Há dois anos, publicamos neste blog o artigo “Conservadores se rendem à imodéstia”, no qual já se apontava um processo de regressão moral: costumes que haviam sido corretamente rejeitados por católicos do espectro conservador passaram a ser novamente tolerados e, depois, defendidos. Desde então, o quadro apenas se agravou. Muitos que se autodenominam conservadores passaram a adotar, na prática, os mesmos critérios morais do progressismo, apenas com uma linguagem diferente.
O episódio mais recente envolve a influenciadora Aimê Gumiero, católica recém-convertida, que afirmou publicamente que o uso de biquíni em praias e piscinas não constitui pecado. Sua argumentação segue um padrão já bastante conhecido.
Primeiramente, ela afirma que a modéstia “não é um conjunto de regras”. Essa afirmação, embora verdadeira em sentido estritamente técnico - pois a modéstia é uma virtude e não um código de direito -, é quase sempre usada de forma sofística. Na prática, serve para esvaziar qualquer critério objetivo e tornar a modéstia refém do julgamento subjetivo do indivíduo. Trata-se de um erro frequente: negar padrões razoáveis em nome de uma virtude supostamente “interior”, quando, na realidade, toda virtude moral possui atos externos regulados pela razão.
Em seguida, Aimê apela à virtude da prudência. Argumenta que a prudência exige adequação da vestimenta ao ambiente: não se usaria biquíni em uma missa, mas seria legítimo usá-lo na praia ou na piscina, pois “é isso que o ambiente pede”. Aqui se encontra um erro clássico: confundir prudência com simples rendição ao ambiente local.
A prudência não consiste em adaptar-se automaticamente aos costumes vigentes, mas em aplicar corretamente os princípios às circunstâncias concretas. Um determinado ambiente pode ser, ele mesmo, objetivamente imodesto. Nesses casos, o católico não apenas não deve conformar-se a ele, como deve evitá-lo, se possível; e, se não for possível evitá-lo, deve agir de modo mais virtuoso do que a média.
Esse princípio é claramente exposto por Pio XI ao tratar de eventos públicos de ginástica:
"Que os pais mantenham suas filhas longe do público de jogos e competições de ginástica, mas se as suas filhas são obrigadas a frequentar essas exposições, deixá-los ver que elas estejam totalmente e modestamente vestidas." (AAS, 1930, vol. 22)
Em outras palavras, se não houver necessidade, devem ser evitados; se houver necessidade, exige-se vestimenta plenamente modesta. O ambiente não legitima a imodéstia; ao contrário, agrava a obrigação de resistir a ela.
A pergunta central, portanto, não é se o biquíni é aceito socialmente na praia, mas se há causa justa para homens e mulheres permanecerem juntos em estado de seminudade. A teologia moral responde negativamente.
Antonio Peinador Navarro em "Cursus Brevior Theologiae Moralis":
"Não devem ser escusados de pecado grave as pessoas de diferente sexo que mutuamente se olham, conversam, passeiam, etc., quase nuas, nos balneários públicos, com trajes sumaríssimos que cobrem apenas as partes genitais dos homens ou das mulheres e os seios destas últimas. Embora não se procurem movidos por má intenção, entretanto o convívio demorado será necessariamente gravemente excitante. Ademais, quem assim se expõe à contemplação pública, comete pecado de grave escândalo" (COCULSA, Madrid, 1956, t. III, p. 596.)
Henry Davis em "Moral and Pastoral Theology":
"Os banhos de sol e de ar tomados juntos por membros de ambos os sexos e sem fantasias são fontes férteis de pecados graves, e não há justificativa para eles. [...] Nos exercícios de ginástica, mesmo quando se usam uniformes, deve-se ter cuidado especial com a modéstia cristã das moças e meninas, que é tão gravemente prejudicada por qualquer tipo de exibição em público." (p. 228, vol. II)
Antonio Royo Marin em "Teologia Moral para Seglares"
"Apresentam especiais perigos as excursões campestres com banho misto em açude ou rio; pois aos inconvenientes do banho público em geral devem acrescentar-se os que provém da frivolidade, leviandade e liberdade excessiva de um dia de excursão. Os pais católicos não permitirão jamais às suas filhas semelhantes excursões mistas." (Moral Especial, 551.6)
Outro ponto relevante é a contradição interna no discurso apresentado por Aimê. Afirma-se que o uso do biquíni seria moralmente aceitável apenas em determinados ambientes; contudo, ao divulgar imagens de si mesma de biquini para toda a internet, elimina-se qualquer noção coerente de “adequação ao ambiente”. A internet não é um espaço privado nem restrito, mas um meio de difusão universal.
Do ponto de vista moral, isso agrava a culpa da influenciadora, pois introduz o elemento do escândalo. A teologia moral é clara ao afirmar que a difusão de imagens provocantes constitui escândalo, na medida em que expõe um número indeterminado de pessoas a tentações.
Relembremos o que disse Teodoro Del Greco em "Compêndio de Teologia Moral" a respeito da divulgação de fotos e imagens de mulheres de biquíni:
"Concursos de Beleza. Outra ocasião de pecado e de cooperação no mal, com escândalo, é constituída hoje pelos chamados "Concursos de Beleza", subproduto de uma sociedade depravada. São concursos de caráter regional, nacional e universal, nos quais é escolhida a jovem que apresenta maiores perfeições de beleza física, para receber o título de "Miss" ou "Rainha". O atual processo seletivo é repugnante não só à consciência cristã, mas também a qualquer pessoa que tenha o mínimo senso de pudor. As candidatas ao título devem usar trajes reduzidíssimos, geralmente de tecido muito sutil, que permita os relevos de todo o corpo, até nas suas partes mais intimas. O exame é longo e minucioso, e o chamado desfile realiza-se perante numeroso público. O fato é reprovável sob todo e qualquer ponto de vista, porque constitui ocasião direta de pecado. A responsabilidade agrava-se, outrossim, pelo escândalo que causa o comparecimento da jovem ante o público muita vez heterogêneo. Isso, sem falar nas fotos e minuciosas mesuras levadas aos quatro ventos pelos rápidos veículos de publicidade, quais são a imprensa, o cinema, o rádio e a televisão." (n. 147)
"É reprovável o costume vigente em muitas academias de exibir aos pintores modelos de mulheres, cobertas somente nas partes genitais. Aqueles que, por necessidade, são obrigados a frequentar tais academias, usando as necessárias cautelas, estão justificados. [...] São escusadas, desde que usem as devidas cautelas somente se isto é o único meio para se livrarem da miséria. (n.226)"
Observa-se que a única razão que a teologia moral justifica uma mulher ficar seminua perante o sexo oposto é a grave necessidade, como realizar um trabalho imodesto para não passar fome. Aimê, no entanto, sem necessidade alguma, divulga imagens suas de biquíni voluntariamente.
O progressismo conservador entra em cena
Depois das declarações iniciais da influenciadora, houve uma reação forte. Muitos católicos perceberam corretamente o problema moral envolvido e criticaram tanto a posição quanto a exposição pública da influenciadora. Até aí, nada de inesperado. O que chama a atenção é o que acontece em seguida.
Entra em cena aquilo que podemos chamar de a ala dos conservadores progressistas. Pessoas que mantêm uma aparência conservadora, mas que, diante de qualquer tensão com o mundo, tendem sistematicamente a ceder nos princípios. É o opusdeísmo cultural por excelência.
Um dia após a polêmica, o Pe. José Eduardo resolve se pronunciar. E aqui precisamos ser claros quanto ao peso disso. Trata-se de um dos sacerdotes mais conhecidos do meio conservador no Brasil, ao lado do Pe. Paulo Ricardo, do Frei Gilson e do Pe. Leonardo Wagner. E esses três têm posições públicas claras e coerentes sobre o tema do biquíni.
O Pe. Paulo Ricardo, ao tratar dos remédios contra a pornografia, insiste na tolerância zero com aquilo que ele chama de soft porn, e cita explicitamente modelos de biquíni como exemplo.
Frei Gilson também já se posicionou contra o uso de biquínis e sungas.
E o Pe. Leonardo Wagner deu, à época, a resposta mais conhecida e direta sobre o assunto, que se tornou viral.
Aliás, é preciso ressaltar que o Pe. Leonardo Wagner forneceu a visão moral correta acerca da frequência às praias, em plena consonância com o consenso dos teólogos:
Vemos assim que, do ponto de vista da teologia moral, a expectativa era simples: uma resposta objetiva, alinhada com a tradição moral da Igreja e com aquilo que sempre ensinaram os moralistas e os próprios sacerdotes citados. A saber: a condenação do biquíni em banhos mistos.
Mas isso não acontece com o Pe. José Eduardo. Vejamos sua resposta ao problema:
A TRETA DO BIQUÍNI
O debate “biquíni: pode ou não pode?” já nasce defeituoso porque troca a pergunta moral pela pergunta material. E a teologia moral, quando é séria, não começa pela “coisa” (tecido, centímetros, modelo), mas pelo ato humano enquanto escolhido. É exatamente isso que São João Paulo II recorda na Encíclica Veritatis Splendor (nº 78), retomando São Tomás: o “objeto” moral não é a descrição física do que se faz, mas a electio, a escolha deliberada pela qual a vontade assume aquela matéria como expressão de um sentido: de um fim próximo, de um “para quê” concreto.
Em linguagem tomista: o ato moral recebe sua espécie do objeto enquanto ordenado pela razão e querido pela vontade (cf. S. Th. I–II, q. 18). Por isso, “usar biquíni” é uma fórmula moralmente vazia, porque descreve apenas a matéria externa. A mesma matéria pode estar sob escolhas moralmente diversas. Uma mulher pode usar um traje de banho num contexto terapêutico (fisioterapia, tratamento dermatológico, reabilitação), ou num ambiente ordinário de lazer, ou ainda como instrumento de vaidade exibicionista, de sedução deliberada, de provocação calculada. A matéria pode ser parecida; a eleição é outra. E é a eleição que especifica moralmente o ato.
Quando a discussão fica no nível do “pode/não pode”, ela transforma a moral em um catálogo de objetos materiais, como se o pecado estivesse nas coisas; e isso não é catolicismo nem tomismo nem moralidade, é caricatura e burrice qualificada. O que pode ser pecado, quando o é, não é “usar X”, mas escolher X como meio para um fim desordenado: por exemplo, a ostentação de si para dominar olhares, a intenção de excitar a concupiscência alheia, o desprezo prático pela caridade e pelo bem espiritual do próximo, ou a recusa habitual da modéstia como virtude que guarda a dignidade da pessoa.
E aqui aparece por que a internet é um lugar péssimo para esse “debate”: porque o discernimento moral exige atenção às circunstâncias (ambiente, cultura concreta, intenção, previsibilidade do efeito, responsabilidade pelo escândalo em sentido próprio) e até à formação da consciência, coisas que não cabem num tribunal de cliques. Perguntar “biquíni é pecado?” é perguntar errado; a pergunta moral é: que escolha estou fazendo com isso, em que contexto, com que intenção, e que bem estou servindo ou ferindo? Se a conversa não sobe a esse nível, ela não é teologia moral: é só gente brigando por rótulos, com a matéria no lugar onde deveria estar a electio e tentando enfiar a própria ignorância na ignorância do outro.
Eu me pergunto: o que chama mais a atenção, de fato, uma mulher normal de biquíni ou uma mulher estranha parecendo uma muçulmana bem na praia? Ou, será que você está tão bem na pista que vai chamar a atenção dos outros quando nem o seu marido se sente muito interessado em você? Não sei…
Eu não tenho o costume de andar por aí sem camisa, mas, se o fizesse, quem se sentiria atraído por um bucho, cheio por acolá, que nem um boi andando de pé? Imodéstia? Acho que é mais mortificação ao próximo!...
As pessoas ficam nas nuvens, opinando a partir do seu próprio autoritarismo, quando a vida é mais simples para quem é sensato. A minha experiência, francamente, é que ninguém está muito aí para a gente.
A questão é irrelevante, a pergunta está errada e o debate é ocioso.
Quando finalmente o sacerdote se aproxima da resposta concreta, ele abandona completamente o registro teológico e passa ao deboche:
"Será que você está tão bem na pista que vai chamar a atenção dos outros quando nem o seu marido se sente muito interessado em você?"
Isso não é teologia moral. É ironia fingindo complexidade.
O padre introduz ainda um critério que simplesmente não existe na teologia moral: a autopercepção estética.
Quando os teólogos tratam de banhos públicos e mistos, não há um único que apresente a autopercepção estética como fator moderador da modéstia, porque ela não pode depender de um critério tão subjetivo, uma vez que busca uma regra comum, objetiva e válida para todos.
E o critério sempre foi este: não é lícito a ninguém - seja gordo, magro, bonito ou feio -expor-se nu ou seminu diante do sexo oposto sem causa grave. Isso decorre do direito natural. As partes íntimas e menos honestas do corpo estão ordenadas à procriação e à intimidade, e por isso devem ser cobertas.
Aliás, todos sabem disso na prática. Basta observar o comportamento em ambientes como baladas. Mulheres que desejam atrair olhares encurtam deliberadamente suas roupas, usam decotes, vestidos justos, minissaias. Isso demonstra que a exposição do corpo não é moralmente neutra e não depende da autopercepção subjetiva, mas da própria natureza do corpo humano e de seus efeitos previsíveis.
Além disso, o critério proposto pelo padre é completamente inútil do ponto de vista moral. Pessoas consideradas feias namoram. Pessoas consideradas feias se casam. Sempre haverá quem se sinta atraído por elas. Logo, a modéstia não pode depender de como alguém se percebe esteticamente.
O mais grave é que o Pe. José Eduardo sabe disso. Como teólogo moral, ele conhece perfeitamente esses princípios. O problema não é ignorância (ele é muito inteligente), é omissão e tergiversação. E isso ocorre porque ele se encontra engajado numa batalha constante contra grupos tradicionais, que são os que mais combatem a imodéstia. Nota-se no padre que a paixão da disputa domina e a razão começa a ceder.
E isso tem consequências. Almas se perdem. Fiéis se sentem autorizados a continuarem com a vergonhosa defesa do biquíni. A influenciadora que iniciou toda a polêmica se viu confirmada em seu erro.
O escândalo se espalha.
Aqui precisamos falar também do problema específico das redes sociais. O Pe. José Eduardo tornou-se, na prática, um comentador compulsivo. Tudo vira conteúdo. Tudo vira resposta. Tudo vira provocação. Ele já não fala como teólogo, mas como influenciador que reage ao fluxo da internet. E isso é profundamente nocivo ao múnus sacerdotal.
Aqui relembremos conselhos fundamentais de Santo Afonso de Ligório em "A Selva" para a piedade sacerdotal, que servem muito bem aos nossos tempos marcados por padres influenciadores e tagarelas:
"O padre deve falar pouco. Quem fala muito com os homens, mostra que fala pouco com Deus. As almas de oração são avaras de palavras; quando se abre a boca do forno, escapa-se o calor. Tomás de Kempis diz: É no silêncio que a alma faz progressos. E S. Pedro Damião: O silêncio é o guarda da justiça. O mesmo nos ensina o Espírito Santo: No silêncio e na esperança estará a vossa força. Está no silêncio a nossa força, porque nunca se fala muito sem algum pecado."
"Com doçura: não se deixe ir à cólera nos seus discursos; não deixe escapar palavras injuriosas, mais próprias para azedar os ânimos, que para mover à piedade."
"Por S. Gregório de Nissa é o padre chamado um mestre da santidade. Mas, se o mestre é orgulhoso, como há de ensinar a humildade? Se é intemperante, como há de ensinar a mortificação? Se é vingativo, como ensinará a doçura?"
"Sede pacientes na humilhação. Eis o que nessas circunstâncias é necessário fazer: não se irritar nem se queixar, mas receber esses desprezos como justos castigos dos próprios pecados."
O padre ignora completamente o contexto real em debate. Ou melhor, omite. Uma praia moderna, com milhares de mulheres seminuas, não exige “bisbilhotice” para provocar tentação. Basta enxergar. Apenas um cego não vê. Os exemplos dados - andar na rua, ser abordado por uma mulher mal-vestida - não são comparáveis, porque não envolvem busca voluntária da ocasião. A ida à praia envolve.
O resultado é previsível: seguidores sentem-se autorizados não apenas a manter esse costume objetivamente desordenado, mas também a suspeitar de homens que exortam contra ele das piores perversões sexuais possíveis.
Para concluir, é preciso deixar isso absolutamente claro: não estamos discutindo preferências pessoais ou costumes culturais, mas princípios objetivos da moral da Igreja. Quando esses princípios são relativizados, as consequências não são abstratas - são espirituais. Consciências se confundem, o pecado perde sua gravidade e as almas ficam mais vulneráveis à ação do Inimigo.
A modéstia não é opcional nem circunstancial. Ela é uma exigência do direito natural e uma forma concreta de caridade. Enfraquecê-la não protege ninguém; ao contrário, expõe os mais fracos e normaliza ocasiões próximas de pecado.
Sacerdotes têm uma responsabilidade particular nesse ponto. Suas palavras formam consciências. Quando a clareza é substituída por ambiguidades ou por omissões calculadas, o resultado é o escândalo. O sacerdote deixa de ser luz e torna-se pedra de tropeço.
Por fim, o católico precisa escolher se seguirá a tradição moral da Igreja ou se continuará tentando conciliar a verdade com o espírito do mundo. Essas duas coisas são incompatíveis. É da obediência à verdade que depende a salvação da nossa alma e a vitória de Cristo sobre o pecado.