terça-feira, 19 de maio de 2026

Católicas feministas odeiam homens católicos. E elas perderão tudo com isso.



Algumas páginas católicas feministas estão compartilhando um “estudo” que atesta que o movimento “tradwife” tem atraído homens que “odeiam” as mulheres. Um resumo do estudo foi publicado na página de Instagram do The Times.



Tradução: "Movimento Tradwife atrai homens que são hostis às mulheres"

O estudo é da Psychology of Women Quarterly e, segundo a publicação, o movimento tem atraído homens com forte inclinação sexista, defensores da ideia de que as mulheres não devem trabalhar fora de casa e de que devem submeter-se aos seus maridos

Primeiramente, esclareçamos o que é a revista Psychology of Women Quarterly. Trata-se de uma revista feminista e, como era de se esperar, possui noções bastante equivocadas de “sexismo”, incompatíveis com aquilo que a Igreja entende por autêntico sexismo.

A revista, por exemplo, publica artigos de pesquisadoras feministas que consideram “sexista” a retórica antiaborto, como se pode observar aqui. Não se trata, portanto, de um parâmetro confiável para medir o sexismo masculino.

O tema deste artigo, porém, não é a revista em si, mas o que certas católicas feministas entendem como “ódio às mulheres”.

O feminismo, no sentido condenado pela Igreja, é, em suma, a heresia que nega a submissão da esposa ao marido, bem como os deveres da maternidade. Vejamos, pois, a síntese magisterial:

Feminismo enquanto rejeição da submissão da esposa ao marido

"A mulher, criada como companheira do homem, deve permanecer sob o poder de amor e carinho, mas sempre sob seu poder. Quão equivocado, portanto, é esse feminismo que busca corrigir a obra de Deus." (São Pio X - Discurso para a Delegação do Sindicato das Senhoras Católicas Italianas em 1909)

Feminismo enquanto rejeição dos deveres da maternidade

"O enfraquecimento da presença materna, com as suas qualidades femininas, é um risco grave para a nossa terra. Aprecio o feminismo, quando não pretende a uniformidade nem a negação da maternidade." (Amoris Laetitia, 173)

Embora feministas católicas tentem argumentar que é possível existir um “bom feminismo”, ao endossarem estudos como os da Psychology of Women Quarterly, acabam apenas confessando aquilo que todos já sabiam: defendem precisamente o feminismo condenado, pois negam, em seus corações, a submissão ao esposo e os deveres da maternidade. No fim, o “bom feminismo” teoricamente aventado não passa de uma cortina de fumaça para justificar o feminismo herético.

Muitas católicas feministas, porém, ainda não têm completa coragem de negar explicitamente a doutrina da Igreja, então adotam um expediente diferente: tentam demonstrar o quanto o casamento tradicional é opressivo ou atrai opressão.

Desse modo, tentam impor a ilação de que quem defende a hierarquia familiar, a volta das mães ao trabalho no lar estaria igualmente contribuindo para cultura de "ódio às mulheres" sem que uma coisa tenha qualquer relação com a outra. E o mais constrangedor de tudo é travestirem esse feminismo mal confessado com roupagem de ciência, de "estudos". É patético. Simplesmente patético. Felizmente, na postagem da The Times, um homem desmascarou a farsa do "estudo":


Tradução: "Este “estudo” é um clássico exemplo de nonsense enviesado da Psychology of Women Quarterly. Ele destaca uma única correlação (“sexismo hostil”), enquanto ignora décadas de dados sobre a queda da felicidade feminina, o esgotamento de casais de dupla renda, o colapso da fertilidade e as razões pelas quais muitos casais escolhem voluntariamente a especialização de papéis para alcançar melhores resultados. Retratar o apelo do movimento tradwife como mero ressentimento masculino é um desserviço aos leitores — existe verdadeira agência e reais ponderações para além da ideologia. Jornalismo fraco."

O fato de feministas católicas atacarem tanto o matrimônio vivido de maneira tradicional nos leva ao tema principal de nosso artigo: católicas feministas odeiam homens católicos.


O ódio a homens católicos

Não é incomum encontrar católicas feministas alertando sobre os “riscos” de se relacionar com homens católicos, sobretudo os do meio tradicional, porque estes, por serem melhor formados que a média, são mais conscientes de seus deveres. Frequentemente recompartilham relatos de supostos “abusos” praticados por esses homens, como exigir que suas mulheres usem véu na igreja - obedecer São Paulo! Que terrível ofensa a Deus, não é mesmo? -, deixem seus empregos para se dedicarem ao lar - exatamente o que o Magistério tradicionalmente recomenda - ou ainda regulem as roupas que elas vestem e as proíbam de frequentar certos ambientes, como praias e academias.




Estamos sendo irônicos evidentemente. Não há abuso em nenhuma dessas coisas, por óbvio. Abuso, no sentido empregado pela Igreja, seria exigir que a mulher pecasse contra Deus, mesmo que venialmente, em obediência ao esposo. Neste caso, seria verdadeiramente um abuso, pois a autoridade do marido vem justamente de Deus para que o homem possa servi-Lo. Fora desse caso, é apenas a autoridade legítima do marido acontecendo.

O marido pode regular o ornamento da mulher, proibir que frequente certos lugares e exigir que use véu na igreja porque, como chefe da família, ele tem o dever de liderar e corrigir seus membros. Ouçamos Antonio Royo Marín a respeito:

"Deveres especiais do esposo. Uma vez que o esposo é por direito natural e divino o cabeça e chefe da família (Gn 3,16; 1Cor 11,9; Cl 3,18), cabe-lhe governar a mulher, mas sempre na qualidade de companheira, não de escrava. E assim deve:

c) CORRIGI-LA CARITATIVAMENTE se delínque, com o fim de emendá-la e evitar o escândalo. Mas sem recorrer jamais aos golpes ou maus-tratos nem aos insultos soezes ou frases duras, que a nenhum resultado prático conduzem e perturbam terrivalmente a paz e tranquilidade do lar. (Teologia Moral para Seglares, n. 834.2)"

Contudo, sob a ótica de uma feminista católica, a liderança e a correção do marido são coisas absolutamente intoleráveis, porque elas negam, no fundo de suas almas, a submissão ao esposo no matrimônio.

O que leva ao passo seguinte: a rejeição de homens católicos que são absolutamente conscientes de seus deveres e a preferência da feminista por homens inferiores na fé.

O maior temor de uma feminista católica não é, curiosamente, a impiedade do mundo, mas a piedade do lar. Mais especificamente, o que ela teme é casar-se com um homem católico, devidamente formado e convicto, pois este lhe colocaria freios nos ímpetos revolucionários e nos gritos de independência. Assim, não é raro ver feministas católicas preferindo namorar protestantes, ateus, mundanos, católicos de IBGE, "feministos", sob o pretexto de que no meio católico está difícil encontrar “homens de verdade”.

Não duvidamos que encontrar o cônjuge ideal, ainda mais nos nossos tempos de fragmentação e desordem, seja um desafio digno de epopeia. Mas convém notar que a feminista católica não foge dos homens católicos porque não os encontra, mas porque os encontra e percebe, com um misto de admiração e horror, que eles são uma ameaça ao seu feminismo.

Optando, então, por homens inferiores na formação da fé, ela acredita poder moldá-los, talhando-os à imagem de suas próprias convicções. Quer ensiná-los o que é mais importante – a fé –, mas de um modo que esteja em conformidade com sua perspectiva feminista. 

Não percebe, entretanto, que, ao agir assim, mina os alicerces da própria família. Primeiro, porque há nisso um ato de supremo egoísmo: ela não busca um pai católico para seus filhos, alguém que os guie no caminho da santidade, mas um homem que satisfaça seus desejos e que não se oponha aos seus diálogos particulares com a serpente. No final, o risco de que todos se percam é imenso. Adão já nos deu uma bela lição do fim trágico que resulta um homem ser omisso e subserviente à esposa.

O mais irônico de tudo é que, ao buscar um homem que a deixe livre em suas ideias, ela se prende ainda mais aos seus próprios erros. Por isso o verdadeiro dever de uma feminista católica - se é que tal figura pode existir sem contradição - é justamente livrar-se do feminismo, e isso se dá, acima de tudo, pela submissão ao marido. Mas como poderá submeter-se a alguém que não a governa? Como poderá aprender a docilidade se escolheu um guia que teme guiá-la?

No fim, a busca por um homem que não imponha regras é, na verdade, a busca por um homem que também não siga regras. E um homem sem regras é apenas um menino grande, esperando ser educado.

O grande paradoxo é que, ao fugir de um chefe, essas católicas feministas acabam criando súditos. E nenhuma rainha governa sem pagar o preço da coroa.

No caso, o preço da coroa é a própria ruína da família.


A autoridade do marido e a graça divina

As Escrituras são categóricas sobre o modo como a mulher se salvará: pela maternidade (1 Tm 2,15).

Isto implica que as graças de uma mulher casada só serão dadas por Deus se ela cumprir seus deveres como esposa e mãe.

Deus, de fato, é Pai das bênçãos, mas não as distribui aleatoriamente. Ele as concede de modo ordenado, isto é, para um fim e, principalmente, de modo hierárquico, ou seja, pelos representantes que Ele instituiu.

No Antigo Testamento, antes da instituição do sacerdócio levítico, os principais dispensadores das bênçãos - inclusive das sacerdotais - eram os chefes de família, os patriarcas. Essas bênçãos eram tão ricas em graças que eram verdadeiramente disputadas pelos filhos. O exemplo mais conhecido dessa disputa foi o dos irmãos Esaú e Jacó. Jacó “roubou” a bênção patriarcal de seu irmão e foi imensamente bem-sucedido. Em outro episódio, o mesmo Jacó, ao deparar-se com um anjo, lutou com ele por uma bênção. O patriarca adotava como estratégia buscar sempre a bênção de seus superiores, porque sabia da importância dela para ter dias felizes na terra.

Após a instituição do sacerdócio levítico e, posteriormente, do sacerdócio católico, as bênçãos patriarcais foram redistribuídas. Se antes se concentravam exclusivamente nos pais de família, hoje estes dividem tal papel com os sacerdotes.

Todavia, mesmo com essa divisão de funções, a bênção patriarcal não deixou de ser grande e de vital importância para a prosperidade dos filhos e da família. A esse respeito, vejamos as luminosas palavras do grande Cardeal Isidro Gomá y Tomás:

"Entre nós, cristãos, a bênção paterna não tem o mesmo sentido profundo que a bênção patriarcal tinha para o povo de Deus. Esta era uma ação sacerdotal pela qual Deus, fiel às suas promessas de bênção feitas àquela raça, transmitia dos pais aos filhos todo o caudal de suas misericórdias para com ela. Agora, o sacerdote nos abençoe em nome de Deus, o bendito do Pai, sobre quem veio a plenitude da bênção com a plenitude da divindade.

Mas Deus não diminuiu a dignidade do pai na nova lei. "Quem ousaria dizer que a bênção paterna, na lei da graça, tenha perdido seu poder?", diz Dupanloup. "Não acredito nisso. Creio que a vida, que a conservação das raças e a prosperidade das famílias ainda podem encontrar nela a mesma segurança que a bênção dos velhos patriarcas; além do que, segundo o espírito e o caráter da graça evangélica, creio que desta bênção dos pais cristãos sai, mais abundante que em outras épocas, uma graça sobrenatural para produzir, aumentar e perpetuar nas famílias cristãs não somente a vida, mas, o que é ainda mais precioso, o bem de viver e o tesouro hereditário das virtudes domésticas e das esperanças celestias.

Quem dera que se reavivasse o antigo costume de os pais abençoarem os filhos, sobretudo nos momentos solenes de suas vidas, e no transe soleníssimo, para o pai e para os filhos, de deixar ele o mundo para lhes legar o tesouro das tradições domésticas! Mas pobres dos pais de hoje! Como iriam abençoar seus filhos se a muitos faltam o sentido de Deus?" (La Familia, 1942, 4ª ed., p. 140-143)

O autor Craig Hill em seu livro "O Poder da Benção dos Pais" traz uma convicção semelhante. Craig explica que os judeus são prósperos em todas as partes do mundo justamente porque conservaram a cultura patriarcal dos pais abençoarem seus filhos:

"Talvez você se pergunte: “Que tipo de costumes e tradições os judeus praticam que podem fazer prosperar suas almas?”. Creio que a resposta reside no costume que discutimos no início do capítulo anterior: a bênção paterna. Como já vimos, todos os pais são profetas para seus filhos, mas nem todas as profecias vêm de Deus. Creio que as almas dos filhos judeus tendem a prosperar não apenas pela bênção paterna do Sabbath, a cada semana, mas também porque sua cultura naturalmente favorece a bênção dos filhos durante as sete etapas críticas da vida.

Embora o conceito da bênção seja claramente explicado na cultura hebraica bíblica, e vejamos remanescentes dela na cultura judaica de hoje, não creio que Deus tenha querido que os judeus tivessem um monopólio sobre a bênção. Creio que Deus quis que o estilo de vida de bênção e a transmissão da bênção durante as sete etapas críticas da vida funcionassem naturalmente em cada família e cultura da terra. Essas tradições de bênção não se originaram com os judeus, mas são caminhos ancestrais que provêm de Deus e que são para qualquer pessoa, em qualquer lugar."

Essas citações indicam que os maridos, justamente por serem chefes e representantes da família, são o canal ordinário que Deus utiliza para distribuir graças no lar. Um pai católico que ama a Deus, os filhos e a esposa, liderando espiritualmente sua casa, torna-se canal ordinário de prosperidade material e espiritual para todos os membros da família, como bem demonstra a ilustração abaixo.




Daí a grande desgraça, por exemplo, dos filhos órfãos, que não apenas perdem a ajuda material dos pais, mas também as graças que viriam por causa da autoridade paterna.

O Cardeal Isidro Gomá y Tomás, nesse sentido, afirma que há uma maneira de deixar os filhos “órfãos” das graças paternas mesmo com os pais vivos: o pai não ser católico.

Um pai que não pratica a religião e que não cumpre seus deveres enquanto pai e esposo atrai menos as graças divinas para sua família.

Sendo assim, é seguro dizer que uma católica feminista que, por puro egoísmo e espírito de independência, priva seus filhos de um pai católico ao casar-se com um homem do mundo, um “católico de IBGE” ou um “feministo” que não exerce sua autoridade marital, torna seus filhos órfãos das graças que seriam conquistadas por um pai católico consciente de seus deveres.

Os maridos, enquanto chefes de família, participam do poder das chaves concedido por Deus e são meios ordinários de graças para suas famílias. 

Portanto, se Deus quer que as mulheres se santifiquem e se salvem mediante a submissão aos maridos, segue-se a conclusão óbvia: se desprezam essa autoridade e buscam anulá-la, as graças que seriam concedidas por Deus por meio dessa submissão deixarão de ser dadas. E dois exemplos disso podem ser mencionados: Eva e Jezabel.

Os Santos Padres são unânimes em reconhecer que Eva caiu na tentação da serpente porque estava desacompanhada de Adão, e este igualmente caiu porque se deixou liderar pela esposa.

São Roberto Belarmino, em "A Arte de Bem Morrer", comenta o seguinte sobre Jezabel:
"O mesmo Apóstolo ensina posteriormente as mulheres a serem submissas aos seus maridos, assim como a Igreja é submissa a Cristo. Jezabel não observou este preceito; por querer controlar seu marido ela se perdeu e perdeu a ele, assim como todos os seus filhos."



Jezabel sendo devorada por cães. Por Andrea Celesti.

Portanto, é manifesto que a mulher que “demite” a autoridade do marido - quer desprezando-a, quer usurpando-a ao casar-se com homens não católicos ou temerosos de exercê-la - torna-se causa da ruína e da desgraça da família.

A estas que rejeitam a autoridade do marido, o Pe. Antonio Royo Marín chamaria de “aquelas que receiam receber um marido” ou, em outras palavras, que não estão aptas a receber o sacramento do matrimônio:

"O desprezo pelo homem a excessiva timidez diante dele, o espírito de independência, o horror aos deveres conjugais, o medo dos sofrimentos da maternidade ou o trabalho de educar, etc., levam-nas a renunciar ao matrimônio e ficar perpetuamente solteiras." (Espiritualidade dos Leigos, n. 375)

Como punição, se forem feministas solteiras, é provável que Deus permita que essas mulheres padeçam de solteirice perpétua, de relacionamentos caóticos e intermitentes ou ainda de um receio interminável de assumir um compromisso definitivo, passando quatro ou cinco anos namorando um rapaz para, no fim, não dar em nada. Isto quando não se tornam, por uma nota quase artística da ironia divina, mães solteiras, obrigadas a carregar o peso e a responsabilidade da maternidade sem as abundantes graças que ordinariamente decorreriam da chefia do marido. Assim, acabam vivendo sob o peso de suas próprias decisões e sob a desgraça de seu próprio feminismo.

Não estamos dizendo, evidentemente, que mães solteiras ou esposas cujos maridos não sejam católicos não possam alcançar tais graças. Santa Mônica é exemplo de esposa e mãe que, mesmo sem um marido católico, alcançou graças para a conversão da família. Contudo, Santa Mônica enquadra-se como caso verdadeiramente extraordinário. Sua santidade pessoal constitui um diferencial raríssimo em relação à média das pessoas. Sem essa perseverança heroica, dificilmente teria alcançado a conversão da família. E relembremos que a conquista dessa graça foi árdua: levou décadas. É perfeitamente legítimo pensar, portanto, que, se seu marido fosse católico, a conversão de Santo Agostinho talvez não tivesse levado trinta anos para acontecer.

Em suma, queremos dizer que mulheres que, por culpa própria, casam-se mal ou se revoltam contra a autoridade do marido acabam dificultando a obtenção das graças de Deus para a própria família. Essas graças tornam-se mais difíceis de alcançar, porque quem as solicita não é, na ordem estabelecida por Deus, a autoridade instituída por Ele.

Um exemplo pode ilustrar melhor esse ponto. A consagração de um país a Nosso Senhor feita por um cidadão comum pode ser algo muito nobre; contudo, muito mais eficaz para a nação seria a consagração realizada pelas mãos do Chefe de Estado. Não sem razão, Nosso Senhor, nas aparições a Santa Margarida Maria Alacoque, não pediu que um cidadão qualquer consagrasse a França ao Sagrado Coração, mas sim o rei Luís XIV.

Deus quer comunicar Sua graça, mas deseja distribuí-la pelos meios ordinários que Ele próprio estabeleceu. Na família, esse meio é o chefe do lar, o homem. Se a esposa usurpa esse lugar, a graça dificilmente será alcançada da mesma forma.




Devemos dizer também que a autoridade, quando instituída por Deus, existe sempre para o bem daquele que lhe está subordinado. A autoridade dos pais é um bem para os filhos. Da mesma maneira, a autoridade do marido é um bem para a mulher.

Não constitui, portanto, uma "solução" para a católica feminista escolher um homem “feministo” que se recuse a liderar. Ela estará sendo "masoquista" e fazendo um mal contra si mesma. Um homem que não exerce sua autoridade também peca diante de Deus e igualmente será punido por isso, pois liderar a família é dever seu. Recordemos o ensinamento do imortal Papa Pio XII:

"Vós, maridos, fostes investidos da autoridade. Cada um de vós é chefe do lar, com todos os deveres e as responsabilidades que este título representa. Não hesiteis, portanto, em exercer a autoridade, não renegueis os deveres, e não fujais das responsabilidades." (Alocução aos Recém-Casados. 10 de setembro de 1941)

Quão patético é observar homens unindo-se à insubmissão de suas esposas e ostentando essa cumplicidade como símbolo de masculinidade. Mal sabem eles que também se tornam cooperadores da desgraça da própria família. Deus puniu Adão por sua subserviência à esposa com dificuldades materiais, um símbolo da dificuldade do marido "feministo" para obter graças para a família:

E disse em seguida ao homem: “Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. (Gn 3,17)

A Tradição da Igreja consigna igualmente que às mulheres de espírito livre e insubmisso - assim como aos filhos que não se submetem aos pais - estão reservadas as maiores infelicidades nesta terra.

São João Crisóstomo, nesse sentido, ensinava que mulheres assim eram causa da destruição do lar:

"A esposa é uma segunda autoridade. Ela não deve exigir igualdade, pois está sujeita à cabeça; nem deve o marido menosprezar sua sujeição, pois ela é o corpo... Onde há autoridade igual, nunca há paz. Uma família não pode ser uma democracia, governada por todos, mas a autoridade deve necessariamente repousar em uma pessoa. O mesmo se aplica à Igreja...."

“Mas se [o domínio/liderança do lar] for de outra forma, tudo é virado de cabeça para baixo e jogado em confusão. E assim como quando os generais de um exército estão em paz uns com os outros, todas as coisas estão em devida subordinação, enquanto que, por outro lado, se eles estão em desacordo, tudo é virado de cabeça para baixo; assim, eu digo, é também aqui. Por isso, diz ele, "Esposas, sejam submissas a seus próprios maridos, como ao Senhor." (Complete Works of Saint John Chrysostom, loc. 132419.1 32426)

Santo Tomás de Aquino nos Comentários às Cartas de São Paulo é ainda mais incisivo:

“O Filósofo diz que o domínio das mulheres é a morte de uma família, como tiranos de uma comunidade.”

O Aquinate acrescenta, no mesmo comentário, que a mulher que não se submete ao marido blasfema contra a Palavra de Deus, isto é, contra a própria Revelação divina:

“A outra coisa que ela deve observar é a subordinação, porque quando uma mulher tem poder, ela tenta se opor aos planos do marido: uma mulher, se ela tem superioridade, é contrária ao marido (Sir 25:30). Portanto, ele diz, “obedientes aos seus maridos”, daí é dito: seu desejo será para seu marido, e ele te governará (Gn 3:16). E isso, “para que a palavra de Deus não seja blasfemada”, ou seja, para que sua desobediência não seja uma ocasião para blasfêmia.” 

Essa observação de Santo Tomás conduz-nos a outra conclusão: mulheres que rejeitam a submissão aos maridos não apenas odeiam homens católicos, mas o próprio catolicismo, pois, no fundo, revoltam-se contra o próprio Deus e Sua Revelação.

Católicas feministas que escolhem relacionar-se com homens mundanos ou de formação religiosa muito inferior à delas o fazem porque a vida autenticamente católica lhes seria verdadeiramente insuportável. Preferem, assim, homens que não representem ameaça alguma ao seu feminismo.

Outro ponto importante é a observação feita pelas Escrituras: se a mulher assume superioridade, a tendência é opor-se ao marido. Como já dissemos, a autoridade do marido foi dada para o bem da mulher. Se o homem conscientemente não a exerce, ou se a mulher a usurpa, o resultado é desastroso para a família.

Conclusão

Diante de tais observações, a católica feminista possui apenas dois caminhos: ou abandona o feminismo e reconcilia-se com a ordem estabelecida por Deus, aceitando humildemente os deveres da maternidade, da vida doméstica e da submissão ao marido; ou nega a realidade e permanece encastelada no pequeno e ressentido “clubinho das feministas”, onde mulheres amarguradas contra homens católicos continuam afundadas nos próprios erros, guiando a si mesmas cegamente.

O grande problema é que a rejeição da autoridade do marido jamais permanece sem consequências. Quando a mulher rejeita o chefe que Deus lhe deu, frequentemente acaba submetida a senhores muito piores: às ideologias, ao orgulho, ao mercado, às paixões desordenadas e, muitas vezes, a homens fracos, omissos ou mundanos, incapazes de conduzir uma família à santidade.

Por isso, o verdadeiro dever da mulher católica não é lutar contra a autoridade masculina, mas santificar-se dentro da hierarquia querida por Deus. Porque a autoridade do marido, quando exercida segundo a lei divina, não existe para destruir a mulher, mas para conduzi-la, protegê-la e ajudá-la a chegar ao Céu.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Conservadores se rendem ao biquíni. Não sobrou nada para a modéstia.


Recentemente, houve grande repercussão nas redes sociais em torno do tema do uso do biquíni. O debate, no entanto, revela menos uma controvérsia moral genuína e mais a confusão generalizada de conservadores católicos acerca da natureza da virtude da modéstia.

Há dois anos, publicamos neste blog o artigo “Conservadores se rendem à imodéstia”, no qual já se apontava um processo de regressão moral: costumes que haviam sido corretamente rejeitados por católicos do espectro conservador passaram a ser novamente tolerados e, depois, defendidos. Desde então, o quadro apenas se agravou. Muitos que se autodenominam conservadores passaram a adotar, na prática, os mesmos critérios morais do progressismo, apenas com uma linguagem diferente.

O episódio mais recente envolve a influenciadora Aimê Gumiero, católica recém-convertida, que afirmou publicamente que o uso de biquíni em praias e piscinas não constitui pecado. Sua argumentação segue um padrão já bastante conhecido.

Primeiramente, ela afirma que a modéstia “não é um conjunto de regras”. Essa afirmação, embora verdadeira em sentido estritamente técnico - pois a modéstia é uma virtude e não um código de direito -, é quase sempre usada de forma sofística. Na prática, serve para esvaziar qualquer critério objetivo e tornar a modéstia refém do julgamento subjetivo do indivíduo. Trata-se de um erro frequente: negar padrões razoáveis em nome de uma virtude supostamente “interior”, quando, na realidade, toda virtude moral possui atos externos regulados pela razão.

Em seguida, Aimê apela à virtude da prudência. Argumenta que a prudência exige adequação da vestimenta ao ambiente: não se usaria biquíni em uma missa, mas seria legítimo usá-lo na praia ou na piscina, pois “é isso que o ambiente pede”. Aqui se encontra um erro clássico: confundir prudência com simples rendição ao ambiente local.

A prudência não consiste em adaptar-se automaticamente aos costumes vigentes, mas em aplicar corretamente os princípios às circunstâncias concretas. Um determinado ambiente pode ser, ele mesmo, objetivamente imodesto. Nesses casos, o católico não apenas não deve conformar-se a ele, como deve evitá-lo, se possível; e, se não for possível evitá-lo, deve agir de modo mais virtuoso do que a média.

Esse princípio é claramente exposto por Pio XI ao tratar de eventos públicos de ginástica:

"Que os pais mantenham suas filhas longe do público de jogos e competições de ginástica, mas se as suas filhas são obrigadas a frequentar essas exposições, deixá-los ver que elas estejam totalmente e modestamente vestidas." (AAS, 1930, vol. 22)

Em outras palavras, se não houver necessidade, devem ser evitados; se houver necessidade, exige-se vestimenta plenamente modesta. O ambiente não legitima a imodéstia; ao contrário, agrava a obrigação de resistir a ela.

A pergunta central, portanto, não é se o biquíni é aceito socialmente na praia, mas se há causa justa para homens e mulheres permanecerem juntos em estado de seminudade. A teologia moral responde negativamente.

Antonio Peinador Navarro em "Cursus Brevior Theologiae Moralis":

"Não devem ser escusados de pecado grave as pessoas de diferente sexo que mutuamente se olham, conversam, passeiam, etc., quase nuas, nos balneários públicos, com trajes sumaríssimos que cobrem apenas as partes genitais dos homens ou das mulheres e os seios destas últimas. Embora não se procurem movidos por má intenção, entretanto o convívio demorado será necessariamente gravemente excitante. Ademais, quem assim se expõe à contemplação pública, comete pecado de grave escândalo" (COCULSA, Madrid, 1956, t. III, p. 596.)

Henry Davis em "Moral and Pastoral Theology":

"Os banhos de sol e de ar tomados juntos por membros de ambos os sexos e sem fantasias são fontes férteis de pecados graves, e não há justificativa para eles. [...] Nos exercícios de ginástica, mesmo quando se usam uniformes, deve-se ter cuidado especial com a modéstia cristã das moças e meninas, que é tão gravemente prejudicada por qualquer tipo de exibição em público." (p. 228, vol. II)

Antonio Royo Marin em "Teologia Moral para Seglares"

"Apresentam especiais perigos as excursões campestres com banho misto em açude ou rio; pois aos inconvenientes do banho público em geral devem acrescentar-se os que provém da frivolidade, leviandade e liberdade excessiva de um dia de excursão. Os pais católicos não permitirão jamais às suas filhas semelhantes excursões mistas." (Moral Especial, 551.6)

Outro ponto relevante é a contradição interna no discurso apresentado por Aimê. Afirma-se que o uso do biquíni seria moralmente aceitável apenas em determinados ambientes; contudo, ao divulgar imagens de si mesma de biquini para toda a internet, elimina-se qualquer noção coerente de “adequação ao ambiente”. A internet não é um espaço privado nem restrito, mas um meio de difusão universal.

Do ponto de vista moral, isso agrava a culpa da influenciadora, pois introduz o elemento do escândalo. A teologia moral é clara ao afirmar que a difusão de imagens provocantes constitui escândalo, na medida em que expõe um número indeterminado de pessoas a tentações.

Relembremos o que disse Teodoro Del Greco em "Compêndio de Teologia Moral" a respeito da divulgação de fotos e imagens de mulheres de biquíni:

"Concursos de Beleza. Outra ocasião de pecado e de cooperação no mal, com escândalo, é constituída hoje pelos chamados "Concursos de Beleza", subproduto de uma sociedade depravada. São concursos de caráter regional, nacional e universal, nos quais é escolhida a jovem que apresenta maiores perfeições de beleza física, para receber o título de "Miss" ou "Rainha". O atual processo seletivo é repugnante não só à consciência cristã, mas também a qualquer pessoa que tenha o mínimo senso de pudor. As candidatas ao título devem usar trajes reduzidíssimos, geralmente de tecido muito sutil, que permita os relevos de todo o corpo, até nas suas partes mais intimas. O exame é longo e minucioso, e o chamado desfile realiza-se perante numeroso público. O fato é reprovável sob todo e qualquer ponto de vista, porque constitui ocasião direta de pecado. A responsabilidade agrava-se, outrossim, pelo escândalo que causa o comparecimento da jovem ante o público muita vez heterogêneo. Isso, sem falar nas fotos e minuciosas mesuras levadas aos quatro ventos pelos rápidos veículos de publicidade, quais são a imprensa, o cinema, o rádio e a televisão." (n. 147)

"É reprovável o costume vigente em muitas academias de exibir aos pintores modelos de mulheres, cobertas somente nas partes genitais. Aqueles que, por necessidade, são obrigados a frequentar tais academias, usando as necessárias cautelas, estão justificados. [...] São escusadas, desde que usem as devidas cautelas somente se isto é o único meio para se livrarem da miséria. (n.226)"

Observa-se que a única razão que a teologia moral justifica uma mulher ficar seminua perante o sexo oposto é a grave necessidade, como realizar um trabalho imodesto para não passar fome. Aimê, no entanto, sem necessidade alguma, divulga imagens suas de biquíni voluntariamente.


O progressismo conservador entra em cena

Depois das declarações iniciais da influenciadora, houve uma reação forte. Muitos católicos perceberam corretamente o problema moral envolvido e criticaram tanto a posição quanto a exposição pública da influenciadora. Até aí, nada de inesperado. O que chama a atenção é o que acontece em seguida.

Entra em cena aquilo que podemos chamar de a ala dos conservadores progressistas. Pessoas que mantêm uma aparência conservadora, mas que, diante de qualquer tensão com o mundo, tendem sistematicamente a ceder nos princípios. É o opusdeísmo cultural por excelência.

Um dia após a polêmica, o Pe. José Eduardo resolve se pronunciar. E aqui precisamos ser claros quanto ao peso disso. Trata-se de um dos sacerdotes mais conhecidos do meio conservador no Brasil, ao lado do Pe. Paulo Ricardo, do Frei Gilson e do Pe. Leonardo Wagner. E esses três têm posições públicas claras e coerentes sobre o tema do biquíni.

O Pe. Paulo Ricardo, ao tratar dos remédios contra a pornografia, insiste na tolerância zero com aquilo que ele chama de soft porn, e cita explicitamente modelos de biquíni como exemplo.


Frei Gilson também já se posicionou contra o uso de biquínis e sungas. 



E o Pe. Leonardo Wagner deu, à época, a resposta mais conhecida e direta sobre o assunto, que se tornou viral.


Aliás, é preciso ressaltar que o Pe. Leonardo Wagner forneceu a visão moral correta acerca da frequência às praias, em plena consonância com o consenso dos teólogos:


Vemos assim que, do ponto de vista da teologia moral, a expectativa era simples: uma resposta objetiva, alinhada com a tradição moral da Igreja e com aquilo que sempre ensinaram os moralistas e os próprios sacerdotes citados. A saber: a condenação do biquíni em banhos mistos.

Mas isso não acontece com o Pe. José Eduardo. Vejamos sua resposta ao problema:

A TRETA DO BIQUÍNI

O debate “biquíni: pode ou não pode?” já nasce defeituoso porque troca a pergunta moral pela pergunta material. E a teologia moral, quando é séria, não começa pela “coisa” (tecido, centímetros, modelo), mas pelo ato humano enquanto escolhido. É exatamente isso que São João Paulo II recorda na Encíclica Veritatis Splendor (nº 78), retomando São Tomás: o “objeto” moral não é a descrição física do que se faz, mas a electio, a escolha deliberada pela qual a vontade assume aquela matéria como expressão de um sentido: de um fim próximo, de um “para quê” concreto.

Em linguagem tomista: o ato moral recebe sua espécie do objeto enquanto ordenado pela razão e querido pela vontade (cf. S. Th. I–II, q. 18). Por isso, “usar biquíni” é uma fórmula moralmente vazia, porque descreve apenas a matéria externa. A mesma matéria pode estar sob escolhas moralmente diversas. Uma mulher pode usar um traje de banho num contexto terapêutico (fisioterapia, tratamento dermatológico, reabilitação), ou num ambiente ordinário de lazer, ou ainda como instrumento de vaidade exibicionista, de sedução deliberada, de provocação calculada. A matéria pode ser parecida; a eleição é outra. E é a eleição que especifica moralmente o ato.

Quando a discussão fica no nível do “pode/não pode”, ela transforma a moral em um catálogo de objetos materiais, como se o pecado estivesse nas coisas; e isso não é catolicismo nem tomismo nem moralidade, é caricatura e burrice qualificada. O que pode ser pecado, quando o é, não é “usar X”, mas escolher X como meio para um fim desordenado: por exemplo, a ostentação de si para dominar olhares, a intenção de excitar a concupiscência alheia, o desprezo prático pela caridade e pelo bem espiritual do próximo, ou a recusa habitual da modéstia como virtude que guarda a dignidade da pessoa.

E aqui aparece por que a internet é um lugar péssimo para esse “debate”: porque o discernimento moral exige atenção às circunstâncias (ambiente, cultura concreta, intenção, previsibilidade do efeito, responsabilidade pelo escândalo em sentido próprio) e até à formação da consciência, coisas que não cabem num tribunal de cliques. Perguntar “biquíni é pecado?” é perguntar errado; a pergunta moral é: que escolha estou fazendo com isso, em que contexto, com que intenção, e que bem estou servindo ou ferindo? Se a conversa não sobe a esse nível, ela não é teologia moral: é só gente brigando por rótulos, com a matéria no lugar onde deveria estar a electio e tentando enfiar a própria ignorância na ignorância do outro.

Eu me pergunto: o que chama mais a atenção, de fato, uma mulher normal de biquíni ou uma mulher estranha parecendo uma muçulmana bem na praia? Ou, será que você está tão bem na pista que vai chamar a atenção dos outros quando nem o seu marido se sente muito interessado em você? Não sei…

Eu não tenho o costume de andar por aí sem camisa, mas, se o fizesse, quem se sentiria atraído por um bucho, cheio por acolá, que nem um boi andando de pé? Imodéstia? Acho que é mais mortificação ao próximo!...

As pessoas ficam nas nuvens, opinando a partir do seu próprio autoritarismo, quando a vida é mais simples para quem é sensato. A minha experiência, francamente, é que ninguém está muito aí para a gente.

A questão é irrelevante, a pergunta está errada e o debate é ocioso.


Em vez de responder diretamente à questão moral - o uso de biquíni na praia - o Pe. José Eduardo passa grande parte de sua manifestação afirmando que “a pergunta está errada”. E aqui já aparece um problema sério. Quando alguém insiste que a pergunta está errada, mas evita responder ao ponto central que move o debate, normalmente isso indica uma fuga do assunto.

Quando o padre afirma que “usar biquíni” é uma fórmula moralmente vazia, ele está abstraindo o problema real. Porque ninguém está discutindo um cenário terapêutico, médico ou de necessidade extrema. O contexto concreto é o banho misto, a praia moderna. E, nesse contexto, a teologia moral nunca considerou a matéria moralmente indiferente.

Quando finalmente o sacerdote se aproxima da resposta concreta, ele abandona completamente o registro teológico e passa ao deboche:

"Será que você está tão bem na pista que vai chamar a atenção dos outros quando nem o seu marido se sente muito interessado em você?"

Isso não é teologia moral. É basicamente ironia fingindo complexidade.

O padre introduz ainda um critério que simplesmente não existe na teologia moral: a autopercepção estética. 

Quando os teólogos tratam de banhos públicos e mistos, não há um único que apresente a autopercepção estética como fator moderador da modéstia, porque ela não pode depender de um critério tão subjetivo, uma vez que busca uma regra comum, objetiva e válida para todos.

E o critério sempre foi este: não é lícito a ninguém - seja gordo, magro, bonito ou feio -expor-se nu ou seminu diante do sexo oposto sem causa grave. Isso decorre do direito natural. As partes íntimas e menos honestas do corpo estão ordenadas à procriação e à intimidade, e por isso devem ser cobertas.

Aliás, todos sabem disso na prática. Basta observar o comportamento em ambientes como baladas. Mulheres que desejam atrair olhares encurtam deliberadamente suas roupas, usam decotes, vestidos justos, minissaias. Isso demonstra que a exposição do corpo não é moralmente neutra e não depende da autopercepção subjetiva, mas da própria natureza do corpo humano e de seus efeitos previsíveis.

Além disso, o critério proposto pelo padre é completamente inútil do ponto de vista moral. Pessoas consideradas feias namoram. Pessoas consideradas feias se casam. Sempre haverá quem se sinta atraído por elas. Logo, a modéstia não pode depender de como alguém se percebe esteticamente. 

O mais grave é que o Pe. José Eduardo sabe disso. Como teólogo moral, ele conhece perfeitamente esses princípios. O problema não é ignorância (ele é muito inteligente), é omissão e tergiversação. E isso ocorre porque ele se encontra engajado numa batalha constante contra grupos tradicionais, que são os que mais combatem a imodéstia. Nota-se no padre que a paixão da disputa domina e a razão começa a ceder.

E isso tem consequências. Almas se perdem. Fiéis se sentem autorizados a continuarem com a vergonhosa defesa do biquíni. A influenciadora que iniciou toda a polêmica se viu confirmada em seu erro. 



O escândalo se espalha.

Aqui precisamos falar também do problema específico das redes sociais. O Pe. José Eduardo tornou-se, na prática, um comentador compulsivo. Tudo vira conteúdo. Tudo vira resposta. Tudo vira provocação. Ele já não fala como teólogo, mas como influenciador que reage ao fluxo da internet. E isso é profundamente nocivo ao múnus sacerdotal.

Aqui relembremos conselhos fundamentais de Santo Afonso de Ligório em "A Selva" para a piedade sacerdotal, que servem muito bem aos nossos tempos marcados por padres influenciadores e tagarelas:

"O padre deve falar pouco. Quem fala muito com os homens, mostra que fala pouco com Deus. As almas de oração são avaras de palavras; quando se abre a boca do forno, escapa-se o calor. Tomás de Kempis diz: É no silêncio que a alma faz progressos. E S. Pedro Damião: O silêncio é o guarda da justiça. O mesmo nos ensina o Espírito Santo: No silêncio e na esperança estará a vossa força. Está no silêncio a nossa força, porque nunca se fala muito sem algum pecado."

"Com doçura: não se deixe ir à cólera nos seus discursos; não deixe escapar palavras injuriosas, mais próprias para azedar os ânimos, que para mover à piedade."

"Por S. Gregório de Nissa é o padre chamado um mestre da santidade. Mas, se o mestre é orgulhoso, como há de ensinar a humildade? Se é intemperante, como há de ensinar a mortificação? Se é vingativo, como ensinará a doçura?"

"Sede pacientes na humilhação. Eis o que nessas circunstâncias é necessário fazer: não se irritar nem se queixar, mas receber esses desprezos como justos castigos dos próprios pecados."

O sacerdote é chamado a ser mestre de santidade. Mas se se deixa dominar pelo orgulho, pela ironia, pela agressividade ou pela necessidade constante de responder, como ensinará humildade, moderação e prudência? O sacerdote ao perder o silêncio perde também a autoridade.

Mas o problema não terminou aí. Em seguida, em nova intervenção, o Pe. José Eduardo declarou estar “preocupado com os homens da nossa geração”, afirmando que muitos não conseguem olhar para uma mulher em traje de banho sem se sentirem tentados. E aqui precisamos parar e analisar com calma, porque essa fala introduz uma inversão moral extremamente grave.



Essa linha de raciocínio dialoga diretamente com o discurso do feminismo católico. Como já analisamos inúmeras vezes, a imodéstia feminina é uma bandeira central do feminismo. Quando mulheres são corrigidas por se vestirem de modo indecente, a resposta quase automática é: “os homens que se controlem”, “cuidem da própria taradice”, “o problema está no olhar masculino”.

É evidente que o homem é moralmente responsável pelo seu olhar. Ninguém nega isso. Homens chamados à castidade devem lutar contra pensamentos, desejos e movimentos desordenados. Contudo, disso não se segue - nem nunca se seguiu - que a mulher esteja dispensada da obrigação da modéstia. A Igreja sempre tratou essas obrigações como complementares, não como excludentes.

Além disso, homens verdadeiramente empenhados na castidade tendem, justamente por isso, a ser mais severos com as ocasiões de pecado. Eles não apenas resistem melhor às tentações, como também continuam exortando contra os trajes indecentes, tanto para elevar o padrão moral da sociedade quanto para evitar recaídas futuras. Como adverte São Paulo: “Aquele que pensa estar de pé, cuide para não cair” (1 Co 10,12).

No contexto concreto dessa polêmica, não se está discutindo “trajes de banho” em sentido genérico. Está-se falando do biquíni, o menor traje de banho existente, que se aproxima o máximo possível da nudez sem sê-lo formalmente. O esforço pela modéstia é unilateralmente do homem neste caso. Não há nenhuma razão proporcional para que mulheres andem com ele em público. Ele é indecente por si mesmo no contexto do banho misto. Por isso, homens estão plenamente justificados em exortar contra o seu uso público, independentemente de se sentirem pessoalmente atraídos ou não.


PS: O padre foi dirigido por padres do Opus Dei... Que surpresa... Só podia ser o Chaves, não?

Aqui ocorre outra distorção grave.

A luta ascética positiva é válida e necessária nas circunstâncias ordinárias da vida: trabalhar, estudar, circular pelas ruas, cumprir os deveres de estado. Nessas situações, o cristão não pode fugir do mundo e deve, de fato, educar seus sentidos e seu interior.

Mas isso não se aplica às ocasiões próximas de pecado. A tradição espiritual é absolutamente clara: diante de uma ocasião próxima e voluntária de pecado, a regra não é “treinar virtude”, mas fugir. A luta, nesse caso, é NEGATIVA. Evita-se o ambiente. Afasta-se da situação. Ninguém é chamado a provar sua virtude se expondo inutilmente ao perigo.

Colocar-se voluntariamente numa ocasião grave sem necessidade é, em si, um pecado. E diversos autores espirituais ensinam que, nessas circunstâncias, Deus não concede a graça eficaz para resistir. Não existe “luta ascética positiva” contra uma praia cheia de pessoas seminuas. O mandamento é simplesmente fugir.


O padre ignora completamente o contexto real em debate. Ou melhor, omite. Uma praia moderna, com milhares de mulheres seminuas, não exige “bisbilhotice” para provocar tentação. Basta enxergar. Apenas um cego não vê. Os exemplos dados - andar na rua, ser abordado por uma mulher mal-vestida - não são comparáveis, porque não envolvem busca voluntária da ocasião. A ida à praia envolve.


Aqui a confusão continua seu curso.

Sim, o mundo oferece inúmeras ocasiões de pecado. Mas isso não significa que todas sejam equivalentes. A teologia moral sempre distinguiu ocasiões remotas de ocasiões próximas, e ocasiões necessárias de ocasiões voluntárias. Pessoas não andam ordinariamente seminuas nas ruas, nos mercados ou nos ambientes de trabalho. A própria defensora do biquíni reconhece isso ao dizer que ele só seria “adequado” à praia e à piscina.

Ao equiparar o ambiente público ordinário à praia moderna, o padre legitima justamente o pior dos ambientes. E, ao fazer isso, libera a prática para os fiéis. É o que se constata nos comentários da publicação.






O resultado é previsível: seguidores sentem-se autorizados não apenas a manter esse costume objetivamente desordenado, mas também a suspeitar de homens que exortam contra ele das piores perversões sexuais possíveis. 


E o mais grave: o argumento não prova absolutamente nada. Não prova que o uso do biquíni seja lícito. Nem prova que quem o critica esteja errado. Pelo contrário.

Primeiro ponto: quem pratica uma virtude adquire maior clareza intelectual para identificar e combater os vícios contrários a ela. O vício, ao contrário, obscurece o juízo prático. Um homem habituado à pornografia torna-se progressivamente mais tolerante às ocasiões próximas. Ele normaliza a nudez, depois a seminudade, e deixa de perceber o problema moral. Esse é um efeito clássico da habituação ao vício. Não há qualquer sentido em pervertidos sexuais serem mais rigorosos com a modéstia do que os virtuosos.

Por isso, todos os conselhos espirituais sérios para o combate à pornografia insistem na eliminação das ocasiões próximas. O Pe. Paulo Ricardo, como vimos, ensina explicitamente que o homem deve evitar olhar mulheres de biquíni. Não se combate uma cultura pornográfica ampliando estímulos sensuais, mas restringindo-os.

Segundo ponto: mesmo que alguém que defenda a modéstia esteja pessoalmente lutando contra um vício sexual, isso não invalida em nada o argumento moral. A verdade de um princípio não depende da santidade subjetiva de quem o enuncia. Um pecador pode exortar legitimamente à virtude.

Um homem pode condenar a gula mesmo sendo obeso. Santo Tomás era obeso, e isso jamais invalidou sua doutrina sobre a temperança. Do mesmo modo, um homem que luta contra a pornografia pode - e deve - condenar trajes imodestos, porque está promovendo um bem objetivo para toda a sociedade.

Mesmo que fosse um hipócrita, o erro estaria apenas na incoerência pessoal, não na verdade defendida. 

No fundo, o que estamos vendo é uma inversão completa: transforma-se a imodéstia em algo neutro, e a defesa da modéstia em suspeita de perversão sexual. Os inimigos da Igreja fazem algo parecido. O movimento LGBT, por exemplo, acusa a Igreja de ser homofóbica justamente por muitos dos seus líderes serem homossexuais, esquecendo-se que isso não torna o pecado da sodomia em algo virtuoso. Esta inversão é satânica, pois consiste exatamente em chamar o mal de bem e o bem de mal.


Conclusão 

Para concluir, é preciso deixar isso absolutamente claro: não estamos discutindo preferências pessoais ou costumes culturais, mas princípios objetivos da moral da Igreja. Quando esses princípios são relativizados, as consequências não são abstratas - são espirituais. Consciências se confundem, o pecado perde sua gravidade e as almas ficam mais vulneráveis à ação do Inimigo.

A modéstia não é opcional nem circunstancial. Ela é uma exigência do direito natural e uma forma concreta de caridade. Enfraquecê-la não protege ninguém; ao contrário, expõe os mais fracos e normaliza ocasiões próximas de pecado.

Sacerdotes têm uma responsabilidade particular nesse ponto. Suas palavras formam consciências. Quando a clareza é substituída por ambiguidades ou por omissões calculadas, o resultado é o escândalo. O sacerdote deixa de ser luz e torna-se pedra de tropeço. 

Por fim, o católico precisa escolher se seguirá a tradição moral da Igreja ou se continuará tentando conciliar a verdade com o espírito do mundo. Essas duas coisas são incompatíveis. É da obediência à verdade que depende a salvação da nossa alma e a vitória de Cristo sobre o pecado.

sábado, 27 de dezembro de 2025

"Vocação para trabalhar fora?" Pe. Scaramelli refuta o feminismo católico.


Já tratamos neste blog, em diversas ocasiões, do chamado “feminismo católico”, mostrando as múltiplas vias pelas quais ele tem penetrado inclusive no meio conservador. Longe de arrefecer, esse fenômeno renova-se continuamente, alargando sua influência e assumindo novas formas.

Entre seus traços mais característicos está a defesa do trabalho externo da mulher casada. Trata-se de uma marca constante do feminismo moderno. A tradição católica, expressa no ensinamento de inúmeros papas, teólogos e santos, sempre manifestou sérias reservas diante da cultura que afasta a mulher do lar e do cuidado da família para conduzi-la à busca de interesses próprios fora dele. Sobre isso, já publicamos diversos textos, entre os quais:

"O Trabalho da Mulher Casada e a Direita Feminista"

"Ser do lar pelos filhos, sim! Pelo marido não. O feminismo conservador ataca novamente."

"REACT - Live do Pe. José Eduardo e Jéssyca Jacóbus."

Aliás, deveria ser evidente, à luz do discernimento espiritual, que, se o dever impele ao cuidado do lar, o seu o contrário - o trabalho externo -, nada mais é do que um impulso suspeito, com cheiro de tentação.

Mais recentemente, o argumento tem sido reformulado. Sustenta-se agora que a mulher possuiria “múltiplas vocações”, que não se esgotariam na esfera doméstica, e que negar tais vocações equivaleria a uma violência contra si mesma. Essa tese foi retomada por diversas influenciadoras conservadoras. Aqui, porém, examinaremos a forma mais articulada dessa ideia, apresentada em um vídeo de Letícia Cazarré.

Letícia Cazarré é esposa de Juliano Cazarré, ator da Rede Globo, atualmente no elenco da novela Três Graças. Não se vê razão plausível para a admiração quase acrítica de que o casal goza em certos ambientes conservadores católicos.

Nos últimos anos, Juliano participou de diversas novelas, algumas das quais lhe impuseram cenas românticas com outras atrizes, apesar de seu estado matrimonial. Ora, segundo a doutrina moral católica, profissões que expõem habitualmente ao pecado grave devem ser abandonadas. Acrescente-se a isso o fato de Letícia ter divulgado, em 2024, imagens de sua família no Rock in Rio, evento amplamente criticado e evitado por católicos conscientes, inclusive por sacerdotes de orientação conservadora, como o Pe. Paulo Ricardo.

Não há, portanto, fundamento razoável para que o casal seja erigido como referência espiritual ou convidado para eventos religiosos. Ainda que adotem algumas posições conservadoras, permanecem profundamente inseridos no modo de vida próprio do meio artístico secular.

Sabe-se, ademais, que são próximos do Opus Dei. Um sacerdote verdadeiramente preocupado com sua salvação, exercendo a caridade na forma mais elevada - a franqueza -, aconselhá-los-ia a afastar-se de um ambiente que os conduz continuamente a concessões morais.  Esperamos que algum sacerdote corajoso os ajude nessa virada de chave.

Voltemos, porém, ao ponto central.

Após anos dedicados ao lar, Letícia Cazarré - já como girl boss - publicou um vídeo intitulado “Lugar de Mulher Católica é em Casa?”, no qual apresenta sua experiência pessoal como fundamento para uma revisão do ideal tradicional. O núcleo de seu argumento é simples: cada mulher teria uma história própria; logo, o modelo da mulher do lar não poderia ser universal.


Comecemos com a descrição do vídeo:

"Durante muito tempo se repetiu que o lugar da mulher católica era, exclusivamente, em casa. Essa visão ganhou força, encantou muitas de nós e parecia o ideal perfeito no papel. Mas, com o passar do tempo, o que parecia belo trouxe também frustração, cobranças internas e até culpa por não conseguir se encaixar nesse molde. A verdade é que cada mulher tem uma história, dons e caminhos únicos diante de Deus — e não existe uma forma única de viver a vocação feminina. Neste episódio do *Vai Por Mim*, vamos conversar sobre como essa ideia surgiu, por que tantas mulheres tentaram segui-la e o que aprendemos com essa experiência. Se tem feito sentido pra mim olhar para isso com mais clareza e liberdade, pode fazer pra você também. Vem comigo!"

Essa linha de raciocínio não é nova. Trata-se de uma aplicação típica do nominalismo feminista à teologia moral. Quando o ensinamento universal da Igreja não pode ser diretamente negado, procura-se relativizá-lo pela exceção subjetiva.

A Igreja, entretanto, sempre ensinou que, no matrimônio, a prioridade da mulher está no cuidado do lar e da família. Esse princípio não é fruto de circunstâncias históricas passageiras, mas de uma compreensão objetiva da ordem natural e sobrenatural. Diante disso, feministas recorrem a uma teologia ad hoc de “vocação”. Vejamos o que Letícia diz a respeito:

"Eu vivi 6 anos totalmente dedicados à minha casa e à minha família e eu posso falar que foi essencial. Foi um dos momentos mais marcantes, importantes e transformadores da minha vida. E eu, Letícia, particularmente, faria tudo de novo. Só que pra mim chegou um momento em que eu precisei lembrar de quem eu era. Veio uma inquietação, uma coisa silenciosa, em que eu precisei me perguntar: E minha contribuição para o mundo lá fora? [...] Eu sentia que eu tinha algo dentro de mim, um chamado, uma vocação para criar, ensinar, para transformar vidas, não só dentro da minha casa, mas também fora de casa. Como diz uma amiga minha: "Essa vontade de trabalhar também foi Deus que colocou no nosso coração.
A psicologia do desenvolvimento humano, por exemplo, mostra que a gente tem múltiplas vocações, simultâneas. E que negar totalmente uma delas - como a intelectual ou a profissional - gera sintomas ruins. Gera ansiedade, frustração, perda de sentido. [...] A psicologia mostra que quando uma parte de quem a gente é é negada por muito tempo acontece um desequilíbrio. Não porque você está errada, mas é porque é como se estivesse incompleta. A teologia e Tradição cristã também falam disso. Elas valorizam o lar, mas também honram o trabalho. Santa Zélia, Santa Gianna, Santa Teresa D'Ávila, todas elas trabalhavam."

Convém, portanto, esclarecer o termo. Em sentido teológico clássico, vocação é o chamado sobrenatural de Deus a um estado de vida. Tradicionalmente, reconhecem-se três: sacerdócio, vida religiosa e matrimônio. Vocação não se confunde - erro comum dos conservadores olavetes - com profissão, talento ou inclinação psicológica. Uma pessoa pode exercer diversas profissões e ter muitos talentos, mas não há múltiplas vocações divinas.

Uma vez assumido o estado de vida, toda a personalidade, bem como os talentos naturais, devem ordenar-se a ele. É o estado que define a identidade fundamental da pessoa.

Letícia, porém, afirma ter experimentado uma “inquietação” que a levou a questionar “quem ela era”. Tal afirmação revela uma dissociação entre identidade e estado de vida. Ora, é precisamente o estado de vida que manifesta quem a pessoa é: o sacerdote como sacerdote, o religioso como religioso, o casado como casado.

Aqui é oportuno recordar o ensinamento do Pe. Giovanni Battista Scaramelli. Em sua obra "Discernimento dos Espíritos", ele ensina que todo impulso que leva alguém a desgostar-se de sua vocação ou a desejar algo estranho a ela deve ser considerado suspeito. A constância no estado assumido é condição ordinária de santificação:

"O espírito que, depois de feita a eleição do estado, anseia outro estado, deve-se ter por muito suspeito, porque o Apóstolo quer que cada um se mantenha constante em sua vocação. E acrescenta Santo Efrém, que naquele estado a que temos sido chamados, deixemos a âncora e atemos ao cabo o nosso barquinho, se não queremos nos perder no mar lamacento desta vida. E por isso, quando alguém se tem fixado em algum estado, não deve aspirar a outro, mesmo que pareça ou seja na realidade mais perfeito, senão que deve procurar a sua perfeição naquele em que Deus o colocou.

[...] 

Assim procedia o Apóstolo com os novos cristãos da primitiva Igreja. Caminha, dizia-lhes, retamente, segundo a forma da vocação pela qual Deus os chamou. Vossa vocação requer humildade, mansidão, paciência e caridade. Trilhais este caminho, e chegareis seguros à pátria celestial. Assim fazia São Bernardo, que para caminhar com retidão e segurança pelo caminho da perfeição colocava sempre diante de si mesmo sua vocação. Daí se segue que certas resoluções, ainda que santas à primeira vista, de abandonar a própria vocação, para passar a outro estado (ou mais retirado, ou mais austero, ou mais trabalhador, ou mais devoto), de ordinário devem atribuir-se ou à inconstância da natureza ou à ilusão diabólica.

[...]

O espírito que é levado a coisas incomuns (fora do costume), singulares e que não são próprias de seu estado, é grandemente duvidoso. Assim, seria duvidoso o espírito de um religioso de vida ativa ou mista que amasse demasiado a solidão, o retiro e a contemplação. Duvidoso também o espírito de um religioso de vida contemplativa que quisesse atender à saúde espiritual dos outros com a pregação e demais obras, próprias da vida ativa. Duvidoso é o espírito de uma casada que não quisesse acomodar-se a seus empregos, mas que desejasse fazer vida de monja em sua casa, e de um casado que quisesse viver como religioso no exterior. Duvidoso seria o espírito daquele monge de claustro que, relativamente ao vestir, comer e outras operações cotidianas, quisesse afastar-se do que prescrevem as regras e os costumes de seu monastério." (p. 111)

Letícia não se detém nesse discernimento. Parte do pressuposto de que a inquietação interior é necessariamente divina, simplesmente porque confirma seus desejos. Não distingue a voz de Deus da própria vontade.

A preocupação com o “legado” pessoal e com a “contribuição para o mundo” revela, além disso, um traço típico de vaidade espiritual. Pe. Scaramelli, novamente, alerta contra esse tipo de impulso descrevendo como uma moção tipicamente diabólica:

"O demônio, sabendo que as coisas novas e singulares, de ordinário, excitam admiração em quem as vê e vaidade em quem as pratica, é muito amigo de sugeri-las aos entendimentos menos humildes e pouco cautelosos, e de atraí-los a essas coisas com aparência de uma rara virtude."

"O demônio vem disfarçadamente para nos enganar com bons afetos, e com pensamentos aparentemente devotos, mesmo que em princípio cause algum deleite, no fim deixa sempre a alma inquieta e turbada."

Nesse discurso sobre “minha contribuição para o mundo”, subjaz ainda o vício da especialidade: o desejo de ser vista como alguém singular, indispensável. Trata-se menos de caridade e mais de ego. A caridade olha para a necessidade; a vaidade, para si.

Afirmar, ademais, que só se contribui com o mundo mediante uma profissão externa equivale a negar o valor social e espiritual do trabalho doméstico - o que é manifestamente falso - como ensina São João Paulo II:

"A experiência confirma que é necessário aplicar-se em prol da revalorização social das funções maternas, dos trabalhos que a elas andam ligados e da necessidade de cuidados, de amor e de carinho que têm os filhos, para se poderem desenvolver como pessoas responsáveis, moral e religiosamente amadurecidas e psicologicamente equilibradas." (Laborem Exercens, n. 19)

Scaramelli ensina ainda que, quando Deus chama alguém a algo verdadeiramente fora de seu estado, Ele manifesta essa vontade por sinais especiais, não por inquietações vagas ou impulsos genéricos.

"Necessário advertir ainda que quando Deus elege uma alma para coisas que não são próprias de seu estado, ou que são pouco conformes ao instituto de vida que foi abraçado, costuma dar sinais especiais de sua vontade. Assim, Santa Catarina de Sena, havendo chegado à presença de Gregório XI para tratar a reconciliação dos florentinos com a Santa Igreja, manifestou ao Sumo Pontífice os pensamentos e desejos ocultos que tinha em seu coração, de voltar a Roma, que a ninguém havia manifestado; e com isto deu o Senhor claros sinais de que a Santa Virgem era inspirada por Deus para empreender aquela expedição, ainda que incompatível com a sua condição. Assim também, ocupando-se São Bernardo fora do claustro com seculares em públicos ou privados negócios, fazia a cada passo milagres com os quais autenticava o Senhor o seu espírito. Assim, à Santa Maria Madalena de Pazzi se lhe inchavam as pernas caso calçasse, tal como as outras religiosas, e se desvanecia todo inchaço quando andava com os pés descalços. Se jejuava a pão e água, retinha a comida que era assimilada com proveito, mas se tomava outros mantimentos, logo os rejeitava com ímpeto." (p. 114)

A inquietação relatada por Letícia, ao contrário, é difusa, indeterminada, estéril. A moção divina é clara e distinta; a diabólica, confusa e inquietante, como nos ensina Scaramelli:

"O espírito divino traz sempre luz à nossa mente. Deus freqüentemente declara na Sagrada Escritura que Ele é luz, sem mescla de obscuridade nem trevas." (p.58)

"A primeira marca do espírito diabólico sobre os atos da vontade é a inquietude, a turbação e o alvoroço, afetos de todo opostos à paz que Deus comunica." (p. 93)

Letícia prossegue e afirma que uma amiga a aconselhou dizendo que Deus colocou em nosso coração o desejo de trabalhar fora. De onde essa amiga tirou isso? O trabalho externo da mulher sempre foi visto pela Igreja e pela teologia católica como um dos maiores inimigos externos da família. Como, de repente, tornou-se moção divina?

Não há fim para o abismo do feminismo conservador.

Por fim, Letícia recorre à “psicologia do desenvolvimento humano” para sustentar a tese das múltiplas vocações e afirmar que não segui-las é "anular si mesma". Cazarré cai numa psicologia rasa, divorciada da teologia. Ansiedade, frustração e perda de sentido jamais são critério último para o católico. Muitas vezes, são precisamente sinais de tentação, como ensina Scaramelli.

"O demônio não só é pai da mentira, mas também das trevas; e por isso, quando investe contra nós abertamente, faz o que é próprio de sua natureza, e produz em nossa mente trevas, obscuridade e escuridão. Isso é o que nos assegura São João Crisóstomo. E então ofusca a mente, obscurece o entendimento, enche a alma de tribulações, de ansiedade e angústias." (p.66)

"O sétimo sinal é a desordem (desconcerto) das paixões. São Gregório compara o demônio ao lobo, que, entrando na manada, alvoroça todo o rebanho. Com a sua chegada todas as ovelhas se põem em movimento e consternação; treme, perde-se, salta e foge. Assim, o inimigo do gênero humano, saindo das cavernas do inferno, qual lobo furioso, entre nas almas e as revoluciona inteiramente. Comove as paixões, agita-as, desconcerta-as e as põem em tumulto." (p. 104-105)

O católico não deve simplesmente ceder às angústias fazendo aquilo que lhe agrada, mas antes discernir sua causa. Se tais angústias surgem da fidelidade à vocação, não procedem de Deus.

Ao contrário, o espírito divino conduz à mortificação dos próprios desejos. O Evangelho é claro: negar-se a si mesmo, carregar a cruz e seguir a Cristo.

"O sétimo sinal é a mortificação voluntária das inclinações internas. Não se pode pôr em dúvida que seja isto um sólido caráter do espírito divino, porque o próprio Redentor nos disse por Sua boca. Veja-se aqui a divisa dos seguidores de Cristo e que têm seu espírito: abnegar-se a si mesmo, contradizer a seus desejos e abater suas paixões. Quem são os generosos soldados do Redentor, que conquistam seu Reino celestial? Os mortificados, que fazem força e violência a si mesmos. Para que um grão de trigo produza frutos, necessário se faz que morra sepultado na terra; assim, para que o homem produza frutos de vida eterna, convém que também morra com o exercício de uma incessante mortificação." (p. 88)

É exatamente isso que desmonta a retórica feminista do “não podemos nos anular”. O espírito divino manda anular-se; o espírito do mundo manda afirmar-se.

Santa Gianna Beretta Molla, frequentemente citada como exemplo contrário, confirma precisamente essa verdade. Ela chegou a prometer abandonar a carreira médica para dedicar-se integralmente à maternidade, mesmo reconhecendo o sofrimento que tal renúncia lhe causaria. Não ignorou a frustração; subordinou-a a um bem maior.

"Depois de retornar a Ponte Nuovo, Gianna tentou reorganizar sua vida, querendo encontrar tempo para tudo: Pietro e seus filhos, o gerenciamento de sua casa e sua prática médica. Pietro viu como ela sempre estava ocupada e perguntou se ela consideraria desistir de sua prática. O olhar que Gianna lhe deu em resposta, no entanto, desencorajou Pietro de perguntar novamente. “Eu prometo a você”, ela lhe disse um dia, “que quando tivermos mais um filho, interromperei meu trabalho médico e serei mãe em tempo integral, mesmo que isso seja difícil para mim”. (Santa Gianna Beretta Molla: A Woman's Life. Giuliana Pelucchi)

Eis a diferença essencial. O sofrimento não desaparece, mas é iluminado pelo sentido da vocação. Por isso, não pode jamais ser o critério último das decisões de quem pretende viver segundo a fé católica.

Conclusão

Em suma, o discurso das “múltiplas vocações” não passa de uma tentativa moderna de dissolver, por vias psicológicas e subjetivistas, um ensinamento constante da Igreja. Ao confundir vocação com inclinação ou talento, substitui-se a ordem objetiva da vida cristã por uma leitura emotiva da experiência pessoal.

A tradição da Igreja jamais ensinou que a fidelidade à vocação se mede pela ausência de sofrimento ou frustração. Ao contrário, sempre soube que a cruz acompanha necessariamente todo chamado autêntico de Deus. Quando o mal-estar interior se torna critério último de decisão, já não se discerne a vontade divina, mas apenas se legitima o próprio querer.

No matrimônio, a mulher encontra no cuidado do lar e da família não uma negação de si, mas a forma própria e ordinária de sua realização moral e espiritual. Eventuais exceções, quando verdadeiramente queridas por Deus, manifestam-se de modo claro e evidente; não nascem de inquietações vagas nem de racionalizações tardias.

O verdadeiro discernimento não começa perguntando “o que me faz sentir melhor”, mas “a que estado Deus me chamou”. Fora dessa ordem, toda teologia da vocação degenera em psicologismo e toda liberdade acaba reduzida à submissão às próprias paixões. É precisamente essa inversão que o chamado feminismo conservador insiste em promover - e é contra ela que a razão católica deve permanecer vigilante e firme.

Católicas feministas odeiam homens católicos. E elas perderão tudo com isso.

Algumas páginas católicas feministas estão compartilhando um “estudo” que atesta que o movimento “tradwife” tem atraído homens que “odeiam” ...