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quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

As grandes bobagens de Viviane Varela (O Catequista) sobre as diaconisas e o serviço feminino do altar


A página O Catequista, conhecida pelo seu progressismo, atacou novamente. Desta vez, por meio de sua administradora Viviane Varela, que tem se notabilizado por aderir ao feminismo católico, a página veio justificar o uso de acólitas na celebração da Santa Missa.


O que foi mais notável, porém, foram as inumeráveis afirmações históricas falsas feitas por Viviane para defender o acolitato feminino. Vamos a elas.

Viviane busca responder uma pergunta da caixinha do Instagram que fazia o seguinte questionamento:


Viviane primeiro faz a distinção entre "Tradição" com "T" maiúsculo e "tradição" com "t" minúsculo e responde que a "Tradição" nunca proibiu. Em seguida afirma que na Igreja Primitiva as mulheres participavam do serviço do presbitério exercendo um papel litúrgico, como a unção do óleo do batismo nas mulheres, que eram batizadas nuas.

A primeira coisa que se nota é a imprecisão de Viviane a respeito do serviço feminino no presbitério. Não há evidências robustas de que os batismos antigos eram realizados no presbitério. Na verdade, as principais piscinais batismais dos primeiros séculos que hoje temos evidência encontravam-se em construções separadas das igrejas e eram chamadas de batistérios, como informa Tribe Shawn em artigo para a Liturgical Arts Journal:
"Nos tempos antigos, pelo menos para igrejas maiores, frequentemente se via um edifício separado como batistério. Pode-se pensar aqui no batistério da basílica de Latrão, localizado no edifício octogonal do século III atrás da basílica propriamente dita. Fora do duomo de Florença e Pisa, também se pode ver batistérios de formato semelhante."
O mesmo é atestado por Catherine Brown Tracz aqui:
"Na maior parte da Igreja, portanto, uma solução veio naturalmente quando um problema pastoral surgiu com o batismo. Inicialmente, o batismo era de adultos nus. Como a Igreja poderia salvaguardar a modéstia das mulheres sendo batizadas e dos homens que as batizavam? Parte da resposta foi construir batistérios com cortinas, uma com uma abertura pela qual o padre ou diácono pudesse alcançar para colocar sua mão na cabeça da mulher batizada e pronunciar a fórmula batismal." (p. 190)
Seguem algumas imagens desses batistérios:

Batistério de Latrão


Batistério de Pisa

Mesmo na Tradição das Igrejas orientais a evidência de mulheres no santuário é escassa. Pe. Aimé Georges Martimort, que realizou o principal estudo do século XX sobre diaconisas em seu livro "Deaconess: An Historical Study", afirma que, no rito bizantino, as diaconisas jamais tiveram acesso ao santuário:
"Em nenhum momento as diaconisas no rito bizantino tiveram acesso ao santuário, nem essa proibição foi de alguma forma baseada nas visões de impureza encontradas no Livro de Levítico. O único texto que fez alguma alusão a isso não era nem grego. Foi uma resposta do bispo sírio, João de Telia, e essa questão dizia respeito apenas à competência da diaconisa no convento na ausência de um padre ou diácono. Mas quando Teodoro registrou que “hoje as diaconisas não são mais ordenadas”, devemos levá-lo ao pé da letra? Ou ele, devido à ideia inexata que tinha da antiga instituição da diaconisa, considerou as diaconisas presentes em Constantinopla em seu tempo como não sendo verdadeiras diaconisas?" (p. 172)
A segunda coisa que se observa é que Viviane não traz um mísero exemplo da Tradição litúrgica da Igreja de serviço feminino no altar, que era, de fato, o objeto da pergunta. E falha por um motivo muito simples: ele não existiu na Tradição da Igreja.

Ao contrário do que alega o Catequista, o serviço feminino no altar sempre foi repreendido pela Igreja e sua prática sempre envolveu costumes de igrejas cismáticas que praticavam a ordenação de diaconisas. Um exemplo disso eram os chamados Montanistas. Eles ordenavam diaconisas e admitiam o serviço feminino do altar. Essa prática foi condenada pelos concílios regionais de Nimes, Oranges e Laodicéia. Aliás, sempre que o serviço feminino era retomado na História da Igreja havia Concílios Regionais que condenavam a prática apelando sempre à Tradição Apostólica e e à tradição eclesiástica da Igreja. Senão vejamos algumas dessas condenações:

Concílio de Nimes (394 d.C):
"Cânon 2. Naquela época, alguns sugeriram que, contrariamente à disciplina apostólica, até então desconhecida, as mulheres eram levadas para o ministério levítico em algum lugar; o que aliás, por ser indecente, a disciplina eclesiástica não admite; e tal arranjo deveria ser desfeito como contrário à razão: deveria-se tomar cuidado para que ninguém mais ouse fazer isso. ”
Concílio de Orange (441 d.C):
Cânon 26. As diaconisas não devem ser ordenadas sob qualquer hipótese: se houver, submetam a cabeça à bênção que é concedida ao povo.
Concílio de Laodicéia (365 d.C.): 
“Mulheres não podem se aproximar do altar.” (Cânon 44)

Concílio de Paris:

"Cânon 45. Temos procurado por todos os meios possíveis impedir a admissão ilícita de mulheres no altar. Soubemos por meio de um relato de pessoas confiáveis ​​que em algumas províncias, em contradição com a lei divina e com a instrução canônica, as mulheres se dirigem à área do altar, impudentemente pegam os vasos sagrados, estendem as vestes sacerdotais aos sacerdotes e — o que é ainda pior, mais indecente e impróprio do que tudo isso — dão ao povo o corpo e o sangue do Senhor e fazem outras coisas que em si mesmas são indecentes [ quae ipso dictu turpia sunt ].

É mais surpreendente como essa prática, não permitida na religião cristã, pôde se infiltrar; isto é, como as mulheres, a cujo sexo não é de forma alguma adequado fazer o que é contrário à lei divina, puderam se permitir fazer o que é proibido aos homens seculares. Sem dúvida, ocorreu por descuido e negligência de alguns bispos. Portanto, ai de nós, padres, em cujas mãos os fardos daquele padre passaram, como são descritos em Mach. 2: Pois eles realmente desconsideraram seu dever que lhes foi delegado para o culto e, enquanto o templo de Deus estava sem serviço sagrado, entregaram-se a paixões carnais e ações ilícitas, de modo que as mulheres, sem que ninguém as impedisse, se dirigiram a casas consagradas e ali puderam introduzir coisas não permitidas."

O Magistério dos Papas também não ficou em silêncio e igualmente confirmou a condenação do serviço feminino no altar.

Papa São Gelásio em Carta aos Bispos da Lucânia (496 dC):

"Com impaciência, ouvimos que as coisas divinas sofreram tanto desprezo que as mulheres são encorajadas a servir nos altares sagrados, e que todas as tarefas confiadas ao serviço dos homens são executadas por um sexo para o qual essas [tarefas] não são apropriadas" (Mansi VIII, 44).
O mesmo é confirmado pelo Papa Bento XIV:
“O Papa Gelásio, em sua nona carta (cap. 26) aos bispos da Lucânia, condenou a prática maligna que havia sido introduzida de mulheres servindo ao padre na celebração da missa. Como esse abuso havia se espalhado para os gregos, Inocêncio IV proibiu estritamente em sua carta ao bispo de Tusculum: 'As mulheres não devem ousar servir no altar; elas devem ter esse ministério completamente recusado.' Nós também proibimos essa prática nas mesmas palavras em Nossa constituição frequentemente repetida Etsi Pastoralis, seção 6, nº 21.”
Código de Direito Canônico de 1917:
"Cânon 813. Cuide-se para que nenhuma mulher ouse caminhar até o altar ou ministrar ao sacerdote ou ficar de pé ou sentar-se dentro da capela-mor" (c. 1, X).

Liturgicae Instaurationes (1970):

"Em conformidade com as normas tradicionais da Igreja, as mulheres (solteiras, casadas, religiosas), seja em igrejas, lares, conventos, escolas ou instituições para mulheres, estão proibidas de servir o sacerdote no altar."

Do exposto, devemos concluir que a Tradição da Igreja sempre proibiu a participação feminina no serviço do altar.

A qual Tradição pertence o serviço masculino do altar?

Convém questionarmos agora qual Tradição proibiu o serviço feminino do altar. Para tanto, expliquemos o que significa "Tradição".

"Tradição" não possui um sentido unívoco e diversos teólogos buscaram distinguir os tipos de tradição. Expliquemos seus sentidos:

Quando o autor da Tradição é Deus:
a) Tradição Dominical - Aquilo que Cristo instituiu oralmente. Ex: indissolubilidade do matrimônio e os preceitos da caridade).

b) Tradição Apostólica/Divino-Apostólica - Aquilo que os Apóstolos instituíram sob inspiração do Espírito Santo. Ex: ordenação de diáconos.
A Tradição fundada por Deus é imutável e não pode ser alterada.

Quando o autor da Tradição é a Igreja:
a) Tradição humano-eclesiástica: Tradições iniciadas pelos Apóstolos, mas que não foram divinamente reveladas. Ex: ritos da Igreja, leis de jejum e abstinência que diferem de igreja para igreja, etc.

b) Tradição meramente eclesiástica: é toda aquela instituída pela Igreja após o tempo dos Apóstolos. Ex: festas litúrgicas.
A Tradição fundada pela Igreja pode ser alterada. No entanto, cabe aqui uma observação oportuna. A mudança não pode ser arbitrária. Como observa o Pe. Chad Ripperger em se livro"Topics on Tradition":
"Além disso, quanto mais longa a tradição humano-apostólica, maior a causa para uma mudança deve ser manifesta. Portanto, se uma tradição humano-apostólica está em vigor desde o tempo dos Apóstolos, somente sob as mais graves circunstâncias ela deve ser mudada, já que a vontade de Deus é manifesta em Sua aprovação da tradição, já que ela permaneceu em vigor por tal duração."
Estabelecidas estas distinções, perguntemo-nos: a qual Tradição o serviço masculino do altar pertence?

Podemos afirmar, sem sombras de dúvidas, que pertence à Tradição divina, porque é um serviço ínsito aos poderes do presbítero e do diácono. Relembremos quais são eles:
"O presbiterado consagra os sacerdotes “à imagem de Cristo, sumo e eterno sacerdote (Hebr. 5, 1-10; 7,24; 9, 11-28), para pregar o Evangelho, apascentar os fiéis e celebrar o culto divino, como verdadeiros sacerdotes do Novo Testamento” (Lumen Gentium, 28).

"O diaconato serve o presbiterato. “É próprio do diácono, segundo for cometido pela competente autoridade, administrar solenemente o Batismo, guardar e distribuir a Eucaristia, assistir e abençoar o Matrimônio em nome da Igreja, levar o viático aos moribundos, ler aos fiéis a Sagrada Escritura, instruir e exortar o povo, presidir ao culto e à oração dos fiéis, administrar os sacramentais, dirigir os ritos do funeral e da sepultura.” (Lumen Gentium, 29)
Mas e as ordens menores? A qual Tradição pertence? Para responder essa pergunta, façamos uma breve digressão histórica das ordens menores.

Segundo Santo Tomás, no Comentário às Sentenças, as ordens menores foram instituídas pela Igreja como uma distribuição das funções do diácono:
“Na Igreja primitiva, todos os ministérios inferiores eram confiados aos diáconos por causa da escassez de ministros, como fica evidente no que Dionísio diz: “outros ministros ficam nos portões fechados do templo; outros trabalham em outra coisa de sua ordem própria; outros colocam o pão sagrado e o cálice da bênção sobre o altar com os sacerdotes”. No entanto, todos os poderes mencionados estavam lá, mas implicitamente no único poder do diaconato. Mais tarde, porém, o culto divino foi mais difundido, e o que a Igreja tinha implicitamente em uma ordem, ela distribuiu [tradidit] explicitamente sobre muitos; e segundo isso, o Mestre diz no texto que “a Igreja instituiu para si outras ordens”."

Dom Athanasius Schneider, no mesmo sentido, explica que o Concílio de Trento escolheu a expressão "ministros" ao invés de "diáconos" justamente para incluir as ordens menores ao poder implícito do diaconato:

"Definindo dogmaticamente a estrutura divinamente estabelecida da hierarquia, o Concílio de Trento escolheu o termo “ministros” ao lado dos termos “bispo” e “sacerdotes”, evitando o termo “diáconos”. Provavelmente o Concílio quis incluir no termo “ministros” tanto o diaconato quanto as ordens menores, para dizer implicitamente que as ordens menores são parte do diaconato. Esta é a formulação do cânon 6 da sessão XXIII: “Se alguém disser que na Igreja Católica não há hierarquia estabelecida por um arranjo divino, que é composta de bispos, padres e ministros, seja anátema”. Pode-se dizer, portanto, que ordens inferiores ou menores, como o leitorado e o acolitato, têm sua raiz no diaconato pela instituição divina, mas foram formadas e distribuídas em vários graus pela instituição eclesiástica (cf. Dom Gréa, loc. cit.)."

Dom Athanasius sublinha, portanto, que o diaconato é de instituição divina e as ordens menores de instituição eclesiástica. Porém, elas surgiram para proteger o diaconato, isto é, reafirmá-lo.

Quanto à historicidade das ordens, a Administração Apostólica São João Maria Vianney afirma que o subdiaconato foi instituído ainda na era apostólica, sendo, portanto, uma tradição humano-eclesiástica:

"O subdiaconato é a primeira das ordens maiores, embora não seja parte mesma do sacramento da Ordem, é a Ordem pela qual os ordenados são tidos na Liturgia como ministros sagrados pela qual a Igreja confere o poder de servir ao diácono na missa solene, de lhe oferecer o cálix e a patena, de preparar a água para o s. sacrifício, de cantar a epístola e de abluir as palas e os corporais.

[...]  

A origem do subdiaconato deve-se à necessidade de auxiliares para os sete diáconos, cujo número não se quis mudar. Por isso esse auxiliar subalterno é chamado subdiácono, pois que o diácono é o primeiro ministro. Foi instituído ainda no tempo dos apóstolos, “desde o princípio da Igreja.” Antigamente o subdiácono estava encarregado de ajudar o diácono, recebendo com ele as ofertas do povo e colocando no altar uma parte delas, suficiente para a comunhão dos fiéis. Devia guardar a porta das mulheres, ao passo que o diácono guardava a dos homens. Estava-lhe confiado o cuidado dos sepulcros dos mártires, das relíquias dos santos e das sagradas hóstias restantes da comunhão. Ocupava, portanto, uma posição muito honrosa de que ainda hoje está investido. Contudo esta ordem é sacramento. Na Igreja grega é ordem menor. Na Igreja romana só no século XIII (Inocêncio III) se começa a contá-la entre as ordens maiores. Mas a importância que a Igreja liga a este grau eclesiástico pode-se inferir das obrigações impostas aos que têm a honra de pertencer a ele. Cada dia o subdiácono deve rezar o oficio divino, e na Igreja romana deve guardar o celibato."

A obrigação do celibato é igual à do voto solene de castidade e é impedimento dirimente do matrimônio. A violação desta lei é um sacrilégio, de sorte que o transgressor pelo pecado, quer interno quer externo, comete dois pecados, contra a castidade e contra o voto."

Já acolitato tem o seu possível registro mais antigo datado no ano de 189 dC, sob o pontificado de São Vitor I.

O leitorado Tertuliano, já no século II, o testemunha.

No século III, encontra-se o registro das sete ordens completas, como testemunha Eusébio de Cesareia:

“Na Igreja Romana há quarenta e seis presbíteros, sete diáconos, sete subdiáconos, quarenta e dois acólitos, cinquenta e dois exorcistas, leitores e porteiros” (História Eclesiástica , VI, 43, 11)

Portanto, o registro dessas ordens é realmente antigo, sendo mais antigo, por exemplo, que as referências documentais à assunção de Nossa Senhora. 

Aqui convém relembrar que as tradições muito antigas, de origem oculta e extremamente duradouras na História da Igreja é muito provável que elas pertençam à Tradição Apostólica, como ensina o Pe. Ripperger em seu livro "The Limits of  Papal Autorithy Over the Liturgy"

Devido ao fato de Deus ser o Senhor da História, de ter estabelecido a Igreja para Lhe dar um culto bem ordenado, tanto que Ele deu instruções detalhadas, nada permanece na liturgia durante um longo período de tempo que não seja a Vontade de Deus que esteja aí. A partir disso, o princípio é que a longevidade de um elemento da liturgia dá indicação da Vontade de Deus em relação a esse elemento. Formulando de outra forma, a duração de algo nos livros litúrgicos determina o quanto Deus deseja isso na liturgia. Se algo é da Tradição Apostólica, isso indica que Deus geralmente quer esse elemento na liturgia por toda a duração da História da Igreja." (p. 42-43)

Mesmo considerando o atual status da pastoral litúrgica, a Igreja deixa claro que existe uma obrigação de conservar-se o serviço masculino do altar. Em 1994, a Congregação do Culto Divino e o Conselho para Interpretação dos Textos Legislativos fizeram o seguinte comunicado:

"A Santa Sé respeita a decisão que alguns Bispos, por determinadas razões locais, adotaram, com base ao previsto no cân. 230 § 2, mas contemporaneamente a mesma Santa Sé recorda que sempre será muito oportuno seguir a nobre tradição do serviço ao altar pelos meninos. Isto, como se sabe, permitiu inclusive um consolador desenvolvimento das vocações sacerdotais. Portanto, sempre existirá a obrigação de continuar a sustentar tais grupos de coroinhas."

Assim, mesmo que se considere a atual e confusa pastoral moderna de permitir mulheres no altar fundamentada na dignidade batismal do leigo, o que a Igreja ensino é que o serviço do altar tanto pela doutrina quanto pela conveniência é essencialmente masculino. O serviço masculino sempre será uma obrigação, enquanto o serviço feminino uma mera permissão.

Nestas premissas, é possível concluir que a Tradição que conservou o serviço masculino e proibiu o serviço feminino foi tanto divina quanto eclesiástica. A primeira por ensinar que o serviço do altar pertence essencialmente às ordens sagradas, a segunda por proteger as ordens sagradas com as ordens menores. 

O status atual das ordens menores

Se o serviço masculino do altar é uma Tradição divina e ela mesma proibe a participação feminina, como explicar a mudança operada pelo Papa Francisco de abrir o acolitato e o leitorado às mulheres?

Pois bem, segundo alguns teólogos, o que Paulo VI fez no Motu Proprio Ministeria Quaedam não foi apenas renomear as ordens menores, mas criar algo inteiramente novo. Em outras palavras, o Papa substituiu o uso das ordens menores na Missa Nova pelos ministérios laicais. Assim, o acolitato e o leitorado, embora recebam o mesmo nome das ordens tradicionais, eles só o são de maneira análoga, tal como o "coroinha" não ordenado é chamado "acólito".

Em reforço a esse entendimento, o Pe. Chad Ripperger em certa conferência explica que os ministérios laicais instituídos por Paulo VI não podem ser identificados com as ordens menores:

"Os ministérios que a Igreja regulamentou recentemente não são a mesma coisa que as ordens. Ministério é a permissão para fazer algo, é a capacidade de fazer algo sem obter permissão adicional. Não é um cargo oficial que você recebe que muda você de alguma forma. [...] O que acontece é que cada vez que você passa por essas ordens, você está passando por um ritual em que o bispo pede para você graças específicas para aquela ordem" (46'20")

Segundo o padre, embora as tarefas litúrgicas sejam materialmente as mesmas, as ordens realmente conferiam um poder ao ordenado, "graças diaconais", enquanto que os ministérios atuais concedem apenas uma faculdade ao leigo, isto é, uma permissão.

O entendimento de que Paulo VI criou ministérios completamente novos é baseado nos seguintes fundamentos:

a) Quanto à finalidade. Os ministérios laicais atuais não possuem como finalidade geral o exercício da diakonia na liturgia, mas, sim, a promoção do estado de leigo.

b) Quanto aos efeitos. Os novos ministérios recebem graças inferiores às das ordens menores. O acolitato e o leitorado, embora tenham incorporado as funções do subdiaconato, não tornam o ministro leigo um clérigo, isto é, uma pessoa sagrada, como era o caso do subdiácono, e nem lhe confere poderes diaconais, como o de benzer o pão e os frutos novos, como faziam os leitores no rito tradicional.

Portanto, é inequívoco que as ordens menores se diferem essencialmente dos ministérios laicais. As ordens menores conferiam poderes reais e permanentes aos ordenados, isto é, alguns poderes do diácono, enquanto que os atuais ministérios laicais são meras permissões para incentivar a participação ativa do leigo e que não transformam o status dele, isto é, não o tornam clérigo e nem lhe é atribuído qualquer poder especial típico das ordens sagradas, como o poder de abençoar.

Peter Kwasnieski, aqui, resume melhor:

"A conferência das ordens menores é mais do que uma mera delegação, mas menos do que uma ordenação sacramental no sentido pleno, que inscreve uma marca ou caráter indelével na alma. Se (como na opinião teológica mais comum) as ordens menores não conferem um caráter e não fazem parte do sacramento da ordem, mas são instituídas pela Igreja, elas devem ser classificadas como sacramentais. Isso parece estar de acordo com a definição de sacramentais dada no Código de 1917: “coisas ou ações que a Igreja usa em certa imitação dos sacramentos, a fim de, em virtude de suas orações, alcançar efeitos, acima de tudo de natureza espiritual”.

Especificamente, as cerimônias são bênçãos constitutivas que delegaram permanentemente as pessoas ao serviço divino, conferindo-lhes alguma identidade sagrada, pela qual assumem um novo e distinto relacionamento espiritual. Essas bênçãos dão direito aos seus destinatários a graças reais para o desempenho de seus ministérios, muito parecido com as graças sacramentais associadas à recepção dos sacramentos e semelhantes à bênção de um abade. Isso faz com que os homens em ordens menores sejam sacramentalia permanentia — tipos de objetos abençoados e consagrados! Por exemplo, a bênção de um rosário é um sacramental; o próprio rosário abençoado é um sacramental; o uso do rosário abençoado é um sacramental. Da mesma forma, podemos dizer que as cerimônias que conferem as ordens menores são sacramentais, as ordens menores são sacramentais e os exercícios de seus ofícios são sacramentais."

Pe. Louis Bacuez na obra "Minor Orders" ensina, por fim, que aqueles que recebem as orders menores recebem gradualmente os poderes do sacerdócio:

“Aquele que é investido com essas primeiras Ordens começa a ter uma parte nos poderes do grande Sumo Sacerdote.” (p. 160)

Assim, a substituição das ordens menores pelos ministérios laicais, em termos prudenciais, é altamente discutível, tendo em vista que os novos ministros recebem menos graças do que antes e se retira do Novus Ordo um importante monumento da Tradição. Igualmente discutível é a abertura feita pelo Papa Francisco do serviço do altar às mulheres, uma vez que o Magistério, em diversas ocasiões, ensinou que tais funções são inadequadas para o sexo feminino.

Certamente, Deus oferece graças aos ministros leigos para o cumprimento de suas funções, mas o sexo feminino, sendo inadequado para o ofício, traz elementos humanos que podem prejudicar a perfectibilidade da Tradição.

Nesse sentido, pontuam os teólogos Joseph Willhelm e Thomas B. Scannell, na obra "A Manual of Catholic Theology", que os elementos humanos inseridos numa tradição eclesiástica podem eclipsar parcialmente verdades fundamentais da Tradição revelada:

"No entanto, deve-se admitir que o elemento humano modifica a perfeição da Tradição. Pode haver uma quebra em sua continuidade e universalidade. Um eclipse temporário e parcial da verdade é possível, assim como desenvolvimentos posteriores. É possível que por um tempo uma parte do Depósito não seja conhecida e reconhecida por toda a Igreja ou expressa e distintamente atestada pelos principais órgãos do Apostolado." (p. 71)

O primeiro eclipse da Tradição é o mais óbvio de todos: a defesa do diaconato feminino. Uma vez que a Igreja já não mais protege o diaconato com as ordens menores, a verdade do diaconato católico é a primeira a ser atacada. Atualmente, membros do alto clero da Igreja discutem se é possível ordenar sacramentalmente diaconisas. Não existiria essa discussão se o serviço do altar fosse realizado só por homens.

O próprio O Catequista advoga pelo serviço de mulheres no altar presumindo que diaconisas tinham poderes diaconais para servir o altar. Em outras palavras, o acolitato e o leitorado feminino acaba por ser uma defesa da diaconato feminino por procuração.

O segundo eclipse da Tradição é a impugnação ao sacerdócio católico. Meninas já não sabem o porquê não podem ser sacerdotisas, uma vez que não há diferenciação das funções litúrgicas em função do sexo.

O terceiro eclipse da Tradição é a ideologia de gênero. Não havendo funções litúrgicas segundo o sexo de cada pessoa, a ideologia de gênero torna-se verossímil e mais difícil de se combater.

O quarto eclipse da Tradição é o feminismo. O serviço feminino do altar promove uma perspectiva horizontalista dos papeis sexuais. Isso pode trazer profundas dificuldades no matrimônio, pois mulheres podem pensar que, uma vez que já fazem funções inadequadas para o seu sexo, agora elas podem fazer outras igualmente inapropriadas, como liderar seu marido ou não reconhecê-lo como chefe da família.

Paremos por aqui. É patente que as inconveniências são muitas e a honestidade intelectual irá reconhecê-las.

Temos a tese inclusive que muito dos abusos litúrgicos que imperam sem controle no rito paulino ocorrem justamente em razão da ausência dos sacramentalia permanentia, isto é, de homens permanentemente consagrados e robustamente agraciados para o serviço divino. Mas isso é papo para outro dia.

O status do serviço feminino do altar

Viviane Varela buscou completar seu vídeo inicial com uma sequência de stories explicando melhor as supostas razões que teriam levado a Igreja ao abandono das diaconisas (que ela crê errôneamente que serviam no presbitério) e o consequente serviço feminino no altar. Viviane elenca duas razões:

1) Leis obsoletas de impureza ritual

Viviane de modo impreciso e sem nenhuma fonte afirma que "voltou com força na Idade Média uma distorção religiosa chamada impureza ritual".

Provavelmente, Viviane sequer fez uma pesquisa sobre o assunto e está literalmente chutando tudo o que fala.

Não há notícias de que no Ocidente mulheres fossem impedidas de acessar o altar em razão de leis de impureza ritual. Esta foi uma realidade abundantemente presente nas Igrejas Ortodoxas durante a Idade Média, mas não na Igreja latina. Tanto que essas leis levíticas de impureza ritual continuam até hoje em certas Igrejas ortodoxas, sendo o exemplo mais famoso a Igreja Ortodoxa Russa.

Segundo Christine Tracz, no artigo "Deaconess and Ritual Impurity", na Igreja Latina, a impureza ritual nunca foi levada a sério e foi exatamente por isso que as deaconisas não eram necessárias.

"No Ocidente, mesmo em grupos dualistas, não eram necessárias diaconisas nas paróquias. Isso foi positivo para as mulheres. As mulheres nas igrejas latinas podiam falar diretamente com o clero; nenhuma diaconisa era necessária como intermediária. As mulheres durante a menstruação ou a gravidez eram livres de adorar na igreja, pelo que não era necessária nenhuma diaconisa para levar a Eucaristia às mulheres grávidas nas suas casas. Na verdade, o Papa Gregório Magno ensinou que as mulheres menstruadas e as mulheres recém-partas podem frequentar a igreja e receber a Sagrada Comunhão, e explicou que as ações de Jesus (como no caso da Hemorrissa) tinham posto de lado as leis levíticas da impureza ritual. Também no Ocidente, enquanto o batismo de adultos era a norma, as batizadas eram assistidas por diversas mulheres cristãs, porque eram reconhecidas como qualificadas para preparar as batizadas na fé e para auxiliar no sacramento; novamente, nenhuma diaconisa foi necessária. Por exemplo, Gennadius de Marselha citou viúvas e freiras bem capazes aperto et sano sermone docere (para ensinar com um discurso claro e saudável), instruindo as mulheres para este sacramento." Embora os estudiosos modernos que desejam que as mulheres sejam ordenadas sugiram que a falta de diaconisas no Ocidente mostra uma restrição misógina às mulheres, o oposto é verdadeiro: as diaconisas evidentemente não eram necessárias no Ocidente devido ao reconhecimento adequado das capacidades das mulheres." (p. 195)

Viviane, portanto, ao pontuar que diaconisas foram extintas por causa de padres reaças e radicais que aderiam leis de impureza ritual, traz uma informação completamente fantasiosa. Na verdade, como atesta Catherine Tracz, foi a existência dessas leis levíticas que levaram ao crescimento das diaconisas:

"Uma característica comum de muitas cristologias heréticas é o dualismo cósmico, que implica a crença de que apenas o espiritual é bom e que a matéria é inerentemente má. Em seu foco na transcendência de Deus, esses grupos consideraram blasfêmia pensar que o divino de fato se tornaria humano. Muitos dos grupos que consideraram a Encarnação problemática também segregaram fortemente os sexos socialmente. Consequentemente, os sírios, coptas, paulinos, armênios e outros monofisitas tinham diaconisas. Manfred Hauke ​​observou em 1982: “O aparecimento de diaconisas pressupõe, portanto, condições patriarcais”.

Nessas igrejas, as diaconisas prestavam serviços sociais às mulheres, como os diáconos faziam pelos homens. Lá as mulheres não tinham permissão para falar com um clérigo, mas poderiam falar com uma diaconisa que transmitiria suas preocupações. As mulheres grávidas eram proibidas de ir à igreja e, como indica a Didascalia, teria sido considerado escandaloso para um homem visitar suas casas. Portanto, uma diaconisa levaria a ela a comunhão."

Martimort em "Deaconess" resume tudo informando que, de maneira geral, as diaconisas somente surgiram na Igreja, mais precisamente nas igrejas orientais, unicamente para suprir as necessidades de outras mulheres. Elas não surgiram num contexto de serviço litúrgico geral.

"As diaconisas surgiram na Igreja em uma região do Oriente onde a separação estrita das mulheres exigia um ministério feminino específico para servir outras mulheres." (p. 44)

Martimort informa ainda que nem mesmo o auxílio que prestavam no batismo de mulheres podia ser considerado um serviço litúrgico:

"As diaconisas não participavam da liturgia. Na verdade, sua parte no rito do batismo em si era muito restrita; elas simplesmente completavam a unção iniciada pelo celebrante. Nem pronunciavam a invocação, ou epiclese. De forma alguma elas poderiam ser consideradas no mesmo nível que os diáconos: elas eram suas auxiliares." (p.43)

Pois bem. A evidência histórica é devastadora contra a posição Viviane. Contudo, ainda que concedêssemos que durante a Idade Média as leis de impureza ritual fossem influentes no Ocidente, isso não explicaria a proibição da Igreja do serviço feminino do altar antes da Idade Média e nem séculos depois dela, uma vez que a proibição de mulheres no serviço do altar permaneceu formalmente até o século XX. Ou seja, a proibição por razões sanitárias somente poderia ser apenas mais um motivo para impedir mulheres de servirem o altar, não o único.

2) Invasões bárbaras e queda do Império Romano.


Viviane continua falando baboseiras sobre impureza ritual, mas agora acrescenta outra informação: as as diaconisas desapareceram da Igreja em razão das invasões bárbaras e da queda do Império Romano, o que veio a trazer muita insegurança para as mulheres.

Contudo, a informação é novamente imprecisa. No Ocidente, segundo Tracz e Martimort, a figura da diaconisa, tal como aparecia em algumas igrejas orientais, simplesmente não existia.

Tracz:
"Nas paróquias ocidentais, várias mulheres realizavam o trabalho atribuído no Oriente às diaconisas. Os estudiosos examinaram diversos documentos, buscando evidências de diaconisas latinas. Em Roma, na África e na Espanha, faltam registros que listem todas as funções da Igreja. O Papa Cornélio citou vários papéis, desde padres até viúvas, incluindo exorcistas e carregadores, mas nenhuma diaconisa. Eles também estão ausentes das orações da Missa, listando todos os grupos dentro da Igreja pelos quais orar: "Oremus et pro omnibus episcopis, presbyteris, diaconibus, subdiaconibus, acolythis, exorcistis, lectoribus, ostiariis [porteiros], confessoribus, virginibus, viduis [viúvas) , et pro omni populo sancto Dei." Apenas em alguns mosteiros femininos existiam diaconisas, e elas não são atestadas antes da Idade Média."
Martimort aduz que não há informação de diaconisas na Roma Ocidental durante os primeiros cinco séculos:
"Nas extremidades orientais do Império Romano, a instituição das diaconisas surgiu durante as primeiras décadas do século III e continuou a desenvolver-se de várias maneiras nas igrejas de língua grega e semítica. As igrejas de língua latina, porém, não experimentaram o mesmo desenvolvimento desta instituição, nem a igreja do Egito. Isto pode ter sido o resultado do fato de, tanto em Roma como em Alexandria, a Tradição Apostólica de Santo Hipólito de Roma ter permanecido o ideal para a organização eclesiástica. Observamos como este documento não previa lugar para qualquer ministério feminino. Mais do que isso, sem dúvida, a falta da instituição de diaconisas no Ocidente também foi o resultado do fato de tal ministério feminino não ser considerado necessário; até despertou suspeitas em alguns setores.

No entanto, alguns historiadores ficaram tão convencidos da existência de diaconisas em toda a Igreja antiga que procuraram diligentemente qualquer evidência que apoiasse a sua tese - procuraram mesmo para além dos limites da probabilidade."

Observemos a informação do autor. Nas igrejas do Império Romano do Oriente as diaconisas surgiram por volta do século III e continuaram a se desenvolver, mas nas igrejas ocidentais elas não existiram. Portanto, não houve decréscimo de diaconisas ocidentais durante as invasões bárbaras (III a VIII d.C), porque não havia essa instituição no Ocidente.

Novamente, Viviane destila groselha.

Prossigamos.


Viviane conclui o raciocínio afirmando que esses dois fatores históricos que impediam o acesso das mulheres ao serviço do altar eram circunstanciais e caíram e com base nisso os Papas decidiram abrir espaço novamente para o serviço da mulher no altar.

Como de praxe, Viviane fala coisas inventadas da própria cabeça. Nem na Ministeria Quaedam tampouco na Spiritus Domini, os Papas indicam que tenham sido essas as razões para abrir o serviço do altar às mulheres. O único que justificou essa abertura foi o Papa Francisco. Segundo o Pontífice:

"Uma prática consolidada na Igreja latina confirmou que tais ministérios laicais, baseando-se no Sacramento do Batismo, podem ser confiados a todos os fiéis que forem idôneos, de sexo masculino ou feminino, de acordo com quanto já é implicitamente previsto pelo cânone 230 § 2."

Em outras palavras, os ministérios laicais, por não estarem essencialmente ordenados às ordens sagradas e por serem meras permissões, podem admitir mulheres.

A justificativa do Papa apenas reforça o entendimento da diferença essencial entre as ordens menores e os ministérios laicais.

Sigamos.




Por fim, Viviane termina seu discurso com boas pitadas do bom e velho feminismo. Primeiro, orgulhando-se da filha que agora fará uma função litúrgica inadequada para o seu sexo. Depois, afirmando que os homens tem que começar a se acostumar a não se sentirem inseguros em ambientes predominante femininos. Dá como exemplo o ambiente de trabalho onde mulheres ocupam a maioria dos postos.

Primeiramente, nota-se que Viviane desconhece por completo a psicologia masculina. Ela ignora que os processos de aprendizagem de virtudes tipicamente masculinas são completamente diferentes dos processos femininos.

Homens, por exemplo, para aprenderem a serem homens, precisam de ambientes predominante masculinos. Joseph Shaw, comentando a obra León J. Podles “The Church Impotent”, explica bem este ponto:

"... Devo reservar um momento para enfatizar o fato de que os aspectos masculinos da Igreja não precisam ser desconcertantes para as mulheres. Afinal, as mulheres são capazes de apreciar as virtudes masculinas; elas tendem a ser heterossexuais. Muitas vezes são, de fato, portadores  de virtudes masculinas, assim como os homens podem ter virtudes associadas ao feminino. O ponto dessas postagens não é sobre a exclusão das mulheres, mas a não exclusão dos homens. Faça a missa parecer uma noite de garotas, e os rapazes fugirão paras colinas. As mulheres são muito mais tolerantes com uma liturgia que parece um pouco masculina. Sua feminilidade não é ameaçada por isso; não pode, de fato, ser tão facilmente tirado delas. A masculinidade dos rapazes, ao contrário, não é garantida de forma alguma. Eles devem se separar do reino feminino se quiserem ser homens."

Em outras palavras, meninos não aprendem a ser homens com mulheres. Mulheres tendem a ter maior inteligência emocional e, em regra, não são boas em ensinarem homens a se guiarem de maneira objetiva. Por isso homens precisam de outros homens para agirem como tais. Por esta razão, no passado, as escolas seguiam o costume da separação dos alunos por sexo justamente para potencializar as virtudes próprias de meninos e meninas.

Outro ponto, é que Viviane quer justificar uma postura pastoral da Igreja com base na cultura da mulher carreirista. O problema é que essa cultura é altamente corrompida, como já explicamos em outros artigos deste blog. O carreirismo não é um desenvolvimento normal da feminilidade. Da mesma maneira, o serviço feminino do altar não é um desenvolvimento normal da liturgia.

Vimos que as diaconisas que existiram na História da Igreja não eram ordenadas e surgiram unicamente para ajudar outras mulheres, não para agirem como homens tomando papéis litúrgicos essencialmente ordenados para eles. As únicas diaconisas que participavam do serviço do altar eram pertencentes a seitas cismáticas que aceitavam a ordenação diaconal de mulheres, ou seja, que destruíam o sacramento da Ordem.

Disso conclui-se, imperiosamente, que o serviço feminino do altar é realmente algo sem precedentes históricos e, no sentido mais rigoroso e científico do termo, uma novidade. Pe. Ripperger em "Topics of Tradition" define novidade:
"Novidade é aquilo que se opõe à tradição, já que a novidade por natureza suplanta ou contradiz a tradição. Novidade é ruim porque quebra a continuidade da tradição. Já que nossa salvação depende da tradição, a continuidade na tradição pela qual os meios de salvação são passados de geração em geração e para o maior número possível de pessoas é imperativa. Além disso, a continuidade da tradição garante que cada geração herdará a riqueza do patrimônio dos santos."
A novidade é um elemento humano que se mistura à Tradição e lhe retira força. Não é impossível que a Igreja em determinada circunstância aprove leis eclesiásticas que contenham esses elementos humanos, afinal, como ensinam unanimemente os teólogos, a Igreja não possui infalibilidade prudencial.

Nesse sentido, Adolphe Tanquerey:
“Esta infalibilidade consiste em que a Igreja num juízo doutrinal nunca possa estabelecer uma lei universal, que seja contrária à fé, aos bons costumes e à salvação das almas…(no entanto) em lugar algum foi prometido à Igreja um sumo grau de prudência para promulgar as melhores leis para todos os tempos, lugares e circunstâncias.” (Theol. Dogm. Fundamentalis, n. 932.)

Embora não devamos crer que a Igreja habitualmente se engana em seus juízos prudenciais, como assinala a Donum Veritatis, é possível que a Igreja não tenha o melhor juízo em determinadas circunstâncias, principalmente quando a decisão prudencial é de um ou outro pontífice e que não segue a tradição consolidada da Igreja. Quando a decisão prudencial não se apoia na tradição sólida da Igreja falta-lhe um dos requisitos necessários à virtude da prudência, a saber, a memória do passado.

A introdução de mulheres ao serviço do altar enquadra-se exatamente nessa situação, visto que somente foi oficialmente autorizada pelo Papa Francisco, que não fez qualquer questão de harmonizar a posição de seus predecessores com a nova disciplina adotada. Sua decisão, portanto, está mais sujeita a equívocos prudenciais, sendo possível que num futuro próximo ela seja revertida.

Por outro lado, tomando o mesmo critério da Donum Veritatis, é impossível que o juízo constante da Igreja, que condenou reiteradas vezes o serviço feminino do altar classificando-o como "desprezo das coisas divinas", "inadequado para o sexo feminino" e "prática maligna", ao longo de 2000 anos, esteja errado ou não corresponda de nenhum modo à verdade.

Conclusão

Viviane ao afirmar que mulheres a serviço do altar não contraria a Tradição da Igreja, seja ela divina ou eclesiástica, simplesmente não fala a verdade. Como demonstramos, a prática foi energicamente condenada pelos Papas até o século XX, tendo em vista que o serviço masculino do altar sempre foi considerado uma Tradição divina pela Igreja.

Também constatamos que Viviane também não fala a verdade sobre as diaconisas. O panorama histórico é que diaconisas só cresceram no contexto onde existiam leis de impureza ritual ou para atender demandas especificamente femininas. Em todos os casos em que foram inseridas no serviço do altar, houve condenação dos Concílios e dos Papas. Viviane ao distorcer esses fatos históricos para defender o serviço feminino do altar está, sem sombras de dúvidas, defendendo o diaconato feminino por procuração.

Não é a primeira vez que Viviane fala um monte de bobagens, mas é assustador como sobre este assunto ela simplesmente se superou. Recentemente, ela reclamou do "machismo" que sofre de seus seguidores que a acusam de ser incapaz de falar de qualquer assunto. Viviane alega que sofre isso por ser mulher. Claro, não duvidamos da capacidade de Viviane de falar acertadamente em outros temas, mas, a respeito do assunto do nosso artigo, ela se mostrou absolutamente incompetente. Ela foi incapaz de fazer a menor apuração histórica dos papéis da diaconisa e da posição constante da Igreja sobre a acolitagem feminina. 


quinta-feira, 4 de julho de 2024

Sobre o "Tradismatismo"

Em um recente reels de Instagram a página de humor "Brasil RTC" compartilhou um vídeo do Pe. Roger Luis, numa missa de Vígilia Pascal 30.03.2024 da Canção Nova, puxando em latim o "Gloria" da Missa De Angelis ou Missa VIII:


Para a surpresa de todos o que se seguiu, no entanto, foi o Gloria cantado em português ao som de bateria, guitarra, palmas e danças. A missa completa pode ser conferida aqui.

A página atribuiu o episódio ao fenômeno do "tradismatismo". A expressão foi cunhada pela primeira vez pelo Pe. José Eduardo, sacerdote da diocese de Osasco-SP, em 2016, no seu Facebook.


A postagem teve muitas reações, compartilhamentos e comentários. Gostaríamos, assim, de investigar o conceito de "tradismático" e se ele é, como dizem alguns, uma pessoa tradicionalista que gosta siricantalanapraia.

O que é o tradismatismo?

Começemos então com o autor do conceito de tradismatismo, o Pe. José Eduardo. Em uma postagem do dia seguinte o sacerdote prestou alguns esclarecimentos sobre a nova palavra cunhada:

OS TRADISMÁTICOS E A CONTRADIÇÃO 

Ao escrever ontem sobre os #Tradismáticos, estava apenas descrevendo um fenômeno real (basta olhar o número de curtidas e de pessoas que se identificaram com a descrição), e não fazendo um juízo de valores. Cada qual tenha sua opinião sobre o fato. Mas, o que me parece impossível é negá-lo.

Nossa Igreja é católica, universal, justamente por isso: cabem todos, aliás, como disse Nosso Senhor ao comparar a Igreja com uma rede de pesca que recolhe peixes de todo tipo, rompendo, assim, todo nazismo religioso.

O filósofo marxista Ernst Laclau, em "Hegemonia e estratégia socialista", ensina que o movimento revolucionário, para alcançar o poder, precisa dividir a sociedade em grupos antagônicos, criar contradições e usá-las em seu favor, escolhendo eventualmente a contradição que for mais favorável à sua vontade de dominação.

De algum modo, os católicos de nossos dias se cansaram desse jogo dialético, estão jogando fora os rótulos e criando liberdade de tráfego, excluindo todas as tendências progressistas e socialistas, que eles já perceberam ser justamente uma das causadoras de rotulacões, além de serem a representação oposta do que desejam: a exclusão completa do sobrenatural e a usurpação da Igreja como instrumento de poder.

Como no Brasil muita gente tem a mentalidade de torcedor, e se apega ao rótulo que foi criado para ser sua camisa de força mental como o fanático de um time, leituras como essa acabam se tornando quase impossíveis. De fato, as pessoas apressam-se em identificar quem é a favor ou contra à sua tribo, incapacitando-se para entender realidades mais complexas, que transcendem esse jogo.

Cabe à nós, como Igreja, não apenas interpretar o fenômeno, mas interagir com o mesmo de modo criativo, sabendo integrá-lo num esforço positivo de apostolado. Caso contrário, pela pressa de separar o joio do trigo, iremos sacrificar o trigo e, como diz Jesus no Evangelho, isso não é tarefa nossa. 

No mundo do puritanismo, repetidas vezes condenado pela Igreja, tudo se reduz ao simplismo do "preto ou branco", no contraste mais absoluto entre ambos. Desde o maniqueísmo, montanismo, catarismo, até chegarmos à tendências puritanistas mais modernas, a contradição sempre foi a armadilha em que caíram aqueles que não sabem viver no tempo das ambivalências, no tempo da Igreja militante, e querem viver apocalipticamente a antecipação da Jerusalém celeste aqui. Esconde-se aí um complexo de milenarismo, complexo que arroga à sua inconsciente vítima a prerogativa de acusar de hereges a todos que não recaem sob seu estreito horizonte de consciência, enquanto ele mesmo desconhece ou tem uma noção vaga e confusa do que seja "heresia", a negação pertinaz do dogma, que não foi negado por ninguém.

Não percebem estes que, deste modo, caem nas malhas dialéticas da contradição, e fazem direitinho o jogo do inimigo. Aceitam a divisão ao invés de verem de um ponto mais alto as consonâncias, integrando num todo harmônico aquilo que, em si, nunca foi contraposto.

A culpada do engodo é a ignorância histórica. Quando se lê a vida dos santos pregadores e místicos vê-se claramente que os mesmos sofreram as mesmas incompreensões, exatamente por enxergarem esse todo desde cima, não se implicando nas contradições daqueles que têm uma visão metonímica.

O fato é que os #Tradismáticos escandalizam os progressistas, os tradicionalistas e até os próprios carismáticos. Estão hoje em maior e crescente número, mas são os mais "desigrejados" de todos. Perambulam de lado a lado sem encontrar guarida e compreensão…

Este é o fenômeno. As opiniões acerca dele podem ser as mais plurais possíveis. 

Os rótulos já foram rasgados, o tráfego está aberto e bem-aventurado quem não se escandalizar disso, antes, souber ser Cristo de braços abertos, como São Paulo, que se fez tudo para todos!

Notemos que o padre fala que está descrevendo um novo movimento e que os "rótulos já foram rasgados", mas quando olhamos as postagens do sacerdote de 9 e 10 de outubro de 2016 não vemos qualquer descrição do movimento e nem definição do conceito.

Então, afinal, do que estamos falando?

Em um shorts do Youtube o Pe. Francisco do Amaral buscou tentar explicar o que é o tradismatismo:

Transcrição:

Existe católico tradismático?

Em certo sentido todo católico é tradismático. Porque o católico é chamado a abraçar tudo aquilo que Jesus deixou. Então o católico abraça o Magistério, a Tradição, a Escritura, os sacramentos, as devoções e os carismas da Igreja.

Agora, a gente pode falar também "ser tradismático", como eu me identifico, no sentido de amar as tradições litúrgicas da Igreja, os ritos válidos, o incenso, a batina, e ao mesmo tempo se identificar com a espiritualidade de Pentecostes, como a gente vive da Renovação Carismática Católica. E nesse sentido, também eu me identifico como tradismático.

Mas eu vou falar a verdade para vocês. Eu não gosto muito desse negócio de rótulo, não. Católico carismático, católico tradicional, católico isso, católico aquilo. Eu acho que isso pode dividir a Igreja. Então, o tradismático, nesse sentido que eu estou falando, ele não quer ser um novo rótulo, não. Ele quer falar de um católico que quer abraçar toda a verdade deixada por Jesus na Igreja.

Pedro Isnard, carismático, em canal no Youtube também buscou definir o que é tradismático:


Nas palavras de Pedro, você é tradicional quando "ama liturgia, ama tudo que a Igreja trouxe pra você ao longo dos anos, reza um Pai Nosso e uma Ave Maria em latim, vai ao Novus Ordo, vai a Missa Tradicional (tridentina) e está tudo bem. Você está em casa, você é católico." [01'42"]. Após, Pedro acrescenta que tradismático é o indivíduo que é tradicional e que vive o carisma mais tradicional de todos, o dom de línguas vivido pela RCC.

Por fim, Padre Paulo Ricardo, ao receber a pergunta "É possível ser tradismático?" de uma moça carismática que se identifica com a Missa Tridentina, responde que ser católico e tradicional é pleonasmo. Em seguida, ela faz uma alusão à Carta aos Coríntios de São Paulo, na qual o apóstolo fala em "guardar tradições" e também descreve os dons carismáticos. Assim, dá a entender o padre que é possível ser "tradismático".


O que se observa nas três definições colhidas é que "tradicional" nunca é definido no sentido de "tradicionalista", e sim num significado mais largo que mais se aproxima de "conservador", isto é, aquele que gosta que as coisas sejam feitas "conforme as regras da Igreja", independente de quais sejam essas regras.

Tradicionalista, contudo, esteja ou não em comunhão com a Igreja, nunca pode ser descrito como um mero conservador, pois ele é fruto de um incômodo. Um incômodo com a direção pastoral que a Igreja tomou após o Concílio Vaticano II, ou seja, as atuais regras.

Pode-se dizer que a espiritualidade tradicionalista consiste na preservação da Missa de São Pio V, dos hábitos e devoções pré-conciliares e um acento crítico ou de reserva às novas pastorais litúrgica, catequética e de evangelização pós-conciliares.

Nesse sentido, destaca-se a descrição do carisma do Instituto Bom Pastor (IBP) em seu site:
"O carisma específico do Instituto do Bom Pastor, ou seja, o que o torna específico e a sua razão de ser, é a defesa e difusão da Tradição Católica em todas as suas formas: doutrinal, apostólica e litúrgica. Em particular, os padres do IBP celebram a missa exclusivamente no rito tradicional, ou seja, segundo a liturgia conhecida como “São Pio V”. Além disso, o Instituto foi fundado com a tarefa explícita de oferecer uma crítica construtiva e teológica de certas reformas nascidas do Concílio Vaticano II, uma crítica que visa oferecer a toda a Igreja um novo olhar sobre a sua própria identidade.

Este apego à Tradição é decididamente para os sacerdotes da IBP uma forma de servir a Igreja, na submissão ao Papa, ao serviço dos bispos católicos, e para o bem de todos os fiéis: é a expressão do seu desejo de oferecer a toda a Igreja e ao mundo as riquezas e os benefícios da Tradição Católica como um tesouro do qual todos devem haurir."

No protocolo de acordo assinado por Mons. Lefebvre e a Santa Sé em 1988, nota-se igualmente um certo "direito de reserva" da FSSPX a respeito de certas reformas conciliares:

"Em relação a certos pontos ensinados pelo Concílio Vaticano II ou relativos a reformas posteriores da liturgia e do direito, e que nos parecem dificilmente conciliáveis ​​com a Tradição, comprometemo-nos a ter uma atitude positiva de estudo e de comunicação com a Santa Sé, evitando toda a polêmica."

No livro "Considerações sobre as formas do rito romano da santa missa", a Administração Apostólica São João Maria Vianney justifica a preferência pela Missa de São Pio V reconhecendo o cenário crítico do Novus Ordo:

"Ninguém de correta visão pode negar a existência da atual crise na Igreja, afirmada por vários Papas. E essa crise tem muito a ver com a Liturgia, especialmente após a reforma conciliar, que, infelizmente deu azo a muitos abusos litúrgicos. [...] a Missa na forma extraordinária do Rito Romano, por sua maior precisão e rigor nas rubricas, apresenta mais segurança e proteção contra tais abusos litúrgicos."

No site do Instituto Cristo Rei e Sacerdote também justifica a celebração da missa tradicional em razão das muitas mudanças ocorridas na liturgia após o Concílio Vaticano II:

"O Instituto de Cristo Rei celebra a Liturgia Romana clássica, a "Missa Latina", em sua forma tradicional de acordo com os livros litúrgicos promulgados em 1962 pelo Papa São João XXIII. Durante seu pontificado, o Papa São João Paulo II exortou os bispos a serem generosos em permitir seu uso. Foi com sua bênção que o Instituto começou a celebrar a Missa Tradicional.

O Papa Bento XVI também desejou que o tesouro da liturgia romana tradicional, que foi celebrada sem mudanças por séculos e séculos, fosse preservada para todas as gerações. Seguindo os passos de São João Paulo II, o Papa Bento XVI, com seu documento histórico Summorum Pontificum, restaurou aos padres a liberdade de celebrar a "forma extraordinária" do rito romano.

A Missa Latina Tradicional foi a forma exclusiva celebrada durante o Concílio Vaticano II. Na verdade, a maioria das mudanças que foram introduzidas pela reforma litúrgica dos anos 1960 ocorreram nos anos após o Concílio Vaticano II. O próprio Concílio nunca aboliu a liturgia tradicional, e seu famoso documento sobre a Liturgia da Igreja, Sacrosanctum Concillium, menciona apenas a possibilidade de algumas adaptações; ele nunca pediu uma mudança de linguagem, a remoção de orações, nem virtualmente nenhuma das práticas agora comuns no Novus Ordo Missae, a “Nova Missa”."

Portanto, um católico tradicionalista nunca será um "tradicional" no sentido de "conservador". A distinção é importante, porque pode parecer para muitos que, ao se falar em "tradismáticos",  que há um movimento de adesão de católicos tradicionalistas à espiritualidade carismática quando simplesmente não há. Este é o tema o que abordaremos no tópico a seguir.

Buscando entender o fenômeno

1. Tradismatismo: um movimento unilateral

É necessário constatar o seguinte fato: o tradismatismo não é uma tendência nos círculos tradicionalistas. Não se vê o fenômeno tradismático entre católicos ligados ao Instituto Bom Pastor, Administração Apostólica São João Maria Vianney, Montfort, Centro Dom Bosco, IPCO, etc. Não há grupos de oração em línguas, batismos no Espírito Santo e Cercos de Jericó entre tradicionalistas, mas há grupos inteiros de carismáticos cada vez mais adotando formas tradicionalistas. O tradismatismo é um fenômeno específico da Renovação Carismática.

Neste ponto discordamos do Pe. José Eduardo que os tradismáticos sejam pessoas não compreendidas e "desigrejadas". Tradismáticos são carismáticos em busca da Tradição.

2. A romanização da Renovação Carismática

Conforme descrevemos aqui, entre os anos 2011-2019, houve um verdadeiro boom do catolicismo tradicional no Brasil. Neste período, se observou muitos católicos carismáticos descobrindo a Missa Tradicional e aderindo-a. Em regra, os carismáticos que participavam ativamente de apostolados tradicionais deixavam a Renovação Carismática entendendo que ela havia sido uma importante porta de entrada para o Catolicismo, uma espécie de infância do católico, mas que ao se adquirir maior formação catequética e litúrgica a consequência natural seria o catolicismo tradicional. Outros não tão assíduos permaneceram em suas comunidades carismáticas, mas se tornaram mais comedidos. Quiseram manter seu carisma, mas entenderam os diversos problemas que permeiam o carismatismo.

Em suma, o desenvolvimento do catolicismo tradicional no país provocou e têm provocado o que chamaremos aqui de romanização da Renovação Carismática, isto é, uma maior tomada de consciência da necessidade de readequação do carismatismo à identidade católica.

Expliquemos.

Como é arquisabido, a RCC é oriunda de movimentos neopentecostais e historicamente sempre lhe foi muito ínsito certa assimilação da cultura protestante neopentecostal (biblicismo, fundamentalismo, sentimentalismo, worship, etc). Todavia, o crescimento do catolicismo tradicional no Brasil desencadeou em alguns setores da Renovação um processo de afastamento das fontes protestantes e de aproximação das fontes católicas. Entendemos que este é o verdadeiro tradismatismo que vem ocorrendo entre os carismáticos nos últimos anos, a purgação gradual do neopentecostalismo protestante no movimento.

A esquerda e a direita da RCC se posicionam conforme o afastamento ou a aproximação das fontes católicas.

3. Um processo lento

Evidentemente, essa romanização não significa uma "tridentinização" da carismatismo como alguns querem fazer crer, mas sim uma certa dose de conservadorismo num movimento muito conhecido pela sua índole antilitúrgica e desprendida de fórmulas, que cheirava mais a protestantismo do que catolicismo. Fazemos essa distinção porque, realmente, o tradicionalismo ligado à Missa Tridentina não têm recebido influências carismáticas em sua espiritualidade. Parece-nos que o tradicionalismo e o carismatismo ainda são espiritualidades antagônicas. O tradicionalismo é afirmação triunfante do romanismo enquanto que o carismatismo é uma afirmação triunfante do ecumenismo. Tradicionalistas rejeitam ou não promovem o ecumenismo. Carismáticos, por sua vez, falam, muitas vezes, de pregadores e avivamentos protestantes como se pertencessem à sua religião.

É patente, no entanto, que o processo de romanização da RCC tem sido muito lento. A Renovação Carismática ainda possui muitos trejeitos protestantes. Ela não consegue separar muito bem, por exemplo, o que é próprio para grupos de oração do que é adequado para a liturgia.

A RCC, ordinariamente, ao invés de se render ao sensus perennis universalis Ecclesiae da tradição musical católica, promove na liturgia, via de regra, a marca e o estilo dos seus próprios grupos, geralmente gospel, e assim massificam o seu produto musical. 

Nota-se, a respeito, a Comunidade Colo de Deus, que praticamente reproduz os seus shows na missa e talvez seja, neste aspecto, o pior dos exemplos. Neste vídeo, tomado apenas para ilustrar, a missa e o padre realmente ficam em segundo plano enquanto predominam as "performances" dos músicos e, claro, a "Voz Gigantesca" dos seus animadores (gritaria e falatório intermináveis).

Já outras comunidades como Shalom, Fraternidade João Paulo II, Caminho, Instituto Hesed, etc., possuem missas mais comedidas, mas, musicalmente, dificilmente reproduzem um canto litúrgico autêntico. Suas músicas são quase sempre modernas (gospel) acompanhadas de violão, bateria e guitarra; o órgão de tubos, instrumento preferido pela Igreja, fica aos cuidados das teias de aranha. 

Neste vídeo de uma missa do Instituto Hesed observa-se moças de véu, religiosos de hábito, altar com arranjo beneditino, cantos em latim, etc., mas, novamente, com melodia inadequada, instrumentos inadequados, freira na bateria, músicas não litúrgicas cantadas em shows de cantores carismáticos como Irmã Kelly e Eugênio Jorge, danças, entre outros.

Nesta outro vídeo, agora da missa da Pe. Roger Luis, além de todo o paranoma inadequado anterior há o acréscimo de orações espontâneas e em línguas em menos de 15 min de missa.

Estes exemplos comprovam que ainda há na RCC um contínuo esquecimento das orientações do Discatério para o Culto Divino acerca da liturgia, mesmo entre carismáticos que seriam denominados por muitos como "tradismáticos".

“A eficácia das ações litúrgicas não está na busca contínua de novidades rituais, ou de simplicações ulteriores, mas no aprofundamento da palavra de Deus e do mistério celebrado, cuja presença está assegurada pela observância dos ritos da Igreja e não dos impostos pelo gosto pessoal de cada sacerdote. Tenha-se presente, ademais, que a imposição de reconstruções pessoais dos ritos sagrados por parte do sacerdote ofende a dignidade dos fiéis e abre caminho para o individualismo e o personalismo na celebração de ações que diretamente pertencem a toda Igreja”. (Liturgicae instaurationes, n. 1)

O panorama da música carismática atual na liturgia é fundamentalmente contrário ao ensino da Igreja sobre a música sacra e litúrgica. Contudo, esperamos que o processo de romanização que passa alguns setores da RCC possa finalmente trazer a devida maturidade ao movimento.

Talvez, seja o Pe. José Eduardo o melhor exemplo de carismático "romanizado" ou "tradismático" que sabe distinguir o culto de oração carismático da liturgia pública da Igreja. Note-se como em suas missas o órgão é utilizado bem como o canto gregoriano:


Pe. José Eduardo não é um católico tradicionalista ou um sacerdote conhecido por rezar Missas Tridentinas. Suas missas são versus populum, possui leitoras, acólitas, totalmente em vernáculo, coisas que um sacerdote tradicionalista simplesmente rejeitaria. Mas é notório que suas missas não possuem um espírito carismático. Nenhum católico se sente "colonizado" pela RCC nas missas do padre como ocorre nas missas da Canção Nova, Colo de Deus, Instituto Hesed e afins.

Conclusões

1. O tradismatismo não é a síntese de tradicionalismo com carismatismo.

2. É um movimento que parte de dentro da RCC.

3. O tradicionalismo e a RCC são espiritualidades antagônicas, visto que a primeira parte de um acento crítico ao ecumenismo e às novas pastorais enquanto que a segunda é essencialmente ecumênica e amante das novas formas pastorais.

4. O tradismatismo é, na verdade, a romanização do carismatismo, isto é, uma maior assimilação da identidade católica em um movimento essencialmente caracterizado pela sua afirmação ecumênica.


Católicas feministas odeiam homens católicos. E elas perderão tudo com isso.

Algumas páginas católicas feministas estão compartilhando um “estudo” que atesta que o movimento “tradwife” tem atraído homens que “odeiam” ...