenvolver como pessoas responsáveis, moral e religiosamente amadurecidas e psicologicamente equilibradas." (Laborem Exercens, n. 19)

Scaramelli ensina ainda que, quando Deus chama alguém a algo verdadeiramente fora de seu estado, Ele manifesta essa vontade por sinais especiais, não por inquietações vagas ou impulsos genéricos.

"Necessário advertir ainda que quando Deus elege uma alma para coisas que não são próprias de seu estado, ou que são pouco conformes ao instituto de vida que foi abraçado, costuma dar sinais especiais de sua vontade. Assim, Santa Catarina de Sena, havendo chegado à presença de Gregório XI para tratar a reconciliação dos florentinos com a Santa Igreja, manifestou ao Sumo Pontífice os pensamentos e desejos ocultos que tinha em seu coração, de voltar a Roma, que a ninguém havia manifestado; e com isto deu o Senhor claros sinais de que a Santa Virgem era inspirada por Deus para empreender aquela expedição, ainda que incompatível com a sua condição. Assim também, ocupando-se São Bernardo fora do claustro com seculares em públicos ou privados negócios, fazia a cada passo milagres com os quais autenticava o Senhor o seu espírito. Assim, à Santa Maria Madalena de Pazzi se lhe inchavam as pernas caso calçasse, tal como as outras religiosas, e se desvanecia todo inchaço quando andava com os pés descalços. Se jejuava a pão e água, retinha a comida que era assimilada com proveito, mas se tomava outros mantimentos, logo os rejeitava com ímpeto." (p. 114)

A inquietação relatada por Letícia, ao contrário, é difusa, indeterminada, estéril. A moção divina é clara e distinta; a diabólica, confusa e inquietante, como nos ensina Scaramelli:

"O espírito divino traz sempre luz à nossa mente. Deus freqüentemente declara na Sagrada Escritura que Ele é luz, sem mescla de obscuridade nem trevas." (p.58)

"A primeira marca do espírito diabólico sobre os atos da vontade é a inquietude, a turbação e o alvoroço, afetos de todo opostos à paz que Deus comunica." (p. 93)

Letícia prossegue e afirma que uma amiga a aconselhou dizendo que Deus colocou em nosso coração o desejo de trabalhar fora. De onde essa amiga tirou isso? O trabalho externo da mulher sempre foi visto pela Igreja e pela teologia católica como um dos maiores inimigos externos da família. Como, de repente, tornou-se moção divina?

Não há fim para o abismo do feminismo conservador.

Por fim, Letícia recorre à “psicologia do desenvolvimento humano” para sustentar a tese das múltiplas vocações e afirmar que não segui-las é "anular si mesma". Cazarré cai numa psicologia rasa, divorciada da teologia. Ansiedade, frustração e perda de sentido jamais são critério último para o católico. Muitas vezes, são precisamente sinais de tentação, como ensina Scaramelli.

"O demônio não só é pai da mentira, mas também das trevas; e por isso, quando investe contra nós abertamente, faz o que é próprio de sua natureza, e produz em nossa mente trevas, obscuridade e escuridão. Isso é o que nos assegura São João Crisóstomo. E então ofusca a mente, obscurece o entendimento, enche a alma de tribulações, de ansiedade e angústias." (p.66)

"O sétimo sinal é a desordem (desconcerto) das paixões. São Gregório compara o demônio ao lobo, que, entrando na manada, alvoroça todo o rebanho. Com a sua chegada todas as ovelhas se põem em movimento e consternação; treme, perde-se, salta e foge. Assim, o inimigo do gênero humano, saindo das cavernas do inferno, qual lobo furioso, entre nas almas e as revoluciona inteiramente. Comove as paixões, agita-as, desconcerta-as e as põem em tumulto." (p. 104-105)

O católico não deve simplesmente ceder às angústias fazendo aquilo que lhe agrada, mas antes discernir sua causa. Se tais angústias surgem da fidelidade à vocação, não procedem de Deus.

Ao contrário, o espírito divino conduz à mortificação dos próprios desejos. O Evangelho é claro: negar-se a si mesmo, carregar a cruz e seguir a Cristo.

"O sétimo sinal é a mortificação voluntária das inclinações internas. Não se pode pôr em dúvida que seja isto um sólido caráter do espírito divino, porque o próprio Redentor nos disse por Sua boca. Veja-se aqui a divisa dos seguidores de Cristo e que têm seu espírito: abnegar-se a si mesmo, contradizer a seus desejos e abater suas paixões. Quem são os generosos soldados do Redentor, que conquistam seu Reino celestial? Os mortificados, que fazem força e violência a si mesmos. Para que um grão de trigo produza frutos, necessário se faz que morra sepultado na terra; assim, para que o homem produza frutos de vida eterna, convém que também morra com o exercício de uma incessante mortificação." (p. 88)

É exatamente isso que desmonta a retórica feminista do “não podemos nos anular”. O espírito divino manda anular-se; o espírito do mundo manda afirmar-se.

Santa Gianna Beretta Molla, frequentemente citada como exemplo contrário, confirma precisamente essa verdade. Ela chegou a prometer abandonar a carreira médica para dedicar-se integralmente à maternidade, mesmo reconhecendo o sofrimento que tal renúncia lhe causaria. Não ignorou a frustração; subordinou-a a um bem maior.

"Depois de retornar a Ponte Nuovo, Gianna tentou reorganizar sua vida, querendo encontrar tempo para tudo: Pietro e seus filhos, o gerenciamento de sua casa e sua prática médica. Pietro viu como ela sempre estava ocupada e perguntou se ela consideraria desistir de sua prática. O olhar que Gianna lhe deu em resposta, no entanto, desencorajou Pietro de perguntar novamente. “Eu prometo a você”, ela lhe disse um dia, “que quando tivermos mais um filho, interromperei meu trabalho médico e serei mãe em tempo integral, mesmo que isso seja difícil para mim”. (Santa Gianna Beretta Molla: A Woman's Life. Giuliana Pelucchi)

Eis a diferença essencial. O sofrimento não desaparece, mas é iluminado pelo sentido da vocação. Por isso, não pode jamais ser o critério último das decisões de quem pretende viver segundo a fé católica.

Conclusão

Em suma, o discurso das “múltiplas vocações” não passa de uma tentativa moderna de dissolver, por vias psicológicas e subjetivistas, um ensinamento constante da Igreja. Ao confundir vocação com inclinação ou talento, substitui-se a ordem objetiva da vida cristã por uma leitura emotiva da experiência pessoal.

A tradição da Igreja jamais ensinou que a fidelidade à vocação se mede pela ausência de sofrimento ou frustração. Ao contrário, sempre soube que a cruz acompanha necessariamente todo chamado autêntico de Deus. Quando o mal-estar interior se torna critério último de decisão, já não se discerne a vontade divina, mas apenas se legitima o próprio querer.

No matrimônio, a mulher encontra no cuidado do lar e da família não uma negação de si, mas a forma própria e ordinária de sua realização moral e espiritual. Eventuais exceções, quando verdadeiramente queridas por Deus, manifestam-se de modo claro e evidente; não nascem de inquietações vagas nem de racionalizações tardias.

O verdadeiro discernimento não começa perguntando “o que me faz sentir melhor”, mas “a que estado Deus me chamou”. Fora dessa ordem, toda teologia da vocação degenera em psicologismo e toda liberdade acaba reduzida à submissão às próprias paixões. É precisamente essa inversão que o chamado feminismo conservador insiste em promover - e é contra ela que a razão católica deve permanecer vigilante e firme.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

A pastoral contra o altar: Diácono "feministo" Varela e o progresso que anda para trás


Em defesa do acolitato feminino, o diácono Varela sustentou que, além de as acólitas não atrapalharem, elas seriam até benéficas para as vocações sacerdotais, pois preparariam desde cedo os meninos a lidarem com o protagonismo e a liderança femininos na Igreja. Em resposta aos críticos, acrescenta que o seminário do Rio de Janeiro estaria repleto de vocações.

Todo o argumento é torto.
Do ponto de vista estatístico, embora o número de católicos tenha aumentado, o de seminaristas, em âmbito global, vem caindo de modo consistente. É o que aponta o Anuário Pontifício ano após ano. A própria CNBB, ao comentar o Anuário Pontifício de 2025, reconhece:
"A tendência temporal observada no mundo do número de seminaristas maiores denota uma diminuição ininterrupta desde 2012."
Portanto, apontar uma realidade local e atípica é manifestamente insuficiente para refutar um dado geral e universal. Um caso particular não invalida uma tendência universal, sobretudo quando esta se estende por mais de uma década.
Em segundo lugar - e aqui está o ponto decisivo -, o argumento fundamental em favor do acolitato exclusivamente masculino não é de ordem pragmática ou pastoral, como se sua finalidade primária fosse simplesmente promover vocações. O acolitato, assim como as antigas ordens menores, surgiu historicamente como uma redistribuição das funções próprias do diácono.
É à luz desse dado que se compreendem as reiteradas condenações, por parte de Papas e concílios, do serviço feminino ao altar.
É por essa razão que certos Papas afirmaram que o sexo feminino era "um sexo para o qual tais tarefas não são apropriadas" e que o serviço feminino do altar constituía um "desprezo pelas coisas divinas". Pela mesma razão, alguns concílios particulares - como os de Nîmes e de Paris - qualificaram tal prática como "antiapostólica", "indecente" e contrária às leis divinas.
O serviço feminino do altar não é, portanto, uma questão neutra ou meramente disciplinar: ele constitui, na prática, uma defesa do diaconato feminino por procuração. Se ainda não é - ao menos formalmente - uma defesa doutrinal do diaconato feminino, é inegavelmente uma defesa prática.
Por isso, mesmo quando a Igreja não podia contar com diáconos suficientes para todos os serviços litúrgicos, sempre protegeu o diaconato mediante a salvaguarda de uma certa ordenação e de uma semelhança objetiva nos ministros que os substituíam. O caráter exclusivamente masculino do acolitato é a evidência histórica mais clara dessa proteção.
Em terceiro lugar, o fato de os padres terem de lidar com mulheres na vida eclesial não constitui prova alguma de que a convivência mista seja adequada em qualquer circunstância. Menos ainda em um contexto que a própria Igreja sempre reprovou ou, no mínimo, cercou de muitas cautelas, como é o convívio misto dentro do espaço litúrgico.
Pio XI, na encíclica "Divini Illud Magistri", reprova explicitamente a chamada "coeducação" ou educação mista, qualificando-a como uma expressão do naturalismo que nega os efeitos do pecado original. O Papa recorda, ademais, que o Criador dispôs a convivência plena e harmoniosa entre os sexos apenas no contexto do matrimônio.
"De modo semelhante, errôneo e pernicioso à educação cristã é o chamado método da « co-educação », baseado também para muitos no naturalismo negador do pecado original, e ainda para todos os defensores deste método, sobre uma deplorável confusão de idéias que confunde a legítima convivência humana com a promiscuidade e igualdade niveladora. O Criador ordenou e dispôs a convivência perfeita dos dois sexos somente na unidade do matrimônio e gradualmente distinta na família e na sociedade. Além disso não há na própria natureza, que os faz diversos no organismo, nas inclinações e nas aptidões, nenhum argumento donde se deduza que possa ou deva haver promiscuidade, e muito menos igualdade na formação dos dois sexos. Estes, segundo os admiráveis desígnios do Criador, são destinados a completar-se mutuamente na família e na sociedade, precisamente pela sua diversidade, a qual, portanto, deve ser mantida e favorecida na formação educativa, com a necessária distinção e correspondente separação, proporcionada às diversas idades e circunstâncias. Apliquem-se estes princípios no tempo e lugar oportunos, segundo as normas da prudência cristã, em todas as escolas, nomeadamente no período mais delicado e decisivo da formação, qual é o da adolescência; e nos exercícios ginásticos e desportivos, com particular preferência à modéstia cristã na juventude feminina, à qual fica muito mal toda a exibição e publicidade."
Se a educação para o matrimônio não exige, nem mesmo recomenda, uma convivência indiferenciada desde a infância, com muito menos razão tal convivência se justifica na preparação para o sacerdócio, cuja essência inclui o celibato e a separação do mundo.
Constata-se, assim, que a posição constante da Igreja sempre foi a de promover o convívio misto apenas quando existe uma causa necessária, proporcional e, sobretudo, atual – jamais por motivos remotos ou hipotéticos.
Se o argumento do Catequista fosse correto, então os seminários deveriam estar abertos a moças interessadas em cursar teologia, promovendo um convívio irrestrito entre mulheres e seminaristas. Contudo, como todos sabem, isso não ocorre - e graças a Deus não ocorre -, pois é evidente a ruína que tal prática representaria para as vocações sacerdotais.
O erro de fundo que atravessa toda essa argumentação é o positivismo: a redução da Tradição a um conjunto de práticas contingentes, válidas apenas enquanto funcionam segundo critérios modernos de eficiência pastoral, que já se provaram bastante ineficientes. Tal mentalidade substitui o critério da continuidade pelo da utilidade imediata.
O positivismo não é apenas a causa formal daqueles conhecidos asteriscos lançados sobre a Tradição - isto é, de costumes e normas estranhos ao desenvolvimento litúrgico e doutrinal homogêneo que, vez ou outra, infiltram-se na história da Igreja. Ele também impede o exercício correto da prudência sobrenatural, que deveria ser o princípio norteador da ação pastoral.
Além disso, o positivismo produz uma mudança psicológica profunda: incapacita os pastores de julgar segundo a mens Ecclesiae. A mente da Igreja sempre julgou o presente à luz do passado, porque é justamente o passado - transmitido como Tradição viva - que exprime a sua mente.
Somente no tempo de Cristo foi possível olhar legitimamente para o passado com os olhos do presente, pois Cristo era o cumprimento do passado. Mas, como recorda o Pe. Chad Ripperger:
"Uma vez que a obra de Cristo se tornou parte da história e Ele ascendeu aos céus, devemos sempre olhar para trás, para Cristo e para a nossa tradição, a fim de obter uma compreensão autêntica do presente" (Topics on Tradition, p. 50).
O positivismo, portanto, impede o juízo conforme a mente da Igreja. Ao inverter o eixo do discernimento - passando a olhar o passado com os olhos do presente -, ele gera uma atitude de suspeita sistemática em relação à Tradição. E essa suspeita é, formalmente, a antessala do progressismo.
Por isso, a defesa da Tradição feita pelo conservador positivista é sempre frágil e quase sempre injuriosa. Reduz as razões profundas da Tradição a meras mesquinharias ou a preconceitos mal disfarçados. Quando uma disciplina tradicional e multissecular entra em conflito com uma pastoral moderna duvidosa, o conservador positivista não hesita em chamar a primeira de "uma grande bobagem".
Nessa mentalidade, é preciso dizê-lo com clareza: o conservador positivista não é um católico obediente, mas apenas um progressista envergonhado. Não preserva a Tradição: apenas a tolera provisoriamente, enquanto não se torna inconveniente.

segunda-feira, 30 de junho de 2025

Todo Católico é Tradicional? Só os que Tocaram a Tradição. Por que é Justo Ser Chamado Católico Tradicional.

Padres do Instituto Bom Pastor

Os debates recentes em torno do Centro Dom Bosco, conquanto tenham lançado muitos à febre da intemperança, têm servido, ao mesmo tempo, como ocasião para purificar as premissas da controvérsia. Nada como o fogo da discórdia para revelar os metais autênticos de um argumento — ou, pelo menos, separar o ouro das latas.

A última das querelas envolve católicos chamados conservadores que reagem com certa indignação ao apelo de católicos tradicionais para que se “abrace a Tradição”. O fundamento da objeção parece, à primeira vista, razoável: todo fiel que cumpre os preceitos da Igreja seria, em sentido pleno, um católico tradicional. Mas o problema — como quase sempre ocorre nos debates modernos — não está na lógica, mas na linguagem.

Tal objeção, todavia, revela mais uma incompreensão do que propriamente um argumento. Em geral, os chamados católicos tradicionais não empregam a expressão “aderir à Tradição” em sentido meramente canônico ou jurídico, como se bastasse observar os preceitos mínimos da fé. Trata-se, antes, de uma experiência existencial e espiritual: a redescoberta — muitas vezes tardia — da liturgia perene e dos costumes imemoriais da Igreja, quase sempre ausentes das paróquias comuns.

Expressões como “conheci a Tradição” ou “reencontrei a Tradição” nada mais são do que metonímias para descrever essa realidade interior: o assombro diante da liturgia tradicional, o encantamento de quem, pela primeira vez, respira o ar dos séculos, e não o hálito rarefeito das modas transitórias, e o grito de quem, após longo exílio, retorna à pátria. É sobretudo nos ambientes tridentinos que o fiel experimenta, muitas vezes pela primeira vez, essa impressão de eternidade: o contato concreto com a Tradição viva, que não envelhece porque, sendo verdadeira, permanece.

Dizer, portanto, que “toda missa é tradicional” ou que se assiste à “tradicional missa da paróquia do bairro” é, no mínimo, uma forma requintada de autossabotagem — ou melhor, uma forma velada de mentir para si mesmo. A honestidade intelectual exige reconhecer que, em muitas paróquias, o latim desapareceu, o canto gregoriano extinguiu-se, os paramentos clássicos foram relegados ao esquecimento e os costumes imemoriais da Igreja simplesmente deixaram de existir há décadas. Não se trata, aí, de uma questão de gosto pessoal, mas de uma constatação da ruptura cultural e espiritual com o passado.

É nesse ponto que a ironia se impõe: muitos católicos acham que podem preservar a Tradição sem jamais tocá-la. Como um homem que quisesse herdar o patrimônio de família sem nunca visitar a casa dos avós, nem abrir os baús, nem cheirar os livros.

Aqueles que conhecem, ainda que superficialmente, a realidade litúrgica da maioria das igrejas modernas sabem que canções como Romanos 12, entoadas por certos grupos ditos piedosos, não reproduzem — nem remotamente — a experiência da Tradição. Ao contrário, produzem uma espécie de anestesia espiritual, na qual se dissimula a ausência do sagrado com gestos mecânicos e palavras ocas. Persistir em negar essa evidência, sob pretexto de zelo ou obediência, é fechar os olhos ao que salta aos olhos: é escamotear a realidade com fórmulas inócuas — ou, para usar a palavra justa, é faltar com a verdade.

Liturgistas como Klaus Gamber sustentaram que o rito de Paulo VI, por sua gênese e estrutura, seria um criação essencialmente contemporânea, não podendo fornecer uma experiência autêntica da Tradição. Bento XVI, mais otimista, sugeriu que esse rito podia dar essa experiência sendo fecundado pela forma clássica, numa espécie de “mutua enricchitura”. Mas, qualquer que seja a posição, um fato permanece: a maioria esmagadora das paróquias não fornece, nem na forma nem no conteúdo, uma experiência sensível da Tradição. Fala-se da eternidade, mas tudo cheira ao efêmero.

Por isso, afirmar que o rito romano tradicional tem sido, nas últimas décadas, o principal veículo da experiência concreta da Tradição não é juízo opinativo, mas constatação empírica. Sem ele, é ilusório pensar numa restauração da memória litúrgica e espiritual que a Igreja contemporânea tanto necessita.

Eis, portanto, o núcleo da proposta tradicionalista: “aderir à Tradição” significa reconciliar-se com as fontes vivas da fé, reencontrar o elo perdido entre o presente e o passado eclesial. Foi essa também a intenção manifesta de Bento XVI ao liberar generosamente a Missa Tridentina, com vistas a permitir que a Igreja “se reconcilie consigo mesma”.  E se a reconciliação requer memória, a Missa Tridentina é seu álbum de fotografias: apagá-la seria como apagar a própria identidade.

A esse respeito, vale recordar uma lição do Pe. Chad Ripperger. Ao comentar a visão de Leão XIII sobre os cem anos de liberdade concedidos por Deus a Satanás para tentar a Igreja, o sacerdote observa que tal período simboliza o ataque sistemático a tudo quanto é imemorial. Satanás, ao pedir esse tempo, desejava justamente destruir os monumentos da Tradição. Recuperá-los, portanto, é a missão própria do católico tradicional: missão de resistência, de testemunho e de restauração.

É nesse contexto que se compreende, em toda a sua legitimidade, o convite dirigido aos fiéis de outros movimentos e sensibilidades a que conheçam e abracem a Tradição. Não se trata de exclusivismo, mas de coerência histórica e doutrinal. Tradição não é apenas aquilo que acontece dentro da Igreja, mas aquilo que, dentro dela, se transmite com longevidade e universalidade. Um carismático ou um membro do Caminho Neocatecumenal pode, sem dúvida, ser um católico fiel. Mas não pode, por definição, ser considerado tradicional. E a razão é simples: a Tradição exige tempo. A Tradição não se improvisa — ela amadurece no tempo. Um movimento cujo modo de ser tem quarenta ou cinquenta anos pode ser válido, mas ainda não é tradição: é juventude e juventude com todos os seus erros. A juventude pode não ser culpada por eles; mas tampouco pode ensinar com a sabedoria dos anciãos. Não se trata aqui de censura doutrinal, mas de um juízo cronológico.

Em suma: o convite a “abraçar a Tradição”, quando bem compreendido, é mais do que legítimo — é necessário. Pois a crise da Igreja contemporânea é, em boa parte, uma crise de amnésia. E quem perde a memória perde o nome, o rumo e até a fé. Porque não se apaga a memória da Esposa de Cristo sem apagar, pouco a pouco, o rosto do próprio Senhor.

quinta-feira, 12 de junho de 2025

O Direito de Criticar e o Dever de Amar (Porque na Igreja é preciso morder com reverência)

Fundadores da FSSP com São João Paulo II

Ainda sobre a publicação pelo Centro Dom Bosco do livro "Erros do Catecismo Moderno" de Michael Haynes.

A análise serena das relações entre a Santa Sé e os institutos tradicionalistas revela um dado pouco considerado, mas de grande relevância teológica e pastoral: nos acordos firmados com os institutos provenientes da antiga Comissão Ecclesia Dei, jamais se exigiu, como condição prévia de reconciliação, a retratação das críticas feitas ao Concílio Vaticano II por parte dos sacerdotes aderentes.

Pelo contrário, tais acordos reconhecem que, diante de certos pontos doutrinários e disciplinares do Concílio ou das reformas eclesiásticas subsequentes, que pareçam difíceis de conciliar com a Tradição — entendida aqui como a transmissão viva e orgânica da fé apostólica —, os institutos possam adotar uma postura de estudo respeitoso (FSSPX, 1988) ou até de crítica (IBP, Ato de Adesão), desde que se evitem manifestações de polêmica desnecessária.
A Instrução Donum Veritatis, publicada pela Congregação para a Doutrina da Fé em 1990, esclarece este ponto de forma inequívoca. Como demonstrou com acuidade o professor Edward Feser, a crítica teológica — quando realizada dentro dos limites da fé, da caridade e da fidelidade ao Magistério — não se identifica com a dissidência. Ademais, como, por sua vez, apontou o Dr. William May, a crítica assume maior legitimidade quando se volta à luz da Tradição para examinar declarações magisteriais recentes que, à primeira vista, pareçam em dissonância com os ensinamentos anteriores do mesmo Magistério.
Ora, confrontar o Magistério recente com o anterior é justamente a essência da crítica tradicionalista. E talvez por isso mesmo ela seja mais suportada — não por condescendência, mas por coerência — do que a crítica protestante, que não se ergue sobre o fundamento de Pedro, mas sobre o vácuo do livre exame absoluto.
Nesse sentido, o "Breve Exame Crítico do Novus Ordo Missae" é um exemplo luminoso de crítica severa, porém inteiramente tolerada dentro dos limites indicados pela própria Igreja. E outros livros, publicados por padres oriundos dos institutos ex-Ecclesia Dei, seguem a mesma toada: crítica reverente, ainda que firme, como um monge que repreende um imperador.
Cumpre ainda afastar um equívoco frequentemente repetido: a Donum Veritatis não exige que a crítica teológica seja exercida exclusivamente em foro privado, como se o fiel ou o teólogo devesse submeter suas dúvidas apenas ao bispo diocesano, em caráter confidencial, como fazem crer certas opiniões piedosas, mas insensatas. O que a Instrução reprova, com inteira justiça, é a instrumentalização da crítica por meio da mídia de massa, utilizada como instrumento de pressão ou agitação, o que não raro redunda em escândalo ou confusão para os fiéis. A crítica pode ser pública — sobretudo em obras teológicas ou acadêmicas —, mas deve ser sempre sóbria, reverente e construtiva.
Dessa forma, é plenamente possível publicar um livro crítico ao Catecismo promulgado em 1992, contanto que tal obra se paute pelo respeito devido ao Magistério da Igreja e se inspire em espírito de serviço à verdade revelada.
É precisamente neste ponto que se manifesta uma falha recorrente em certos meios tradicionalistas: a tentação da linguagem injuriosa, que em nada contribui para a edificação da fé. O título original da obra de Michael Haynes — A Catechism of Errors — é, sob qualquer critério eclesial, irreverente e desproporcionado. Nada impedia que o autor adotasse um título mais sóbrio e científico, como "Exame Crítico do Catecismo de 1992", que teria exposto sua tese com a dignidade que o tema exige. O Centro Dom Bosco, ao traduzi-lo como "Os Erros do Catecismo Moderno", buscou conferir maior moderação à proposta, mas o esforço acabou neutralizado pela estratégia publicitária da obra, que reforçou o tom polêmico e acentuou o desconforto.
Tais equívocos de forma, embora não alterem substancialmente o conteúdo da crítica, prejudicam sua recepção entre os fiéis, pois o público, que não é teólogo, reage não ao conteúdo do livro, mas ao tom da voz. O resultado é que se deixa de ouvir um argumento e se passa a denunciar um “ataque à Igreja” — e às vezes, com razão. Ao invés de suscitar o debate sereno e o exame objetivo, esses equívocos alimentam suspeitas e reações defensivas. E assim se compreende que muitas críticas feitas à obra não digam respeito à substância do argumento, mas à sua apresentação imprudente.
Mas, antes de tudo isso — antes do barulho, antes da polêmica, antes do escândalo — há uma virtude primária, que já foi chamada de justiça, e que hoje é confundida com curiosidade: ler o livro antes de criticá-lo.
Pode parecer pouco. Mas é o primeiro passo para qualquer católico que deseje defender a verdade com aquela virtude de que tanto falamos e tão pouco praticamos: a caridade.

Conservadores se rendem ao biquíni. Não sobrou nada para a modéstia.

Recentemente, houve grande repercussão nas redes sociais em torno do tema do uso do biquíni. O debate, no entanto, revela menos uma contrové...