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terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Pe. José Eduardo e os paroquianos de Nárnia


Pe. José Eduardo, sacerdote que já discorremos em algumas oportunidades neste blog, no último dia 01 de fevereiro, publicou uma provocativa postagem em suas redes sociais criticando aquilo que ele chama de "sommeliers de Missa":

Gostaríamos de fazer um breve comentário à postagem do padre.

Há narnianos que acham que estamos numa espécie de Suiça litúrgica e que dá para alguém ser católico em qualquer lugar, na paróquia mais próxima de casa. Mas qualquer fiel realista verá que a situação é realmente triste, para não dizer verdadeiramentendesesperadora, quando se trata de encontrar missas piedosas, bons pastores e paróquias que não sejam uma espécie de clube social, mas um porto seguro para a salvação das almas. Poderíamos citar como vivas provas desse cenário aterrador missas da Renovação Carismática, movimento do qual o Pe. José Eduardo é forte apoiador, conforme já expusemos aqui e aqui.

Essa tragédia eclesial causou o que Martin Mosebach em "The Heresy of Formlessness" chama de "perda da inocência litúrgica". Comenta o autor que o católico do século XXI foi obrigado a virar uma espécie de especialista litúrgico para poder se contrapor à devastação da liturgia promovida desde o século XX.

"Talvez o maior dano causado pela reforma da Missa do Papa Paulo VI (e pelo processo em andamento que a ultrapassou), o maior déficit espiritual, seja este: agora somos positivamente obrigados a falar sobre a liturgia . Mesmo aqueles que querem preservar a liturgia ou rezar no espírito da liturgia, e mesmo aqueles que fazem grandes sacrifícios para permanecer fiéis a ela - todos perderam algo inestimável, a saber, a inocência que a aceita como algo dado por Deus , algo que desce ao homem como um presente do céu. Aqueles de nós que somos defensores da grande e sagrada liturgia, a liturgia romana clássica, todos nos tornamos - seja de uma forma pequena ou grande - especialistas litúrgicos. Para combater os argumentos da reforma, que foi preenchida com erudição técnica, arqueológica e histórica, tivemos que nos aprofundar em questões de adoração e liturgia - algo que é totalmente estranho ao homem religioso [ou seja, o homem cuja religião é tão natural para ele a ponto de ser não intencional e reflexivo]."
E, continua o autor, só por causa desse católico que hoje temos algumas missas onde o fiel pode, finalmente, se entregar e se deixar guiar pela liturgia na adoração a Deus ao invés de ser um vigilante crítico de teatro.
"E se, de vez em quando, tivermos o privilégio de celebrar uma Santa Missa que nos permita esquecer, por um momento, a enorme catástrofe histórica e religiosa que prejudicou profundamente a ponte entre o homem e Deus, não podemos esquecer todos os esforços que tiveram que ser feitos para que esta Missa pudesse acontecer, quantas cartas tiveram que ser escritas, quantos sacrifícios tornaram possível este Santo Sacrifício, para que (entre outras coisas) pudéssemos rezar por um bispo que não quer nossas orações e que prefere não ter seu nome mencionado no Cânon."
Contudo, ainda que estivéssemos numa Suíça ou Noruega litúrgica, ser um "sommelier" de missa não é exatamente errado quando o fiel apenas procura um lugar para adorar melhor a Deus. Nesse sentido, São Leonardo de Porto Maurício, em "Excelências da Santa Missa", incentiva os fiéis a buscarem as missas mais piedosas:
"Considera, pois, o erro daqueles que preferem as missas mais curtas e com menos devoção, ou, o que é pior, dos que a elas assistem com pouca ou nenhuma devoção, e que não fazem o menor esforço para ir ao sacerdote mais fervoroso e devoto quando mandam celebrar uma missa. Porque se é verdade que todas as Missas são iguais no que diz respeito ao Sacramento, como ensina São Tomás, não o são, porém, quanto aos efeitos que causam. Assim, não devemos duvidar de que quanto maior é a piedade do celebrante, quanto mais proveitosa e abundante é a aplicação que se faz dos frutos do Sacrifício; não fazer diferença entre um padre mais fervoroso e outro menos seria o mesmo que, para pescar, lançar mão indiferentemente de uma rede de malhas pequenas ou grandes."
Dom J. B. Chautard em "A Alma de Todo Apostolado" ensina que quanto mais santo é o sacerdote melhores serão os fiéis:
"A sacerdote santo, houve quem dissesse, corresponde povo fervoroso; a sacerdote fervoroso, povo piedoso; a sacerdote piedoso, povo honesto; a sacerdote honesto, povo ímpio. Sempre um grau de vida a menos naqueles que são gerados.
Seria talvez exagero admitir esta proposição; julgamos, porém, que as seguintes palavras de Santo Afonso exprimem suficientemente qual a causa a que se devem atribuir as responsabilidades de nossa atual situação:
"Os bons costumes e a salvação dos povos dependem dos bons pastores. Se à frente de uma paróquia estiver um bom pároco, depressa nela se verá florescente, sacramentos frequentados, a oração mental praticada. Daí o provérbio: Qualis pastor talis paróchia, segundo esta palavra do Eclesiástico (10, 2): Qualis est rector civitatis, tales et inhabitantes in ea." "
A razão de se buscar missas mais piedosas e sacerdotes mais santos é muito óbvia: a santidade deles influi diretamente da prosperidade dos fiéis (pessoas se convertem, vocações prosperam e problemas são resolvidos). Se uma mãe deseja a conversão do seu filho, se um esposo deseja o fim da crise de seu casamento ou se uma moça deseja encontrar um bom marido, nada melhor do que pedir essas coisas a Deus numa missa piedosa e com um pároco realmente preocupado com as almas, pois eles atraem as graças de Deus para os fiéis. Não há segredos ou fórmulas mágicas. A prosperidade espiritual segue uma lei geral: Ubi est ordo, Deus ibi est (onde há ordem, Deus aí está). Onde a liturgia é respeitada, onde o sacerdote e os leigos sabem deveres, onde a oração é incentivada, onde os mandamentos são seguidos, Deus abençoa infalivelmente. Onde isso não acontece, Deus não abençoa. Simples assim. Esta verdade é explicitamente ensinada nas Sagradas Escrituras:
"Se seguirdes minhas leis e guardardes os meus preceitos e os praticardes, eu vos darei a chuva nos seus tempos. A terra dará o seu produto e as árvores da terra se carregarão de frutos. A debulha do trigo se estenderá até a colheita da uva, e a colheita da uva até a sementei­ra; comereis o vosso pão à saciedade, e ha­bitareis em segurança na vossa terra. Darei paz à vossa terra e vosso sono não será perturbado. Afastarei da terra os ani­mais nocivos, e a espada não passará pela vossa terra. Quando perseguirdes os vossos inimigos, cairão sob vossa espada. Cinco dentre vós perseguirão um cento, e cem dos vossos perseguirão dez mil, e os vossos inimigos cairão sob vossa espada. Eu me voltarei para vós, e vos farei crescer; eu vos multiplicarei e ratificarei a minha aliança convosco. [...] Mas se não me escutardes e não guardardes os meus mandamentos, se desprezardes os meus preceitos e vossa alma aborrecer as minhas leis, de sorte que não pratiqueis todos os meus mandamentos e violeis minha aliança, eis como vos hei de tratar: enviarei terríveis flagelos sobre vós: a tísica e a febre que enfraquecerão vossa vista e vos farão desfalecer. Debalde semeareis a vossa semente, porque vossos inimigos a comerão.Voltarei minha face contra vós e sereis vencidos pelos vossos inimigos: eles vos dominarão, e fugireis sem que ninguém vos persiga. Se nem ainda assim me ouvirdes, castigarei sete vezes mais pelos vossos pecados. Quebrarei o orgulho de vosso poder, tornarei o vosso céu como ferro e a vossa terra como bronze. Inutilmente se gastará a vossa força, pois vossa terra não dará os seus produtos, e as árvores da terra não produzirão os seus frutos." (Lv 26, 3-9; 14-20)
Deus é enérgico. Para os desobedientes, sequer adiantará "gastar a vossa força, pois a vossa terra não dará frutos". Em outras palavras, inutilmente trabalhará um fiel em uma paróquia infértil. Inultilmente buscará vida espiritual autêntica nela. Deus não fará surgir frutos. Por isso é ingênua a proposta de muitos conservadores que os leigos participem ativamente, dando catequese, por exemplo, ou ajudando a limpar a igreja, de uma paróquia moderna cheia de abusos litúrgicos. Se o padre não for piedoso e não quiser implantar piedade em sua paróquia, a começar pela missa, todo trabalho será em vão.

Mas OK, se alguém preferir não ser um "sommelier" de Missa, como pede o Pe. José Eduardo, então que faça como os paroquianos de Nárnia: que não ligue para a santidade do lugar, que tente ser católico em qualquer igreja de esquina e assim atrase uns 20 anos a resolução dos seus problemas (se um dia eles forem resolvidos).

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

As grandes bobagens de Viviane Varela (O Catequista) sobre as diaconisas e o serviço feminino do altar


A página O Catequista, conhecida pelo seu progressismo, atacou novamente. Desta vez, por meio de sua administradora Viviane Varela, que tem se notabilizado por aderir ao feminismo católico, a página veio justificar o uso de acólitas na celebração da Santa Missa.


O que foi mais notável, porém, foram as inumeráveis afirmações históricas falsas feitas por Viviane para defender o acolitato feminino. Vamos a elas.

Viviane busca responder uma pergunta da caixinha do Instagram que fazia o seguinte questionamento:


Viviane primeiro faz a distinção entre "Tradição" com "T" maiúsculo e "tradição" com "t" minúsculo e responde que a "Tradição" nunca proibiu. Em seguida afirma que na Igreja Primitiva as mulheres participavam do serviço do presbitério exercendo um papel litúrgico, como a unção do óleo do batismo nas mulheres, que eram batizadas nuas.

A primeira coisa que se nota é a imprecisão de Viviane a respeito do serviço feminino no presbitério. Não há evidências robustas de que os batismos antigos eram realizados no presbitério. Na verdade, as principais piscinais batismais dos primeiros séculos que hoje temos evidência encontravam-se em construções separadas das igrejas e eram chamadas de batistérios, como informa Tribe Shawn em artigo para a Liturgical Arts Journal:
"Nos tempos antigos, pelo menos para igrejas maiores, frequentemente se via um edifício separado como batistério. Pode-se pensar aqui no batistério da basílica de Latrão, localizado no edifício octogonal do século III atrás da basílica propriamente dita. Fora do duomo de Florença e Pisa, também se pode ver batistérios de formato semelhante."
O mesmo é atestado por Catherine Brown Tracz aqui:
"Na maior parte da Igreja, portanto, uma solução veio naturalmente quando um problema pastoral surgiu com o batismo. Inicialmente, o batismo era de adultos nus. Como a Igreja poderia salvaguardar a modéstia das mulheres sendo batizadas e dos homens que as batizavam? Parte da resposta foi construir batistérios com cortinas, uma com uma abertura pela qual o padre ou diácono pudesse alcançar para colocar sua mão na cabeça da mulher batizada e pronunciar a fórmula batismal." (p. 190)
Seguem algumas imagens desses batistérios:

Batistério de Latrão


Batistério de Pisa

Mesmo na Tradição das Igrejas orientais a evidência de mulheres no santuário é escassa. Pe. Aimé Georges Martimort, que realizou o principal estudo do século XX sobre diaconisas em seu livro "Deaconess: An Historical Study", afirma que, no rito bizantino, as diaconisas jamais tiveram acesso ao santuário:
"Em nenhum momento as diaconisas no rito bizantino tiveram acesso ao santuário, nem essa proibição foi de alguma forma baseada nas visões de impureza encontradas no Livro de Levítico. O único texto que fez alguma alusão a isso não era nem grego. Foi uma resposta do bispo sírio, João de Telia, e essa questão dizia respeito apenas à competência da diaconisa no convento na ausência de um padre ou diácono. Mas quando Teodoro registrou que “hoje as diaconisas não são mais ordenadas”, devemos levá-lo ao pé da letra? Ou ele, devido à ideia inexata que tinha da antiga instituição da diaconisa, considerou as diaconisas presentes em Constantinopla em seu tempo como não sendo verdadeiras diaconisas?" (p. 172)
A segunda coisa que se observa é que Viviane não traz um mísero exemplo da Tradição litúrgica da Igreja de serviço feminino no altar, que era, de fato, o objeto da pergunta. E falha por um motivo muito simples: ele não existiu na Tradição da Igreja.

Ao contrário do que alega o Catequista, o serviço feminino no altar sempre foi repreendido pela Igreja e sua prática sempre envolveu costumes de igrejas cismáticas que praticavam a ordenação de diaconisas. Um exemplo disso eram os chamados Montanistas. Eles ordenavam diaconisas e admitiam o serviço feminino do altar. Essa prática foi condenada pelos concílios regionais de Nimes, Oranges e Laodicéia. Aliás, sempre que o serviço feminino era retomado na História da Igreja havia Concílios Regionais que condenavam a prática apelando sempre à Tradição Apostólica e e à tradição eclesiástica da Igreja. Senão vejamos algumas dessas condenações:

Concílio de Nimes (394 d.C):
"Cânon 2. Naquela época, alguns sugeriram que, contrariamente à disciplina apostólica, até então desconhecida, as mulheres eram levadas para o ministério levítico em algum lugar; o que aliás, por ser indecente, a disciplina eclesiástica não admite; e tal arranjo deveria ser desfeito como contrário à razão: deveria-se tomar cuidado para que ninguém mais ouse fazer isso. ”
Concílio de Orange (441 d.C):
Cânon 26. As diaconisas não devem ser ordenadas sob qualquer hipótese: se houver, submetam a cabeça à bênção que é concedida ao povo.
Concílio de Laodicéia (365 d.C.): 
“Mulheres não podem se aproximar do altar.” (Cânon 44)

Concílio de Paris:

"Cânon 45. Temos procurado por todos os meios possíveis impedir a admissão ilícita de mulheres no altar. Soubemos por meio de um relato de pessoas confiáveis ​​que em algumas províncias, em contradição com a lei divina e com a instrução canônica, as mulheres se dirigem à área do altar, impudentemente pegam os vasos sagrados, estendem as vestes sacerdotais aos sacerdotes e — o que é ainda pior, mais indecente e impróprio do que tudo isso — dão ao povo o corpo e o sangue do Senhor e fazem outras coisas que em si mesmas são indecentes [ quae ipso dictu turpia sunt ].

É mais surpreendente como essa prática, não permitida na religião cristã, pôde se infiltrar; isto é, como as mulheres, a cujo sexo não é de forma alguma adequado fazer o que é contrário à lei divina, puderam se permitir fazer o que é proibido aos homens seculares. Sem dúvida, ocorreu por descuido e negligência de alguns bispos. Portanto, ai de nós, padres, em cujas mãos os fardos daquele padre passaram, como são descritos em Mach. 2: Pois eles realmente desconsideraram seu dever que lhes foi delegado para o culto e, enquanto o templo de Deus estava sem serviço sagrado, entregaram-se a paixões carnais e ações ilícitas, de modo que as mulheres, sem que ninguém as impedisse, se dirigiram a casas consagradas e ali puderam introduzir coisas não permitidas."

O Magistério dos Papas também não ficou em silêncio e igualmente confirmou a condenação do serviço feminino no altar.

Papa São Gelásio em Carta aos Bispos da Lucânia (496 dC):

"Com impaciência, ouvimos que as coisas divinas sofreram tanto desprezo que as mulheres são encorajadas a servir nos altares sagrados, e que todas as tarefas confiadas ao serviço dos homens são executadas por um sexo para o qual essas [tarefas] não são apropriadas" (Mansi VIII, 44).
O mesmo é confirmado pelo Papa Bento XIV:
“O Papa Gelásio, em sua nona carta (cap. 26) aos bispos da Lucânia, condenou a prática maligna que havia sido introduzida de mulheres servindo ao padre na celebração da missa. Como esse abuso havia se espalhado para os gregos, Inocêncio IV proibiu estritamente em sua carta ao bispo de Tusculum: 'As mulheres não devem ousar servir no altar; elas devem ter esse ministério completamente recusado.' Nós também proibimos essa prática nas mesmas palavras em Nossa constituição frequentemente repetida Etsi Pastoralis, seção 6, nº 21.”
Código de Direito Canônico de 1917:
"Cânon 813. Cuide-se para que nenhuma mulher ouse caminhar até o altar ou ministrar ao sacerdote ou ficar de pé ou sentar-se dentro da capela-mor" (c. 1, X).

Liturgicae Instaurationes (1970):

"Em conformidade com as normas tradicionais da Igreja, as mulheres (solteiras, casadas, religiosas), seja em igrejas, lares, conventos, escolas ou instituições para mulheres, estão proibidas de servir o sacerdote no altar."

Do exposto, devemos concluir que a Tradição da Igreja sempre proibiu a participação feminina no serviço do altar.

A qual Tradição pertence o serviço masculino do altar?

Convém questionarmos agora qual Tradição proibiu o serviço feminino do altar. Para tanto, expliquemos o que significa "Tradição".

"Tradição" não possui um sentido unívoco e diversos teólogos buscaram distinguir os tipos de tradição. Expliquemos seus sentidos:

Quando o autor da Tradição é Deus:
a) Tradição Dominical - Aquilo que Cristo instituiu oralmente. Ex: indissolubilidade do matrimônio e os preceitos da caridade).

b) Tradição Apostólica/Divino-Apostólica - Aquilo que os Apóstolos instituíram sob inspiração do Espírito Santo. Ex: ordenação de diáconos.
A Tradição fundada por Deus é imutável e não pode ser alterada.

Quando o autor da Tradição é a Igreja:
a) Tradição humano-eclesiástica: Tradições iniciadas pelos Apóstolos, mas que não foram divinamente reveladas. Ex: ritos da Igreja, leis de jejum e abstinência que diferem de igreja para igreja, etc.

b) Tradição meramente eclesiástica: é toda aquela instituída pela Igreja após o tempo dos Apóstolos. Ex: festas litúrgicas.
A Tradição fundada pela Igreja pode ser alterada. No entanto, cabe aqui uma observação oportuna. A mudança não pode ser arbitrária. Como observa o Pe. Chad Ripperger em se livro"Topics on Tradition":
"Além disso, quanto mais longa a tradição humano-apostólica, maior a causa para uma mudança deve ser manifesta. Portanto, se uma tradição humano-apostólica está em vigor desde o tempo dos Apóstolos, somente sob as mais graves circunstâncias ela deve ser mudada, já que a vontade de Deus é manifesta em Sua aprovação da tradição, já que ela permaneceu em vigor por tal duração."
Estabelecidas estas distinções, perguntemo-nos: a qual Tradição o serviço masculino do altar pertence?

Podemos afirmar, sem sombras de dúvidas, que pertence à Tradição divina, porque é um serviço ínsito aos poderes do presbítero e do diácono. Relembremos quais são eles:
"O presbiterado consagra os sacerdotes “à imagem de Cristo, sumo e eterno sacerdote (Hebr. 5, 1-10; 7,24; 9, 11-28), para pregar o Evangelho, apascentar os fiéis e celebrar o culto divino, como verdadeiros sacerdotes do Novo Testamento” (Lumen Gentium, 28).

"O diaconato serve o presbiterato. “É próprio do diácono, segundo for cometido pela competente autoridade, administrar solenemente o Batismo, guardar e distribuir a Eucaristia, assistir e abençoar o Matrimônio em nome da Igreja, levar o viático aos moribundos, ler aos fiéis a Sagrada Escritura, instruir e exortar o povo, presidir ao culto e à oração dos fiéis, administrar os sacramentais, dirigir os ritos do funeral e da sepultura.” (Lumen Gentium, 29)
Mas e as ordens menores? A qual Tradição pertence? Para responder essa pergunta, façamos uma breve digressão histórica das ordens menores.

Segundo Santo Tomás, no Comentário às Sentenças, as ordens menores foram instituídas pela Igreja como uma distribuição das funções do diácono:
“Na Igreja primitiva, todos os ministérios inferiores eram confiados aos diáconos por causa da escassez de ministros, como fica evidente no que Dionísio diz: “outros ministros ficam nos portões fechados do templo; outros trabalham em outra coisa de sua ordem própria; outros colocam o pão sagrado e o cálice da bênção sobre o altar com os sacerdotes”. No entanto, todos os poderes mencionados estavam lá, mas implicitamente no único poder do diaconato. Mais tarde, porém, o culto divino foi mais difundido, e o que a Igreja tinha implicitamente em uma ordem, ela distribuiu [tradidit] explicitamente sobre muitos; e segundo isso, o Mestre diz no texto que “a Igreja instituiu para si outras ordens”."

Dom Athanasius Schneider, no mesmo sentido, explica que o Concílio de Trento escolheu a expressão "ministros" ao invés de "diáconos" justamente para incluir as ordens menores ao poder implícito do diaconato:

"Definindo dogmaticamente a estrutura divinamente estabelecida da hierarquia, o Concílio de Trento escolheu o termo “ministros” ao lado dos termos “bispo” e “sacerdotes”, evitando o termo “diáconos”. Provavelmente o Concílio quis incluir no termo “ministros” tanto o diaconato quanto as ordens menores, para dizer implicitamente que as ordens menores são parte do diaconato. Esta é a formulação do cânon 6 da sessão XXIII: “Se alguém disser que na Igreja Católica não há hierarquia estabelecida por um arranjo divino, que é composta de bispos, padres e ministros, seja anátema”. Pode-se dizer, portanto, que ordens inferiores ou menores, como o leitorado e o acolitato, têm sua raiz no diaconato pela instituição divina, mas foram formadas e distribuídas em vários graus pela instituição eclesiástica (cf. Dom Gréa, loc. cit.)."

Dom Athanasius sublinha, portanto, que o diaconato é de instituição divina e as ordens menores de instituição eclesiástica. Porém, elas surgiram para proteger o diaconato, isto é, reafirmá-lo.

Quanto à historicidade das ordens, a Administração Apostólica São João Maria Vianney afirma que o subdiaconato foi instituído ainda na era apostólica, sendo, portanto, uma tradição humano-eclesiástica:

"O subdiaconato é a primeira das ordens maiores, embora não seja parte mesma do sacramento da Ordem, é a Ordem pela qual os ordenados são tidos na Liturgia como ministros sagrados pela qual a Igreja confere o poder de servir ao diácono na missa solene, de lhe oferecer o cálix e a patena, de preparar a água para o s. sacrifício, de cantar a epístola e de abluir as palas e os corporais.

[...]  

A origem do subdiaconato deve-se à necessidade de auxiliares para os sete diáconos, cujo número não se quis mudar. Por isso esse auxiliar subalterno é chamado subdiácono, pois que o diácono é o primeiro ministro. Foi instituído ainda no tempo dos apóstolos, “desde o princípio da Igreja.” Antigamente o subdiácono estava encarregado de ajudar o diácono, recebendo com ele as ofertas do povo e colocando no altar uma parte delas, suficiente para a comunhão dos fiéis. Devia guardar a porta das mulheres, ao passo que o diácono guardava a dos homens. Estava-lhe confiado o cuidado dos sepulcros dos mártires, das relíquias dos santos e das sagradas hóstias restantes da comunhão. Ocupava, portanto, uma posição muito honrosa de que ainda hoje está investido. Contudo esta ordem é sacramento. Na Igreja grega é ordem menor. Na Igreja romana só no século XIII (Inocêncio III) se começa a contá-la entre as ordens maiores. Mas a importância que a Igreja liga a este grau eclesiástico pode-se inferir das obrigações impostas aos que têm a honra de pertencer a ele. Cada dia o subdiácono deve rezar o oficio divino, e na Igreja romana deve guardar o celibato."

A obrigação do celibato é igual à do voto solene de castidade e é impedimento dirimente do matrimônio. A violação desta lei é um sacrilégio, de sorte que o transgressor pelo pecado, quer interno quer externo, comete dois pecados, contra a castidade e contra o voto."

Já acolitato tem o seu possível registro mais antigo datado no ano de 189 dC, sob o pontificado de São Vitor I.

O leitorado Tertuliano, já no século II, o testemunha.

No século III, encontra-se o registro das sete ordens completas, como testemunha Eusébio de Cesareia:

“Na Igreja Romana há quarenta e seis presbíteros, sete diáconos, sete subdiáconos, quarenta e dois acólitos, cinquenta e dois exorcistas, leitores e porteiros” (História Eclesiástica , VI, 43, 11)

Portanto, o registro dessas ordens é realmente antigo, sendo mais antigo, por exemplo, que as referências documentais à assunção de Nossa Senhora. 

Aqui convém relembrar que as tradições muito antigas, de origem oculta e extremamente duradouras na História da Igreja é muito provável que elas pertençam à Tradição Apostólica, como ensina o Pe. Ripperger em seu livro "The Limits of  Papal Autorithy Over the Liturgy"

Devido ao fato de Deus ser o Senhor da História, de ter estabelecido a Igreja para Lhe dar um culto bem ordenado, tanto que Ele deu instruções detalhadas, nada permanece na liturgia durante um longo período de tempo que não seja a Vontade de Deus que esteja aí. A partir disso, o princípio é que a longevidade de um elemento da liturgia dá indicação da Vontade de Deus em relação a esse elemento. Formulando de outra forma, a duração de algo nos livros litúrgicos determina o quanto Deus deseja isso na liturgia. Se algo é da Tradição Apostólica, isso indica que Deus geralmente quer esse elemento na liturgia por toda a duração da História da Igreja." (p. 42-43)

Mesmo considerando o atual status da pastoral litúrgica, a Igreja deixa claro que existe uma obrigação de conservar-se o serviço masculino do altar. Em 1994, a Congregação do Culto Divino e o Conselho para Interpretação dos Textos Legislativos fizeram o seguinte comunicado:

"A Santa Sé respeita a decisão que alguns Bispos, por determinadas razões locais, adotaram, com base ao previsto no cân. 230 § 2, mas contemporaneamente a mesma Santa Sé recorda que sempre será muito oportuno seguir a nobre tradição do serviço ao altar pelos meninos. Isto, como se sabe, permitiu inclusive um consolador desenvolvimento das vocações sacerdotais. Portanto, sempre existirá a obrigação de continuar a sustentar tais grupos de coroinhas."

Assim, mesmo que se considere a atual e confusa pastoral moderna de permitir mulheres no altar fundamentada na dignidade batismal do leigo, o que a Igreja ensino é que o serviço do altar tanto pela doutrina quanto pela conveniência é essencialmente masculino. O serviço masculino sempre será uma obrigação, enquanto o serviço feminino uma mera permissão.

Nestas premissas, é possível concluir que a Tradição que conservou o serviço masculino e proibiu o serviço feminino foi tanto divina quanto eclesiástica. A primeira por ensinar que o serviço do altar pertence essencialmente às ordens sagradas, a segunda por proteger as ordens sagradas com as ordens menores. 

O status atual das ordens menores

Se o serviço masculino do altar é uma Tradição divina e ela mesma proibe a participação feminina, como explicar a mudança operada pelo Papa Francisco de abrir o acolitato e o leitorado às mulheres?

Pois bem, segundo alguns teólogos, o que Paulo VI fez no Motu Proprio Ministeria Quaedam não foi apenas renomear as ordens menores, mas criar algo inteiramente novo. Em outras palavras, o Papa substituiu o uso das ordens menores na Missa Nova pelos ministérios laicais. Assim, o acolitato e o leitorado, embora recebam o mesmo nome das ordens tradicionais, eles só o são de maneira análoga, tal como o "coroinha" não ordenado é chamado "acólito".

Em reforço a esse entendimento, o Pe. Chad Ripperger em certa conferência explica que os ministérios laicais instituídos por Paulo VI não podem ser identificados com as ordens menores:

"Os ministérios que a Igreja regulamentou recentemente não são a mesma coisa que as ordens. Ministério é a permissão para fazer algo, é a capacidade de fazer algo sem obter permissão adicional. Não é um cargo oficial que você recebe que muda você de alguma forma. [...] O que acontece é que cada vez que você passa por essas ordens, você está passando por um ritual em que o bispo pede para você graças específicas para aquela ordem" (46'20")

Segundo o padre, embora as tarefas litúrgicas sejam materialmente as mesmas, as ordens realmente conferiam um poder ao ordenado, "graças diaconais", enquanto que os ministérios atuais concedem apenas uma faculdade ao leigo, isto é, uma permissão.

O entendimento de que Paulo VI criou ministérios completamente novos é baseado nos seguintes fundamentos:

a) Quanto à finalidade. Os ministérios laicais atuais não possuem como finalidade geral o exercício da diakonia na liturgia, mas, sim, a promoção do estado de leigo.

b) Quanto aos efeitos. Os novos ministérios recebem graças inferiores às das ordens menores. O acolitato e o leitorado, embora tenham incorporado as funções do subdiaconato, não tornam o ministro leigo um clérigo, isto é, uma pessoa sagrada, como era o caso do subdiácono, e nem lhe confere poderes diaconais, como o de benzer o pão e os frutos novos, como faziam os leitores no rito tradicional.

Portanto, é inequívoco que as ordens menores se diferem essencialmente dos ministérios laicais. As ordens menores conferiam poderes reais e permanentes aos ordenados, isto é, alguns poderes do diácono, enquanto que os atuais ministérios laicais são meras permissões para incentivar a participação ativa do leigo e que não transformam o status dele, isto é, não o tornam clérigo e nem lhe é atribuído qualquer poder especial típico das ordens sagradas, como o poder de abençoar.

Peter Kwasnieski, aqui, resume melhor:

"A conferência das ordens menores é mais do que uma mera delegação, mas menos do que uma ordenação sacramental no sentido pleno, que inscreve uma marca ou caráter indelével na alma. Se (como na opinião teológica mais comum) as ordens menores não conferem um caráter e não fazem parte do sacramento da ordem, mas são instituídas pela Igreja, elas devem ser classificadas como sacramentais. Isso parece estar de acordo com a definição de sacramentais dada no Código de 1917: “coisas ou ações que a Igreja usa em certa imitação dos sacramentos, a fim de, em virtude de suas orações, alcançar efeitos, acima de tudo de natureza espiritual”.

Especificamente, as cerimônias são bênçãos constitutivas que delegaram permanentemente as pessoas ao serviço divino, conferindo-lhes alguma identidade sagrada, pela qual assumem um novo e distinto relacionamento espiritual. Essas bênçãos dão direito aos seus destinatários a graças reais para o desempenho de seus ministérios, muito parecido com as graças sacramentais associadas à recepção dos sacramentos e semelhantes à bênção de um abade. Isso faz com que os homens em ordens menores sejam sacramentalia permanentia — tipos de objetos abençoados e consagrados! Por exemplo, a bênção de um rosário é um sacramental; o próprio rosário abençoado é um sacramental; o uso do rosário abençoado é um sacramental. Da mesma forma, podemos dizer que as cerimônias que conferem as ordens menores são sacramentais, as ordens menores são sacramentais e os exercícios de seus ofícios são sacramentais."

Pe. Louis Bacuez na obra "Minor Orders" ensina, por fim, que aqueles que recebem as orders menores recebem gradualmente os poderes do sacerdócio:

“Aquele que é investido com essas primeiras Ordens começa a ter uma parte nos poderes do grande Sumo Sacerdote.” (p. 160)

Assim, a substituição das ordens menores pelos ministérios laicais, em termos prudenciais, é altamente discutível, tendo em vista que os novos ministros recebem menos graças do que antes e se retira do Novus Ordo um importante monumento da Tradição. Igualmente discutível é a abertura feita pelo Papa Francisco do serviço do altar às mulheres, uma vez que o Magistério, em diversas ocasiões, ensinou que tais funções são inadequadas para o sexo feminino.

Certamente, Deus oferece graças aos ministros leigos para o cumprimento de suas funções, mas o sexo feminino, sendo inadequado para o ofício, traz elementos humanos que podem prejudicar a perfectibilidade da Tradição.

Nesse sentido, pontuam os teólogos Joseph Willhelm e Thomas B. Scannell, na obra "A Manual of Catholic Theology", que os elementos humanos inseridos numa tradição eclesiástica podem eclipsar parcialmente verdades fundamentais da Tradição revelada:

"No entanto, deve-se admitir que o elemento humano modifica a perfeição da Tradição. Pode haver uma quebra em sua continuidade e universalidade. Um eclipse temporário e parcial da verdade é possível, assim como desenvolvimentos posteriores. É possível que por um tempo uma parte do Depósito não seja conhecida e reconhecida por toda a Igreja ou expressa e distintamente atestada pelos principais órgãos do Apostolado." (p. 71)

O primeiro eclipse da Tradição é o mais óbvio de todos: a defesa do diaconato feminino. Uma vez que a Igreja já não mais protege o diaconato com as ordens menores, a verdade do diaconato católico é a primeira a ser atacada. Atualmente, membros do alto clero da Igreja discutem se é possível ordenar sacramentalmente diaconisas. Não existiria essa discussão se o serviço do altar fosse realizado só por homens.

O próprio O Catequista advoga pelo serviço de mulheres no altar presumindo que diaconisas tinham poderes diaconais para servir o altar. Em outras palavras, o acolitato e o leitorado feminino acaba por ser uma defesa da diaconato feminino por procuração.

O segundo eclipse da Tradição é a impugnação ao sacerdócio católico. Meninas já não sabem o porquê não podem ser sacerdotisas, uma vez que não há diferenciação das funções litúrgicas em função do sexo.

O terceiro eclipse da Tradição é a ideologia de gênero. Não havendo funções litúrgicas segundo o sexo de cada pessoa, a ideologia de gênero torna-se verossímil e mais difícil de se combater.

O quarto eclipse da Tradição é o feminismo. O serviço feminino do altar promove uma perspectiva horizontalista dos papeis sexuais. Isso pode trazer profundas dificuldades no matrimônio, pois mulheres podem pensar que, uma vez que já fazem funções inadequadas para o seu sexo, agora elas podem fazer outras igualmente inapropriadas, como liderar seu marido ou não reconhecê-lo como chefe da família.

Paremos por aqui. É patente que as inconveniências são muitas e a honestidade intelectual irá reconhecê-las.

Temos a tese inclusive que muito dos abusos litúrgicos que imperam sem controle no rito paulino ocorrem justamente em razão da ausência dos sacramentalia permanentia, isto é, de homens permanentemente consagrados e robustamente agraciados para o serviço divino. Mas isso é papo para outro dia.

O status do serviço feminino do altar

Viviane Varela buscou completar seu vídeo inicial com uma sequência de stories explicando melhor as supostas razões que teriam levado a Igreja ao abandono das diaconisas (que ela crê errôneamente que serviam no presbitério) e o consequente serviço feminino no altar. Viviane elenca duas razões:

1) Leis obsoletas de impureza ritual

Viviane de modo impreciso e sem nenhuma fonte afirma que "voltou com força na Idade Média uma distorção religiosa chamada impureza ritual".

Provavelmente, Viviane sequer fez uma pesquisa sobre o assunto e está literalmente chutando tudo o que fala.

Não há notícias de que no Ocidente mulheres fossem impedidas de acessar o altar em razão de leis de impureza ritual. Esta foi uma realidade abundantemente presente nas Igrejas Ortodoxas durante a Idade Média, mas não na Igreja latina. Tanto que essas leis levíticas de impureza ritual continuam até hoje em certas Igrejas ortodoxas, sendo o exemplo mais famoso a Igreja Ortodoxa Russa.

Segundo Christine Tracz, no artigo "Deaconess and Ritual Impurity", na Igreja Latina, a impureza ritual nunca foi levada a sério e foi exatamente por isso que as deaconisas não eram necessárias.

"No Ocidente, mesmo em grupos dualistas, não eram necessárias diaconisas nas paróquias. Isso foi positivo para as mulheres. As mulheres nas igrejas latinas podiam falar diretamente com o clero; nenhuma diaconisa era necessária como intermediária. As mulheres durante a menstruação ou a gravidez eram livres de adorar na igreja, pelo que não era necessária nenhuma diaconisa para levar a Eucaristia às mulheres grávidas nas suas casas. Na verdade, o Papa Gregório Magno ensinou que as mulheres menstruadas e as mulheres recém-partas podem frequentar a igreja e receber a Sagrada Comunhão, e explicou que as ações de Jesus (como no caso da Hemorrissa) tinham posto de lado as leis levíticas da impureza ritual. Também no Ocidente, enquanto o batismo de adultos era a norma, as batizadas eram assistidas por diversas mulheres cristãs, porque eram reconhecidas como qualificadas para preparar as batizadas na fé e para auxiliar no sacramento; novamente, nenhuma diaconisa foi necessária. Por exemplo, Gennadius de Marselha citou viúvas e freiras bem capazes aperto et sano sermone docere (para ensinar com um discurso claro e saudável), instruindo as mulheres para este sacramento." Embora os estudiosos modernos que desejam que as mulheres sejam ordenadas sugiram que a falta de diaconisas no Ocidente mostra uma restrição misógina às mulheres, o oposto é verdadeiro: as diaconisas evidentemente não eram necessárias no Ocidente devido ao reconhecimento adequado das capacidades das mulheres." (p. 195)

Viviane, portanto, ao pontuar que diaconisas foram extintas por causa de padres reaças e radicais que aderiam leis de impureza ritual, traz uma informação completamente fantasiosa. Na verdade, como atesta Catherine Tracz, foi a existência dessas leis levíticas que levaram ao crescimento das diaconisas:

"Uma característica comum de muitas cristologias heréticas é o dualismo cósmico, que implica a crença de que apenas o espiritual é bom e que a matéria é inerentemente má. Em seu foco na transcendência de Deus, esses grupos consideraram blasfêmia pensar que o divino de fato se tornaria humano. Muitos dos grupos que consideraram a Encarnação problemática também segregaram fortemente os sexos socialmente. Consequentemente, os sírios, coptas, paulinos, armênios e outros monofisitas tinham diaconisas. Manfred Hauke ​​observou em 1982: “O aparecimento de diaconisas pressupõe, portanto, condições patriarcais”.

Nessas igrejas, as diaconisas prestavam serviços sociais às mulheres, como os diáconos faziam pelos homens. Lá as mulheres não tinham permissão para falar com um clérigo, mas poderiam falar com uma diaconisa que transmitiria suas preocupações. As mulheres grávidas eram proibidas de ir à igreja e, como indica a Didascalia, teria sido considerado escandaloso para um homem visitar suas casas. Portanto, uma diaconisa levaria a ela a comunhão."

Martimort em "Deaconess" resume tudo informando que, de maneira geral, as diaconisas somente surgiram na Igreja, mais precisamente nas igrejas orientais, unicamente para suprir as necessidades de outras mulheres. Elas não surgiram num contexto de serviço litúrgico geral.

"As diaconisas surgiram na Igreja em uma região do Oriente onde a separação estrita das mulheres exigia um ministério feminino específico para servir outras mulheres." (p. 44)

Martimort informa ainda que nem mesmo o auxílio que prestavam no batismo de mulheres podia ser considerado um serviço litúrgico:

"As diaconisas não participavam da liturgia. Na verdade, sua parte no rito do batismo em si era muito restrita; elas simplesmente completavam a unção iniciada pelo celebrante. Nem pronunciavam a invocação, ou epiclese. De forma alguma elas poderiam ser consideradas no mesmo nível que os diáconos: elas eram suas auxiliares." (p.43)

Pois bem. A evidência histórica é devastadora contra a posição Viviane. Contudo, ainda que concedêssemos que durante a Idade Média as leis de impureza ritual fossem influentes no Ocidente, isso não explicaria a proibição da Igreja do serviço feminino do altar antes da Idade Média e nem séculos depois dela, uma vez que a proibição de mulheres no serviço do altar permaneceu formalmente até o século XX. Ou seja, a proibição por razões sanitárias somente poderia ser apenas mais um motivo para impedir mulheres de servirem o altar, não o único.

2) Invasões bárbaras e queda do Império Romano.


Viviane continua falando baboseiras sobre impureza ritual, mas agora acrescenta outra informação: as as diaconisas desapareceram da Igreja em razão das invasões bárbaras e da queda do Império Romano, o que veio a trazer muita insegurança para as mulheres.

Contudo, a informação é novamente imprecisa. No Ocidente, segundo Tracz e Martimort, a figura da diaconisa, tal como aparecia em algumas igrejas orientais, simplesmente não existia.

Tracz:
"Nas paróquias ocidentais, várias mulheres realizavam o trabalho atribuído no Oriente às diaconisas. Os estudiosos examinaram diversos documentos, buscando evidências de diaconisas latinas. Em Roma, na África e na Espanha, faltam registros que listem todas as funções da Igreja. O Papa Cornélio citou vários papéis, desde padres até viúvas, incluindo exorcistas e carregadores, mas nenhuma diaconisa. Eles também estão ausentes das orações da Missa, listando todos os grupos dentro da Igreja pelos quais orar: "Oremus et pro omnibus episcopis, presbyteris, diaconibus, subdiaconibus, acolythis, exorcistis, lectoribus, ostiariis [porteiros], confessoribus, virginibus, viduis [viúvas) , et pro omni populo sancto Dei." Apenas em alguns mosteiros femininos existiam diaconisas, e elas não são atestadas antes da Idade Média."
Martimort aduz que não há informação de diaconisas na Roma Ocidental durante os primeiros cinco séculos:
"Nas extremidades orientais do Império Romano, a instituição das diaconisas surgiu durante as primeiras décadas do século III e continuou a desenvolver-se de várias maneiras nas igrejas de língua grega e semítica. As igrejas de língua latina, porém, não experimentaram o mesmo desenvolvimento desta instituição, nem a igreja do Egito. Isto pode ter sido o resultado do fato de, tanto em Roma como em Alexandria, a Tradição Apostólica de Santo Hipólito de Roma ter permanecido o ideal para a organização eclesiástica. Observamos como este documento não previa lugar para qualquer ministério feminino. Mais do que isso, sem dúvida, a falta da instituição de diaconisas no Ocidente também foi o resultado do fato de tal ministério feminino não ser considerado necessário; até despertou suspeitas em alguns setores.

No entanto, alguns historiadores ficaram tão convencidos da existência de diaconisas em toda a Igreja antiga que procuraram diligentemente qualquer evidência que apoiasse a sua tese - procuraram mesmo para além dos limites da probabilidade."

Observemos a informação do autor. Nas igrejas do Império Romano do Oriente as diaconisas surgiram por volta do século III e continuaram a se desenvolver, mas nas igrejas ocidentais elas não existiram. Portanto, não houve decréscimo de diaconisas ocidentais durante as invasões bárbaras (III a VIII d.C), porque não havia essa instituição no Ocidente.

Novamente, Viviane destila groselha.

Prossigamos.


Viviane conclui o raciocínio afirmando que esses dois fatores históricos que impediam o acesso das mulheres ao serviço do altar eram circunstanciais e caíram e com base nisso os Papas decidiram abrir espaço novamente para o serviço da mulher no altar.

Como de praxe, Viviane fala coisas inventadas da própria cabeça. Nem na Ministeria Quaedam tampouco na Spiritus Domini, os Papas indicam que tenham sido essas as razões para abrir o serviço do altar às mulheres. O único que justificou essa abertura foi o Papa Francisco. Segundo o Pontífice:

"Uma prática consolidada na Igreja latina confirmou que tais ministérios laicais, baseando-se no Sacramento do Batismo, podem ser confiados a todos os fiéis que forem idôneos, de sexo masculino ou feminino, de acordo com quanto já é implicitamente previsto pelo cânone 230 § 2."

Em outras palavras, os ministérios laicais, por não estarem essencialmente ordenados às ordens sagradas e por serem meras permissões, podem admitir mulheres.

A justificativa do Papa apenas reforça o entendimento da diferença essencial entre as ordens menores e os ministérios laicais.

Sigamos.




Por fim, Viviane termina seu discurso com boas pitadas do bom e velho feminismo. Primeiro, orgulhando-se da filha que agora fará uma função litúrgica inadequada para o seu sexo. Depois, afirmando que os homens tem que começar a se acostumar a não se sentirem inseguros em ambientes predominante femininos. Dá como exemplo o ambiente de trabalho onde mulheres ocupam a maioria dos postos.

Primeiramente, nota-se que Viviane desconhece por completo a psicologia masculina. Ela ignora que os processos de aprendizagem de virtudes tipicamente masculinas são completamente diferentes dos processos femininos.

Homens, por exemplo, para aprenderem a serem homens, precisam de ambientes predominante masculinos. Joseph Shaw, comentando a obra León J. Podles “The Church Impotent”, explica bem este ponto:

"... Devo reservar um momento para enfatizar o fato de que os aspectos masculinos da Igreja não precisam ser desconcertantes para as mulheres. Afinal, as mulheres são capazes de apreciar as virtudes masculinas; elas tendem a ser heterossexuais. Muitas vezes são, de fato, portadores  de virtudes masculinas, assim como os homens podem ter virtudes associadas ao feminino. O ponto dessas postagens não é sobre a exclusão das mulheres, mas a não exclusão dos homens. Faça a missa parecer uma noite de garotas, e os rapazes fugirão paras colinas. As mulheres são muito mais tolerantes com uma liturgia que parece um pouco masculina. Sua feminilidade não é ameaçada por isso; não pode, de fato, ser tão facilmente tirado delas. A masculinidade dos rapazes, ao contrário, não é garantida de forma alguma. Eles devem se separar do reino feminino se quiserem ser homens."

Em outras palavras, meninos não aprendem a ser homens com mulheres. Mulheres tendem a ter maior inteligência emocional e, em regra, não são boas em ensinarem homens a se guiarem de maneira objetiva. Por isso homens precisam de outros homens para agirem como tais. Por esta razão, no passado, as escolas seguiam o costume da separação dos alunos por sexo justamente para potencializar as virtudes próprias de meninos e meninas.

Outro ponto, é que Viviane quer justificar uma postura pastoral da Igreja com base na cultura da mulher carreirista. O problema é que essa cultura é altamente corrompida, como já explicamos em outros artigos deste blog. O carreirismo não é um desenvolvimento normal da feminilidade. Da mesma maneira, o serviço feminino do altar não é um desenvolvimento normal da liturgia.

Vimos que as diaconisas que existiram na História da Igreja não eram ordenadas e surgiram unicamente para ajudar outras mulheres, não para agirem como homens tomando papéis litúrgicos essencialmente ordenados para eles. As únicas diaconisas que participavam do serviço do altar eram pertencentes a seitas cismáticas que aceitavam a ordenação diaconal de mulheres, ou seja, que destruíam o sacramento da Ordem.

Disso conclui-se, imperiosamente, que o serviço feminino do altar é realmente algo sem precedentes históricos e, no sentido mais rigoroso e científico do termo, uma novidade. Pe. Ripperger em "Topics of Tradition" define novidade:
"Novidade é aquilo que se opõe à tradição, já que a novidade por natureza suplanta ou contradiz a tradição. Novidade é ruim porque quebra a continuidade da tradição. Já que nossa salvação depende da tradição, a continuidade na tradição pela qual os meios de salvação são passados de geração em geração e para o maior número possível de pessoas é imperativa. Além disso, a continuidade da tradição garante que cada geração herdará a riqueza do patrimônio dos santos."
A novidade é um elemento humano que se mistura à Tradição e lhe retira força. Não é impossível que a Igreja em determinada circunstância aprove leis eclesiásticas que contenham esses elementos humanos, afinal, como ensinam unanimemente os teólogos, a Igreja não possui infalibilidade prudencial.

Nesse sentido, Adolphe Tanquerey:
“Esta infalibilidade consiste em que a Igreja num juízo doutrinal nunca possa estabelecer uma lei universal, que seja contrária à fé, aos bons costumes e à salvação das almas…(no entanto) em lugar algum foi prometido à Igreja um sumo grau de prudência para promulgar as melhores leis para todos os tempos, lugares e circunstâncias.” (Theol. Dogm. Fundamentalis, n. 932.)

Embora não devamos crer que a Igreja habitualmente se engana em seus juízos prudenciais, como assinala a Donum Veritatis, é possível que a Igreja não tenha o melhor juízo em determinadas circunstâncias, principalmente quando a decisão prudencial é de um ou outro pontífice e que não segue a tradição consolidada da Igreja. Quando a decisão prudencial não se apoia na tradição sólida da Igreja falta-lhe um dos requisitos necessários à virtude da prudência, a saber, a memória do passado.

A introdução de mulheres ao serviço do altar enquadra-se exatamente nessa situação, visto que somente foi oficialmente autorizada pelo Papa Francisco, que não fez qualquer questão de harmonizar a posição de seus predecessores com a nova disciplina adotada. Sua decisão, portanto, está mais sujeita a equívocos prudenciais, sendo possível que num futuro próximo ela seja revertida.

Por outro lado, tomando o mesmo critério da Donum Veritatis, é impossível que o juízo constante da Igreja, que condenou reiteradas vezes o serviço feminino do altar classificando-o como "desprezo das coisas divinas", "inadequado para o sexo feminino" e "prática maligna", ao longo de 2000 anos, esteja errado ou não corresponda de nenhum modo à verdade.

Conclusão

Viviane ao afirmar que mulheres a serviço do altar não contraria a Tradição da Igreja, seja ela divina ou eclesiástica, simplesmente não fala a verdade. Como demonstramos, a prática foi energicamente condenada pelos Papas até o século XX, tendo em vista que o serviço masculino do altar sempre foi considerado uma Tradição divina pela Igreja.

Também constatamos que Viviane também não fala a verdade sobre as diaconisas. O panorama histórico é que diaconisas só cresceram no contexto onde existiam leis de impureza ritual ou para atender demandas especificamente femininas. Em todos os casos em que foram inseridas no serviço do altar, houve condenação dos Concílios e dos Papas. Viviane ao distorcer esses fatos históricos para defender o serviço feminino do altar está, sem sombras de dúvidas, defendendo o diaconato feminino por procuração.

Não é a primeira vez que Viviane fala um monte de bobagens, mas é assustador como sobre este assunto ela simplesmente se superou. Recentemente, ela reclamou do "machismo" que sofre de seus seguidores que a acusam de ser incapaz de falar de qualquer assunto. Viviane alega que sofre isso por ser mulher. Claro, não duvidamos da capacidade de Viviane de falar acertadamente em outros temas, mas, a respeito do assunto do nosso artigo, ela se mostrou absolutamente incompetente. Ela foi incapaz de fazer a menor apuração histórica dos papéis da diaconisa e da posição constante da Igreja sobre a acolitagem feminina. 


terça-feira, 13 de agosto de 2024

A Raiz da Guerra Litúrgica (KEVIN TIERNEY)

Na época em que era chefe do Prefeito da Congregação do Culto Divino, o Cardeal Robert Sarah pensou muito e profundamente sobre o papel que a liturgia desempenhava na formação dos católicos. Ele passou um tempo não apenas refletindo sobre os frutos de uma formação litúrgica adequada, mas como a liturgia, quando abordada de forma errada, poderia formar católicos de forma não intencional. Em uma conferência litúrgica de 2017 em Colônia, o prefeito alertou sobre uma liturgia que era uma ocasião para divisões odiosas, para confrontos ideológicos e para humilhações públicas dos fracos por aqueles que afirmam ter autoridade, em vez de ser um lugar da nossa unidade e da nossa comunhão no Senhor

Nisto, o Cardeal Sarah estava discutindo a temida “guerra litúrgica” que vem acontecendo, com intensidade diferente, no Rito Romano desde a promulgação do Novus Ordo Missae por Paulo VI em 1969. Entre alguns dos católicos mais fervorosos, a liturgia se tornou não uma ferramenta de adoração a Deus, mas uma linha de batalha em uma batalha maior sobre como a Igreja aborda o sagrado. Como muitas guerras de trincheiras, muito pouco é realizado por ela além de baixas. Ninguém gosta da guerra litúrgica. No entanto, apesar desse ódio sem fim, a guerra litúrgica é tão desagradável em 2024 quanto era nas décadas de 1990 e 2000. Por quê?

Ao expor tal teoria, vou adotar uma posição que pode irritar alguns tradicionalistas. Vou assumir a posição de que a maioria dos indivíduos envolvidos no Novus Ordo (com algumas exceções) eram indivíduos bem-intencionados, mas equivocados. Vou sustentar (com algumas exceções) que as ações dos Papas desde o Concílio foram sinceras, mas, uma vez que se basearam em uma aposta falha, sinceramente erradas. Isso pode não ser para você. Que assim seja.

Minha teoria da guerra litúrgica não se baseia em "qual é superior", mas em algo decididamente não litúrgico. Paulo VI e outros ao seu redor acreditavam que os frutos da nova liturgia seriam autoautenticados. A reforma seria um bem óbvio que todos amariam, mesmo que demorasse alguns anos. Como parte do incentivo a esse amor, Paulo VI ordenou que os padres queimassem seus navios quando pisassem no novo mundo. Ele proibiu funcionalmente todos os padres do Rito Romano (com algumas exceções) de celebrar o antigo missal. Não haveria como voltar atrás, nenhuma introspecção, nenhuma revisão sobre se as reformas funcionaram ou não. Até mesmo sugerir que tais reformas deveriam ser medidas era questionar a capacidade do Papa de guiar a Igreja na adoração. O Papa não suprimiu formalmente a Missa Tradicional. Por que é uma incógnita. Sou da posição de que é uma proposição canônica arriscada suprimir, para todos, algo lícito e celebrado pela Igreja por séculos. Entrar nessa discussão coloca o propósito da lei da igreja, e da disciplina da igreja, de cabeça para baixo. Então ele tentou outros assuntos para obter aceitação. Para ser claro, aceitação é o que ele obteve.

A esmagadora maioria dos católicos aceitou a nova missa. Eles entenderam que agora era a missa que eles assistiriam todo domingo. O que eles nunca fizeram foi abraçar a Nova Missa. As reformas litúrgicas não levaram a um fiel católico participando mais profundamente da missa. Não levaram a uma compreensão mais profunda. Não levaram a um fervor maior. Em suma, as coisas que ela alegava que seriam melhoradas em relação à missa latina não aconteceram em substância. O que restou foi a preferência pessoal. As reformas se tornaram grandes não por causa do que elas entregaram, mas por causa do que elas permitiram: maior expressão pessoal, uma elaboração de uma missa em direção aos desejos dos fiéis. Por "desejos dos fiéis", quero dizer os desejos de uma burocracia litúrgica que acreditava ser a geração mais santa de católicos de todos os tempos, e o mundo deve experimentar seu brilhantismo. Quer eles quisessem ou não.

A Nova Missa sobreviveu somente com base no decreto papal. Para o revolucionário que queria mais mudanças, tais decretos significavam pouco. Para muitos católicos que só queriam encontrar um momento de paz e solidão para encontrar Deus aos domingos, esse decreto papal também não significava muito. A Nova Missa existia. Ela não iria embora. No entanto, ela nunca foi amada. Como ela nunca foi amada, isso também significava que a Missa Tridentina também nunca iria embora.

Diante dessa realidade (e foi uma realidade que eles encontraram dentro de uma década de 1969), a Igreja lutou para lidar com o fato de que uma previsão do ofício papal, com todo o poder da autoridade canônica, não aconteceu . Nesse ponto, a Igreja ganhou tempo. Eles concederam indultos a alguns na Inglaterra e no País de Gales. Acordos individuais foram feitos. Padres em situações canônicas ambíguas eram desaprovados, mas muitas vezes deixados em paz. Em 1984, Roma emitiu regras para indultos, baseadas na firme crença de que dentro de uma geração, aqueles que quisessem a missa tridentina estariam mortos. Em 1988, com a excomunhão de Marcel Lefebvre, essa situação se tornou impossível. Nesse ponto, o status da missa latina não estava mais sob o controle da Igreja e de seus bispos. No entanto, a Igreja também não podia admitir que sua aposta estava errada. Se estivesse errada, então a própria reforma litúrgica poderia ser questionada em uma questão fundamental.

Eles então tentaram abordar as críticas estéticas defendendo uma "reforma da reforma", que tentava adicionar de volta muitas das coisas que por décadas o papa, bispos e conselheiros litúrgicos demonizaram como pertencentes a um museu ou cemitério. Tudo o que a reforma da reforma fez foi levantar a questão fundamental: se podemos ter latim, ad orientem e comunhão enquanto nos ajoelhamos na grade, por que não podemos simplesmente ter a missa tradicional em latim?

Quando Bento XVI ascendeu ao trono, ele entendeu que a Igreja não poderia responder a essas perguntas, a Missa Tridentina não iria embora, e a quantidade de fiéis que se voltavam para ela estava crescendo. Enquanto isso, com igual intensidade, o desejo de proibir a Missa Tradicional estava evaporando. Como fazer isso sem admitir um erro? Aqui, o brilhante teólogo tropeçou em uma grande brecha. Já que Paulo VI simplesmente deixou de lado a Missa Tradicional, ele a deixaria de lado. Ela existiria ao lado da Forma Ordinária, e os fiéis e padres poderiam decidir por si mesmos. Ele queria resolver a discussão se afastando dela completamente. Ele declarou vitória, não para uma forma ou outra, mas para a diversidade litúrgica, e então foi para casa.

Se pareço insincero, não é minha intenção. É preciso ser um homem notável para admitir que tentativas anteriores do papado de resolver essa questão só pioraram a situação, então não vou fazer isso. Joseph Ratzinger foi facilmente o teólogo mais talentoso do século XX, e esse conhecimento o tornou ciente das limitações da Igreja e de sua pessoa. Embora não tenha sido uma decisão perfeita, foi um cessar-fogo na guerra litúrgica, com uma paz temporária negociada. Deixe o mundo recuperar o fôlego, e então negociaremos uma nova paz.

O problema com essa abordagem é que havia uma escola de indivíduos na Igreja que queriam continuar a ofensiva. Toda essa conversa sobre paz era equivocada. Se você fizer as pazes com o passado, o passado retornará. Se você permitir o passado como uma opção aceitável, ele sempre estará lá, esperando para ser adaptado aos tempos modernos, como uma alternativa ao que quer que o presente esteja fazendo. Embora não saibamos se ele sempre foi dessa escola, em 2019, estava claro que Jorge Bergoglio, agora Papa Francisco, foi convertido a essa visão de mundo. Sua geração estava morrendo. Ele próprio estava morrendo. Sua estrela estava em declínio. O que acontece quando eles morrem, e esse passado que Paulo VI tentou forçar as pessoas a ainda existe? Quando Francisco perguntou aos bispos do mundo se eles entendiam a ameaça que a missa tradicional representava para a unidade da Igreja, a maioria deu de ombros. Então ele emitiu Traditionis Custodes, para tentar forçá-los a ver a ameaça. Quando eles ainda não viam, ele tentou medidas cada vez mais coercitivas para fazer os bispos e os fiéis verem. No entanto, o problema fundamental permaneceu: ninguém ama a alternativa. Eles a aceitam. Eles constroem suas vidas em torno dela. A Nova Missa é parte da experiência católica das 9h às 17h. No entanto, eles não a amam.

Esta é a verdadeira raiz das guerras litúrgicas. Uma geração de líderes (do papa para baixo) operou em uma aposta. Eles continuaram a aumentar as apostas, finalmente indo all-in. Eles perderam, e agora devem voltar para casa e explicar à família por que eles não têm mais um carro ou uma casa, e como eles terão que se adaptar à família perdendo suas camisas. Não se preocupe, você aprenderá a gostar disso. (Ou como um autor católico popular disse uma vez, nós pecadores merecemos uma liturgia feia.) 

Você está inspirado?

Fonte: https://kmtierney.substack.com/p/the-root-of-the-liturgical-war


terça-feira, 6 de agosto de 2024

O Problema da "Missa Nova Bem Rezada" (BONIFACE)

Durante grande parte da minha vida como católico, frequentei o que a maioria chamaria de "Missa Nova bem rezada". Para alguns católicos que nunca viram um NO que não fosse um show de palhaços, o conceito de uma Missa Nova bem rezada pode ser uma surpresa, mas garanto que ela existe, embora seja rara. Como é uma Missa Nova bem rezada? Na minha experiência, ela podem incorporar alguns ou todos os seguintes elementos:

  • O ordinário da missa rezado ou cantado em latim
  • Uso exclusivo do Cânon Romano ("Oração Eucarística I")
  • Prevalência de mulheres que usam véu
  • Canto substituindo hinos
  • Um introito em latim
  • Um rito de Asperges
  • Paramentos bonitos
  • Recepção quase exclusiva da Sagrada Comunhão na língua
  • Sacrário localizado no centro
  • Recepção da comunhão ajoelhado na mureta do altar
  • Altar fixo, com aparência de sacrifício (ou seja, sem um frágil "altar mesa")
  • Bela arquitetura tradicional e decoro
  • Pregação e catequese ortodoxa
  • Acólitos do altar masculinos tradicionalmente paramentados
  • Cultivo de uma espiritualidade mariana e eucarística
  • Congregação vestida apropriadamente e reverentemente
  • Oração de São Miguel após a missa

Tenho sido consistente ao longo dos anos na minha opinião de que o Novus Ordo não é intrinsecamente irreverente; Isso mesmo. Sabemos que uma maioria estatística das liturgias do Novus Ordo são, na melhor das hipóteses, constrangedoras e, na pior, irreverentes, mas ainda assim o NO pode teoricamente ser celebrado de uma forma que seja condizente com a dignidade da liturgia. Talvez você discorde disso, mas tanto faz. Esse não é o ponto deste ensaio. E, claro, a Missa Tradicional é superior a esse respeito em todos os sentidos, e isso é inquestionável. Mas o ponto é que é possível celebrar o Novus Ordo de uma forma que seja reverente e digna, e que para muitos católicos esses tipos de liturgia do Novus Ordo constituem uma fonte real e positiva de nutrição espiritual e oferecem uma conexão verdadeira, embora muito imperfeita, com a tradição católica.

No entanto, mesmo que tudo isso seja verdade... é uma defesa terrível do Novus Ordo. Há uma razão maior que paira como um elefante na sala — o fato de que mesmo a melhor liturgia do Novus Ordo só o é por causa da preferência pessoal do celebrante.

As rubricas do Novus Ordo definitivamente permitem uma celebração reverente. Mas a palavra "permitir" é o ponto crucial do problema. Ela permite todas as opções mais reverentes se o celebrante assim escolher usá-las. E as mesmas rubricas que permitem a reverência permitem com a mesma facilidade as opções mais banais, bobas ou irreverentes se o celebrante assim escolher. O Novus Ordo é liturgicamente libertário. Ele eleva o princípio da escolha pela escolha como o princípio determinante da liturgia. Isso garante que a qualidade da experiência litúrgica de alguém seja determinada não pela estrutura do rito em si, mas pelos caprichos do celebrante. Mesmo quando o celebrante escolhe usar as opções mais reverentes — o que pode ser bom para aquela liturgia em particular — no geral é um mau estado de coisas porque a estabilidade daquela "Missa Nova bem rezada" está sempre em questão.

Para ser franco, isto significa que apenas uma pessoa está entre a Missa Nova bem rezada e a completa reviravolta da vida litúrgica da paróquia. Alguns exemplos da minha própria história:

Minha paróquia teve um pastor tradicional por mais de uma década. Ele fez o que eu descreveria como um Novus Ordo "reverente" e (após a promulgação do Summorum Pontificum) ele também celebrava a Missa Tradicional em Latim. Todas as suas liturgias de ambas as formas usavam o altar-mor neogótico. A paróquia tinha um altar de mesa, mas o pastor o havia removido e guardado. Bem, eventualmente, esse pastor foi embora e nos foi designado um administrador paroquial temporário até que um pastor permanente fosse designado. O sujeito interino imediatamente colocou o altar de mesa de volta. Ambos os clérigos podiam citar documentos em apoio às suas decisões: o pastor original corretamente observou que o texto do  Missale Romanum assume que o celebrante está voltado para ad orientem e, portanto, presume um altar de parede fixo, não um altar de mesa. O administrador interino poderia citar o IGMR, que diz especificamente que o altar "deve ser construído separado da parede, de tal forma que seja possível andar ao redor dele facilmente e que a missa possa ser celebrada nele de frente para o povo" (GIRM 299). Tudo dependia da personalidade e das preferências de cada homem, qual documento eles escolheram seguir e como eles interpretaram esses documentos. Quando um novo pastor foi finalmente designado, ele (novamente) removeu o altar da mesa. Se ele algum dia for embora, um novo pastor poderia facilmente colocá-lo de volta.

Outra história: anos antes, quando retornei à Igreja, eu estava assistindo à missa naquela que era então a paróquia mais tradicional da minha região. O pastor rezou uma Missa Nova em latim, onde tudo, exceto as leituras e a homilia, era cantado em latim. Eu adorei isso. Foi minha primeira exposição a algo que se aproximasse da tradição litúrgica católica. Bem, eventualmente aquele pastor foi removido e nós pegamos outro, um cara do tipo "não balance o barco" de energia muito baixa. Matéria pima de bispo. De qualquer forma, uma vez que o novo padre entrou, adivinhe qual foi a primeira coisa que foi retirada? Eu acho que o latim não foi mais rezado naquela paróquia desde então.

O ponto é este: mesmo quando a Missa Nova é rezada reverentemente, é como um exercício do gosto pessoal do pastor — e a elevação da preferência do celebrante acima de todas as outras considerações é talvez o pecado original do Novus Ordismo. O Novus Ordo no seu melhor ainda é um exemplar do que há de pior nele. Que ironia bizarra.

Quão diferente isso é da Missa Tradicional, onde o celebrante se torna irrelevante! A reverência da Missa Tradicional não é o produto de preferência subjetiva, mas é construída na estrutura do próprio rito. A Missa Tradicional não tem uma "permissão" contingente para reverência; ela simplesmente é reverente. A reverência não é o produto de ter o pastor certo, construir a congregação certa ao longo dos anos e fazer as escolhas certas entre um mar de opções. A reverência da Missa Latina Tradicional não é o fim a ser alcançado, mas uma fundação que é tomada como certa e construída sobre ela. É onde começamos, não onde terminamos. 

Liturgia reverente não é algo pelo qual os católicos devam lutar, muito menos deixar aos caprichos das preferências litúrgicas de um homem. Deve ser nosso direito de nascença como filhos e filhas da Igreja.

Católicas feministas odeiam homens católicos. E elas perderão tudo com isso.

Algumas páginas católicas feministas estão compartilhando um “estudo” que atesta que o movimento “tradwife” tem atraído homens que “odeiam” ...