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quarta-feira, 11 de junho de 2025

Depois de Francisco: O Despertar das Linhas de Batalha


O Centro Dom Bosco publicou um livro de Michael Haynes a respeito dos problemas do Catecismo amarelo — e, francamente, não é isso que causa espanto. O CDB vem marchando para cada vez mais perto da Fraternidade São Pio X.

O que, sim, surpreende — e até diverte — é perceber quão numerosas são as almas que nunca ouviram falar do movimento tradicionalista, nem do estranho e velho ofício de discutir apaixonadamente dentro da mesma Igreja. Como se alguém estranhasse que irmãos brigassem na mesma casa por amor ao mesmo pai. São almas que desconhecem por completo as questões que o tradicionalismo introduz nos debates da vida eclesial.

Durante certo tempo, as discussões sobre o Concílio Vaticano II e seus efeitos na vida da Igreja pareceram recolher-se como soldados feridos à sombra de um hospital de campanha — ou melhor, de um pontificado de campo. O “efeito Francisco”, com sua força centrífuga e sua lógica desconcertante, conseguiu adormecer — ou ao menos distrair — os debates teológicos mais profundos com uma avalanche de gestos, improvisos e perplexidades pastorais.

Diversos setores tradicionalistas, bem como alguns segmentos conservadores, foram constrangidos a suspender disputas internas para se unirem na tentativa de compreender e enfrentar um pontificado que, com inquietante clareza, demonstrava resistência, quando não repulsa, à herança doutrinal e litúrgica de viés conservador/tradicional.

O Papa Francisco introduziu no governo da Igreja um estilo inédito entre os pontífices pós-conciliares: mais alinhado às tendências progressistas, não raro marcado por improvisações teológicas, termos recém-criados ("Igreja sinodal", "Igreja samaritana"), e uma retórica frequentemente crítica à Tradição (“indietrismo”, por exemplo). Em consequência, debates outrora centrais — como o significado preciso do subsistit in da Lumen Gentium, a natureza da liberdade religiosa ou o problema teológico do monoteísmo comum com os muçulmanos — foram substituídos por urgências mais imediatas: a disciplina da Eucaristia em casos irregulares, a aprovação implícita de bênçãos a uniões contrárias à moral natural, a severa restrição à Missa tridentina, bem como declarações desconcertantes relativas ao inferno ou ao valor salvífico universal das outras religiões.

Enquanto os tradicionalistas combatiam, no Brasil, floresciam, como brotos em terreno alternativo, os chamados “Missionários Digitais”. Eram apóstolos de outro campo de batalha: mais catequético, mais motivacional, mais instagrâmico. Para eles, as discussões dos tradicionalistas soavam como murmúrios em latim numa estação de metrô. Seus seguidores — em sua maioria recém-convertidos ou neófitos entusiasmados por Frei Gilson e por The Chosen — buscavam fervor, consolo, louvor e estética. A teologia, no entanto, ficava num canto da sala, como um avô cansado. Nomes como Allan Carrion, Santa Carona, Segundo Católico, Colo de Deus e Católicos de Verdade dominavam esse cenário, promovendo um catolicismo acessível, emocional e oficialista — quando não apenas alheio à crise, ao menos inconsciente dela.

Junto a esse universo, erguia-se ainda a torre dos influenciadores do marketing católico, formados na escola pragmática de Ítalo Marsili, Ícaro de Carvalho e, claro, do sempre discreto Opus Dei. Foi uma época em que choveram — como maná requentado — frases de São Josemaria Escrivá e exortações a uma vida de sucesso profissional com oração matinal, missa diária e virtudes bem diagramadas — tudo isso, porém, sem encarar o elefante eucarístico na sala: a ruína da liturgia, o silêncio cúmplice de maus pastores, a decadência doutrinal. Temas que os tradicionalistas, quase sozinhos, continuavam a debater como quem tenta reacender uma lâmpada numa catedral sem luz. Era, muitas vezes, uma espiritualidade de bons costumes e bons contratos.

Com a morte do Papa Francisco, o quadro se transforma. Os tradicionalistas e essas duas correntes que antes corriam em paralelo — missionários digitais e influenciadores pragmáticos — começam a se olhar nos olhos. Muitos “Missionários Digitais” e dos seus seguidores, ainda sem compreensão adequada da teologia e da eclesiologia tradicionalista, reagem ao tradicionalismo como uma criança reage a um trovão: com medo, risos nervosos e, sobretudo, sem entender. E tentam nomear o que não compreendem com palavras herdadas do susto: "sedevacantismo", "protestantismo". Quando, na verdade, tudo não passa do eterno retorno de uma questão que se recusa a morrer: afinal, qual o tamanho que o Vaticano II deve ter na vida católica? Por sua vez, os influenciadores de matriz liberal-católica, como aqueles vinculados ao universo de Marsili e afins, encontram-se em visível declínio. Como o catolicismo nunca foi o centro de suas atividades, a progressiva secularização de seus perfis, agora mais profissionais, confirma uma orientação mais voltada ao sucesso pessoal do que à integridade da fé.

E assim, o que se desenha no horizonte não é o apaziguamento da controvérsia, mas o seu renascimento. O antigo debate sobre o Vaticano II — como um fogo soterrado sob as cinzas — começa a reacender. Tradicionalistas e continuístas retomam seus postos no front, e os fiéis dos missionários digitais, como ovelhas surpreendidas pelo fogo nos dois lados do campo, acabarão se alinhando, cedo ou tarde, a um dos dois exércitos.

Em suma, o que se anuncia não é o fim de uma era, mas o juízo de sua consistência. O “efeito Francisco”, por mais desconcertante que tenha sido, serviu — como um estranho profeta de fábula — para revelar as fragilidades e descompassos da vida católica contemporânea. Mostrou-nos que há um tradicionalismo que resistiu não por nostalgia, mas por convicção; e que há um catolicismo midiático que, por evitar as perguntas difíceis, agora precisa dar respostas inevitáveis.

sábado, 3 de maio de 2025

Do Papa dos Superlativos à Pedra que Tropeçou: Uma breve análise do legado do Papa Francisco.


Com a morte do Papa Francisco, desapareceu da cena da história um dos pontífices mais comentados do último século — e, talvez, o único capaz de despertar ao mesmo tempo aplausos de protestantes liberais, suspiros de ambientalistas suecos e prudente silêncio de católicos que ainda acreditam no Catecismo. Mas o que se tornou mais evidente com sua partida foi um curioso fenômeno que floresceu em sua sombra: o culto à personalidade.

É um paradoxo digno de Chesterton: um Papa que dizia combater os personalismos se tornou o ídolo de um novo tipo de culto — o culto à figura do homem que destrói os cultos. Seus admiradores, em meio a lágrimas sinceras e hashtags performáticas, atribuem-lhe títulos que fariam corar os santos e estremecer os doutores: “O melhor Papa da modernidade”, dizem uns. “O maior dos últimos 500 anos”, garantem outros. E quem os proclama? Profetas de Nárnia, como Mike Lewis, ou paladinos do catolicismo líquido como Carlos Ramalhete. Nos portais progressistas, como o Where Peter Is, a impressão não é de que “onde está Pedro, está a Igreja”, mas sim de que “onde está Francisco, ali começa o Evangelho”.

No entanto, ao examinarmos serenamente seu legado — com o mesmo olhar que um camponês lança ao campo depois de uma tempestade —, não encontramos a solidez de uma grande colheita, mas sim a umidade de muitas palavras. O que se vê é mais bruma do que edifício, mais movimento do que direção. Passemos, pois, ao exame.

1. Uma Pastoral de Desconstrução

O Papa Francisco parecia entender a pastoral como um instrumento mais elástico do que sólido. Sua preocupação, ao que tudo indica, não residia tanto na reverência aos sacramentos quanto na utilidade que deles se podia extrair para os dramas contemporâneos. Por exemplo, ele validou as confissões dos padres da Fraternidade São Pio X — um gesto que, embora carregado de aparente misericórdia, gera algumas questões teológicas do tipo que fazem seminaristas suarem frio. Se a Fraternidade está em cisma, como muitos de seus defensores sugerem, então suas confissões não deveriam ter validade. E se as confissões foram validadas, talvez o cisma não seja tão cismático assim — ou então a teologia moral virou uma espécie de origami espiritual.

Outro caso emblemático é o da Sra. Nancy Pelosi. A congressista norte-americana, devota do aborto como se fosse um sacramental moderno, foi proibida de comungar por seu arcebispo, Dom Cordileone. Mas o Papa, em vez de reforçar a sanção, criticou-a como “uso político” da Eucaristia — e recebeu Pelosi de braços abertos no Vaticano. E assim, em nome de evitar o uso político dos sacramentos, usou-se politicamente o sacramento.

Aqui, algo se inverteu: a consciência subjetiva foi posta como rainha, e a norma objetiva, como criada silenciosa. A moral foi dobrada à psicologia, e a Tradição, submetida a um novo Magistério — o da compaixão ambígua. Esta tornou-se um critério autônomo, e a coerência, um incômodo.

2. Documentos como Enigmas

O pontificado foi fértil em documentos — alguns doces como colinas de Assis, outros densos como os desertos de Qumran. Há quem os leia com entusiasmo, e há quem precise de exorcista e gramático. Os textos que mais marcaram este tempo não foram os que confirmaram a fé, mas os que exigiram novas comissões para explicar o que, segundo os Apóstolos, deveria ser claro como a luz da manhã.

Traditionis Custodes tratou a Missa dos séculos como se fosse um desvio disciplinar. Amoris Laetitia insinuou que há pecados com os quais Deus decidiu conviver. Fiducia Supplicans ofereceu bênçãos que não abençoam, para uniões que não se santificam. O Catecismo foi mudado para condenar o que antes era permitido, como a pena de morte. E a declaração de Abu Dhabi sugeriu que todas as religiões são dons de Deus — o que é, ao mesmo tempo, confortador e aterrador, pois significa que a Cruz de Cristo teria sido um mero gesto estético.

Havia ali uma nova linguagem. Não herética de forma, mas enigmática de substância. Uma linguagem que parecia saída de parábolas pós-modernas, onde ninguém é condenado, ninguém se converte, e ninguém mais sabe o que é pecado — mas todos são acolhidos, inclusive os erros.

3. Governo eclesial ou partido sinodal?

Francisco se notabilizou por promover maus amigos e afastar bons adversários. Nomeou bispos e cardeais de inclinação progressista com uma constância quase matemática. Um de seus últimos gestos foi promover Robert McElroy, conhecido por defender ideias bastante criativas sobre a ordenação feminina, ao arcebispado de Washington. Entre tantos nomes possíveis, escolheu exatamente aquele que faria a tradição suspirar — não de alegria, mas de susto.

Por outro lado, tratou com rigorosidade bispos ligados à liturgia tradicional ou a doutrinas “demasiado claras”. Fez do Instituto João Paulo II um campo de reeducação pastoral. Quando o aborto estava prestes a ser aprovado na Argentina, sua pátria natal, sua reação foi tão discreta quanto um suspiro num show de rock.

4. Sínodos Sem Fim e Fins Sem Sínodo

O pontificado foi marcado por reuniões — muitas, longas e ruidosas. Mas reuniões são o substituto moderno da ação. O Sínodo da Amazônia terminou em Pachamama. O da Sinodalidade, que ainda se desenrola, segue em curso como um rio que se recusa a encontrar o mar. Foi tão inovador que acolheu votos leigos — porque, afinal, ninguém melhor do que um sociólogo de ONG para orientar a Igreja Universal.

5. A Herança: Uma Igreja Polarizada

O fruto visível de tudo isso é a polarização. A Igreja, outrora dividida entre fiéis e pecadores, entre judeus e gentios, entre monges e bárbaros, agora se divide entre “francisquistas” e “tradicionalistas”. E o próximo Papa, seja ele um novo Leão, um novo Gregório ou apenas um novo João, já nascerá cercado por expectativas e rejeições. Não será recebido como pai universal, mas como herdeiro de uma guerra civil.

O Pe. Allan Victor Marandola exprimiu bem: o novo Papa será julgado antes mesmo de falar. E talvez este seja o maior legado de Francisco — não a misericórdia, mas a tensão. Não a inclusão, mas a ruptura. Um Papa que desejou ser ponte, mas foi, inadvertidamente, um divisor de águas.

Conclusão

O tempo do Papa Francisco passou — como todos passam. Seus gestos serão pesados. Seus escritos, debatidos. Suas decisões, revisadas. Mas a Igreja continuará, porque ela não repousa no carisma de um homem, mas no corpo místico de um Deus humanado.

Roguemos, pois, para que o próximo pontífice governe não com astúcia política, mas com sabedoria de profeta; que una os filhos dispersos, não por manobras sinodais, mas pela verdade que liberta.

"Santifica-os na verdade: a tua palavra é a verdade." (Jo 17,17)

Porque a Igreja, afinal, não foi feita para agradar os tempos. Foi feita para salvá-los.


quinta-feira, 24 de abril de 2025

Entre a fumaça branca e a fumaça woke: a morte de Francisco e as perspectivas para o próximo conclave.

A morte de um Papa é, por definição, um evento de luto. Mas, para muitos católicos, especialmente os que ainda rezam em latim e acreditam em anjos com espadas flamejantes, a notícia da morte de Francisco foi recebida com um misto de sobriedade e esperança, como se após longos anos no deserto alguém tivesse finalmente encontrado um oásis… ou, ao menos, parado de caminhar em círculos. O conclave se aproxima. E se alguns esperam por continuidade, outros imploram por conversão. Não do Papa, mas dos cardeais.

Com ligeiro atraso — porque o tempo da eternidade não se mede em minutos — comentamos a maior notícia da semana: a morte do Papa Francisco. Sua partida, embora há muito aguardada pelos oráculos e pelos boletins médicos, foi súbita. O Vaticano informou que o pontífice sucumbiu a um acidente vascular cerebral, seguido de parada cardiorrespiratória. Não teve tempo de pronunciar suas últimas palavras, tampouco de receber os últimos sacramentos, ao contrário de São João Paulo II e do contemplativo Bento XVI, que expirou enquanto rezava, como nos contou seu secretário pessoal, Dom Georg GänsweinRezando — como quem sabe que está prestes a encontrar Aquele que é.

Não faremos aqui um elogio fúnebre. Nem um dossiê de erros. Já o dissemos antes — com a reverência de um servo ferido, mas não rebelde — que foi um tempo difícil para os católicos tradicionais. Mas como ensinou Nosso Senhor, “deixai os mortos sepultar os seus mortos”. O luto cristão não é um memorial de mágoas, mas uma esperança vestida de luto.

A este Papa, desejamos sinceramente a salvação de sua alma e oferecemos nossas orações em sufrágio. O juízo eterno já foi pronunciado — e foi feito por Aquele cujas balanças são mais exatas que os nossos artigos. E, diferente do Twitter, no Céu não há botão de editar.

O conclave se aproxima. Um conclave é sempre um mistério envolto em fumaça, mas hoje em dia também é um evento midiático com ares de eleição parlamentar. Homens com anéis, celulares e simpatias pelo Greenpeace decidirão quem sentará na cadeira do pescador. E o que está em jogo é mais do que a sucessão de um pontífice: é a continuidade — ou não — de um projeto de Igreja que parece ter sido escrito numa reunião de marketing da ONU.

O que nos preocupa, de fato, é o que virá. Sim, porque um Papa pode morrer, mas a barca de Pedro não naufraga — apenas muda de timoneiro. A eleição vindoura dirá se o espírito do pontificado de Francisco encontrará continuação ou se a Igreja, como quem desperta de um longo torpor, respirará novamente com os pulmões da Tradição. Esperamos, com humildade e firmeza, que respire.

Não é segredo para ninguém que, sob Francisco, o catolicismo progressista recebeu não apenas abrigo, mas alforria. Bispos conservadores foram depostos, comunidades tridentinas desfeitas, e as teologias da libertação e da inversão sexual tiveram projeção inédita — tudo sob a justificativa de uma Igreja que "não se fecha em si mesma", como se a verdade precisasse de arejamento, e as doutrinas eternas passaram a conviver com “desenvolvimentos pastorais” que lembram mais liquidação de fim de estoque do que teologia.

Mas a realidade, essa senhora impiedosa, é que 80% dos cardeais eleitores foram escolhidos por Francisco. Ou seja: o conclave está para o pontificado como a sobremesa está para o jantar — geralmente repete o sabor do prato principal.

Eis os favoritos da casa:

1. Pietro Parolin, organizador nato e inimigo declarado da Missa Tridentina — um Francisco com Excel.

2. Luis Antonio Tagle, "Imagine all the people"… sem missa tridentina.

3. Matteo Zuppi, autor de prefácio para livro de teologia LGBT. Um cardeal que fala muito em pontes, mas não parece saber onde termina a margem do Evangelho.

4. Jean-Marc Aveline, acredita tanto no ecumenismo que talvez seja capaz de canonizar Lutero, Ghandi e Pikachu.

5. Péter Erdo, canonista húngaro, meio conservador, meio neutro — ou seja, um meio termo que pode pender.

6. Robert Sarah, o último dos moicanos. Tradicional, santo, litúrgico — mas, talvez, santo demais para ser eleito.

Se os de primeira linha tropeçarem, a segunda linha pode surpreender. A esperança, essa danada de virtude teologal, espreita candidatos mais palatáveis. É provável que emergam os nomes da retaguarda — que, em matéria de fé, muitas vezes são os verdadeiros guardiões da frente:

1. Pierbattista Pizzabala, patriarca latino de Jerusalém — nomeado por Taylor Marshall,  o que já é uma curiosidade.

2. Malcolm Ranjith, do Sri Lanka, tradicional e corajoso — proibiu acólitas. Não teme as meninas, o que é raro hoje em dia.

3. Gerhard Müller, ex-prefeito da CDF, teólogo nato. O problema é que tem amigos demais entre os liberais — e isso costuma ser contagioso.

4. Raymond Leo Burke, leão da Tradição. Mas o leão ruge isolado — e o conclave prefere os pastores mudos.

5. William Eijk. Holandês, conservador e crítico da exortação Amoris Laetitia. Não sabemos se é um defensor da Missa Tradicional, mas é um nome para se guardar no bolso.

6. Orani Tempesta. brasileiro, monge, e amante da Missa Tradicional. Colocado aqui não por força diplomática, mas por profecia — o que não se deve ignorar levianamente.

Este blog não finge: quer um Papa tradicional. Que ame a Missa Antiga, tema o Inferno e ignore as estatísticas do Pew Research. Um homem com espinha dorsal, joelhos no chão e o Catecismo no coração. Um camponês da eternidade.

E por isso, nossa torcida é clara:

1. Sarah;

2. Burke;

3. Ranjith;

4. Müller.

Se vier um milagre, agradeceremos. Se não, nos resta a paciência dos mártires e a ironia dos profetas.

Contudo, em que pese as nossas preferências, é preciso lembrar que o colégio cardinalício, desde sua formalização no século XII, raramente produziu santos. As escolhas, não raro, privilegiaram a administração em detrimento da santidade, como se o Reino de Deus dependesse de planilhas.

Hoje, os cardeais parecem mais preocupados com:

1. Administração (o Vaticano está falido, não se esqueça);

2. Imagem pública (não se pode ter um Papa que seja cancelável no Twitter);

3. Unidade institucional (não a da fé — essa é secundária — mas a dos departamentos e fundações).

Esses critérios produzem Parolins, Zuppis e Avelines. Mas talvez — talvez! — Deus nos surpreenda, como fez tantas vezes ao longo da história. Talvez surja um moderado conservador, um Erdo, um Pizzaballa, um Eijk. Talvez, o Espírito Santo, cansado de ser citado como desculpa para ambiguidades, queira ser obedecido.

O que esperamos é que o próximo pontífice seja inspirado pelo Espírito Santo e lembre, a despeito de todo seu passado progressista ou conservador, do primeiro dever da Cátedra Petrina, isto é, guardar o Depósito da Fé, como nos ensina o imortal Concílio Vaticano I:

"Pois o Espírito Santo foi prometido aos sucessores de Pedro, não para que, por sua revelação, tornassem conhecida alguma nova doutrina, mas para que, com sua assistência, guardassem religiosamente e expusesse fielmente a revelação ou depósito da fé transmitido pelos apóstolos."  (Concílio Vaticano I, Sessão 4, Capítulo 4)

E guardar também as grandes tradições da Igreja, como exigia o antigo juramento papal:

"Manter a disciplina e o rito da Igreja, como os encontrei e como os descobri dados pelos meus santos predecessores, invioláveis." (Patrologia Latina, 105, 42C (Liber Diurnos Romanorum Pontificul, Lib. II, Titulum VII))

Conclusão

E o que nos resta?

Nos resta a fé. Não a fé nos homens de púrpura, mas naquele que escolheu fundar a Igreja sobre Pedro — um pescador impulsivo, e não um diplomata emérito. A Igreja sobreviveu a imperadores, a invasões bárbaras e até a certos papas. Sobreviverá também a este conclave. Ou não. Mas a Igreja é mais velha que qualquer coisa escrita contra ela, e mais jovem que qualquer moda que tente superá-la.

Se o próximo Papa for um santo, louvado seja Deus. Se for apenas um bom administrador, rezemos. Se for um desastre, então preparemos as catacumbas. Já estivemos lá antes. E, ao contrário do que dizem os teólogos da moda, os cristãos são mais perigosos quando estão nas sombras.

Que venha a fumaça — e que, por milagre ou misericórdia, seja branca.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Papa Francisco adoece. Qual deve ser a atitude do católico que se sente machucado pelo pontificado?


O Papa Francisco segue internado no hospital Gemelli de Roma há 14 dias. O quadro do pontífice, segundo os últimos boletins médicos, segue complexo e com prognóstico reservado, isto é, sem uma previsão clínica de melhora, embora o Santo Padre tenha apresentado uma leve melhora nos últimos dias.

Diante desse cenário, o Vaticano convocou vigílias de oração pela recuperação da saúde do pontífice e o mundo católico como um todo se levantou para rezar pela mesma intenção.

Contudo, é simplesmente um fato que o pontificado do Papa Francisco tem sido marcado como um dos mais polarizados da História. O pontífice é reconhecido como um dos grandes representantes do progressismo católico e diversas ações do seu pontificado foram marcadas por notáveis polêmicas. Enumeramos algumas: 

a) O desmantelamento da Pontifícia Academia para a Vida mediante a reforma do seu estatuto, incluindo nisso a retirada da declaração de fidelidade dos seus membros ao Magistério e admissão de membros abortistas;

b) A abertura de uma pastoral, em Amoris Laetitia, para promover a comunhão para casais em segunda união, revertendo a pastoral proposta pela Veritatis Splendor;

c) A reversão da doutrina da pena de morte;

d) A dolorosa e severa restrição da Missa Tridentina mediante a promulgação do motu proprio "Traditiones Custodes";

e) O sepultamento da "Reforma da Reforma" de Bento XVI;

f) A promoção do clero progressista, principalmente do lobby LGBT;

g) O reerguimento da Teologia da Libertação;

h) A permissão de benção de pares homossexuais em "Fiducians Supplicans";

i)  O partidarismo na punição de bispos e cardeais conservadores;

j) A ruptura com a venerável tradição do serviço do altar exclusivamente masculino;

k) Apoio a políticos abortistas e combate a políticos conservadores;

l) A declaração de que todas as religiões levam a Deus e que a pluralidade delas é um dom ou presente de Deus;

m) A declaração de desejo por um inferno vazio. 

 

A lista de controvérsias não é pequena e por tais razões muitos proeminentes católicos chegaram a aventar que estaríamos diante do pior pontificado da História. Durante o pontificado de Francisco, além de haver um grande decréscimo das vocações, verificamos notórios católicos, alguns deles heróis de guerra da apologética católica, cardeais, bispos, etc., adotarem uma postura crítica ao pontificado, tais como Scott Hahn, Phil Lawler, George Weigel, Ralph Martin, Edward Feser, Cardeal Sarah, Dom Athanasius Schneider, Cardeal Gerard Müller, Eric Sammons, Karl Keating, entre outros.

No atual pontificado, verificamos como os grandes machucados pelo pontificado de Francisco os católicos tradicionais, que foram surpreendidos com a reversão da Summorum Pontificum de Bento XVI pela Traditiones Custodes. Este documento foi particularmente doloroso, porque recolocou a Igreja em uma situação análoga a dos anos 80, nos quais as missas tridentinas eram extremamente raras e o que restava ao católico era se contentar com a já controversa Missa Nova cheia de abusos litúrgicos. No entanto, além de tradicionalistas, muito católicos ratzengerianos e wojtylianos (George Weigel, por exemplo) também encontram-se entre os católicos ressentidos com o atual pontificado, dado que Francisco, infelizmente, tornou-se conhecido por reverter a obra de seus últimos dois predecessores, esta sempre muito marcada pela busca da correção dos excessos do Concílio e pela reconciliação interna da Igreja.

Pois bem. Ao que parece o Papa Francisco chegou ao seu estado mais delicado de saúde. Os médicos não excluem o risco de morte. Diante desse cenário, muitos católicos foram criticados por católicos progressistas por não estarem, neste momento, apresentando muita comoção pública pela recuperação física do pontífice. Michael Matt, por exemplo, foi duramente criticado por Dave Armstrong por fazer a seguinte afirmação em seu Instagram:

"Somos obrigados a orar por uma recuperação rápida e completa do Papa Francisco? Por que essa seria a santa vontade de Deus? Francisco tem 88 anos. Vamos orar para que ele se arrependa, tenha uma morte feliz e enfrente a eternidade nas boas graças de Deus, independentemente do que pensemos de seu pontificado."

Matt é um conhecido tradicionalista americano e ferrenho opositor do pontificado de Francisco. Nesta fala, Matt entende que não estamos obrigados a rezar pela recuperação da saúde do papa, mas apenas por sua conversão e boa eternidade com Deus. Dave julgou a fala de Matt como verdadeiramente desprezível, dando a entender que o desejo de todo católico deve ser o reestabelecimento da saúde do papa. 


Tradução:

"Reacionário Michael Matt (do infame "Remnant"): Não estamos obrigados a rezar pela recuperação do Papa, mas sim por seu arrependimento!

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"Somos obrigados a orar por uma recuperação rápida e completa do Papa Francisco? Por que essa seria a santa vontade de Deus? Francisco tem 88 anos. Vamos orar para que ele se arrependa, tenha uma morte feliz e enfrente a eternidade nas boas graças de Deus, independentemente do que pensemos de seu pontificado." [20-2-25 em seu trapo vergonhoso]

Efésios 6:18 (RSV) "Orem em todo o tempo no Espírito, com toda oração e súplica. Para esse fim, mantenham-se alertas com toda a perseverança, fazendo súplicas por todos os santos."

Tenho alertado as pessoas sobre o Remnant e outros grupos reacionários desse tipo durante os 28 anos desde que tenho um site/blog. Há mil boas RAZÕES para isso: uma delas é evidente nas opiniões e no comportamento desprezíveis de Matt."

Não compartilhamos de muitas das opiniões de Michael Matt e não entendemos como razoável a sua postura muitas vezes acintosa contra o Santo Padre. Devemos sempre ter em mente que o Sumo Pontífice, como ensina o Pe. William Faber em "Da Devoção ao Papa", é realmente uma pessoa venerável, razão pela qual devemos ter verdadeira piedade filial, independente de quem seja. Não é admissível a um cristão zombar ou desprezar o Sumo Pontífice. Não é possível, por isso mesmo, nutrir ódio de inimizade, pelo qual se deseja o mal enquanto tal ao próximo, contra o Santo Padre.

No entanto, devemos nos perguntar: Michael Matt mentiu? Católicos que foram feridos por este pontificado estão realmente obrigados a desejar e rezar pela pronta recuperação do Papa? É o que iremos descobrir.

Para tanto façamos um digressão sobre (i) como se compreende o ódio e a caridade pelos inimigos e (ii) se um papa pode ser o nosso inimigo.


O ódio e o amor pelos inimigos

Santo Afonso de Ligório ao tratar do ódio e do amor aos inimigos em sua Teologia Moral distingue o ódio de inimizade do ódio de abominação:

"Embora seja pecado mortal ex genere suo o ódio de inimizade, ou seja, à pessoa secundum se e aos bens que em si possui, desejando-lhe mal por mal, ou na medida em que é mal para ela; contudo muitas vezes é lícito o ódio de abominação, ou seja, de qualidade, com o qual aborrecemos não o homem, mas sua malícia, ou a pessoa em quanto é má, ou prejudicial a nós, como ensina Coninck e as opinião comum."

E complementa:

"É lícito desejar mal ao próximo, por exemplo, temporal (desde que não seja mais grave que justo), em quanto é para ele um bem, por exemplo, doença ou adversidade, para que se emende dos seus pecados. Bonacina", com funda-mento em muitos. Mas é preciso prevenir que não seja feito por vingança, com que pecas mortalmente, conforme se pode ler no Salmo 108 sobre o inimigo. Porém, em geral, é lícito desejar a outras pessoas, com afeto ineficaz, males de pena por causa do bem espiritual próprio ou alheio: porque, como nesse afeto se antepõe o bem espiritual ao temporal, não é desordenado. Veja-se Lessius. - [Veja o que será dito no Liv. V, n. 21].

<<Assim, é lícito, por exemplo, desejar a morte ao heresiarca ou ao perturbador da paz pública, por causa do bem comum e de muitos; conforme o passo de Gálatas 5, 12: Oxalá fossem cortados. Também é lícito entristecer-se com as dignidades concedidas aos indignos, ou com a saúde de quem dela se vale para pecar. Igualmente é lícito desejar a alguém a morte, pobreza ou doença, para que abandone o pecado e mude de vida. Pela mesma razão, Bonacina, Azor e Palao escusam de pecado a mãe que deseja a morte das filhas, quando, por alguma deformidade ou penúria, não lhes pode arranjar núpcias por meios honestos e cômodos». [Isto porém não se deve admitir de jeito nenhum; como dizem acertadamente os Salmanticenses e Roncaglia)"

Segundo padroeiro dos confessores e moralistas, o ódio de inimizade é aquele em que odiamos a pessoa em si mesma e desejamos a ela o mal pelo mal, isto é, como um ato de vingança. Já no ódio de abominação se detesta não a pessoa, mas a sua malícia, os seus pecados ou o mal que faz a nós. O ódio de inimizade é proibido nutrirmos contra qualquer pessoa, inimiga ou não, porque somos obrigados por dever de caridade a desejar a salvação do próximo. Desejar o mal gratuito ao inimigo significaria um ódio à criação de Deus e à bondade que ele inscreveu nas criaturas. Assim, odiar uma pessoa é o odiar o próprio Deus. O ódio de abominação, porém, é lícito termos, desde que não odiemos a pessoa em si mesma, e poderíamos inclusive desejar um mal temporal, mesmo a morte, para um inimigo visando o bem moral dele, isto é, a sua conversão e mudança de vida, ou o bem comum. Inclusíve é lícito nos entristecermos com a saúde de quem dela se utiliza mal.

O mesmo entendimento é seguido por outros moralistas. Antonio Royo Marín, em sua "Teologia Moral para Leigos", assim ensina:

"Já falamos dele ao expor a doutrina sobre o perdão aos inimigos. Aqui nos limitamos a recordar alguns princípios fundamentais.

1.º) O ÓDIO DE INIMIZADE (pelo qual se deseja ao próximo algum mal enquanto tal, ou se tem alegria por seus males, ou tristeza por seus bens) opõe-se diretamente à caridade (amor de benevolência) e é em si pecado mortal, a não ser por pequenez de matéria ou imperfeição do ato. Consta expressamente na Sagrada Escritura (1Jo 2, 9; 3, 14-15; 4, 20, etc.) e pelo fato de que o próximo, ainda que seja mau e pecador, foi redimido por Cristo, é membro do Corpo místico de Cristo (em ato ou em potencia) e está destinado à vida que são outros tantos motivos de caridade.

2.º) O ÓDIO DE ABOMINAÇÃO (que recai sobre o próximo enquanto pecador, perseguidor da Igreja, ou pelo mal que nos causa injustamente) pode ser reto e legítimo caso se deteste não a pessoa mesma do próximo, mas o que há de mau nela; porém, caso seja odiada pelo que há nela de bom ou pelo mal que nos causa justamente (v.g., o juiz, o superior, etc., castigando legitimamente o delinquente), opõe-se à caridade (amor de concupiscência) e é pecado em si grave, a não ser por pequenez de matéria ou por imperfeição do ato.

3.º) Não há pecado algum em desejar ao próximo algum mal fisico, mas sob a razão de bem moral (v.g., uma enfermidade para que se arrependa sua má vida). Tampouco o seria alegrar-se com a morte do próximo que propagava erros ou heresias, perseguia a Igreja, etc., contanto que este gozo não redunde em ódio para com a própria pessoa que causava aquele mal. A razão é que odiar o que em si é odioso não é nenhum pecado, mas totalmente obrigatório quando se odeia segundo a reta ordem da razão e da maneira e com a finalidade devidas. Não obstante, é preciso estar muito alerta para não passar do ódio de legítima abominação do mal ao ódio de inimizade para com a pessoa culpada, o que nunca é lícito, ainda que se trate de um grande pecador, já que ainda está em tempo de se arrepender e se salvar. Somente os demônios e os condenados do inferno se tornaram definitivamente indignos de todo ato de caridade em qualquer de suas manifestações." (n. 538)

Antonio Arregui em "Summarium Theologiae Moralis" igualmente diz:

"Nem todos os penitentes que se acusam de ódio são imediatamente acusados ​​de pecado grave; pois muitas vezes confundem o ódio da inimizade, que é exercido contra uma pessoa em si mesma e dos bens que ela possui, com o ódio da abominação, que é exercido contra suas más qualidades, ou sobre uma pessoa considerada prejudicial para nós, ou com uma aversão natural e invencível que não é má em si." (n. 140)

Portanto, não é contrário ao preceito de amarmos os nossos inimigos o ódio de abominação e o desejo de certos males para sua correção ou para o bem comum. Com isto estabelecido, abordaremos agora se é possível existir ódio de abominação contra um papa.


Os maus papas e o ódio de abominação

Não há qualquer dúvida razoável de que maus papas existiram. Até mesmo o mais ferrenho dos continuístas é capaz de reconhecer esta verdade. Na História da Igreja já se viu papas sodomitas, assassinos, estupradores, fornicadores e favorecedores de heresia. Alguns desses Papas foram publicamente defenestrados pela Igreja Romana, sendo o maior exemplo o Papa Honório. Honório, independente se ensinou heresia ou não, não tem boa memória perante a Igreja e é contado entre os anematizados por ela.

Com efeito, é possível afirmarmos que, sim, um papa pode ser tanto inimigo pessoal de um indivíduo, já que é capaz de pecados mortais contra a vida, o matrimônio, o patrimônio de alguém, etc., quanto um inimigo da Igreja, na medida em que diz heresias (Se um Papa pode ser herege é disputado entre os teólogos) ou que as favorece (não é disputável se um Papa pode favorecer heresias, pois a Igreja confirmou que Honório fez isso).

Sendo assim, é igualmente possível existir ódio de abominação a um pontífice.

Nesse contexto, é simplesmente um fato que o pontificado de Francisco machucou muitos católicos. Papa Francisco tomou decisões impopulares que geraram (e ainda geraram) uma onda de desconfiança e até de profundo ressentimento contra o Sumo Pontífice. Lembremos que a Traditiones Custodes dizimou comunidades frutuosas inteiras de católicos ligados à Missa Tridentina. Uma ação pastoral dessas dificilmente não poderia ser enquadrada como um pecado contra caridade. Mesmo um católico progressista como Karl Rahner reconhecia que o Papa que pretendesse extinguir um rito tradicional cometeria uma falta gravíssima contra a caridade e a unidade da Igreja:

"Imagine que o Papa, como pastor supremo da Igreja, emitiu hoje um decreto exigindo que todas as igrejas unidas do Oriente abandonassem a sua liturgia oriental e adoptassem o rito latino... O Papa não excederia a competência do seu primado jurisdicional e o decreto seria legalmente válido.

Mas também podemos colocar uma questão totalmente diferente. Seria moralmente lícito que o Papa emitisse tal decreto? Qualquer homem razoável e qualquer cristão verdadeiro teria de responder “não”. Qualquer confessor do Papa teria de lhe dizer que na situação concreta da Igreja hoje tal decreto, apesar da sua validade jurídica, seria subjetiva e objetivamente uma ofensa moral gravíssima contra a caridade, contra a unidade da Igreja bem entendida (que não exige uniformidade), contra a possível reunião dos Ortodoxos com a Igreja Católica Romana, etc., um pecado mortal do qual o Papa só poderia ser absolvido se revogasse o decreto." (Studies in Modern Theology de Karl Rahner (Herder, 1965, pp. 394-395)

Pe. Chad Ripperger igualmente afirma em seu livro "The Binding Force of Tradition" que o ataque aos monumentos da Tradição, nos quais os ritos tradicionais se inserem, é um pecado, podendo ser até mesmo grave, contra a caridade:

"Se alguém ama o próximo, desejará garantir que o próximo receba a tradição tão plenamente quanto possível para o bem da sua salvação. As extensas mudanças recentes na tradição tornaram mais difícil a salvação das nossas almas, o que é contra a caridade. O assalto aos monumentos, bem como a clareza doutrinária sobre a fé e a moral ensinada pela Igreja, devastou os afetos que as pessoas têm pelas coisas da fé e às quais estão apegadas de uma forma devidamente ordenada. O impacto que teve nas pessoas é claramente contra a caridade e não pode ser interpretado de outra forma que não seja pecaminoso, muitas vezes gravemente pecaminoso, especialmente quando falamos do desprezo com que estas coisas foram mudadas, bem como do desprezo demonstrado por aqueles que foram atados a elas de maneira corretamente ordenada."

Papa Francisco, ademais, foi um tanto controverso nesta decisão, tendo em vista que revogou inteiramente a legislação de um predecessor ainda vivo, Bento XVI, colocando em risco a credibilidade das decisões da Igreja.

Além disso, as declarações polêmicas tais como "Gosto de pensar em um inferno vazio", "A pluralidade das religiões é um dom de Deus", "A pena de morte é inadmissível para além de toda circunstância" são tão ou mais problemáticas que o ensino dúbio de Honório.

Por tais motivos, é totalmente compreensível que alguns católicos se sintam verdadeiramente feridos e ressentidos com Francisco e não nutram agora afetos especiais de amizade, não fiquem entristecidos com sua enfermidade e nem façam comoção pública pela sua rápida recuperação.

Os sentimentos desses católicos não são censuráveis, se não são movidos por ódio de inimizade, mas unicamente pelo desejo de que os males temporais ajudem o Papa a mudar os rumos do pontificado ou a conquistar a vida eterna (opinião de Michael Matt) ou ainda para ver o fim de um governo especialmente doloroso.

É preciso dizer que Deus exige de nós uma caridade sobrenatural para com o próximo, mas não exige, absolutamente, uma caridade repulsiva à natureza ou contrária ao bem comum. Em outras palavras, Deus quer que conservemos em absoluto o desejo de salvação do próximo, porém não exige que desejemos ao próximo a preservação de todo mal. Alguns males temporais, em certas circunstâncias, são medicinais para ele. Desejar ao próximo todo bem possível e imaginável não seria nem mesmo reto em algumas ocasiões, especialmente naquelas em que a justiça precisa seguir seu curso.

Pois bem. O que esses católicos machucados pelo pontificado podem fazer então? As opções são diversas. Eles podem:

1. Rezar pela recuperação do Papa, para que não venha um papa pior. Esta posição é uma das sugestões indicadas por Santo Tomás de Aquino em "De Regno":

"Verdadeiramente, costuma acontecer, na tirania, tornar-se a posterior mais grave que a precedente, pois não retira os gravames anteriores e, até, pela perversidade do coração, excogita novos. Por essa razão (Valério Máximo, Memorabilia, VI, 2, ext. 2), como outrora, em Siracusa, todos desejassem a morte de Dionísio, certa velha orava continuamente a fim de que ele ficasse incólume e sobrevivesse a ela. Disso sabendo, interrogou o tirano por que fazia assim. Ao que respondeu: “Quando eu era menina, como tivéssemos pesado tirano, desejava a morte dele; morto esse, sucedeu-lhe outro algo mais rude, cujo fim de dominação eu tinha por grande bem. E começamos a ter um governo mais intolerável, que és tu. Portanto, se fores derrubado, sucederá um pior no teu lugar”." (Cap. VII)

2. Rezar pela recuperação do Papa, mas pedindo que ele se torne santo ou mude os rumos do pontificado. Nesse sentido, pode-se rezar a prece "Oremus Pro Pontifice Nostro" que pede a Deus que vivifique o Papa e lhe dê santidade de vida na Terra.

℣.Oremus pro Pontifice nostro NN.

℟. Dominus conservet eum, et vivificet eum, et beatum faciat eum in terra, et non tradat eum in animam inimicorum eius.

℣. Tu es Petrus,

℟. Et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam.

Oremus.

Deus, omnium fidelium pastor et rector, famulum tuum NN, quem pastorem Ecclesiae tuae praeesse voluisti, propitius respice: da ei, quaesumus, verbo et exemplo, quibus praeest, proficere: ut ad vitam, una cum grege sibi credito, perveniat sempiternam. 

Per Christum, Dominum nostrum. 

℟. Amen.

3. Rezar para que a doença enfrentada pelo Papa o ajude a se santificar.

4. Rezar para que, se o destino do Papa for o pior, que ele descanse em amizade com Deus. Esta é a posição de Michael Matt.

5. Rezar para que, se o Papa falecer, ele descanse em amizade com Deus e que o seu sucessor seja um bom papa. Esta parece ser a posição de Timothy Gordon:



6. Rezar para que Deus exerça seu juízo e vontade sobre o pontífice ponderando, na oração, as dificuldades do pontificado.

Todas essas atitudes não contrariam a devida piedade filial ao Papa e o amor aos inimigos. Em nenhuma dessas hipóteses se deseja o mal em si do Pontífice, mas somente o bem dele ou da Igreja nas condições pontuadas pelos teólogos.

Dito isso, rezemos pelo Papa Francisco para que Deus exerça sua soberana vontade em todas as coisas e que o Papa, quer nesta vida ou na outra, seja um grande amigo de Deus.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Respostas às objeções mais comuns ao serviço exclusivamente masculino do altar.


Em nosso artigo anterior apresentamos uma refutação à defesa feita por Viviane Varela da página "O Catequista" a respeito da acolitagem feminina das missas. Na presente postagem responderemos às objeções mais comuns ao serviço exclusivamente masculino do altar.

Quanto ao discernimento vocacional

1. "O sacerdócio não exige o afastamento completo das mulheres, tal como a vocação religiosa. Assim, os rapazes devem se acostumar com mulheres no altar para aprenderem a lidar com o sexo oposto de maneira saudável." 

Esta objeção foi realizada pelo apologista católico Dave Armstrong e pode ser encontrada aqui. O argumento falha, contudo, em considerar que o serviço do altar não foi ordenado para ter interações próximas entre homens e mulheres.

Quando observamos a antiga tradição dos levitas, constamos que antes de servirem o Templo eles se abstinham de relações sexuais com suas esposas, para que suas mentes e corações estivessem completamente puros e livres de quaisquer pensamentos ou paixões contra a castidade durante o serviço divino (1 Sm 21, 5-6)

Esta prática, diz Bento XVI, em "Do profundo de nosso coração", inspirou o celibato cristão, que elevou o temporário celibato levita ao celibato permanente.

Portanto, o serviço do altar não foi feito para promover a interação entre os sexos, mas para diminuir esse intercâmbio.

Nesse sentido, a Igreja desenvolveu uma série de disciplinas, sem dúvidas inspiradas pelo Espírito Santo, que custodiavam a guarda dos olhos e a castidade do sacerdote e dos fiéis, tais como: a celebração versus Deum do sacrifício, o uso piedoso do véu, o serviço exclusivamente masculino do altar, a separação dos sexos durante a celebração do sacrifício e as rúbricas litúrgicas que orientavam o olhar do padre durante a Missa.

Infelizmente, no rito paulino, quase todas essas disposições foram removidas e os sacerdotes e os fiéis ficaram desprotegidos contra a imodéstia e a impureza. As desvantagens dessas remoções foram manifestas: imodéstia nas missas, revolta contra o ensino da Igreja a respeito da castidade, escândalos sexuais em profusão, entre outros.

Devemos dizer que o ambiente adequado para a interação entre sexos já existe e é a família. É nela que todos aprendem lidar com todos.

2. "O serviço feminino do altar ajuda as mulheres a discernirem sua vocação religiosa."

Este argumento logra ainda menos de força, pois a vida religiosa, como salienta Armstrong, exige uma forte separação dos sexos. Com efeito, a assistência mista do altar, ao invés de incentivar o discernimento religioso, ao contrário, atrapalha.

Ademais, a vida religiosa se define essencialmente pela profissão dos votos de pobreza, obediência e castidade, não sendo diretamente ordenada para o serviço do altar. O chamado a essa vocação sempre estará relacionado com a atração pelos votos, vida de oração e despreendimento do mundo, não sendo o exercício do serviço do altar um caminho ordinário de discernimento da vocação religiosa, ainda mais o serviço feminino cuja função é inadequada para as mulheres.

Nesse sentido, em nenhum dos grades escritos católicos de discernimento vocacional o serviço do altar é indicado como um sinal de vocação religiosa. A respeito, observa-se a lista do Pe. William Doyle, conhecido por ter escrito obras de discernimento vocacional, no livro "Vocations", que elenca 12 principais sinais de vocação religiosa:

"1. Um desejo de ter uma vocação religiosa, junto com a convição de que Deus está chamando você. Esse desejo é geralmente mais fortemente sentido quando a alma está calma, após a Sagrada Comunhão e em tempo de retiro.

2. Uma atração crescente pela oração e pelas coisas sagradas em geral, juntamente com um anseio por uma vida escondida e um desejo de estar mais intimamente unido a Deus.

3. Ter ódio do mundo, convicção de sua vacuidade e insuficiência para satisfazer a alma. Esse sentimento é geralmente mais forte em meio à diversão mundana.

4. Medo do pecado, no qual é fácil cair, e desejo de escapar dos perigos e tentações do mundo.

5. Às vezes é sinal de vocação quando uma pessoa teme que Deus possa chamá-la; quando ela reza para não tê-la e não consegue banir o pensamento de sua mente. Se a vocação for sólida, ela logo dará lugar a uma atração, por meio do Padre Lehmkulhl diz: “Não é preciso ter uma inclinação natural para a vida religiosa; pelo contrário, uma vocação divina é compatível com uma repugnância natural pelo estado.”

6. Ter zelo pelas almas. Perceber algo do valor de uma alma imortal e desejar cooperar em sua salvação.

7. Desejar dedicar toda a nossa vida para obter a conversão de alguém que nos é querido.

8. Desejar expiar nossos próprios pecados ou os dos outros e fugir das tentações às quais nos sentimos fracos demais para resistir.

9. Uma atração pelo estado de virgindade.

10. A felicidade que o pensamento da vida religiosa traz, suas ajudas espirituais, sua paz, mérito e recompensa.

11. Um desejo de sacrificar-se e abandonar tudo pelo amor de Jesus Cristo, e de sofrer por Ele.

12. A disposição de alguém que não tem dote ou muita educação de ser recebido em qualquer função é prova de uma vocação real."

Como se nota, o gosto pelo serviço do altar não se encontra entre os sinais preementes de vocação religiosa.

3. "Se o rapaz é chamado ao sacerdócio, não será a acolitagem feminina que irá impedi-lo".

Este argumento é dado novamente pelo apologista Dave Armstrong aqui:

"Eu tenho sustentado que se alguém tem um chamado, ele não será frustrado por meramente ser um coroinha ou não. Se um menino se sente levado a ser um coroinha, ele o fará, quer haja meninas ou não. Um chamado é muito mais profundo do que meros elementos externos e circunstanciais. Se pensarmos que depende deles, não acho que estamos compreendendo o que é uma vocação em primeiro lugar.

[...]

Como se passa de:

“Eu acredito [forte inclinação; não totalmente certo] que Deus está me chamando para ser padre”

para:

“Não tenho certeza se Deus ainda está me chamando”

só porque coroinhas mulheres estão servindo na paróquia de alguém?

Isso não faz sentido para mim. Deus está chamando uma pessoa para ser padre ou não. Se Ele está (da perspectiva de Deus) não tem absolutamente nenhuma relação com fatores externos como coroinhas, oposição na família, etc."

No entanto, o argumento também é falho. Armstrong presume que a vocação sacerdotal necessita de algum sentimento de confirmação interior do candidato. Contudo, a vocação sacerdotal, ao contrário da vocação religiosa, não exige qualquer inclinação ou atração por esse estado de vida, bastando a idoneidade e a reta intenção do candidato. É o que afirma a Santa Sé, como narra o Pe. Doyle no livro "Devo ser padre?":

"Grande ênfase foi colocada no fato de que, uma vez que uma vocação era um dom gratuito de Deus, um ato pelo qual Ele seleciona alguns em preferência a outros, essa escolha deve ser conhecida interiormente à alma tão favorecida; sem essa vocação interior, seria presunção e o cúmulo da tolice aspirar a tal dignidade, relembrando o aviso de São Paulo: “Ninguém toma para si a honra, senão aquele que é chamado por Deus, como Arão” (Heb. v.).

O resultado desse ensinamento impreciso, agora mostrado como totalmente contrário à mente da Igreja, foi que muitos rapazes, possuindo todas as qualificações para se tornarem padres esplêndidos, foram informados de que não tinham vocação, porque não tinham atração sensível pela vida, e até mesmo medo e pavor de suas obrigações.

[...] 

Uma comissão especial de cardeais, nomeada pelo Papa Pio X, tendo examinado a questão, aprovou totalmente o ensinamento do Cônego Lahitton sobre vocações sacerdotais, e seu julgamento foi formalmente sancionado pelo decreto de 2 de julho de 1912. Deste decreto da Santa Sé agora é certo:

(a) Que uma vocação ao sacerdócio não inclui necessariamente qualquer inclinação interior da pessoa ou inspiração do Espírito Santo;

(b) Que tudo o que é exigido dos aspirantes à Ordenação é “uma intenção correta, e tal aptidão de natureza e graça, como evidenciado na integridade de vida e suficiência de aprendizado, que dará uma esperança bem fundada de seu cumprimento correto das obrigações do sacerdócio.”

(c) Que, dadas essas condições, uma verdadeira vocação é inquestionavelmente conferida pelo Bispo no momento da Ordenação.

Sendo assim, podendo existir até mesmo certo medo do candidato, é mais que necessário que a vocação sacerdotal seja incentivada pela Igreja. E o método da Igreja mais tradicional e eficaz de incentivar e de quebrar todas as resistências psicológicas dos rapazes sempre foi o serviço exclusivamente masculino do altar.

Por fim, a objeção ignora que o discernimento e a escolha vocacional são sempre precedidos de uma boa preparação removendo-se todos os obstáculos possíveis, já que obstáculos, como o próprio nome sugere, apenas atrapalham o bom discernimento.

4. "As vocações estão aumentando. Não há porque temer o acolitato feminino."

Este argumento foi replicado por Viviane Varela em sua sequência de stories para justificar o acolitato feminino, que rebatemos no artigo "As grandes bobagens de Viviane Varela (O Catequista) sobre as diaconisas e o serviço feminino do altar".

O argumento, no entanto, é fantasioso. Viviane Varela não apresenta qualquer dado a respeito, mas apenas a sua impressão pessoal da sua realidade paroquial. Contudo, os fatos refutam Viviane. No anuário estatístico da Igreja de 2021-2022, período que houve a abertura às mulheres ao acolitato e leitorado instituídos, embora tenha crescido, em geral, o número de católicos, diminuiu o número de seminaristas e religiosos, como informa a  ACI Digital:

"Segundo dados de 2021, há 109.895 seminaristas, dos quais 61% são seminaristas diocesanos e os 39% restantes são religiosos. Em comparação com 2020, eles caíram 1,8%."

Nos anos anteriores, a realidade não foi muito diferente. Aumento de católicos, diminuição de vocações.

O aumento de católicos não surpreende. Apostolados aumentaram ao redor do mundo, principalmente nos EUA e na América Latina, o que tem auxiliado na conversão de leigos. Contudo, a vidas religiosa e sacerdotal continuam em um vale de lágrimas. Não há qualquer atrativo atual nessas vocações. E não existe por hora qualquer indicativo de que essa situação irá melhorar.

Quanto à adequação pastoral

5. "O acolitato feminino é baseado na dignidade batismal do leigo. Assim, não há porque considerar mulheres indignas do serviço do altar."

Esta razão é um pouco mais substancial que as objeções anteriores, tendo em vista o apelo teológico ao sacerdócio comum dos fiéis. No entanto, ela falha em fazer uma importante distinção que mostraremos a seguir.

Boa parte dos fatos teológicos não existem em razão de alguma necessidade lógica. Por exemplo, a redenção do gênero humano não tinha por necessidade a morte de Cristo. Contudo, o consenso dos Santos Padres e dos Santos Doutores da Igreja era que a Paixão de Cristo foi um meio muito conveniente para Deus salvar a humanidade. 

Nesse sentido, quando verificamos a distinção entre sacerdócio comum e sacerdócio ministerial, constamos alguns atos do ministério ordenado que podem ser delegados para alguns leigos, como a distribuição da Eucaristia por um batizado ao invés de um não-batizado. Todavia, não há qualquer dúvida razoável de que a distribuição das espécies é um ato de dignidade sacerdotal, dado que as mãos do sacerdote foram consagradas para tocar o Corpo de Cristo, como aduz São Tomás:

"A distribuição do corpo de Cristo pertence ao sacerdote por três razões. Primeiro, porque, como foi dito acima ( Artigo 1 ), ele consagra como na pessoa de Cristo. Mas como Cristo consagrou Seu corpo na ceia, assim também Ele o deu a outros para serem partilhados por eles. Consequentemente, como a consagração do corpo de Cristo pertence ao sacerdote, assim também a distribuição pertence a ele. Segundo, porque o sacerdote é o intermediário designado entre Deus e o povo; portanto, como lhe pertence oferecer os dons do povo a Deus, assim também lhe pertence entregar os dons consagrados ao povo. Terceiro, porque por reverência a este sacramento, nada o toca, exceto o que é consagrado; portanto, o corporal e o cálice são consagrados , e da mesma forma as mãos do sacerdote, por tocarem neste sacramento. Portanto, não é lícito a ninguém mais tocá-lo, exceto por necessidade, por exemplo, se cair no chão, ou em algum outro caso de urgência." (S. Th., III pars, q. 82. a. 3)

Notemos que um não-consagrado é o último da fila para tocar o Corpo de Cristo, pois, ainda que tenha dignidade batismal, há uma ordem de dignidades para certas funções e o simples batismo não confere ao leigo o direito de exercer prerrogativas sacerdotais sem uma causa justa ou grave.

Como demonstramos no artigo "As grandes bobagens de Viviane Varela (O Catequista) sobre as diaconisas e o serviço feminino do altar", embora a função de acólito possa ser desempenhada por um leigo, o serviço do altar não é uma função de leigo, mas de quem integra as ordens sagradas. Assim, a Igreja teve a sabedoria de sempre por o sexo masculino no serviço do altar, pois, quando não fosse possível o serviço por um diácono, se conservaria melhor a dignidade das ordens sacras, já que ainda se preservava certa adequação e verossimilhança.

O sexo feminino, no entanto, não se mostra adequado de nenhum modo, tendo em vista que é vedada pela doutrina da Igreja a ascensão de mulheres ao diaconato e ao presbiterato, não guardando qualquer verossimilhança.

Não sem razão que o Papa São Gelásio nomeou o serviço feminino como um certo desprezo às coisas divinas, visto que não conservava a ordem de dignidades para o culto divino.

6. "O acolitato feminino permitirá uma melhor distinção entre as ordens sacras e as ordens não-sacras."

Este argumento foi fornecido pelo Papa Francisco na carta que acompanhava o motu proprio Spiritus Domini ao Prefeito do Discatério para a Doutrina da Fé.

"Desta forma, além de responder ao que é pedido para a missão no tempo presente e de acolher o testemunho dado por tantas mulheres que cuidaram e continuam a cuidar do serviço da Palavra e do Altar, tornar-se-á mais evidente — também para aqueles que se orientam para o ministério ordenado — que os ministérios do Leitor e do Acólito estão enraizados no sacramento do Batismo e da Confirmação. Deste modo, no caminho que conduz à ordenação diaconal e sacerdotal, aqueles que são instituídos Leitores e Acólitos compreenderão melhor que participam num ministério partilhado com outros batizados, homens e mulheres. Deste modo, o sacerdócio próprio de cada fiel (commune sacerdotium) e o sacerdócio dos ministros ordenados (sacerdotium ministeriale seu hierarquicum) serão  ordenados ainda mais claramente uns para os outros (cf. LG , n. 10), para a edificação da Igreja e para o testemunho do Evangelho."

Com todo o respeito filial que temos ao Santo Padre, mas as razões suscitadas não parecem se sustentar. Ponderemos com as seguintes observações:

1. As funções de ler as lições e de servir ao altar não estão enraizadas em si mesmas no sacramento do Batismo e da Confirmação, mas no da Ordem. O que, talvez, o Santo Padre queira dizer é que o exercício delegado dessas funções esteja enraizado no batismo e na confirmação, não o exercício do altar em si mesmo. Portanto, faltou ao texto esta distinção;

2. Depois de 50 anos de Reforma Litúrgica é impossível sustentar que a ordenação do sacerdócio comum para o sacerdócio ministerial ficou mais clara com a invasão de mulheres no altar. Na verdade, a prática mostra o contrário. Cada vez é mais comum a impugnação do sacerdócio e do diaconato exclusivamente masculino. Ora, na disposição anterior, isto é, com o serviço exclusivamente masculino, era possível entender quais funções realizadas por leigos eram ordenadas às Ordens Sagradas e quais não eram, pois as ordens menores claramente eram fases preparatórias para as Ordens Sacras, o que era adequado somente aos homens. Já a prática atual predominante em toda a Igreja traz confusão. Todos fazem tudo e se obscurece a razão das mulheres serem excluídas do diaconato. Deve-se lembrar que a ordem de uma coisa para outra se observa quando uma, de certo modo, tenciona à outra como fim. Com efeito, se mulheres não estão ordenadas às ordens sacras, fica incompreensível entender de que modo o sacerdócio comum tenciona ao sacerdócio ministerial com o serviço feminino do altar.

 6. "O acolitato feminino ajudará a incluir cada vez mais as mulheres na Igreja."

Esta razão foi dada novamente dada pelo Papa Francisco na carta que acompanhava a "Spiritus Domini".

"O compromisso dos fiéis leigos, que «são simplesmente a imensa maioria do povo de Deus» (Francisco, Exortação Apostólica Evangelii gaudium, n. 102), certamente não pode e não deve esgotar-se no exercício dos ministérios não ordenados (cf. ibidem), mas uma melhor configuração destes ministérios e uma referência mais precisa à responsabilidade que nasce, para cada cristão, do Batismo e da Confirmação, pode ajudar a Igreja a redescobrir o sentido de comunhão que a carateriza e a iniciar um renovado compromisso na catequese e na celebração da fé (cf. ibidem ). E é precisamente nesta redescoberta que a sinergia frutuosa resultante da ordenação mútua do sacerdócio ordenado e do sacerdócio batismal pode encontrar uma melhor tradução. Esta reciprocidade, do serviço ao sacramento do altar, é chamada a refluir, na distinção das tarefas, para aquele serviço de «fazer de Cristo o coração do mundo», que é a missão particular de toda a Igreja. É precisamente este, embora distinto, serviço ao mundo que alarga os horizontes da missão da Igreja, impedindo-a de ser encerrada em lógicas estéreis destinadas sobretudo a reivindicar espaços de poder, e ajudando-a a experimentar-se como uma comunidade espiritual que «caminha juntamente com toda a humanidade, participa da mesma sorte terrena do mundo» (GS , n. 40). É nesta dinâmica que podemos verdadeiramente compreender o significado da “Igreja em saída”.

No horizonte de renovação traçado pelo Concílio Vaticano II, existe hoje um crescente sentido de urgência em redescobrir a corresponsabilidade de todos os batizados na Igreja, e especialmente a missão dos leigos. A Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazónica (6-27 de outubro de 2019), no quinto capítulo do documento final assinalou a necessidade de pensar em “novos caminhos para a ministerialidade eclesial”. Não só para a Igreja Amazónica, mas para toda a Igreja, na variedade de situações, «é urgente promover e conferir ministérios a homens e mulheres... É a Igreja dos batizados que devemos consolidar promovendo a ministerialidade e, sobretudo, uma consciência da dignidade batismal» (Documento Final, n. 95).

[...]

Uma distinção mais clara entre as atribuições dos que hoje são chamados “ministérios não ordenados (ou laicais)” e “ministérios ordenados” torna possível dissolver a reserva dos primeiros apenas aos homens. Se em relação aos ministérios ordenados a Igreja «não tem de modo algum a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres» (cf. S. João Paulo II, Carta Apostólica Ordinatio sacerdotalis, 22 de maio de 1994), para ministérios não ordenados é possível, e hoje parece oportuno, superar esta reserva. Esta reserva fazia sentido num contexto particular, mas pode ser reconsiderada em novos contextos, tendo sempre como critério a fidelidade ao mandato de Cristo e o desejo de viver e proclamar o Evangelho transmitido pelos Apóstolos e confiado à Igreja para que possa ser escutado de forma religiosa, guardado de forma santa e fielmente anunciado.

[...] 

 A decisão de conferir estes ofícios, que implicam estabilidade, reconhecimento público e um mandato do bispo, também às mulheres, torna  mais eficaz na Igreja a participação de todos na obra de evangelização. «Isto também permite que as mulheres tenham uma incidência real e efetiva na organização, nas decisões mais importantes e na liderança das comunidades, mas sem deixar de o fazer com o estilo próprio da sua marca feminina» (Francisco, Exortação Apostólica Querida Amazonia, n. 103). O “sacerdócio batismal” e o “serviço à comunidade” representam assim os dois pilares sobre os quais se baseia a instituição dos ministérios."

Causa estranheza esta argumentação do Papa Francisco. Ao mesmo tempo em que afirma que a Igreja não pode ser "encerrada em lógicas estéreis destinadas sobretudo a reivindicar espaços de poder" ele diz que o ministério do Acolitato e do Leitorado foram conferidos às mulheres para que "elas tenham uma incidência real e efetiva na organização, nas decisões mais importantes e na liderança das comunidades". Em outras palavras, a razão pastoral para se abrir tais funções às mulheres é justamente a lógica que se diz combater, isto é, a lógica da reinvidicação de poder.

Infelizmente, parece que subjaz no âmago dessa argumentação a suposição da teoria marxista da luta de classes dentro da Igreja. Sabemos que o Papa Francisco tem simpatia pela Teologia da Libertação e não é nada improvável que várias das suas perspectivas pastorais estejam imbuídas do espírito dessa teologia.

Não negamos que alguma luta de classes possa ter existido dentro da Igreja, mas certamente as ordens menores não fizeram parte disso. A lógica pastoral da Igreja até o século XX era exclusivamente adequar os meios aos fins, isto é, preservar as Ordens Sacras e incentivar as vocações com o serviço exclusivamente masculino do altar. Não havia nenhuma "lógica estéril" ou de poder nisso.

Se a ideia é abrir espaço para as mulheres, não é preciso conferir serviço próprios das Ordens Sacras. Basta recorrer às pastorais tradicionais que, em regra, são muito melhores e mais saudáveis que as atuais. Na Igreja Antiga, as viúvas e as virgens consagradas davam catequese às outras mulheres e ajudavam no trabalho caritativo. Nada impede que as mulheres hoje façam o mesmo.

Por fim, a carta indica que, atualmente, parece oportuno (deixando claro que se trata de um juízo prudencial e não doutrinal) superar a reserva de que o serviço do altar se destine exclusivamente ao sexo masculino. Contudo, Papa Francisco não deixa claro a razão de superar essa reserva. Fica a coisa no ar. "Podemos superar porque sim".

Quanto à Indefectibilidade da Igreja

7. "O serviço de mulheres não pode ser um mal à Igreja, visto que as leis disciplinares da Igreja não podem impelir os fiéis ao pecado."

Primeiramente, negamos a universalidade de Spiritus Domini. O motu proprio não obriga os bispos a adotarem mulheres acólitas, apenas faculta. Spiritus Domini também sequer vincula todos os ritos, uma vez que no Rito Romano Tradicional e em diversos ritos orientais o serviço feminino continua proibido, não sendo realmente uma lei universal.

Em segundo lugar, concordamos que as leis disciplinares da Igreja não podem impelir os fiéis ao pecado. Contudo, elas podem conter elementos humanos que obscurecem a Tradição e concorrem para novos problemas. Já explicamos esse tópico em nosso artigo anterior.

Os elementos humanos, neste caso, seriam a falta de prudência da lei. A Igreja, hoje, ao fazer a delegação universal do serviço do altar a qualquer leigo, parece desistir da adequação entre meios e fins para o aperfeiçoamento do culto divino. O que era feito na boa teologia tomista apenas em caso de necessidade, agora tornou-se regra geral. Diversos exemplos dessa desistência geral podem ser dados: a substituição do latim pelo vernáculo e o consequente fim do canto gregoriano, a comunhão na mão, a orientação versus populum, etc. São práticas que, infelizmente, atraíram o desprezo pela excelência do culto divino.

A situação da Igreja lembra analogamente a de Oza, levita encarregado por Davi de levar a Arca da Aliança a Jerusalém. Narram as Sagradas Escrituras que Oza foi morto quando tentou salvar com suas próprias mãos a Arca, que caía da carroça que era levada:

"Colocaram a arca de Deus em um carro no­vo e levaram-na da casa de Abinadab, situada na colina. Oza e Aio, filhos de Abinadab conduziram o carro novo. Oza andava junto da arca de Deus e Aio marchava diante dela. Davi e toda a casa de Israel dançavam com todo o entusiasmo diante do Senhor e cantavam acompanhados de harpa, cítaras, tamborins, sistros e címbalos. Quando chegaram à eira de Nacon, Oza estendeu a mão para a arca do Senhor e susteve-a, porque os bois tinham escorregado. Então a cólera do Senhor se inflamou contra Oza; feriu-o Deus por causa de sua imprudência e Oza morreu ali mesmo, perto da arca de Deus." (II Sm 6, 3-7)

Boa parte dos autores católicos buscaram explicar porque Deus castigou Oza com tamanha severidade sendo que ele apenas buscava salvar a Arca da Aliança com reta intenção. A explicação comum que Oza não foi morto apenas porque tocou na Arca com as mãos, mas também porque negligenciou a Tradição de como a Arca devia ser conduzida. Primeiramente, a Arca devia ser carregada nos ombros dos levitas, mas estava sendo levada por uma carroça. É muito provável que Oza se amparava no exemplo dos filisteus quando estes devolveram a Arca da Aliança aos hebreus (I Sm 6, 10). Os filisteus, que haviam roubado a Arca, após sofrerem muitos males pelo furto, a devolveram em uma carroça e nada aconteceu a eles. Contudo, esqueceu-se Oza que os filisteus eram pagãos e as leis divinas não os vinculavam. Assim Oza buscando "adaptar-se aos costumes pagãos" deu duplamente tratamento inadequado à Arca, primeiro transportando-a de modo inadequado e depois buscando corrigir o problema com outro erro ainda maior.

A Igreja, nos últimos 60 anos, busca uma adaptação ao homem moderno e nesse encalço tem abandonado diversos monumentos da Tradição. Assim, quando as pastorais novas se mostram falhas, os problemas oriundos disso se acumulam. O canto sacro desapareceu das paróquias, a reverência com o Sacramento igualmente e há uma revolta generalizada contra as Ordens Sacras, dado o feminismo crescente entre as mulheres católicas. As autoridades da Igreja, contudo, ao invés de agirem como Davi agiu, isto é, com prudência sobrenatural, buscando imediatamente corrigir o erro apelando à Tradição, aprofundam o problema com razões até bem intencionadas, mas que, no fundo, são erros ainda piores. O castigo divino disso são abusos litúrgicos absolutamente fora de controle no Novus Ordo.

Notemos, nesse sentido, que a justificativa tradicional para o serviço exclusivamente masculino do altar é assegurar vocações para a Igreja e aperfeiçoar o culto divino, enquanto que a justificativa atual para liberar o acolitato ao sexo feminino não é a nobreza ou o aperfeiçoamento do culto divino, mas o apelo democrático de que mulheres precisam ter novas instâncias de poder e de liderança. O apelo à nobreza ou ao aperfeiçoamento do culto divino simplesmente não é dado ou é secundário. Deus não deixará isso impune.

Ademais, toda essa linguagem de poder é inadequada às mulheres, visto que a Igreja é um patriarcado, porque Cristo quis assim. É claro que este patriarcado não é despótico, mas político. No entanto, as funções de cada um devem ser adequadas. O serviço do altar por mulheres é o equivalente a mulher sustentar o homem dentro da família. Isso pode acontecer, mas apenas a título de necessidade, não como uma regra ou costume geral.

8. "A Igreja não pode errar habitualmente em seus juízos prudenciais. É temerário, portanto, afirmar que uma prática autorizada por 3 papas (SJPII, BXVI e Papa Francisco) seja um erro prudencial."

Concordamos com o argumento de que a Igreja não pode errar habitualmente em seus juízos prudenciais. Isto é ensinado pelo documento Donum Veritatis:

"Neste âmbito, de intervenções de tipo prudencial, aconteceu que alguns documentos magisteriais não fossem isentos de carências. Os Pastores nem sempre colheram prontamente todos os aspectos ou toda a complexidade de uma questão. Mas seria contrário à verdade se, a partir de alguns casos determinados, se inferisse que o Magistério da Igreja possa enganar-se habitualmente nos seus juízos prudenciais, ou não goze da assistência divina no exercício integral da sua missão." (n. 24)

Por isso mesmo não podemos concordar que o juízo da Igreja de pelo menos 2000 anos da inadequação do serviço do altar pelo sexo feminino seja falso ou inseguro. Por outro lado, o acolitato feminino é uma experiência recente o suficiente, isto é, cerca de 30 anos, para afirmarmos que possa ser uma carência prudencial. A Igreja não limita o tempo e nem o número de pastores que pode emitir juízos prudenciais equivocados, mas sabemos que ele não pode ser de um tipo que dure praticamente a história da Igreja inteira, o que equivaleria a negar a assistência do Espírito Santo.

Este argumento, ao invés de prejudicar o argumento a favor da exclusividade do serviço masculino, apenas o favorece.

Neste ponto, Viviane Varela, que diz como uma feminista que "vai ter menina no altar, sim", e outros conservadores cometem o erro do "positivismo magisterialista". Pe. Chad Ripperger, em "Topics on Tradition", chama de "positivismo magisterialista" a postura dos católicos e das autoridades eclesiásticas que ignoram a posição prévia do Magistério a respeito de um tema e sequer tentam articular a nova posição com a antiga:

"Magisterialismo é uma fixação nos ensinamentos que pertencem apenas aos membros atuais do Magistério. Como a tradição extrínseca foi subvertida e como o Vaticano tende a promulgar documentos que exibem uma falta de preocupação com relação a alguns dos atos magisteriais anteriores, muitos começaram a ignorar os atos magisteriais anteriores e ouvir apenas o magistério atual.

Este problema é exacerbado por nossas atuais condições históricas. À medida que a comunidade intelectual teológica começou a se desfazer antes, durante e depois do Vaticano II, aqueles que se consideravam ortodoxos eram aqueles que eram obedientes e intelectualmente submissos ao magistério, já que aqueles que discordam não são ortodoxos. Portanto, o padrão de ortodoxia foi deslocado da Escritura, tradição intrínseca (da qual o magistério é parte) e tradição extrínseca (que inclui atos magisteriais do passado, como o Syllabus de Erros de Pio IX), para um estado psicológico no qual apenas o magistério atual é seguido."

O resultado disso, diz Pe. Ripperger, é a amnésia coletiva e a suspeita mútua:

À medida que o positivismo e o magistério cresceram e a tradição extrínseca não permaneceu mais como norma para julgar o que deveria e o que não deveria ser feito, os neoconservadores aceitaram a noção de que a Igreja deve se adaptar ao mundo moderno. Em vez de ajudar o mundo moderno a se adaptar aos ensinamentos da Igreja, ocorreu o processo inverso. Isso levou os neoconservadores a se preocuparem excessivamente com questões seculares politicamente corretas. Em vez de ter uma certa desconfiança do mundo que Cristo nos exorta a ter, muitos padres só ensinarão algo do púlpito, desde que não cause problemas. Por exemplo, quantos padres estão dispostos a pregar contra o feminismo antiescriturístico? O fato é que eles adotaram uma maneira imanentizada de olhar para o que deve ser feito, muitas vezes de um ponto de vista emocional. E isso, juntamente com a correção política, incapacitou as autoridades eclesiásticas diante do mundo e dentro da própria Igreja, onde o processo de imanentização, com sua compreensão falha da natureza do homem e sua condição de trabalhar sob o Pecado Original, minou severamente a disciplina. Mesmo aqueles que tentam ser ortodoxos se acostumaram a normas disciplinares mais brandas, que se encaixam bem na natureza caída, resultando em uma falta de desapego da maneira atual de fazer as coisas e uma consequente relutância dos neoconservadores em exercer autoridade - precisamente porque eles não têm o desapego vital necessário para fazê-lo.
Tudo o que foi dito acima resultou na rejeição dos neoconservadores da tradição extrínseca como norma. É por isso que, mesmo em "bons" seminários, o patrimônio espiritual dos santos praticamente nunca é ensinado. Além disso, isso explica por que os neoconservadores parecem confusos sobre o real significado da tradição. Como não é um princípio de julgamento para eles, eles são incapazes de discuti-la em profundidade. Na verdade, eles ignoram a tradição extrínseca quase tanto quanto os "liberais". Mesmo quando os neoconservadores expressam o desejo de recuperar e seguir a tradição extrínseca, eles raramente o fazem quando se trata de tomar decisões concretas.

 [...]

Essa mudança fundamental de perspectiva deixou os tradicionalistas com a sensação de que estão lutando pelo bem da tradição extrínseca sem a ajuda e muitas vezes impedidos pelo magistério atual. Liturgicamente, os tradicionalistas julgam o Novus Ordo à luz da Missa de Pio V e os neoconservadores julgam a Missa Tridentina, como é chamada, à luz do Novus Ordo. Isso vem do hegelianismo que sustenta que o passado é sempre compreendido à luz do presente, ou seja, a tese e a antítese são entendidas à luz de sua síntese. Isso leva a uma mentalidade de que o mais novo é sempre melhor, porque a síntese é melhor do que a tese ou a antítese tomadas isoladamente. Sendo afetados por isso, os neoconservadores muitas vezes assumem ou são incapazes de imaginar que a disciplina atual da Igreja pode não ser tão boa quanto a disciplina anterior. Existe hoje uma mentalidade que sustenta que "porque está presente (hegelianismo), porque vem de nós (imanentismo), é necessariamente melhor".

[...] 

 O domínio do hegelianismo e do imanentismo também levou a uma forma de amnésia eclesiástica coletiva. Durante o início dos anos 1960, existia uma geração que recebeu toda a tradição eclesiástica, pois a tradição ainda estava sendo vivida. No entanto, porque eles trabalharam sob os erros acima mencionados, essa geração escolheu não passar a tradição eclesiástica para a geração subsequente como algo vivo. Consequentemente, em uma geração, a tradição extrínseca praticamente morreu. No final dos anos 1960 e início dos anos 1970, a formação em seminário e universidade na Igreja Católica excluía aquelas coisas que pertenciam à tradição eclesiástica. Uma vez que a geração anterior escolheu esse curso, não lembrar e ensinar as coisas do passado, isso nunca foi passado adiante e, portanto, aqueles que eles treinaram, ou seja, a geração atual, foram consignados a sofrer ignorância coletiva sobre seu patrimônio e herança."

Pe. Ripperger sintetiza com brilhantismo o pensamento católico conservador atual ou o "opusdeísmo cultural". O conservador católico médio despreza a tradição extrínseca da Igreja. Basta observar as razões suscitadas por Viviane Varela para explicar o porquê antigamente mulheres eram excluídas do altar. Nenhuma justificação doutrinária ou espiritiual é levantada, apenas motivações machistas e de ignorância. O conservador médio nunca tenta salvar a Tradição mostrando a nobreza dela ou articulá-la com a disciplina atual, mas sempre defende a atual disciplina contrapondo um cenário anterior como se fosse um estado de coisas indefensável. Viviane em sua defesa do acolitato feminino chega dizer que um cenário em que somente homens servem no altar "não volta mais" (Não volta mais por que, Viviane? Muitos hábitos na Igreja voltaram). Este tipo de frase é comum ao conservador hegeliano, principalmente quando se trata de uma conservadora feminista, pois, para ele, é inconcebível voltar de verdade à Tradição.


Católicas feministas odeiam homens católicos. E elas perderão tudo com isso.

Algumas páginas católicas feministas estão compartilhando um “estudo” que atesta que o movimento “tradwife” tem atraído homens que “odeiam” ...