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segunda-feira, 30 de junho de 2025

Todo Católico é Tradicional? Só os que Tocaram a Tradição. Por que é Justo Ser Chamado Católico Tradicional.

Padres do Instituto Bom Pastor

Os debates recentes em torno do Centro Dom Bosco, conquanto tenham lançado muitos à febre da intemperança, têm servido, ao mesmo tempo, como ocasião para purificar as premissas da controvérsia. Nada como o fogo da discórdia para revelar os metais autênticos de um argumento — ou, pelo menos, separar o ouro das latas.

A última das querelas envolve católicos chamados conservadores que reagem com certa indignação ao apelo de católicos tradicionais para que se “abrace a Tradição”. O fundamento da objeção parece, à primeira vista, razoável: todo fiel que cumpre os preceitos da Igreja seria, em sentido pleno, um católico tradicional. Mas o problema — como quase sempre ocorre nos debates modernos — não está na lógica, mas na linguagem.

Tal objeção, todavia, revela mais uma incompreensão do que propriamente um argumento. Em geral, os chamados católicos tradicionais não empregam a expressão “aderir à Tradição” em sentido meramente canônico ou jurídico, como se bastasse observar os preceitos mínimos da fé. Trata-se, antes, de uma experiência existencial e espiritual: a redescoberta — muitas vezes tardia — da liturgia perene e dos costumes imemoriais da Igreja, quase sempre ausentes das paróquias comuns.

Expressões como “conheci a Tradição” ou “reencontrei a Tradição” nada mais são do que metonímias para descrever essa realidade interior: o assombro diante da liturgia tradicional, o encantamento de quem, pela primeira vez, respira o ar dos séculos, e não o hálito rarefeito das modas transitórias, e o grito de quem, após longo exílio, retorna à pátria. É sobretudo nos ambientes tridentinos que o fiel experimenta, muitas vezes pela primeira vez, essa impressão de eternidade: o contato concreto com a Tradição viva, que não envelhece porque, sendo verdadeira, permanece.

Dizer, portanto, que “toda missa é tradicional” ou que se assiste à “tradicional missa da paróquia do bairro” é, no mínimo, uma forma requintada de autossabotagem — ou melhor, uma forma velada de mentir para si mesmo. A honestidade intelectual exige reconhecer que, em muitas paróquias, o latim desapareceu, o canto gregoriano extinguiu-se, os paramentos clássicos foram relegados ao esquecimento e os costumes imemoriais da Igreja simplesmente deixaram de existir há décadas. Não se trata, aí, de uma questão de gosto pessoal, mas de uma constatação da ruptura cultural e espiritual com o passado.

É nesse ponto que a ironia se impõe: muitos católicos acham que podem preservar a Tradição sem jamais tocá-la. Como um homem que quisesse herdar o patrimônio de família sem nunca visitar a casa dos avós, nem abrir os baús, nem cheirar os livros.

Aqueles que conhecem, ainda que superficialmente, a realidade litúrgica da maioria das igrejas modernas sabem que canções como Romanos 12, entoadas por certos grupos ditos piedosos, não reproduzem — nem remotamente — a experiência da Tradição. Ao contrário, produzem uma espécie de anestesia espiritual, na qual se dissimula a ausência do sagrado com gestos mecânicos e palavras ocas. Persistir em negar essa evidência, sob pretexto de zelo ou obediência, é fechar os olhos ao que salta aos olhos: é escamotear a realidade com fórmulas inócuas — ou, para usar a palavra justa, é faltar com a verdade.

Liturgistas como Klaus Gamber sustentaram que o rito de Paulo VI, por sua gênese e estrutura, seria um criação essencialmente contemporânea, não podendo fornecer uma experiência autêntica da Tradição. Bento XVI, mais otimista, sugeriu que esse rito podia dar essa experiência sendo fecundado pela forma clássica, numa espécie de “mutua enricchitura”. Mas, qualquer que seja a posição, um fato permanece: a maioria esmagadora das paróquias não fornece, nem na forma nem no conteúdo, uma experiência sensível da Tradição. Fala-se da eternidade, mas tudo cheira ao efêmero.

Por isso, afirmar que o rito romano tradicional tem sido, nas últimas décadas, o principal veículo da experiência concreta da Tradição não é juízo opinativo, mas constatação empírica. Sem ele, é ilusório pensar numa restauração da memória litúrgica e espiritual que a Igreja contemporânea tanto necessita.

Eis, portanto, o núcleo da proposta tradicionalista: “aderir à Tradição” significa reconciliar-se com as fontes vivas da fé, reencontrar o elo perdido entre o presente e o passado eclesial. Foi essa também a intenção manifesta de Bento XVI ao liberar generosamente a Missa Tridentina, com vistas a permitir que a Igreja “se reconcilie consigo mesma”.  E se a reconciliação requer memória, a Missa Tridentina é seu álbum de fotografias: apagá-la seria como apagar a própria identidade.

A esse respeito, vale recordar uma lição do Pe. Chad Ripperger. Ao comentar a visão de Leão XIII sobre os cem anos de liberdade concedidos por Deus a Satanás para tentar a Igreja, o sacerdote observa que tal período simboliza o ataque sistemático a tudo quanto é imemorial. Satanás, ao pedir esse tempo, desejava justamente destruir os monumentos da Tradição. Recuperá-los, portanto, é a missão própria do católico tradicional: missão de resistência, de testemunho e de restauração.

É nesse contexto que se compreende, em toda a sua legitimidade, o convite dirigido aos fiéis de outros movimentos e sensibilidades a que conheçam e abracem a Tradição. Não se trata de exclusivismo, mas de coerência histórica e doutrinal. Tradição não é apenas aquilo que acontece dentro da Igreja, mas aquilo que, dentro dela, se transmite com longevidade e universalidade. Um carismático ou um membro do Caminho Neocatecumenal pode, sem dúvida, ser um católico fiel. Mas não pode, por definição, ser considerado tradicional. E a razão é simples: a Tradição exige tempo. A Tradição não se improvisa — ela amadurece no tempo. Um movimento cujo modo de ser tem quarenta ou cinquenta anos pode ser válido, mas ainda não é tradição: é juventude e juventude com todos os seus erros. A juventude pode não ser culpada por eles; mas tampouco pode ensinar com a sabedoria dos anciãos. Não se trata aqui de censura doutrinal, mas de um juízo cronológico.

Em suma: o convite a “abraçar a Tradição”, quando bem compreendido, é mais do que legítimo — é necessário. Pois a crise da Igreja contemporânea é, em boa parte, uma crise de amnésia. E quem perde a memória perde o nome, o rumo e até a fé. Porque não se apaga a memória da Esposa de Cristo sem apagar, pouco a pouco, o rosto do próprio Senhor.

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Três urgências do próximo pontificado

O novo Papa — seja quem for, venha de onde vier, com os traços de Pedro ou os gestos de Apolo — terá diante de si não uma página em branco, mas uma folha manchada. Haverá feridas a suturar, pilares a restaurar e, sobretudo, a coragem de desagradar aos que vivem da paz dos compromissos ambíguos. Três tarefas se impõem com urgência: libertar o sagrado, anunciar o verdadeiro e purificar o governo.

1. Libertar o sagrado

Entre as dores do último pontificado, poucas foram tão agudas quanto o cativeiro imposto à Missa Tridentina. A ferida aberta pela sua restrição ainda sangra nos corações dos fiéis — não por rebeldia, mas por amor. A Missa Antiga não precisa ser tolerada como uma peça de museu; precisa ser libertada como um prisioneiro injustamente condenado. E não apenas por justiça à tradição, mas por misericórdia com a própria Missa Nova, hoje tão extraviada nos desertos do experimentalismo litúrgico que já não sabe se é sacrifício ou espetáculo.

É irônico — como quase tudo na história da Igreja — que a única Missa que nunca foi abolida de fato tenha sido a mais perseguida de direito. A sua libertação será o primeiro passo não de uma cruzada estética, mas de uma restauração espiritual.

2. Anunciar o verdadeiro

Confundiu-se, nos últimos anos, evangelização com entretenimento. Sorrisos simpáticos, abraços coletivos, freiras dançantes e padres performáticos. Evangelizar hoje foi rebaixado a um exercício de cordialidade afetiva. A Boa Nova virou um bom dia e o Anúncio um abraço. Evangelizar já não é anunciar o Reino. É organizar retiros com músicas de flauta doce, distribuir pulseirinhas coloridas e repetir que “Deus te ama” com a mesma voz que se usa para consolar um gatinho ferido. 

A ironia atinge seu cume quando os novos evangelistas — os mesmos que condenam com ardor qualquer forma de evangelização verdadeira como proselitismo — organizam simpósios inteiros para discutir como converter... sem converter. Eles dizem: “É preciso anunciar, mas sem impor; é necessário dialogar, mas sem convencer; é urgente evangelizar, mas sem usar palavras.”. E o novo evangelista, ao ver um pagão, não lhe pergunta se quer ser batizado, mas se gostaria de conversar sobre "experiências significativas". Ao que parece, o Espírito Santo se converteu ao estilo zen e agora trabalha com gestos interpretativos. E de repente se espera que o muçulmano, o ateu e o agnóstico descubram a divindade de Cristo pela temperatura do sorriso do padre. Mas o mundo não foi salvo por um gesto simbólico: foi salvo por uma pregação sangrenta.

Contra tudo isso, ressurge a figura do padre Federico Highton no Malawi.


Sem powerpoints, sem danças, sem comitê de acolhimento inter-religioso. Apenas o Evangelho, uma catequese de dez minutos e a pergunta mais subversiva da modernidade: “Queres ser batizado?” E diante do “sim”, os sacramentos. Nenhum formulário. Nenhum workshop. Nenhum cardeal dançante.

E, no entanto, São Pedro evangelizou assim. São Francisco Xavier evangelizou assim. E Cristo também.

3. Purificar o Governo

A Igreja sempre teve pecadores. Mas há um tipo de pecado que grita mais alto do que todos: a nomeação episcopal errada. Santo Afonso de Ligório — um moralista, não um influenciador — dizia que promover indignos ao episcopado e ao cardinalato é pecado mortal:

“É certo que de nenhum modo se eximem de pecado mortal os que promovem os menos dignos ao episcopado e ao cardinalato.” (Th. Moralis, Lib. III, a. II, q. 91)

E por quê? Porque os cargos eclesiásticos existem para o bem comum da Igreja, e não para as alianças políticas nem para a paz dos corruptos.

Mas a lógica recente foi a inversa: bons bispos e cardeais foram silenciados; os piores entre eles, promovidos com fanfarra.

O próximo Papa não reformará tudo — e nem precisa. Mas deve iniciar a correção. A paz confortável dos Tuchos, Martins, Roches e Hollerichs da vida precisa ser perturbada. 

Purificar a hierarquia é salvar as almas. Pois uma Igreja sem santos no altar terá demônios no púlpito.

Conclusão

Em suma, a Igreja não precisa de novidades: precisa de veracidade. Uma liturgia que santifica, uma pregação que converte, uma hierarquia que governa com retidão. São essas as três colunas que o próximo pontificado deve restaurar — e restaurar com zelo apostólico, não com prudência mundana.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Respostas às objeções mais comuns ao serviço exclusivamente masculino do altar.


Em nosso artigo anterior apresentamos uma refutação à defesa feita por Viviane Varela da página "O Catequista" a respeito da acolitagem feminina das missas. Na presente postagem responderemos às objeções mais comuns ao serviço exclusivamente masculino do altar.

Quanto ao discernimento vocacional

1. "O sacerdócio não exige o afastamento completo das mulheres, tal como a vocação religiosa. Assim, os rapazes devem se acostumar com mulheres no altar para aprenderem a lidar com o sexo oposto de maneira saudável." 

Esta objeção foi realizada pelo apologista católico Dave Armstrong e pode ser encontrada aqui. O argumento falha, contudo, em considerar que o serviço do altar não foi ordenado para ter interações próximas entre homens e mulheres.

Quando observamos a antiga tradição dos levitas, constamos que antes de servirem o Templo eles se abstinham de relações sexuais com suas esposas, para que suas mentes e corações estivessem completamente puros e livres de quaisquer pensamentos ou paixões contra a castidade durante o serviço divino (1 Sm 21, 5-6)

Esta prática, diz Bento XVI, em "Do profundo de nosso coração", inspirou o celibato cristão, que elevou o temporário celibato levita ao celibato permanente.

Portanto, o serviço do altar não foi feito para promover a interação entre os sexos, mas para diminuir esse intercâmbio.

Nesse sentido, a Igreja desenvolveu uma série de disciplinas, sem dúvidas inspiradas pelo Espírito Santo, que custodiavam a guarda dos olhos e a castidade do sacerdote e dos fiéis, tais como: a celebração versus Deum do sacrifício, o uso piedoso do véu, o serviço exclusivamente masculino do altar, a separação dos sexos durante a celebração do sacrifício e as rúbricas litúrgicas que orientavam o olhar do padre durante a Missa.

Infelizmente, no rito paulino, quase todas essas disposições foram removidas e os sacerdotes e os fiéis ficaram desprotegidos contra a imodéstia e a impureza. As desvantagens dessas remoções foram manifestas: imodéstia nas missas, revolta contra o ensino da Igreja a respeito da castidade, escândalos sexuais em profusão, entre outros.

Devemos dizer que o ambiente adequado para a interação entre sexos já existe e é a família. É nela que todos aprendem lidar com todos.

2. "O serviço feminino do altar ajuda as mulheres a discernirem sua vocação religiosa."

Este argumento logra ainda menos de força, pois a vida religiosa, como salienta Armstrong, exige uma forte separação dos sexos. Com efeito, a assistência mista do altar, ao invés de incentivar o discernimento religioso, ao contrário, atrapalha.

Ademais, a vida religiosa se define essencialmente pela profissão dos votos de pobreza, obediência e castidade, não sendo diretamente ordenada para o serviço do altar. O chamado a essa vocação sempre estará relacionado com a atração pelos votos, vida de oração e despreendimento do mundo, não sendo o exercício do serviço do altar um caminho ordinário de discernimento da vocação religiosa, ainda mais o serviço feminino cuja função é inadequada para as mulheres.

Nesse sentido, em nenhum dos grades escritos católicos de discernimento vocacional o serviço do altar é indicado como um sinal de vocação religiosa. A respeito, observa-se a lista do Pe. William Doyle, conhecido por ter escrito obras de discernimento vocacional, no livro "Vocations", que elenca 12 principais sinais de vocação religiosa:

"1. Um desejo de ter uma vocação religiosa, junto com a convição de que Deus está chamando você. Esse desejo é geralmente mais fortemente sentido quando a alma está calma, após a Sagrada Comunhão e em tempo de retiro.

2. Uma atração crescente pela oração e pelas coisas sagradas em geral, juntamente com um anseio por uma vida escondida e um desejo de estar mais intimamente unido a Deus.

3. Ter ódio do mundo, convicção de sua vacuidade e insuficiência para satisfazer a alma. Esse sentimento é geralmente mais forte em meio à diversão mundana.

4. Medo do pecado, no qual é fácil cair, e desejo de escapar dos perigos e tentações do mundo.

5. Às vezes é sinal de vocação quando uma pessoa teme que Deus possa chamá-la; quando ela reza para não tê-la e não consegue banir o pensamento de sua mente. Se a vocação for sólida, ela logo dará lugar a uma atração, por meio do Padre Lehmkulhl diz: “Não é preciso ter uma inclinação natural para a vida religiosa; pelo contrário, uma vocação divina é compatível com uma repugnância natural pelo estado.”

6. Ter zelo pelas almas. Perceber algo do valor de uma alma imortal e desejar cooperar em sua salvação.

7. Desejar dedicar toda a nossa vida para obter a conversão de alguém que nos é querido.

8. Desejar expiar nossos próprios pecados ou os dos outros e fugir das tentações às quais nos sentimos fracos demais para resistir.

9. Uma atração pelo estado de virgindade.

10. A felicidade que o pensamento da vida religiosa traz, suas ajudas espirituais, sua paz, mérito e recompensa.

11. Um desejo de sacrificar-se e abandonar tudo pelo amor de Jesus Cristo, e de sofrer por Ele.

12. A disposição de alguém que não tem dote ou muita educação de ser recebido em qualquer função é prova de uma vocação real."

Como se nota, o gosto pelo serviço do altar não se encontra entre os sinais preementes de vocação religiosa.

3. "Se o rapaz é chamado ao sacerdócio, não será a acolitagem feminina que irá impedi-lo".

Este argumento é dado novamente pelo apologista Dave Armstrong aqui:

"Eu tenho sustentado que se alguém tem um chamado, ele não será frustrado por meramente ser um coroinha ou não. Se um menino se sente levado a ser um coroinha, ele o fará, quer haja meninas ou não. Um chamado é muito mais profundo do que meros elementos externos e circunstanciais. Se pensarmos que depende deles, não acho que estamos compreendendo o que é uma vocação em primeiro lugar.

[...]

Como se passa de:

“Eu acredito [forte inclinação; não totalmente certo] que Deus está me chamando para ser padre”

para:

“Não tenho certeza se Deus ainda está me chamando”

só porque coroinhas mulheres estão servindo na paróquia de alguém?

Isso não faz sentido para mim. Deus está chamando uma pessoa para ser padre ou não. Se Ele está (da perspectiva de Deus) não tem absolutamente nenhuma relação com fatores externos como coroinhas, oposição na família, etc."

No entanto, o argumento também é falho. Armstrong presume que a vocação sacerdotal necessita de algum sentimento de confirmação interior do candidato. Contudo, a vocação sacerdotal, ao contrário da vocação religiosa, não exige qualquer inclinação ou atração por esse estado de vida, bastando a idoneidade e a reta intenção do candidato. É o que afirma a Santa Sé, como narra o Pe. Doyle no livro "Devo ser padre?":

"Grande ênfase foi colocada no fato de que, uma vez que uma vocação era um dom gratuito de Deus, um ato pelo qual Ele seleciona alguns em preferência a outros, essa escolha deve ser conhecida interiormente à alma tão favorecida; sem essa vocação interior, seria presunção e o cúmulo da tolice aspirar a tal dignidade, relembrando o aviso de São Paulo: “Ninguém toma para si a honra, senão aquele que é chamado por Deus, como Arão” (Heb. v.).

O resultado desse ensinamento impreciso, agora mostrado como totalmente contrário à mente da Igreja, foi que muitos rapazes, possuindo todas as qualificações para se tornarem padres esplêndidos, foram informados de que não tinham vocação, porque não tinham atração sensível pela vida, e até mesmo medo e pavor de suas obrigações.

[...] 

Uma comissão especial de cardeais, nomeada pelo Papa Pio X, tendo examinado a questão, aprovou totalmente o ensinamento do Cônego Lahitton sobre vocações sacerdotais, e seu julgamento foi formalmente sancionado pelo decreto de 2 de julho de 1912. Deste decreto da Santa Sé agora é certo:

(a) Que uma vocação ao sacerdócio não inclui necessariamente qualquer inclinação interior da pessoa ou inspiração do Espírito Santo;

(b) Que tudo o que é exigido dos aspirantes à Ordenação é “uma intenção correta, e tal aptidão de natureza e graça, como evidenciado na integridade de vida e suficiência de aprendizado, que dará uma esperança bem fundada de seu cumprimento correto das obrigações do sacerdócio.”

(c) Que, dadas essas condições, uma verdadeira vocação é inquestionavelmente conferida pelo Bispo no momento da Ordenação.

Sendo assim, podendo existir até mesmo certo medo do candidato, é mais que necessário que a vocação sacerdotal seja incentivada pela Igreja. E o método da Igreja mais tradicional e eficaz de incentivar e de quebrar todas as resistências psicológicas dos rapazes sempre foi o serviço exclusivamente masculino do altar.

Por fim, a objeção ignora que o discernimento e a escolha vocacional são sempre precedidos de uma boa preparação removendo-se todos os obstáculos possíveis, já que obstáculos, como o próprio nome sugere, apenas atrapalham o bom discernimento.

4. "As vocações estão aumentando. Não há porque temer o acolitato feminino."

Este argumento foi replicado por Viviane Varela em sua sequência de stories para justificar o acolitato feminino, que rebatemos no artigo "As grandes bobagens de Viviane Varela (O Catequista) sobre as diaconisas e o serviço feminino do altar".

O argumento, no entanto, é fantasioso. Viviane Varela não apresenta qualquer dado a respeito, mas apenas a sua impressão pessoal da sua realidade paroquial. Contudo, os fatos refutam Viviane. No anuário estatístico da Igreja de 2021-2022, período que houve a abertura às mulheres ao acolitato e leitorado instituídos, embora tenha crescido, em geral, o número de católicos, diminuiu o número de seminaristas e religiosos, como informa a  ACI Digital:

"Segundo dados de 2021, há 109.895 seminaristas, dos quais 61% são seminaristas diocesanos e os 39% restantes são religiosos. Em comparação com 2020, eles caíram 1,8%."

Nos anos anteriores, a realidade não foi muito diferente. Aumento de católicos, diminuição de vocações.

O aumento de católicos não surpreende. Apostolados aumentaram ao redor do mundo, principalmente nos EUA e na América Latina, o que tem auxiliado na conversão de leigos. Contudo, a vidas religiosa e sacerdotal continuam em um vale de lágrimas. Não há qualquer atrativo atual nessas vocações. E não existe por hora qualquer indicativo de que essa situação irá melhorar.

Quanto à adequação pastoral

5. "O acolitato feminino é baseado na dignidade batismal do leigo. Assim, não há porque considerar mulheres indignas do serviço do altar."

Esta razão é um pouco mais substancial que as objeções anteriores, tendo em vista o apelo teológico ao sacerdócio comum dos fiéis. No entanto, ela falha em fazer uma importante distinção que mostraremos a seguir.

Boa parte dos fatos teológicos não existem em razão de alguma necessidade lógica. Por exemplo, a redenção do gênero humano não tinha por necessidade a morte de Cristo. Contudo, o consenso dos Santos Padres e dos Santos Doutores da Igreja era que a Paixão de Cristo foi um meio muito conveniente para Deus salvar a humanidade. 

Nesse sentido, quando verificamos a distinção entre sacerdócio comum e sacerdócio ministerial, constamos alguns atos do ministério ordenado que podem ser delegados para alguns leigos, como a distribuição da Eucaristia por um batizado ao invés de um não-batizado. Todavia, não há qualquer dúvida razoável de que a distribuição das espécies é um ato de dignidade sacerdotal, dado que as mãos do sacerdote foram consagradas para tocar o Corpo de Cristo, como aduz São Tomás:

"A distribuição do corpo de Cristo pertence ao sacerdote por três razões. Primeiro, porque, como foi dito acima ( Artigo 1 ), ele consagra como na pessoa de Cristo. Mas como Cristo consagrou Seu corpo na ceia, assim também Ele o deu a outros para serem partilhados por eles. Consequentemente, como a consagração do corpo de Cristo pertence ao sacerdote, assim também a distribuição pertence a ele. Segundo, porque o sacerdote é o intermediário designado entre Deus e o povo; portanto, como lhe pertence oferecer os dons do povo a Deus, assim também lhe pertence entregar os dons consagrados ao povo. Terceiro, porque por reverência a este sacramento, nada o toca, exceto o que é consagrado; portanto, o corporal e o cálice são consagrados , e da mesma forma as mãos do sacerdote, por tocarem neste sacramento. Portanto, não é lícito a ninguém mais tocá-lo, exceto por necessidade, por exemplo, se cair no chão, ou em algum outro caso de urgência." (S. Th., III pars, q. 82. a. 3)

Notemos que um não-consagrado é o último da fila para tocar o Corpo de Cristo, pois, ainda que tenha dignidade batismal, há uma ordem de dignidades para certas funções e o simples batismo não confere ao leigo o direito de exercer prerrogativas sacerdotais sem uma causa justa ou grave.

Como demonstramos no artigo "As grandes bobagens de Viviane Varela (O Catequista) sobre as diaconisas e o serviço feminino do altar", embora a função de acólito possa ser desempenhada por um leigo, o serviço do altar não é uma função de leigo, mas de quem integra as ordens sagradas. Assim, a Igreja teve a sabedoria de sempre por o sexo masculino no serviço do altar, pois, quando não fosse possível o serviço por um diácono, se conservaria melhor a dignidade das ordens sacras, já que ainda se preservava certa adequação e verossimilhança.

O sexo feminino, no entanto, não se mostra adequado de nenhum modo, tendo em vista que é vedada pela doutrina da Igreja a ascensão de mulheres ao diaconato e ao presbiterato, não guardando qualquer verossimilhança.

Não sem razão que o Papa São Gelásio nomeou o serviço feminino como um certo desprezo às coisas divinas, visto que não conservava a ordem de dignidades para o culto divino.

6. "O acolitato feminino permitirá uma melhor distinção entre as ordens sacras e as ordens não-sacras."

Este argumento foi fornecido pelo Papa Francisco na carta que acompanhava o motu proprio Spiritus Domini ao Prefeito do Discatério para a Doutrina da Fé.

"Desta forma, além de responder ao que é pedido para a missão no tempo presente e de acolher o testemunho dado por tantas mulheres que cuidaram e continuam a cuidar do serviço da Palavra e do Altar, tornar-se-á mais evidente — também para aqueles que se orientam para o ministério ordenado — que os ministérios do Leitor e do Acólito estão enraizados no sacramento do Batismo e da Confirmação. Deste modo, no caminho que conduz à ordenação diaconal e sacerdotal, aqueles que são instituídos Leitores e Acólitos compreenderão melhor que participam num ministério partilhado com outros batizados, homens e mulheres. Deste modo, o sacerdócio próprio de cada fiel (commune sacerdotium) e o sacerdócio dos ministros ordenados (sacerdotium ministeriale seu hierarquicum) serão  ordenados ainda mais claramente uns para os outros (cf. LG , n. 10), para a edificação da Igreja e para o testemunho do Evangelho."

Com todo o respeito filial que temos ao Santo Padre, mas as razões suscitadas não parecem se sustentar. Ponderemos com as seguintes observações:

1. As funções de ler as lições e de servir ao altar não estão enraizadas em si mesmas no sacramento do Batismo e da Confirmação, mas no da Ordem. O que, talvez, o Santo Padre queira dizer é que o exercício delegado dessas funções esteja enraizado no batismo e na confirmação, não o exercício do altar em si mesmo. Portanto, faltou ao texto esta distinção;

2. Depois de 50 anos de Reforma Litúrgica é impossível sustentar que a ordenação do sacerdócio comum para o sacerdócio ministerial ficou mais clara com a invasão de mulheres no altar. Na verdade, a prática mostra o contrário. Cada vez é mais comum a impugnação do sacerdócio e do diaconato exclusivamente masculino. Ora, na disposição anterior, isto é, com o serviço exclusivamente masculino, era possível entender quais funções realizadas por leigos eram ordenadas às Ordens Sagradas e quais não eram, pois as ordens menores claramente eram fases preparatórias para as Ordens Sacras, o que era adequado somente aos homens. Já a prática atual predominante em toda a Igreja traz confusão. Todos fazem tudo e se obscurece a razão das mulheres serem excluídas do diaconato. Deve-se lembrar que a ordem de uma coisa para outra se observa quando uma, de certo modo, tenciona à outra como fim. Com efeito, se mulheres não estão ordenadas às ordens sacras, fica incompreensível entender de que modo o sacerdócio comum tenciona ao sacerdócio ministerial com o serviço feminino do altar.

 6. "O acolitato feminino ajudará a incluir cada vez mais as mulheres na Igreja."

Esta razão foi dada novamente dada pelo Papa Francisco na carta que acompanhava a "Spiritus Domini".

"O compromisso dos fiéis leigos, que «são simplesmente a imensa maioria do povo de Deus» (Francisco, Exortação Apostólica Evangelii gaudium, n. 102), certamente não pode e não deve esgotar-se no exercício dos ministérios não ordenados (cf. ibidem), mas uma melhor configuração destes ministérios e uma referência mais precisa à responsabilidade que nasce, para cada cristão, do Batismo e da Confirmação, pode ajudar a Igreja a redescobrir o sentido de comunhão que a carateriza e a iniciar um renovado compromisso na catequese e na celebração da fé (cf. ibidem ). E é precisamente nesta redescoberta que a sinergia frutuosa resultante da ordenação mútua do sacerdócio ordenado e do sacerdócio batismal pode encontrar uma melhor tradução. Esta reciprocidade, do serviço ao sacramento do altar, é chamada a refluir, na distinção das tarefas, para aquele serviço de «fazer de Cristo o coração do mundo», que é a missão particular de toda a Igreja. É precisamente este, embora distinto, serviço ao mundo que alarga os horizontes da missão da Igreja, impedindo-a de ser encerrada em lógicas estéreis destinadas sobretudo a reivindicar espaços de poder, e ajudando-a a experimentar-se como uma comunidade espiritual que «caminha juntamente com toda a humanidade, participa da mesma sorte terrena do mundo» (GS , n. 40). É nesta dinâmica que podemos verdadeiramente compreender o significado da “Igreja em saída”.

No horizonte de renovação traçado pelo Concílio Vaticano II, existe hoje um crescente sentido de urgência em redescobrir a corresponsabilidade de todos os batizados na Igreja, e especialmente a missão dos leigos. A Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazónica (6-27 de outubro de 2019), no quinto capítulo do documento final assinalou a necessidade de pensar em “novos caminhos para a ministerialidade eclesial”. Não só para a Igreja Amazónica, mas para toda a Igreja, na variedade de situações, «é urgente promover e conferir ministérios a homens e mulheres... É a Igreja dos batizados que devemos consolidar promovendo a ministerialidade e, sobretudo, uma consciência da dignidade batismal» (Documento Final, n. 95).

[...]

Uma distinção mais clara entre as atribuições dos que hoje são chamados “ministérios não ordenados (ou laicais)” e “ministérios ordenados” torna possível dissolver a reserva dos primeiros apenas aos homens. Se em relação aos ministérios ordenados a Igreja «não tem de modo algum a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres» (cf. S. João Paulo II, Carta Apostólica Ordinatio sacerdotalis, 22 de maio de 1994), para ministérios não ordenados é possível, e hoje parece oportuno, superar esta reserva. Esta reserva fazia sentido num contexto particular, mas pode ser reconsiderada em novos contextos, tendo sempre como critério a fidelidade ao mandato de Cristo e o desejo de viver e proclamar o Evangelho transmitido pelos Apóstolos e confiado à Igreja para que possa ser escutado de forma religiosa, guardado de forma santa e fielmente anunciado.

[...] 

 A decisão de conferir estes ofícios, que implicam estabilidade, reconhecimento público e um mandato do bispo, também às mulheres, torna  mais eficaz na Igreja a participação de todos na obra de evangelização. «Isto também permite que as mulheres tenham uma incidência real e efetiva na organização, nas decisões mais importantes e na liderança das comunidades, mas sem deixar de o fazer com o estilo próprio da sua marca feminina» (Francisco, Exortação Apostólica Querida Amazonia, n. 103). O “sacerdócio batismal” e o “serviço à comunidade” representam assim os dois pilares sobre os quais se baseia a instituição dos ministérios."

Causa estranheza esta argumentação do Papa Francisco. Ao mesmo tempo em que afirma que a Igreja não pode ser "encerrada em lógicas estéreis destinadas sobretudo a reivindicar espaços de poder" ele diz que o ministério do Acolitato e do Leitorado foram conferidos às mulheres para que "elas tenham uma incidência real e efetiva na organização, nas decisões mais importantes e na liderança das comunidades". Em outras palavras, a razão pastoral para se abrir tais funções às mulheres é justamente a lógica que se diz combater, isto é, a lógica da reinvidicação de poder.

Infelizmente, parece que subjaz no âmago dessa argumentação a suposição da teoria marxista da luta de classes dentro da Igreja. Sabemos que o Papa Francisco tem simpatia pela Teologia da Libertação e não é nada improvável que várias das suas perspectivas pastorais estejam imbuídas do espírito dessa teologia.

Não negamos que alguma luta de classes possa ter existido dentro da Igreja, mas certamente as ordens menores não fizeram parte disso. A lógica pastoral da Igreja até o século XX era exclusivamente adequar os meios aos fins, isto é, preservar as Ordens Sacras e incentivar as vocações com o serviço exclusivamente masculino do altar. Não havia nenhuma "lógica estéril" ou de poder nisso.

Se a ideia é abrir espaço para as mulheres, não é preciso conferir serviço próprios das Ordens Sacras. Basta recorrer às pastorais tradicionais que, em regra, são muito melhores e mais saudáveis que as atuais. Na Igreja Antiga, as viúvas e as virgens consagradas davam catequese às outras mulheres e ajudavam no trabalho caritativo. Nada impede que as mulheres hoje façam o mesmo.

Por fim, a carta indica que, atualmente, parece oportuno (deixando claro que se trata de um juízo prudencial e não doutrinal) superar a reserva de que o serviço do altar se destine exclusivamente ao sexo masculino. Contudo, Papa Francisco não deixa claro a razão de superar essa reserva. Fica a coisa no ar. "Podemos superar porque sim".

Quanto à Indefectibilidade da Igreja

7. "O serviço de mulheres não pode ser um mal à Igreja, visto que as leis disciplinares da Igreja não podem impelir os fiéis ao pecado."

Primeiramente, negamos a universalidade de Spiritus Domini. O motu proprio não obriga os bispos a adotarem mulheres acólitas, apenas faculta. Spiritus Domini também sequer vincula todos os ritos, uma vez que no Rito Romano Tradicional e em diversos ritos orientais o serviço feminino continua proibido, não sendo realmente uma lei universal.

Em segundo lugar, concordamos que as leis disciplinares da Igreja não podem impelir os fiéis ao pecado. Contudo, elas podem conter elementos humanos que obscurecem a Tradição e concorrem para novos problemas. Já explicamos esse tópico em nosso artigo anterior.

Os elementos humanos, neste caso, seriam a falta de prudência da lei. A Igreja, hoje, ao fazer a delegação universal do serviço do altar a qualquer leigo, parece desistir da adequação entre meios e fins para o aperfeiçoamento do culto divino. O que era feito na boa teologia tomista apenas em caso de necessidade, agora tornou-se regra geral. Diversos exemplos dessa desistência geral podem ser dados: a substituição do latim pelo vernáculo e o consequente fim do canto gregoriano, a comunhão na mão, a orientação versus populum, etc. São práticas que, infelizmente, atraíram o desprezo pela excelência do culto divino.

A situação da Igreja lembra analogamente a de Oza, levita encarregado por Davi de levar a Arca da Aliança a Jerusalém. Narram as Sagradas Escrituras que Oza foi morto quando tentou salvar com suas próprias mãos a Arca, que caía da carroça que era levada:

"Colocaram a arca de Deus em um carro no­vo e levaram-na da casa de Abinadab, situada na colina. Oza e Aio, filhos de Abinadab conduziram o carro novo. Oza andava junto da arca de Deus e Aio marchava diante dela. Davi e toda a casa de Israel dançavam com todo o entusiasmo diante do Senhor e cantavam acompanhados de harpa, cítaras, tamborins, sistros e címbalos. Quando chegaram à eira de Nacon, Oza estendeu a mão para a arca do Senhor e susteve-a, porque os bois tinham escorregado. Então a cólera do Senhor se inflamou contra Oza; feriu-o Deus por causa de sua imprudência e Oza morreu ali mesmo, perto da arca de Deus." (II Sm 6, 3-7)

Boa parte dos autores católicos buscaram explicar porque Deus castigou Oza com tamanha severidade sendo que ele apenas buscava salvar a Arca da Aliança com reta intenção. A explicação comum que Oza não foi morto apenas porque tocou na Arca com as mãos, mas também porque negligenciou a Tradição de como a Arca devia ser conduzida. Primeiramente, a Arca devia ser carregada nos ombros dos levitas, mas estava sendo levada por uma carroça. É muito provável que Oza se amparava no exemplo dos filisteus quando estes devolveram a Arca da Aliança aos hebreus (I Sm 6, 10). Os filisteus, que haviam roubado a Arca, após sofrerem muitos males pelo furto, a devolveram em uma carroça e nada aconteceu a eles. Contudo, esqueceu-se Oza que os filisteus eram pagãos e as leis divinas não os vinculavam. Assim Oza buscando "adaptar-se aos costumes pagãos" deu duplamente tratamento inadequado à Arca, primeiro transportando-a de modo inadequado e depois buscando corrigir o problema com outro erro ainda maior.

A Igreja, nos últimos 60 anos, busca uma adaptação ao homem moderno e nesse encalço tem abandonado diversos monumentos da Tradição. Assim, quando as pastorais novas se mostram falhas, os problemas oriundos disso se acumulam. O canto sacro desapareceu das paróquias, a reverência com o Sacramento igualmente e há uma revolta generalizada contra as Ordens Sacras, dado o feminismo crescente entre as mulheres católicas. As autoridades da Igreja, contudo, ao invés de agirem como Davi agiu, isto é, com prudência sobrenatural, buscando imediatamente corrigir o erro apelando à Tradição, aprofundam o problema com razões até bem intencionadas, mas que, no fundo, são erros ainda piores. O castigo divino disso são abusos litúrgicos absolutamente fora de controle no Novus Ordo.

Notemos, nesse sentido, que a justificativa tradicional para o serviço exclusivamente masculino do altar é assegurar vocações para a Igreja e aperfeiçoar o culto divino, enquanto que a justificativa atual para liberar o acolitato ao sexo feminino não é a nobreza ou o aperfeiçoamento do culto divino, mas o apelo democrático de que mulheres precisam ter novas instâncias de poder e de liderança. O apelo à nobreza ou ao aperfeiçoamento do culto divino simplesmente não é dado ou é secundário. Deus não deixará isso impune.

Ademais, toda essa linguagem de poder é inadequada às mulheres, visto que a Igreja é um patriarcado, porque Cristo quis assim. É claro que este patriarcado não é despótico, mas político. No entanto, as funções de cada um devem ser adequadas. O serviço do altar por mulheres é o equivalente a mulher sustentar o homem dentro da família. Isso pode acontecer, mas apenas a título de necessidade, não como uma regra ou costume geral.

8. "A Igreja não pode errar habitualmente em seus juízos prudenciais. É temerário, portanto, afirmar que uma prática autorizada por 3 papas (SJPII, BXVI e Papa Francisco) seja um erro prudencial."

Concordamos com o argumento de que a Igreja não pode errar habitualmente em seus juízos prudenciais. Isto é ensinado pelo documento Donum Veritatis:

"Neste âmbito, de intervenções de tipo prudencial, aconteceu que alguns documentos magisteriais não fossem isentos de carências. Os Pastores nem sempre colheram prontamente todos os aspectos ou toda a complexidade de uma questão. Mas seria contrário à verdade se, a partir de alguns casos determinados, se inferisse que o Magistério da Igreja possa enganar-se habitualmente nos seus juízos prudenciais, ou não goze da assistência divina no exercício integral da sua missão." (n. 24)

Por isso mesmo não podemos concordar que o juízo da Igreja de pelo menos 2000 anos da inadequação do serviço do altar pelo sexo feminino seja falso ou inseguro. Por outro lado, o acolitato feminino é uma experiência recente o suficiente, isto é, cerca de 30 anos, para afirmarmos que possa ser uma carência prudencial. A Igreja não limita o tempo e nem o número de pastores que pode emitir juízos prudenciais equivocados, mas sabemos que ele não pode ser de um tipo que dure praticamente a história da Igreja inteira, o que equivaleria a negar a assistência do Espírito Santo.

Este argumento, ao invés de prejudicar o argumento a favor da exclusividade do serviço masculino, apenas o favorece.

Neste ponto, Viviane Varela, que diz como uma feminista que "vai ter menina no altar, sim", e outros conservadores cometem o erro do "positivismo magisterialista". Pe. Chad Ripperger, em "Topics on Tradition", chama de "positivismo magisterialista" a postura dos católicos e das autoridades eclesiásticas que ignoram a posição prévia do Magistério a respeito de um tema e sequer tentam articular a nova posição com a antiga:

"Magisterialismo é uma fixação nos ensinamentos que pertencem apenas aos membros atuais do Magistério. Como a tradição extrínseca foi subvertida e como o Vaticano tende a promulgar documentos que exibem uma falta de preocupação com relação a alguns dos atos magisteriais anteriores, muitos começaram a ignorar os atos magisteriais anteriores e ouvir apenas o magistério atual.

Este problema é exacerbado por nossas atuais condições históricas. À medida que a comunidade intelectual teológica começou a se desfazer antes, durante e depois do Vaticano II, aqueles que se consideravam ortodoxos eram aqueles que eram obedientes e intelectualmente submissos ao magistério, já que aqueles que discordam não são ortodoxos. Portanto, o padrão de ortodoxia foi deslocado da Escritura, tradição intrínseca (da qual o magistério é parte) e tradição extrínseca (que inclui atos magisteriais do passado, como o Syllabus de Erros de Pio IX), para um estado psicológico no qual apenas o magistério atual é seguido."

O resultado disso, diz Pe. Ripperger, é a amnésia coletiva e a suspeita mútua:

À medida que o positivismo e o magistério cresceram e a tradição extrínseca não permaneceu mais como norma para julgar o que deveria e o que não deveria ser feito, os neoconservadores aceitaram a noção de que a Igreja deve se adaptar ao mundo moderno. Em vez de ajudar o mundo moderno a se adaptar aos ensinamentos da Igreja, ocorreu o processo inverso. Isso levou os neoconservadores a se preocuparem excessivamente com questões seculares politicamente corretas. Em vez de ter uma certa desconfiança do mundo que Cristo nos exorta a ter, muitos padres só ensinarão algo do púlpito, desde que não cause problemas. Por exemplo, quantos padres estão dispostos a pregar contra o feminismo antiescriturístico? O fato é que eles adotaram uma maneira imanentizada de olhar para o que deve ser feito, muitas vezes de um ponto de vista emocional. E isso, juntamente com a correção política, incapacitou as autoridades eclesiásticas diante do mundo e dentro da própria Igreja, onde o processo de imanentização, com sua compreensão falha da natureza do homem e sua condição de trabalhar sob o Pecado Original, minou severamente a disciplina. Mesmo aqueles que tentam ser ortodoxos se acostumaram a normas disciplinares mais brandas, que se encaixam bem na natureza caída, resultando em uma falta de desapego da maneira atual de fazer as coisas e uma consequente relutância dos neoconservadores em exercer autoridade - precisamente porque eles não têm o desapego vital necessário para fazê-lo.
Tudo o que foi dito acima resultou na rejeição dos neoconservadores da tradição extrínseca como norma. É por isso que, mesmo em "bons" seminários, o patrimônio espiritual dos santos praticamente nunca é ensinado. Além disso, isso explica por que os neoconservadores parecem confusos sobre o real significado da tradição. Como não é um princípio de julgamento para eles, eles são incapazes de discuti-la em profundidade. Na verdade, eles ignoram a tradição extrínseca quase tanto quanto os "liberais". Mesmo quando os neoconservadores expressam o desejo de recuperar e seguir a tradição extrínseca, eles raramente o fazem quando se trata de tomar decisões concretas.

 [...]

Essa mudança fundamental de perspectiva deixou os tradicionalistas com a sensação de que estão lutando pelo bem da tradição extrínseca sem a ajuda e muitas vezes impedidos pelo magistério atual. Liturgicamente, os tradicionalistas julgam o Novus Ordo à luz da Missa de Pio V e os neoconservadores julgam a Missa Tridentina, como é chamada, à luz do Novus Ordo. Isso vem do hegelianismo que sustenta que o passado é sempre compreendido à luz do presente, ou seja, a tese e a antítese são entendidas à luz de sua síntese. Isso leva a uma mentalidade de que o mais novo é sempre melhor, porque a síntese é melhor do que a tese ou a antítese tomadas isoladamente. Sendo afetados por isso, os neoconservadores muitas vezes assumem ou são incapazes de imaginar que a disciplina atual da Igreja pode não ser tão boa quanto a disciplina anterior. Existe hoje uma mentalidade que sustenta que "porque está presente (hegelianismo), porque vem de nós (imanentismo), é necessariamente melhor".

[...] 

 O domínio do hegelianismo e do imanentismo também levou a uma forma de amnésia eclesiástica coletiva. Durante o início dos anos 1960, existia uma geração que recebeu toda a tradição eclesiástica, pois a tradição ainda estava sendo vivida. No entanto, porque eles trabalharam sob os erros acima mencionados, essa geração escolheu não passar a tradição eclesiástica para a geração subsequente como algo vivo. Consequentemente, em uma geração, a tradição extrínseca praticamente morreu. No final dos anos 1960 e início dos anos 1970, a formação em seminário e universidade na Igreja Católica excluía aquelas coisas que pertenciam à tradição eclesiástica. Uma vez que a geração anterior escolheu esse curso, não lembrar e ensinar as coisas do passado, isso nunca foi passado adiante e, portanto, aqueles que eles treinaram, ou seja, a geração atual, foram consignados a sofrer ignorância coletiva sobre seu patrimônio e herança."

Pe. Ripperger sintetiza com brilhantismo o pensamento católico conservador atual ou o "opusdeísmo cultural". O conservador católico médio despreza a tradição extrínseca da Igreja. Basta observar as razões suscitadas por Viviane Varela para explicar o porquê antigamente mulheres eram excluídas do altar. Nenhuma justificação doutrinária ou espiritiual é levantada, apenas motivações machistas e de ignorância. O conservador médio nunca tenta salvar a Tradição mostrando a nobreza dela ou articulá-la com a disciplina atual, mas sempre defende a atual disciplina contrapondo um cenário anterior como se fosse um estado de coisas indefensável. Viviane em sua defesa do acolitato feminino chega dizer que um cenário em que somente homens servem no altar "não volta mais" (Não volta mais por que, Viviane? Muitos hábitos na Igreja voltaram). Este tipo de frase é comum ao conservador hegeliano, principalmente quando se trata de uma conservadora feminista, pois, para ele, é inconcebível voltar de verdade à Tradição.


terça-feira, 13 de agosto de 2024

A Raiz da Guerra Litúrgica (KEVIN TIERNEY)

Na época em que era chefe do Prefeito da Congregação do Culto Divino, o Cardeal Robert Sarah pensou muito e profundamente sobre o papel que a liturgia desempenhava na formação dos católicos. Ele passou um tempo não apenas refletindo sobre os frutos de uma formação litúrgica adequada, mas como a liturgia, quando abordada de forma errada, poderia formar católicos de forma não intencional. Em uma conferência litúrgica de 2017 em Colônia, o prefeito alertou sobre uma liturgia que era uma ocasião para divisões odiosas, para confrontos ideológicos e para humilhações públicas dos fracos por aqueles que afirmam ter autoridade, em vez de ser um lugar da nossa unidade e da nossa comunhão no Senhor

Nisto, o Cardeal Sarah estava discutindo a temida “guerra litúrgica” que vem acontecendo, com intensidade diferente, no Rito Romano desde a promulgação do Novus Ordo Missae por Paulo VI em 1969. Entre alguns dos católicos mais fervorosos, a liturgia se tornou não uma ferramenta de adoração a Deus, mas uma linha de batalha em uma batalha maior sobre como a Igreja aborda o sagrado. Como muitas guerras de trincheiras, muito pouco é realizado por ela além de baixas. Ninguém gosta da guerra litúrgica. No entanto, apesar desse ódio sem fim, a guerra litúrgica é tão desagradável em 2024 quanto era nas décadas de 1990 e 2000. Por quê?

Ao expor tal teoria, vou adotar uma posição que pode irritar alguns tradicionalistas. Vou assumir a posição de que a maioria dos indivíduos envolvidos no Novus Ordo (com algumas exceções) eram indivíduos bem-intencionados, mas equivocados. Vou sustentar (com algumas exceções) que as ações dos Papas desde o Concílio foram sinceras, mas, uma vez que se basearam em uma aposta falha, sinceramente erradas. Isso pode não ser para você. Que assim seja.

Minha teoria da guerra litúrgica não se baseia em "qual é superior", mas em algo decididamente não litúrgico. Paulo VI e outros ao seu redor acreditavam que os frutos da nova liturgia seriam autoautenticados. A reforma seria um bem óbvio que todos amariam, mesmo que demorasse alguns anos. Como parte do incentivo a esse amor, Paulo VI ordenou que os padres queimassem seus navios quando pisassem no novo mundo. Ele proibiu funcionalmente todos os padres do Rito Romano (com algumas exceções) de celebrar o antigo missal. Não haveria como voltar atrás, nenhuma introspecção, nenhuma revisão sobre se as reformas funcionaram ou não. Até mesmo sugerir que tais reformas deveriam ser medidas era questionar a capacidade do Papa de guiar a Igreja na adoração. O Papa não suprimiu formalmente a Missa Tradicional. Por que é uma incógnita. Sou da posição de que é uma proposição canônica arriscada suprimir, para todos, algo lícito e celebrado pela Igreja por séculos. Entrar nessa discussão coloca o propósito da lei da igreja, e da disciplina da igreja, de cabeça para baixo. Então ele tentou outros assuntos para obter aceitação. Para ser claro, aceitação é o que ele obteve.

A esmagadora maioria dos católicos aceitou a nova missa. Eles entenderam que agora era a missa que eles assistiriam todo domingo. O que eles nunca fizeram foi abraçar a Nova Missa. As reformas litúrgicas não levaram a um fiel católico participando mais profundamente da missa. Não levaram a uma compreensão mais profunda. Não levaram a um fervor maior. Em suma, as coisas que ela alegava que seriam melhoradas em relação à missa latina não aconteceram em substância. O que restou foi a preferência pessoal. As reformas se tornaram grandes não por causa do que elas entregaram, mas por causa do que elas permitiram: maior expressão pessoal, uma elaboração de uma missa em direção aos desejos dos fiéis. Por "desejos dos fiéis", quero dizer os desejos de uma burocracia litúrgica que acreditava ser a geração mais santa de católicos de todos os tempos, e o mundo deve experimentar seu brilhantismo. Quer eles quisessem ou não.

A Nova Missa sobreviveu somente com base no decreto papal. Para o revolucionário que queria mais mudanças, tais decretos significavam pouco. Para muitos católicos que só queriam encontrar um momento de paz e solidão para encontrar Deus aos domingos, esse decreto papal também não significava muito. A Nova Missa existia. Ela não iria embora. No entanto, ela nunca foi amada. Como ela nunca foi amada, isso também significava que a Missa Tridentina também nunca iria embora.

Diante dessa realidade (e foi uma realidade que eles encontraram dentro de uma década de 1969), a Igreja lutou para lidar com o fato de que uma previsão do ofício papal, com todo o poder da autoridade canônica, não aconteceu . Nesse ponto, a Igreja ganhou tempo. Eles concederam indultos a alguns na Inglaterra e no País de Gales. Acordos individuais foram feitos. Padres em situações canônicas ambíguas eram desaprovados, mas muitas vezes deixados em paz. Em 1984, Roma emitiu regras para indultos, baseadas na firme crença de que dentro de uma geração, aqueles que quisessem a missa tridentina estariam mortos. Em 1988, com a excomunhão de Marcel Lefebvre, essa situação se tornou impossível. Nesse ponto, o status da missa latina não estava mais sob o controle da Igreja e de seus bispos. No entanto, a Igreja também não podia admitir que sua aposta estava errada. Se estivesse errada, então a própria reforma litúrgica poderia ser questionada em uma questão fundamental.

Eles então tentaram abordar as críticas estéticas defendendo uma "reforma da reforma", que tentava adicionar de volta muitas das coisas que por décadas o papa, bispos e conselheiros litúrgicos demonizaram como pertencentes a um museu ou cemitério. Tudo o que a reforma da reforma fez foi levantar a questão fundamental: se podemos ter latim, ad orientem e comunhão enquanto nos ajoelhamos na grade, por que não podemos simplesmente ter a missa tradicional em latim?

Quando Bento XVI ascendeu ao trono, ele entendeu que a Igreja não poderia responder a essas perguntas, a Missa Tridentina não iria embora, e a quantidade de fiéis que se voltavam para ela estava crescendo. Enquanto isso, com igual intensidade, o desejo de proibir a Missa Tradicional estava evaporando. Como fazer isso sem admitir um erro? Aqui, o brilhante teólogo tropeçou em uma grande brecha. Já que Paulo VI simplesmente deixou de lado a Missa Tradicional, ele a deixaria de lado. Ela existiria ao lado da Forma Ordinária, e os fiéis e padres poderiam decidir por si mesmos. Ele queria resolver a discussão se afastando dela completamente. Ele declarou vitória, não para uma forma ou outra, mas para a diversidade litúrgica, e então foi para casa.

Se pareço insincero, não é minha intenção. É preciso ser um homem notável para admitir que tentativas anteriores do papado de resolver essa questão só pioraram a situação, então não vou fazer isso. Joseph Ratzinger foi facilmente o teólogo mais talentoso do século XX, e esse conhecimento o tornou ciente das limitações da Igreja e de sua pessoa. Embora não tenha sido uma decisão perfeita, foi um cessar-fogo na guerra litúrgica, com uma paz temporária negociada. Deixe o mundo recuperar o fôlego, e então negociaremos uma nova paz.

O problema com essa abordagem é que havia uma escola de indivíduos na Igreja que queriam continuar a ofensiva. Toda essa conversa sobre paz era equivocada. Se você fizer as pazes com o passado, o passado retornará. Se você permitir o passado como uma opção aceitável, ele sempre estará lá, esperando para ser adaptado aos tempos modernos, como uma alternativa ao que quer que o presente esteja fazendo. Embora não saibamos se ele sempre foi dessa escola, em 2019, estava claro que Jorge Bergoglio, agora Papa Francisco, foi convertido a essa visão de mundo. Sua geração estava morrendo. Ele próprio estava morrendo. Sua estrela estava em declínio. O que acontece quando eles morrem, e esse passado que Paulo VI tentou forçar as pessoas a ainda existe? Quando Francisco perguntou aos bispos do mundo se eles entendiam a ameaça que a missa tradicional representava para a unidade da Igreja, a maioria deu de ombros. Então ele emitiu Traditionis Custodes, para tentar forçá-los a ver a ameaça. Quando eles ainda não viam, ele tentou medidas cada vez mais coercitivas para fazer os bispos e os fiéis verem. No entanto, o problema fundamental permaneceu: ninguém ama a alternativa. Eles a aceitam. Eles constroem suas vidas em torno dela. A Nova Missa é parte da experiência católica das 9h às 17h. No entanto, eles não a amam.

Esta é a verdadeira raiz das guerras litúrgicas. Uma geração de líderes (do papa para baixo) operou em uma aposta. Eles continuaram a aumentar as apostas, finalmente indo all-in. Eles perderam, e agora devem voltar para casa e explicar à família por que eles não têm mais um carro ou uma casa, e como eles terão que se adaptar à família perdendo suas camisas. Não se preocupe, você aprenderá a gostar disso. (Ou como um autor católico popular disse uma vez, nós pecadores merecemos uma liturgia feia.) 

Você está inspirado?

Fonte: https://kmtierney.substack.com/p/the-root-of-the-liturgical-war


terça-feira, 6 de agosto de 2024

O Problema da "Missa Nova Bem Rezada" (BONIFACE)

Durante grande parte da minha vida como católico, frequentei o que a maioria chamaria de "Missa Nova bem rezada". Para alguns católicos que nunca viram um NO que não fosse um show de palhaços, o conceito de uma Missa Nova bem rezada pode ser uma surpresa, mas garanto que ela existe, embora seja rara. Como é uma Missa Nova bem rezada? Na minha experiência, ela podem incorporar alguns ou todos os seguintes elementos:

  • O ordinário da missa rezado ou cantado em latim
  • Uso exclusivo do Cânon Romano ("Oração Eucarística I")
  • Prevalência de mulheres que usam véu
  • Canto substituindo hinos
  • Um introito em latim
  • Um rito de Asperges
  • Paramentos bonitos
  • Recepção quase exclusiva da Sagrada Comunhão na língua
  • Sacrário localizado no centro
  • Recepção da comunhão ajoelhado na mureta do altar
  • Altar fixo, com aparência de sacrifício (ou seja, sem um frágil "altar mesa")
  • Bela arquitetura tradicional e decoro
  • Pregação e catequese ortodoxa
  • Acólitos do altar masculinos tradicionalmente paramentados
  • Cultivo de uma espiritualidade mariana e eucarística
  • Congregação vestida apropriadamente e reverentemente
  • Oração de São Miguel após a missa

Tenho sido consistente ao longo dos anos na minha opinião de que o Novus Ordo não é intrinsecamente irreverente; Isso mesmo. Sabemos que uma maioria estatística das liturgias do Novus Ordo são, na melhor das hipóteses, constrangedoras e, na pior, irreverentes, mas ainda assim o NO pode teoricamente ser celebrado de uma forma que seja condizente com a dignidade da liturgia. Talvez você discorde disso, mas tanto faz. Esse não é o ponto deste ensaio. E, claro, a Missa Tradicional é superior a esse respeito em todos os sentidos, e isso é inquestionável. Mas o ponto é que é possível celebrar o Novus Ordo de uma forma que seja reverente e digna, e que para muitos católicos esses tipos de liturgia do Novus Ordo constituem uma fonte real e positiva de nutrição espiritual e oferecem uma conexão verdadeira, embora muito imperfeita, com a tradição católica.

No entanto, mesmo que tudo isso seja verdade... é uma defesa terrível do Novus Ordo. Há uma razão maior que paira como um elefante na sala — o fato de que mesmo a melhor liturgia do Novus Ordo só o é por causa da preferência pessoal do celebrante.

As rubricas do Novus Ordo definitivamente permitem uma celebração reverente. Mas a palavra "permitir" é o ponto crucial do problema. Ela permite todas as opções mais reverentes se o celebrante assim escolher usá-las. E as mesmas rubricas que permitem a reverência permitem com a mesma facilidade as opções mais banais, bobas ou irreverentes se o celebrante assim escolher. O Novus Ordo é liturgicamente libertário. Ele eleva o princípio da escolha pela escolha como o princípio determinante da liturgia. Isso garante que a qualidade da experiência litúrgica de alguém seja determinada não pela estrutura do rito em si, mas pelos caprichos do celebrante. Mesmo quando o celebrante escolhe usar as opções mais reverentes — o que pode ser bom para aquela liturgia em particular — no geral é um mau estado de coisas porque a estabilidade daquela "Missa Nova bem rezada" está sempre em questão.

Para ser franco, isto significa que apenas uma pessoa está entre a Missa Nova bem rezada e a completa reviravolta da vida litúrgica da paróquia. Alguns exemplos da minha própria história:

Minha paróquia teve um pastor tradicional por mais de uma década. Ele fez o que eu descreveria como um Novus Ordo "reverente" e (após a promulgação do Summorum Pontificum) ele também celebrava a Missa Tradicional em Latim. Todas as suas liturgias de ambas as formas usavam o altar-mor neogótico. A paróquia tinha um altar de mesa, mas o pastor o havia removido e guardado. Bem, eventualmente, esse pastor foi embora e nos foi designado um administrador paroquial temporário até que um pastor permanente fosse designado. O sujeito interino imediatamente colocou o altar de mesa de volta. Ambos os clérigos podiam citar documentos em apoio às suas decisões: o pastor original corretamente observou que o texto do  Missale Romanum assume que o celebrante está voltado para ad orientem e, portanto, presume um altar de parede fixo, não um altar de mesa. O administrador interino poderia citar o IGMR, que diz especificamente que o altar "deve ser construído separado da parede, de tal forma que seja possível andar ao redor dele facilmente e que a missa possa ser celebrada nele de frente para o povo" (GIRM 299). Tudo dependia da personalidade e das preferências de cada homem, qual documento eles escolheram seguir e como eles interpretaram esses documentos. Quando um novo pastor foi finalmente designado, ele (novamente) removeu o altar da mesa. Se ele algum dia for embora, um novo pastor poderia facilmente colocá-lo de volta.

Outra história: anos antes, quando retornei à Igreja, eu estava assistindo à missa naquela que era então a paróquia mais tradicional da minha região. O pastor rezou uma Missa Nova em latim, onde tudo, exceto as leituras e a homilia, era cantado em latim. Eu adorei isso. Foi minha primeira exposição a algo que se aproximasse da tradição litúrgica católica. Bem, eventualmente aquele pastor foi removido e nós pegamos outro, um cara do tipo "não balance o barco" de energia muito baixa. Matéria pima de bispo. De qualquer forma, uma vez que o novo padre entrou, adivinhe qual foi a primeira coisa que foi retirada? Eu acho que o latim não foi mais rezado naquela paróquia desde então.

O ponto é este: mesmo quando a Missa Nova é rezada reverentemente, é como um exercício do gosto pessoal do pastor — e a elevação da preferência do celebrante acima de todas as outras considerações é talvez o pecado original do Novus Ordismo. O Novus Ordo no seu melhor ainda é um exemplar do que há de pior nele. Que ironia bizarra.

Quão diferente isso é da Missa Tradicional, onde o celebrante se torna irrelevante! A reverência da Missa Tradicional não é o produto de preferência subjetiva, mas é construída na estrutura do próprio rito. A Missa Tradicional não tem uma "permissão" contingente para reverência; ela simplesmente é reverente. A reverência não é o produto de ter o pastor certo, construir a congregação certa ao longo dos anos e fazer as escolhas certas entre um mar de opções. A reverência da Missa Latina Tradicional não é o fim a ser alcançado, mas uma fundação que é tomada como certa e construída sobre ela. É onde começamos, não onde terminamos. 

Liturgia reverente não é algo pelo qual os católicos devam lutar, muito menos deixar aos caprichos das preferências litúrgicas de um homem. Deve ser nosso direito de nascença como filhos e filhas da Igreja.

quinta-feira, 4 de julho de 2024

Sobre o "Tradismatismo"

Em um recente reels de Instagram a página de humor "Brasil RTC" compartilhou um vídeo do Pe. Roger Luis, numa missa de Vígilia Pascal 30.03.2024 da Canção Nova, puxando em latim o "Gloria" da Missa De Angelis ou Missa VIII:


Para a surpresa de todos o que se seguiu, no entanto, foi o Gloria cantado em português ao som de bateria, guitarra, palmas e danças. A missa completa pode ser conferida aqui.

A página atribuiu o episódio ao fenômeno do "tradismatismo". A expressão foi cunhada pela primeira vez pelo Pe. José Eduardo, sacerdote da diocese de Osasco-SP, em 2016, no seu Facebook.


A postagem teve muitas reações, compartilhamentos e comentários. Gostaríamos, assim, de investigar o conceito de "tradismático" e se ele é, como dizem alguns, uma pessoa tradicionalista que gosta siricantalanapraia.

O que é o tradismatismo?

Começemos então com o autor do conceito de tradismatismo, o Pe. José Eduardo. Em uma postagem do dia seguinte o sacerdote prestou alguns esclarecimentos sobre a nova palavra cunhada:

OS TRADISMÁTICOS E A CONTRADIÇÃO 

Ao escrever ontem sobre os #Tradismáticos, estava apenas descrevendo um fenômeno real (basta olhar o número de curtidas e de pessoas que se identificaram com a descrição), e não fazendo um juízo de valores. Cada qual tenha sua opinião sobre o fato. Mas, o que me parece impossível é negá-lo.

Nossa Igreja é católica, universal, justamente por isso: cabem todos, aliás, como disse Nosso Senhor ao comparar a Igreja com uma rede de pesca que recolhe peixes de todo tipo, rompendo, assim, todo nazismo religioso.

O filósofo marxista Ernst Laclau, em "Hegemonia e estratégia socialista", ensina que o movimento revolucionário, para alcançar o poder, precisa dividir a sociedade em grupos antagônicos, criar contradições e usá-las em seu favor, escolhendo eventualmente a contradição que for mais favorável à sua vontade de dominação.

De algum modo, os católicos de nossos dias se cansaram desse jogo dialético, estão jogando fora os rótulos e criando liberdade de tráfego, excluindo todas as tendências progressistas e socialistas, que eles já perceberam ser justamente uma das causadoras de rotulacões, além de serem a representação oposta do que desejam: a exclusão completa do sobrenatural e a usurpação da Igreja como instrumento de poder.

Como no Brasil muita gente tem a mentalidade de torcedor, e se apega ao rótulo que foi criado para ser sua camisa de força mental como o fanático de um time, leituras como essa acabam se tornando quase impossíveis. De fato, as pessoas apressam-se em identificar quem é a favor ou contra à sua tribo, incapacitando-se para entender realidades mais complexas, que transcendem esse jogo.

Cabe à nós, como Igreja, não apenas interpretar o fenômeno, mas interagir com o mesmo de modo criativo, sabendo integrá-lo num esforço positivo de apostolado. Caso contrário, pela pressa de separar o joio do trigo, iremos sacrificar o trigo e, como diz Jesus no Evangelho, isso não é tarefa nossa. 

No mundo do puritanismo, repetidas vezes condenado pela Igreja, tudo se reduz ao simplismo do "preto ou branco", no contraste mais absoluto entre ambos. Desde o maniqueísmo, montanismo, catarismo, até chegarmos à tendências puritanistas mais modernas, a contradição sempre foi a armadilha em que caíram aqueles que não sabem viver no tempo das ambivalências, no tempo da Igreja militante, e querem viver apocalipticamente a antecipação da Jerusalém celeste aqui. Esconde-se aí um complexo de milenarismo, complexo que arroga à sua inconsciente vítima a prerogativa de acusar de hereges a todos que não recaem sob seu estreito horizonte de consciência, enquanto ele mesmo desconhece ou tem uma noção vaga e confusa do que seja "heresia", a negação pertinaz do dogma, que não foi negado por ninguém.

Não percebem estes que, deste modo, caem nas malhas dialéticas da contradição, e fazem direitinho o jogo do inimigo. Aceitam a divisão ao invés de verem de um ponto mais alto as consonâncias, integrando num todo harmônico aquilo que, em si, nunca foi contraposto.

A culpada do engodo é a ignorância histórica. Quando se lê a vida dos santos pregadores e místicos vê-se claramente que os mesmos sofreram as mesmas incompreensões, exatamente por enxergarem esse todo desde cima, não se implicando nas contradições daqueles que têm uma visão metonímica.

O fato é que os #Tradismáticos escandalizam os progressistas, os tradicionalistas e até os próprios carismáticos. Estão hoje em maior e crescente número, mas são os mais "desigrejados" de todos. Perambulam de lado a lado sem encontrar guarida e compreensão…

Este é o fenômeno. As opiniões acerca dele podem ser as mais plurais possíveis. 

Os rótulos já foram rasgados, o tráfego está aberto e bem-aventurado quem não se escandalizar disso, antes, souber ser Cristo de braços abertos, como São Paulo, que se fez tudo para todos!

Notemos que o padre fala que está descrevendo um novo movimento e que os "rótulos já foram rasgados", mas quando olhamos as postagens do sacerdote de 9 e 10 de outubro de 2016 não vemos qualquer descrição do movimento e nem definição do conceito.

Então, afinal, do que estamos falando?

Em um shorts do Youtube o Pe. Francisco do Amaral buscou tentar explicar o que é o tradismatismo:

Transcrição:

Existe católico tradismático?

Em certo sentido todo católico é tradismático. Porque o católico é chamado a abraçar tudo aquilo que Jesus deixou. Então o católico abraça o Magistério, a Tradição, a Escritura, os sacramentos, as devoções e os carismas da Igreja.

Agora, a gente pode falar também "ser tradismático", como eu me identifico, no sentido de amar as tradições litúrgicas da Igreja, os ritos válidos, o incenso, a batina, e ao mesmo tempo se identificar com a espiritualidade de Pentecostes, como a gente vive da Renovação Carismática Católica. E nesse sentido, também eu me identifico como tradismático.

Mas eu vou falar a verdade para vocês. Eu não gosto muito desse negócio de rótulo, não. Católico carismático, católico tradicional, católico isso, católico aquilo. Eu acho que isso pode dividir a Igreja. Então, o tradismático, nesse sentido que eu estou falando, ele não quer ser um novo rótulo, não. Ele quer falar de um católico que quer abraçar toda a verdade deixada por Jesus na Igreja.

Pedro Isnard, carismático, em canal no Youtube também buscou definir o que é tradismático:


Nas palavras de Pedro, você é tradicional quando "ama liturgia, ama tudo que a Igreja trouxe pra você ao longo dos anos, reza um Pai Nosso e uma Ave Maria em latim, vai ao Novus Ordo, vai a Missa Tradicional (tridentina) e está tudo bem. Você está em casa, você é católico." [01'42"]. Após, Pedro acrescenta que tradismático é o indivíduo que é tradicional e que vive o carisma mais tradicional de todos, o dom de línguas vivido pela RCC.

Por fim, Padre Paulo Ricardo, ao receber a pergunta "É possível ser tradismático?" de uma moça carismática que se identifica com a Missa Tridentina, responde que ser católico e tradicional é pleonasmo. Em seguida, ela faz uma alusão à Carta aos Coríntios de São Paulo, na qual o apóstolo fala em "guardar tradições" e também descreve os dons carismáticos. Assim, dá a entender o padre que é possível ser "tradismático".


O que se observa nas três definições colhidas é que "tradicional" nunca é definido no sentido de "tradicionalista", e sim num significado mais largo que mais se aproxima de "conservador", isto é, aquele que gosta que as coisas sejam feitas "conforme as regras da Igreja", independente de quais sejam essas regras.

Tradicionalista, contudo, esteja ou não em comunhão com a Igreja, nunca pode ser descrito como um mero conservador, pois ele é fruto de um incômodo. Um incômodo com a direção pastoral que a Igreja tomou após o Concílio Vaticano II, ou seja, as atuais regras.

Pode-se dizer que a espiritualidade tradicionalista consiste na preservação da Missa de São Pio V, dos hábitos e devoções pré-conciliares e um acento crítico ou de reserva às novas pastorais litúrgica, catequética e de evangelização pós-conciliares.

Nesse sentido, destaca-se a descrição do carisma do Instituto Bom Pastor (IBP) em seu site:
"O carisma específico do Instituto do Bom Pastor, ou seja, o que o torna específico e a sua razão de ser, é a defesa e difusão da Tradição Católica em todas as suas formas: doutrinal, apostólica e litúrgica. Em particular, os padres do IBP celebram a missa exclusivamente no rito tradicional, ou seja, segundo a liturgia conhecida como “São Pio V”. Além disso, o Instituto foi fundado com a tarefa explícita de oferecer uma crítica construtiva e teológica de certas reformas nascidas do Concílio Vaticano II, uma crítica que visa oferecer a toda a Igreja um novo olhar sobre a sua própria identidade.

Este apego à Tradição é decididamente para os sacerdotes da IBP uma forma de servir a Igreja, na submissão ao Papa, ao serviço dos bispos católicos, e para o bem de todos os fiéis: é a expressão do seu desejo de oferecer a toda a Igreja e ao mundo as riquezas e os benefícios da Tradição Católica como um tesouro do qual todos devem haurir."

No protocolo de acordo assinado por Mons. Lefebvre e a Santa Sé em 1988, nota-se igualmente um certo "direito de reserva" da FSSPX a respeito de certas reformas conciliares:

"Em relação a certos pontos ensinados pelo Concílio Vaticano II ou relativos a reformas posteriores da liturgia e do direito, e que nos parecem dificilmente conciliáveis ​​com a Tradição, comprometemo-nos a ter uma atitude positiva de estudo e de comunicação com a Santa Sé, evitando toda a polêmica."

No livro "Considerações sobre as formas do rito romano da santa missa", a Administração Apostólica São João Maria Vianney justifica a preferência pela Missa de São Pio V reconhecendo o cenário crítico do Novus Ordo:

"Ninguém de correta visão pode negar a existência da atual crise na Igreja, afirmada por vários Papas. E essa crise tem muito a ver com a Liturgia, especialmente após a reforma conciliar, que, infelizmente deu azo a muitos abusos litúrgicos. [...] a Missa na forma extraordinária do Rito Romano, por sua maior precisão e rigor nas rubricas, apresenta mais segurança e proteção contra tais abusos litúrgicos."

No site do Instituto Cristo Rei e Sacerdote também justifica a celebração da missa tradicional em razão das muitas mudanças ocorridas na liturgia após o Concílio Vaticano II:

"O Instituto de Cristo Rei celebra a Liturgia Romana clássica, a "Missa Latina", em sua forma tradicional de acordo com os livros litúrgicos promulgados em 1962 pelo Papa São João XXIII. Durante seu pontificado, o Papa São João Paulo II exortou os bispos a serem generosos em permitir seu uso. Foi com sua bênção que o Instituto começou a celebrar a Missa Tradicional.

O Papa Bento XVI também desejou que o tesouro da liturgia romana tradicional, que foi celebrada sem mudanças por séculos e séculos, fosse preservada para todas as gerações. Seguindo os passos de São João Paulo II, o Papa Bento XVI, com seu documento histórico Summorum Pontificum, restaurou aos padres a liberdade de celebrar a "forma extraordinária" do rito romano.

A Missa Latina Tradicional foi a forma exclusiva celebrada durante o Concílio Vaticano II. Na verdade, a maioria das mudanças que foram introduzidas pela reforma litúrgica dos anos 1960 ocorreram nos anos após o Concílio Vaticano II. O próprio Concílio nunca aboliu a liturgia tradicional, e seu famoso documento sobre a Liturgia da Igreja, Sacrosanctum Concillium, menciona apenas a possibilidade de algumas adaptações; ele nunca pediu uma mudança de linguagem, a remoção de orações, nem virtualmente nenhuma das práticas agora comuns no Novus Ordo Missae, a “Nova Missa”."

Portanto, um católico tradicionalista nunca será um "tradicional" no sentido de "conservador". A distinção é importante, porque pode parecer para muitos que, ao se falar em "tradismáticos",  que há um movimento de adesão de católicos tradicionalistas à espiritualidade carismática quando simplesmente não há. Este é o tema o que abordaremos no tópico a seguir.

Buscando entender o fenômeno

1. Tradismatismo: um movimento unilateral

É necessário constatar o seguinte fato: o tradismatismo não é uma tendência nos círculos tradicionalistas. Não se vê o fenômeno tradismático entre católicos ligados ao Instituto Bom Pastor, Administração Apostólica São João Maria Vianney, Montfort, Centro Dom Bosco, IPCO, etc. Não há grupos de oração em línguas, batismos no Espírito Santo e Cercos de Jericó entre tradicionalistas, mas há grupos inteiros de carismáticos cada vez mais adotando formas tradicionalistas. O tradismatismo é um fenômeno específico da Renovação Carismática.

Neste ponto discordamos do Pe. José Eduardo que os tradismáticos sejam pessoas não compreendidas e "desigrejadas". Tradismáticos são carismáticos em busca da Tradição.

2. A romanização da Renovação Carismática

Conforme descrevemos aqui, entre os anos 2011-2019, houve um verdadeiro boom do catolicismo tradicional no Brasil. Neste período, se observou muitos católicos carismáticos descobrindo a Missa Tradicional e aderindo-a. Em regra, os carismáticos que participavam ativamente de apostolados tradicionais deixavam a Renovação Carismática entendendo que ela havia sido uma importante porta de entrada para o Catolicismo, uma espécie de infância do católico, mas que ao se adquirir maior formação catequética e litúrgica a consequência natural seria o catolicismo tradicional. Outros não tão assíduos permaneceram em suas comunidades carismáticas, mas se tornaram mais comedidos. Quiseram manter seu carisma, mas entenderam os diversos problemas que permeiam o carismatismo.

Em suma, o desenvolvimento do catolicismo tradicional no país provocou e têm provocado o que chamaremos aqui de romanização da Renovação Carismática, isto é, uma maior tomada de consciência da necessidade de readequação do carismatismo à identidade católica.

Expliquemos.

Como é arquisabido, a RCC é oriunda de movimentos neopentecostais e historicamente sempre lhe foi muito ínsito certa assimilação da cultura protestante neopentecostal (biblicismo, fundamentalismo, sentimentalismo, worship, etc). Todavia, o crescimento do catolicismo tradicional no Brasil desencadeou em alguns setores da Renovação um processo de afastamento das fontes protestantes e de aproximação das fontes católicas. Entendemos que este é o verdadeiro tradismatismo que vem ocorrendo entre os carismáticos nos últimos anos, a purgação gradual do neopentecostalismo protestante no movimento.

A esquerda e a direita da RCC se posicionam conforme o afastamento ou a aproximação das fontes católicas.

3. Um processo lento

Evidentemente, essa romanização não significa uma "tridentinização" da carismatismo como alguns querem fazer crer, mas sim uma certa dose de conservadorismo num movimento muito conhecido pela sua índole antilitúrgica e desprendida de fórmulas, que cheirava mais a protestantismo do que catolicismo. Fazemos essa distinção porque, realmente, o tradicionalismo ligado à Missa Tridentina não têm recebido influências carismáticas em sua espiritualidade. Parece-nos que o tradicionalismo e o carismatismo ainda são espiritualidades antagônicas. O tradicionalismo é afirmação triunfante do romanismo enquanto que o carismatismo é uma afirmação triunfante do ecumenismo. Tradicionalistas rejeitam ou não promovem o ecumenismo. Carismáticos, por sua vez, falam, muitas vezes, de pregadores e avivamentos protestantes como se pertencessem à sua religião.

É patente, no entanto, que o processo de romanização da RCC tem sido muito lento. A Renovação Carismática ainda possui muitos trejeitos protestantes. Ela não consegue separar muito bem, por exemplo, o que é próprio para grupos de oração do que é adequado para a liturgia.

A RCC, ordinariamente, ao invés de se render ao sensus perennis universalis Ecclesiae da tradição musical católica, promove na liturgia, via de regra, a marca e o estilo dos seus próprios grupos, geralmente gospel, e assim massificam o seu produto musical. 

Nota-se, a respeito, a Comunidade Colo de Deus, que praticamente reproduz os seus shows na missa e talvez seja, neste aspecto, o pior dos exemplos. Neste vídeo, tomado apenas para ilustrar, a missa e o padre realmente ficam em segundo plano enquanto predominam as "performances" dos músicos e, claro, a "Voz Gigantesca" dos seus animadores (gritaria e falatório intermináveis).

Já outras comunidades como Shalom, Fraternidade João Paulo II, Caminho, Instituto Hesed, etc., possuem missas mais comedidas, mas, musicalmente, dificilmente reproduzem um canto litúrgico autêntico. Suas músicas são quase sempre modernas (gospel) acompanhadas de violão, bateria e guitarra; o órgão de tubos, instrumento preferido pela Igreja, fica aos cuidados das teias de aranha. 

Neste vídeo de uma missa do Instituto Hesed observa-se moças de véu, religiosos de hábito, altar com arranjo beneditino, cantos em latim, etc., mas, novamente, com melodia inadequada, instrumentos inadequados, freira na bateria, músicas não litúrgicas cantadas em shows de cantores carismáticos como Irmã Kelly e Eugênio Jorge, danças, entre outros.

Nesta outro vídeo, agora da missa da Pe. Roger Luis, além de todo o paranoma inadequado anterior há o acréscimo de orações espontâneas e em línguas em menos de 15 min de missa.

Estes exemplos comprovam que ainda há na RCC um contínuo esquecimento das orientações do Discatério para o Culto Divino acerca da liturgia, mesmo entre carismáticos que seriam denominados por muitos como "tradismáticos".

“A eficácia das ações litúrgicas não está na busca contínua de novidades rituais, ou de simplicações ulteriores, mas no aprofundamento da palavra de Deus e do mistério celebrado, cuja presença está assegurada pela observância dos ritos da Igreja e não dos impostos pelo gosto pessoal de cada sacerdote. Tenha-se presente, ademais, que a imposição de reconstruções pessoais dos ritos sagrados por parte do sacerdote ofende a dignidade dos fiéis e abre caminho para o individualismo e o personalismo na celebração de ações que diretamente pertencem a toda Igreja”. (Liturgicae instaurationes, n. 1)

O panorama da música carismática atual na liturgia é fundamentalmente contrário ao ensino da Igreja sobre a música sacra e litúrgica. Contudo, esperamos que o processo de romanização que passa alguns setores da RCC possa finalmente trazer a devida maturidade ao movimento.

Talvez, seja o Pe. José Eduardo o melhor exemplo de carismático "romanizado" ou "tradismático" que sabe distinguir o culto de oração carismático da liturgia pública da Igreja. Note-se como em suas missas o órgão é utilizado bem como o canto gregoriano:


Pe. José Eduardo não é um católico tradicionalista ou um sacerdote conhecido por rezar Missas Tridentinas. Suas missas são versus populum, possui leitoras, acólitas, totalmente em vernáculo, coisas que um sacerdote tradicionalista simplesmente rejeitaria. Mas é notório que suas missas não possuem um espírito carismático. Nenhum católico se sente "colonizado" pela RCC nas missas do padre como ocorre nas missas da Canção Nova, Colo de Deus, Instituto Hesed e afins.

Conclusões

1. O tradismatismo não é a síntese de tradicionalismo com carismatismo.

2. É um movimento que parte de dentro da RCC.

3. O tradicionalismo e a RCC são espiritualidades antagônicas, visto que a primeira parte de um acento crítico ao ecumenismo e às novas pastorais enquanto que a segunda é essencialmente ecumênica e amante das novas formas pastorais.

4. O tradismatismo é, na verdade, a romanização do carismatismo, isto é, uma maior assimilação da identidade católica em um movimento essencialmente caracterizado pela sua afirmação ecumênica.


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