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segunda-feira, 30 de junho de 2025

Todo Católico é Tradicional? Só os que Tocaram a Tradição. Por que é Justo Ser Chamado Católico Tradicional.

Padres do Instituto Bom Pastor

Os debates recentes em torno do Centro Dom Bosco, conquanto tenham lançado muitos à febre da intemperança, têm servido, ao mesmo tempo, como ocasião para purificar as premissas da controvérsia. Nada como o fogo da discórdia para revelar os metais autênticos de um argumento — ou, pelo menos, separar o ouro das latas.

A última das querelas envolve católicos chamados conservadores que reagem com certa indignação ao apelo de católicos tradicionais para que se “abrace a Tradição”. O fundamento da objeção parece, à primeira vista, razoável: todo fiel que cumpre os preceitos da Igreja seria, em sentido pleno, um católico tradicional. Mas o problema — como quase sempre ocorre nos debates modernos — não está na lógica, mas na linguagem.

Tal objeção, todavia, revela mais uma incompreensão do que propriamente um argumento. Em geral, os chamados católicos tradicionais não empregam a expressão “aderir à Tradição” em sentido meramente canônico ou jurídico, como se bastasse observar os preceitos mínimos da fé. Trata-se, antes, de uma experiência existencial e espiritual: a redescoberta — muitas vezes tardia — da liturgia perene e dos costumes imemoriais da Igreja, quase sempre ausentes das paróquias comuns.

Expressões como “conheci a Tradição” ou “reencontrei a Tradição” nada mais são do que metonímias para descrever essa realidade interior: o assombro diante da liturgia tradicional, o encantamento de quem, pela primeira vez, respira o ar dos séculos, e não o hálito rarefeito das modas transitórias, e o grito de quem, após longo exílio, retorna à pátria. É sobretudo nos ambientes tridentinos que o fiel experimenta, muitas vezes pela primeira vez, essa impressão de eternidade: o contato concreto com a Tradição viva, que não envelhece porque, sendo verdadeira, permanece.

Dizer, portanto, que “toda missa é tradicional” ou que se assiste à “tradicional missa da paróquia do bairro” é, no mínimo, uma forma requintada de autossabotagem — ou melhor, uma forma velada de mentir para si mesmo. A honestidade intelectual exige reconhecer que, em muitas paróquias, o latim desapareceu, o canto gregoriano extinguiu-se, os paramentos clássicos foram relegados ao esquecimento e os costumes imemoriais da Igreja simplesmente deixaram de existir há décadas. Não se trata, aí, de uma questão de gosto pessoal, mas de uma constatação da ruptura cultural e espiritual com o passado.

É nesse ponto que a ironia se impõe: muitos católicos acham que podem preservar a Tradição sem jamais tocá-la. Como um homem que quisesse herdar o patrimônio de família sem nunca visitar a casa dos avós, nem abrir os baús, nem cheirar os livros.

Aqueles que conhecem, ainda que superficialmente, a realidade litúrgica da maioria das igrejas modernas sabem que canções como Romanos 12, entoadas por certos grupos ditos piedosos, não reproduzem — nem remotamente — a experiência da Tradição. Ao contrário, produzem uma espécie de anestesia espiritual, na qual se dissimula a ausência do sagrado com gestos mecânicos e palavras ocas. Persistir em negar essa evidência, sob pretexto de zelo ou obediência, é fechar os olhos ao que salta aos olhos: é escamotear a realidade com fórmulas inócuas — ou, para usar a palavra justa, é faltar com a verdade.

Liturgistas como Klaus Gamber sustentaram que o rito de Paulo VI, por sua gênese e estrutura, seria um criação essencialmente contemporânea, não podendo fornecer uma experiência autêntica da Tradição. Bento XVI, mais otimista, sugeriu que esse rito podia dar essa experiência sendo fecundado pela forma clássica, numa espécie de “mutua enricchitura”. Mas, qualquer que seja a posição, um fato permanece: a maioria esmagadora das paróquias não fornece, nem na forma nem no conteúdo, uma experiência sensível da Tradição. Fala-se da eternidade, mas tudo cheira ao efêmero.

Por isso, afirmar que o rito romano tradicional tem sido, nas últimas décadas, o principal veículo da experiência concreta da Tradição não é juízo opinativo, mas constatação empírica. Sem ele, é ilusório pensar numa restauração da memória litúrgica e espiritual que a Igreja contemporânea tanto necessita.

Eis, portanto, o núcleo da proposta tradicionalista: “aderir à Tradição” significa reconciliar-se com as fontes vivas da fé, reencontrar o elo perdido entre o presente e o passado eclesial. Foi essa também a intenção manifesta de Bento XVI ao liberar generosamente a Missa Tridentina, com vistas a permitir que a Igreja “se reconcilie consigo mesma”.  E se a reconciliação requer memória, a Missa Tridentina é seu álbum de fotografias: apagá-la seria como apagar a própria identidade.

A esse respeito, vale recordar uma lição do Pe. Chad Ripperger. Ao comentar a visão de Leão XIII sobre os cem anos de liberdade concedidos por Deus a Satanás para tentar a Igreja, o sacerdote observa que tal período simboliza o ataque sistemático a tudo quanto é imemorial. Satanás, ao pedir esse tempo, desejava justamente destruir os monumentos da Tradição. Recuperá-los, portanto, é a missão própria do católico tradicional: missão de resistência, de testemunho e de restauração.

É nesse contexto que se compreende, em toda a sua legitimidade, o convite dirigido aos fiéis de outros movimentos e sensibilidades a que conheçam e abracem a Tradição. Não se trata de exclusivismo, mas de coerência histórica e doutrinal. Tradição não é apenas aquilo que acontece dentro da Igreja, mas aquilo que, dentro dela, se transmite com longevidade e universalidade. Um carismático ou um membro do Caminho Neocatecumenal pode, sem dúvida, ser um católico fiel. Mas não pode, por definição, ser considerado tradicional. E a razão é simples: a Tradição exige tempo. A Tradição não se improvisa — ela amadurece no tempo. Um movimento cujo modo de ser tem quarenta ou cinquenta anos pode ser válido, mas ainda não é tradição: é juventude e juventude com todos os seus erros. A juventude pode não ser culpada por eles; mas tampouco pode ensinar com a sabedoria dos anciãos. Não se trata aqui de censura doutrinal, mas de um juízo cronológico.

Em suma: o convite a “abraçar a Tradição”, quando bem compreendido, é mais do que legítimo — é necessário. Pois a crise da Igreja contemporânea é, em boa parte, uma crise de amnésia. E quem perde a memória perde o nome, o rumo e até a fé. Porque não se apaga a memória da Esposa de Cristo sem apagar, pouco a pouco, o rosto do próprio Senhor.

quinta-feira, 12 de junho de 2025

O Direito de Criticar e o Dever de Amar (Porque na Igreja é preciso morder com reverência)

Fundadores da FSSP com São João Paulo II

Ainda sobre a publicação pelo Centro Dom Bosco do livro "Erros do Catecismo Moderno" de Michael Haynes.

A análise serena das relações entre a Santa Sé e os institutos tradicionalistas revela um dado pouco considerado, mas de grande relevância teológica e pastoral: nos acordos firmados com os institutos provenientes da antiga Comissão Ecclesia Dei, jamais se exigiu, como condição prévia de reconciliação, a retratação das críticas feitas ao Concílio Vaticano II por parte dos sacerdotes aderentes.

Pelo contrário, tais acordos reconhecem que, diante de certos pontos doutrinários e disciplinares do Concílio ou das reformas eclesiásticas subsequentes, que pareçam difíceis de conciliar com a Tradição — entendida aqui como a transmissão viva e orgânica da fé apostólica —, os institutos possam adotar uma postura de estudo respeitoso (FSSPX, 1988) ou até de crítica (IBP, Ato de Adesão), desde que se evitem manifestações de polêmica desnecessária.
A Instrução Donum Veritatis, publicada pela Congregação para a Doutrina da Fé em 1990, esclarece este ponto de forma inequívoca. Como demonstrou com acuidade o professor Edward Feser, a crítica teológica — quando realizada dentro dos limites da fé, da caridade e da fidelidade ao Magistério — não se identifica com a dissidência. Ademais, como, por sua vez, apontou o Dr. William May, a crítica assume maior legitimidade quando se volta à luz da Tradição para examinar declarações magisteriais recentes que, à primeira vista, pareçam em dissonância com os ensinamentos anteriores do mesmo Magistério.
Ora, confrontar o Magistério recente com o anterior é justamente a essência da crítica tradicionalista. E talvez por isso mesmo ela seja mais suportada — não por condescendência, mas por coerência — do que a crítica protestante, que não se ergue sobre o fundamento de Pedro, mas sobre o vácuo do livre exame absoluto.
Nesse sentido, o "Breve Exame Crítico do Novus Ordo Missae" é um exemplo luminoso de crítica severa, porém inteiramente tolerada dentro dos limites indicados pela própria Igreja. E outros livros, publicados por padres oriundos dos institutos ex-Ecclesia Dei, seguem a mesma toada: crítica reverente, ainda que firme, como um monge que repreende um imperador.
Cumpre ainda afastar um equívoco frequentemente repetido: a Donum Veritatis não exige que a crítica teológica seja exercida exclusivamente em foro privado, como se o fiel ou o teólogo devesse submeter suas dúvidas apenas ao bispo diocesano, em caráter confidencial, como fazem crer certas opiniões piedosas, mas insensatas. O que a Instrução reprova, com inteira justiça, é a instrumentalização da crítica por meio da mídia de massa, utilizada como instrumento de pressão ou agitação, o que não raro redunda em escândalo ou confusão para os fiéis. A crítica pode ser pública — sobretudo em obras teológicas ou acadêmicas —, mas deve ser sempre sóbria, reverente e construtiva.
Dessa forma, é plenamente possível publicar um livro crítico ao Catecismo promulgado em 1992, contanto que tal obra se paute pelo respeito devido ao Magistério da Igreja e se inspire em espírito de serviço à verdade revelada.
É precisamente neste ponto que se manifesta uma falha recorrente em certos meios tradicionalistas: a tentação da linguagem injuriosa, que em nada contribui para a edificação da fé. O título original da obra de Michael Haynes — A Catechism of Errors — é, sob qualquer critério eclesial, irreverente e desproporcionado. Nada impedia que o autor adotasse um título mais sóbrio e científico, como "Exame Crítico do Catecismo de 1992", que teria exposto sua tese com a dignidade que o tema exige. O Centro Dom Bosco, ao traduzi-lo como "Os Erros do Catecismo Moderno", buscou conferir maior moderação à proposta, mas o esforço acabou neutralizado pela estratégia publicitária da obra, que reforçou o tom polêmico e acentuou o desconforto.
Tais equívocos de forma, embora não alterem substancialmente o conteúdo da crítica, prejudicam sua recepção entre os fiéis, pois o público, que não é teólogo, reage não ao conteúdo do livro, mas ao tom da voz. O resultado é que se deixa de ouvir um argumento e se passa a denunciar um “ataque à Igreja” — e às vezes, com razão. Ao invés de suscitar o debate sereno e o exame objetivo, esses equívocos alimentam suspeitas e reações defensivas. E assim se compreende que muitas críticas feitas à obra não digam respeito à substância do argumento, mas à sua apresentação imprudente.
Mas, antes de tudo isso — antes do barulho, antes da polêmica, antes do escândalo — há uma virtude primária, que já foi chamada de justiça, e que hoje é confundida com curiosidade: ler o livro antes de criticá-lo.
Pode parecer pouco. Mas é o primeiro passo para qualquer católico que deseje defender a verdade com aquela virtude de que tanto falamos e tão pouco praticamos: a caridade.

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Depois de Francisco: O Despertar das Linhas de Batalha


O Centro Dom Bosco publicou um livro de Michael Haynes a respeito dos problemas do Catecismo amarelo — e, francamente, não é isso que causa espanto. O CDB vem marchando para cada vez mais perto da Fraternidade São Pio X.

O que, sim, surpreende — e até diverte — é perceber quão numerosas são as almas que nunca ouviram falar do movimento tradicionalista, nem do estranho e velho ofício de discutir apaixonadamente dentro da mesma Igreja. Como se alguém estranhasse que irmãos brigassem na mesma casa por amor ao mesmo pai. São almas que desconhecem por completo as questões que o tradicionalismo introduz nos debates da vida eclesial.

Durante certo tempo, as discussões sobre o Concílio Vaticano II e seus efeitos na vida da Igreja pareceram recolher-se como soldados feridos à sombra de um hospital de campanha — ou melhor, de um pontificado de campo. O “efeito Francisco”, com sua força centrífuga e sua lógica desconcertante, conseguiu adormecer — ou ao menos distrair — os debates teológicos mais profundos com uma avalanche de gestos, improvisos e perplexidades pastorais.

Diversos setores tradicionalistas, bem como alguns segmentos conservadores, foram constrangidos a suspender disputas internas para se unirem na tentativa de compreender e enfrentar um pontificado que, com inquietante clareza, demonstrava resistência, quando não repulsa, à herança doutrinal e litúrgica de viés conservador/tradicional.

O Papa Francisco introduziu no governo da Igreja um estilo inédito entre os pontífices pós-conciliares: mais alinhado às tendências progressistas, não raro marcado por improvisações teológicas, termos recém-criados ("Igreja sinodal", "Igreja samaritana"), e uma retórica frequentemente crítica à Tradição (“indietrismo”, por exemplo). Em consequência, debates outrora centrais — como o significado preciso do subsistit in da Lumen Gentium, a natureza da liberdade religiosa ou o problema teológico do monoteísmo comum com os muçulmanos — foram substituídos por urgências mais imediatas: a disciplina da Eucaristia em casos irregulares, a aprovação implícita de bênçãos a uniões contrárias à moral natural, a severa restrição à Missa tridentina, bem como declarações desconcertantes relativas ao inferno ou ao valor salvífico universal das outras religiões.

Enquanto os tradicionalistas combatiam, no Brasil, floresciam, como brotos em terreno alternativo, os chamados “Missionários Digitais”. Eram apóstolos de outro campo de batalha: mais catequético, mais motivacional, mais instagrâmico. Para eles, as discussões dos tradicionalistas soavam como murmúrios em latim numa estação de metrô. Seus seguidores — em sua maioria recém-convertidos ou neófitos entusiasmados por Frei Gilson e por The Chosen — buscavam fervor, consolo, louvor e estética. A teologia, no entanto, ficava num canto da sala, como um avô cansado. Nomes como Allan Carrion, Santa Carona, Segundo Católico, Colo de Deus e Católicos de Verdade dominavam esse cenário, promovendo um catolicismo acessível, emocional e oficialista — quando não apenas alheio à crise, ao menos inconsciente dela.

Junto a esse universo, erguia-se ainda a torre dos influenciadores do marketing católico, formados na escola pragmática de Ítalo Marsili, Ícaro de Carvalho e, claro, do sempre discreto Opus Dei. Foi uma época em que choveram — como maná requentado — frases de São Josemaria Escrivá e exortações a uma vida de sucesso profissional com oração matinal, missa diária e virtudes bem diagramadas — tudo isso, porém, sem encarar o elefante eucarístico na sala: a ruína da liturgia, o silêncio cúmplice de maus pastores, a decadência doutrinal. Temas que os tradicionalistas, quase sozinhos, continuavam a debater como quem tenta reacender uma lâmpada numa catedral sem luz. Era, muitas vezes, uma espiritualidade de bons costumes e bons contratos.

Com a morte do Papa Francisco, o quadro se transforma. Os tradicionalistas e essas duas correntes que antes corriam em paralelo — missionários digitais e influenciadores pragmáticos — começam a se olhar nos olhos. Muitos “Missionários Digitais” e dos seus seguidores, ainda sem compreensão adequada da teologia e da eclesiologia tradicionalista, reagem ao tradicionalismo como uma criança reage a um trovão: com medo, risos nervosos e, sobretudo, sem entender. E tentam nomear o que não compreendem com palavras herdadas do susto: "sedevacantismo", "protestantismo". Quando, na verdade, tudo não passa do eterno retorno de uma questão que se recusa a morrer: afinal, qual o tamanho que o Vaticano II deve ter na vida católica? Por sua vez, os influenciadores de matriz liberal-católica, como aqueles vinculados ao universo de Marsili e afins, encontram-se em visível declínio. Como o catolicismo nunca foi o centro de suas atividades, a progressiva secularização de seus perfis, agora mais profissionais, confirma uma orientação mais voltada ao sucesso pessoal do que à integridade da fé.

E assim, o que se desenha no horizonte não é o apaziguamento da controvérsia, mas o seu renascimento. O antigo debate sobre o Vaticano II — como um fogo soterrado sob as cinzas — começa a reacender. Tradicionalistas e continuístas retomam seus postos no front, e os fiéis dos missionários digitais, como ovelhas surpreendidas pelo fogo nos dois lados do campo, acabarão se alinhando, cedo ou tarde, a um dos dois exércitos.

Em suma, o que se anuncia não é o fim de uma era, mas o juízo de sua consistência. O “efeito Francisco”, por mais desconcertante que tenha sido, serviu — como um estranho profeta de fábula — para revelar as fragilidades e descompassos da vida católica contemporânea. Mostrou-nos que há um tradicionalismo que resistiu não por nostalgia, mas por convicção; e que há um catolicismo midiático que, por evitar as perguntas difíceis, agora precisa dar respostas inevitáveis.

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Surpreendidos pela Esperança. Reações tradicionalistas ao Papa Leão XIV.

É evidente — e há evidências que não se provam, mas se sentem, como o perfume de uma vela recém-apagada — que existem tradicionalistas feridos, desconfiados, com olhos treinados para ver o erro antes da esperança. Homens endurecidos pela guerra, tão acostumados ao cerco que já não sabem distinguir o soar dos sinos do estourar das bombas. Sim, alguns deles ainda esperam o “Papa tradicional” como se esperassem um comandante para a última cruzada. E se não o veem surgir no balcão da bênção, franzem o cenho e armam o coração.

Mas eis o milagre: a maioria dos grandes nomes do Tradicionalismo, esses mesmos que há pouco estavam nas trincheiras, levantou os olhos... e baixou as armas. Porque não é sempre que o céu troveja — às vezes ele chora, às vezes sorri. E desta vez, parece que sorriu.

No dia 1º de Leão XIV, não ouvimos o som de escudos se batendo, nem de lanças se quebrando. O que ouvimos foi mais parecido com um suspiro.

— Taylor Marshall, que alguns esperavam encontrar de espada desembainhada, disse simplesmente: “Eu me submeto a Leão XIV.”

— Peter Kwasniewski, que raramente escolhe palavras leves, afirmou com sobriedade: “Considero esse pânico com Leão XIV um erro.”

— Michael Matt, veterano das trincheiras, exclamou: “Devemos dar a Leão XIV o benefício da dúvida. Não há razão para entrarmos em pânico.”

— Bonifácio, do Unam Sanctam, confessou, quase com ternura: “O Papa Leão parece ser um homem genuinamente bom. Senti por ele um afeto paterno sincero.”

— E o editorial do Rorate Caeli, com uma simplicidade desarmada, escreveu com singeleza: “Podem nos criticar o quanto quiserem, mas sentimos uma afinidade cada vez mais calorosa por Leão XIV. Que os católicos tradicionais deem ao novo Papa o amor, a estima, o respeito e as orações que ele merece. Livremente, sem medo, esperando o melhor.”

Ora, isso não é pouco. É como ver, depois de uma longa noite difícil de batalha, a primeira linha dourada da alvorada. Durante os últimos anos, o clima na Igreja foi de guerra — uma guerra fria, silenciosa e invisível, mas profundamente real. As palavras carregavam pólvora. Os olhares, suspeita. E os fiéis andavam como quem pisa em terreno minado, sem saber onde ainda se podia amar a Igreja sem ser acusado de ódio.

Mas, de repente — como num desses momentos em que o Céu resolve brincar de poeta — tudo mudou.

Não veio o raio. Não veio o trovão. Veio... uma brisa. Suave. Como aquela que Elias ouviu na caverna. Como o sopro que antecede a paz. Como a mão de uma mãe no rosto do filho assustado.

E então todos se entreolharam, como que saindo de um pesadelo, e perguntaram baixinho num misto de confusão e esperança: “Foi... Deus?”

E o que se seguiu foi estranho, belo, inesperado: do medo, nasceu o alívio; e do alívio, uma alegria tímida, mas verdadeira. Uma alegria que não grita nem dança, mas que chora em silêncio. Como quem, depois de muito tempo, reencontra um pai. E percebe que ainda é filho.

Muitos, ao olharem o trono de Pedro, esperavam encontrar um administrador tirano de ruínas, um burocrata de esperanças mortas, um eco do passado recente. E então — num gesto tão calmo que pareceu eterno — apareceu um homem que disse: “É necessário que Cristo cresça e eu diminua.”

Esperávamos um lobo. E vimos o Bom Pastor.

É uma dessas viradas que só o Céu sabe fazer. É uma daquelas ironias divinas em que só podemos sorrir, desconcertados e agradecidos.

Os católicos tradicionais foram pintados nos últimos tempos como se fossem demônios vestidos de rendas, vampiros da sacristia, inquisidores ressuscitados das cinzas. E ainda há viúvas de tiranias que os tratam como tal. Mas eles — injustamente acusados, caricaturados, abandonados como se fossem filhos malditos da própria Igreja — não pediam um papa tradicionalista. Pediam um pai. E agora que o veem surgir, muitos se descobriram prontos para amar — não por estratégia, nem por cálculo, mas porque o coração, depois de muito tempo sob o peso da cruz, finalmente respirou.

A verdade é que não viam a hora de poder amar novamente o pai. Porque o Papa não precisa ser um tradicionalista para ser amado. Basta, como Cristo, ser pai.

quinta-feira, 24 de abril de 2025

Entre a fumaça branca e a fumaça woke: a morte de Francisco e as perspectivas para o próximo conclave.

A morte de um Papa é, por definição, um evento de luto. Mas, para muitos católicos, especialmente os que ainda rezam em latim e acreditam em anjos com espadas flamejantes, a notícia da morte de Francisco foi recebida com um misto de sobriedade e esperança, como se após longos anos no deserto alguém tivesse finalmente encontrado um oásis… ou, ao menos, parado de caminhar em círculos. O conclave se aproxima. E se alguns esperam por continuidade, outros imploram por conversão. Não do Papa, mas dos cardeais.

Com ligeiro atraso — porque o tempo da eternidade não se mede em minutos — comentamos a maior notícia da semana: a morte do Papa Francisco. Sua partida, embora há muito aguardada pelos oráculos e pelos boletins médicos, foi súbita. O Vaticano informou que o pontífice sucumbiu a um acidente vascular cerebral, seguido de parada cardiorrespiratória. Não teve tempo de pronunciar suas últimas palavras, tampouco de receber os últimos sacramentos, ao contrário de São João Paulo II e do contemplativo Bento XVI, que expirou enquanto rezava, como nos contou seu secretário pessoal, Dom Georg GänsweinRezando — como quem sabe que está prestes a encontrar Aquele que é.

Não faremos aqui um elogio fúnebre. Nem um dossiê de erros. Já o dissemos antes — com a reverência de um servo ferido, mas não rebelde — que foi um tempo difícil para os católicos tradicionais. Mas como ensinou Nosso Senhor, “deixai os mortos sepultar os seus mortos”. O luto cristão não é um memorial de mágoas, mas uma esperança vestida de luto.

A este Papa, desejamos sinceramente a salvação de sua alma e oferecemos nossas orações em sufrágio. O juízo eterno já foi pronunciado — e foi feito por Aquele cujas balanças são mais exatas que os nossos artigos. E, diferente do Twitter, no Céu não há botão de editar.

O conclave se aproxima. Um conclave é sempre um mistério envolto em fumaça, mas hoje em dia também é um evento midiático com ares de eleição parlamentar. Homens com anéis, celulares e simpatias pelo Greenpeace decidirão quem sentará na cadeira do pescador. E o que está em jogo é mais do que a sucessão de um pontífice: é a continuidade — ou não — de um projeto de Igreja que parece ter sido escrito numa reunião de marketing da ONU.

O que nos preocupa, de fato, é o que virá. Sim, porque um Papa pode morrer, mas a barca de Pedro não naufraga — apenas muda de timoneiro. A eleição vindoura dirá se o espírito do pontificado de Francisco encontrará continuação ou se a Igreja, como quem desperta de um longo torpor, respirará novamente com os pulmões da Tradição. Esperamos, com humildade e firmeza, que respire.

Não é segredo para ninguém que, sob Francisco, o catolicismo progressista recebeu não apenas abrigo, mas alforria. Bispos conservadores foram depostos, comunidades tridentinas desfeitas, e as teologias da libertação e da inversão sexual tiveram projeção inédita — tudo sob a justificativa de uma Igreja que "não se fecha em si mesma", como se a verdade precisasse de arejamento, e as doutrinas eternas passaram a conviver com “desenvolvimentos pastorais” que lembram mais liquidação de fim de estoque do que teologia.

Mas a realidade, essa senhora impiedosa, é que 80% dos cardeais eleitores foram escolhidos por Francisco. Ou seja: o conclave está para o pontificado como a sobremesa está para o jantar — geralmente repete o sabor do prato principal.

Eis os favoritos da casa:

1. Pietro Parolin, organizador nato e inimigo declarado da Missa Tridentina — um Francisco com Excel.

2. Luis Antonio Tagle, "Imagine all the people"… sem missa tridentina.

3. Matteo Zuppi, autor de prefácio para livro de teologia LGBT. Um cardeal que fala muito em pontes, mas não parece saber onde termina a margem do Evangelho.

4. Jean-Marc Aveline, acredita tanto no ecumenismo que talvez seja capaz de canonizar Lutero, Ghandi e Pikachu.

5. Péter Erdo, canonista húngaro, meio conservador, meio neutro — ou seja, um meio termo que pode pender.

6. Robert Sarah, o último dos moicanos. Tradicional, santo, litúrgico — mas, talvez, santo demais para ser eleito.

Se os de primeira linha tropeçarem, a segunda linha pode surpreender. A esperança, essa danada de virtude teologal, espreita candidatos mais palatáveis. É provável que emergam os nomes da retaguarda — que, em matéria de fé, muitas vezes são os verdadeiros guardiões da frente:

1. Pierbattista Pizzabala, patriarca latino de Jerusalém — nomeado por Taylor Marshall,  o que já é uma curiosidade.

2. Malcolm Ranjith, do Sri Lanka, tradicional e corajoso — proibiu acólitas. Não teme as meninas, o que é raro hoje em dia.

3. Gerhard Müller, ex-prefeito da CDF, teólogo nato. O problema é que tem amigos demais entre os liberais — e isso costuma ser contagioso.

4. Raymond Leo Burke, leão da Tradição. Mas o leão ruge isolado — e o conclave prefere os pastores mudos.

5. William Eijk. Holandês, conservador e crítico da exortação Amoris Laetitia. Não sabemos se é um defensor da Missa Tradicional, mas é um nome para se guardar no bolso.

6. Orani Tempesta. brasileiro, monge, e amante da Missa Tradicional. Colocado aqui não por força diplomática, mas por profecia — o que não se deve ignorar levianamente.

Este blog não finge: quer um Papa tradicional. Que ame a Missa Antiga, tema o Inferno e ignore as estatísticas do Pew Research. Um homem com espinha dorsal, joelhos no chão e o Catecismo no coração. Um camponês da eternidade.

E por isso, nossa torcida é clara:

1. Sarah;

2. Burke;

3. Ranjith;

4. Müller.

Se vier um milagre, agradeceremos. Se não, nos resta a paciência dos mártires e a ironia dos profetas.

Contudo, em que pese as nossas preferências, é preciso lembrar que o colégio cardinalício, desde sua formalização no século XII, raramente produziu santos. As escolhas, não raro, privilegiaram a administração em detrimento da santidade, como se o Reino de Deus dependesse de planilhas.

Hoje, os cardeais parecem mais preocupados com:

1. Administração (o Vaticano está falido, não se esqueça);

2. Imagem pública (não se pode ter um Papa que seja cancelável no Twitter);

3. Unidade institucional (não a da fé — essa é secundária — mas a dos departamentos e fundações).

Esses critérios produzem Parolins, Zuppis e Avelines. Mas talvez — talvez! — Deus nos surpreenda, como fez tantas vezes ao longo da história. Talvez surja um moderado conservador, um Erdo, um Pizzaballa, um Eijk. Talvez, o Espírito Santo, cansado de ser citado como desculpa para ambiguidades, queira ser obedecido.

O que esperamos é que o próximo pontífice seja inspirado pelo Espírito Santo e lembre, a despeito de todo seu passado progressista ou conservador, do primeiro dever da Cátedra Petrina, isto é, guardar o Depósito da Fé, como nos ensina o imortal Concílio Vaticano I:

"Pois o Espírito Santo foi prometido aos sucessores de Pedro, não para que, por sua revelação, tornassem conhecida alguma nova doutrina, mas para que, com sua assistência, guardassem religiosamente e expusesse fielmente a revelação ou depósito da fé transmitido pelos apóstolos."  (Concílio Vaticano I, Sessão 4, Capítulo 4)

E guardar também as grandes tradições da Igreja, como exigia o antigo juramento papal:

"Manter a disciplina e o rito da Igreja, como os encontrei e como os descobri dados pelos meus santos predecessores, invioláveis." (Patrologia Latina, 105, 42C (Liber Diurnos Romanorum Pontificul, Lib. II, Titulum VII))

Conclusão

E o que nos resta?

Nos resta a fé. Não a fé nos homens de púrpura, mas naquele que escolheu fundar a Igreja sobre Pedro — um pescador impulsivo, e não um diplomata emérito. A Igreja sobreviveu a imperadores, a invasões bárbaras e até a certos papas. Sobreviverá também a este conclave. Ou não. Mas a Igreja é mais velha que qualquer coisa escrita contra ela, e mais jovem que qualquer moda que tente superá-la.

Se o próximo Papa for um santo, louvado seja Deus. Se for apenas um bom administrador, rezemos. Se for um desastre, então preparemos as catacumbas. Já estivemos lá antes. E, ao contrário do que dizem os teólogos da moda, os cristãos são mais perigosos quando estão nas sombras.

Que venha a fumaça — e que, por milagre ou misericórdia, seja branca.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Rejeito a Carona (Augusto Pola Junior)


Um amigo perguntou-me se eu iria falar da questão da “conversão” de Pedro Affonseca, ex-presidente do Centro Dom Bosco (CDB) que recentemente fez um “mea culpa” em favor de uma, digamos, vida paroquial mais pacífica. Respondi que não tinha interesse, pois o drama da Igreja pós-conciliar, cujos maus frutos são vistos nas paróquias, e cuja esperança de mudança não são vistas no horizonte quando se está dentro desses muros oficialistas, é realmente causador de dissonâncias cognitivas grandes. Diante da visão tradicional em contraste com os hábitos paroquiais, na impossibilidade de haver harmonia entre ambos, não cabe a mim ser fiscal de sua consciência. Se ele acha que seu tesouro está na paróquia e quer vender todos os bens para estar nesse terreno, que seja.

Em vídeos anteriores, ainda na época de CDB, Pedro Affonseca tinha dito que era continuísta, mas depois, estudando a crise, passou a ser tradicionalista, embora sem querer moralizar os continuístas, respeitando-os. Recentemente se retratou desta sua postura anterior, optando por “ficar em harmonia com a hierarquia da Igreja”, concretamente em sua paróquia. Ok. Minha opinião sobre isso nem é capaz de mudar sua situação, nem é importante. O máximo que fiz foi, no privado com alguns amigos, compartilhar algumas análises de conjunturas e fazer algumas ironias sobre a situação precária da Igreja. É que a repercussão sobre o vídeo do Pedro não é uma causa, mas o efeito de um estado de coisas. Estou mais interessado neste âmbito.

Mas isso é como eu decidi agir diante deste caso. Diferentemente é a mentalidade do influencer que precisa usar o caso para seu benefício. É o que fez o Santa Carona, que em seu Instagram montou todo um carrossel de textos e imagens que vamos analisar. Novamente, não estou interessado no Pedro (como ironizei em meu Facebook, sua retratação em nada impacta a indústria de anime, então, segundo este critério, não é importante), mas no âmbito mais psicológico-sociológico e, por que não, teológico (quando aplicável).


Mas que raio de título é esse? Tentação de Sempre? Até onde sei, a tentação de sempre é o “SEREIS COMO DEUSES”, ou seja, o pensamento que, uma vez consentido, causou o Pecado Original. O que isso tem a ver com uma posição diante da crise? Embora possa haver soberba em torno do debate acerca da crise da Igreja, tal vício capital não é exclusividade de uma só corrente. Todos – tradicionalistas, carismáticos, tradismáticos, continuístas, libertários, etc. – podem ter sua posição tanto por soberba (para querer se sentir superior aos outros ou para que suas próprias idiossincrasias estejam acima do bem e da verdade) quanto por humildade (de tudo que sabe e estudou, tem esse opinião).

Este título carrega consigo não só aquele sensacionalismo de que os influencers adoram (ditadura do like, como criticam corretamente os libertários, ainda que por motivos errados), mas também uma sugestão perniciosa, a saber, que a posição tradicionalista é fruto de uma tentação (a de sempre) enquanto que a posição continuísta estaria livre, não em potência, mas em ato, desta tentação.

Ainda bem que se trata de uma carona. Se fosse taxista, só pelo título já suspeitaria de que estaria trapaceando no taxímetro.


Claro, parou.




Parece que sentiu peso na consciência por criticar a hierarquia. Bom, isso é problema dele. Como não estou interessado no Pedro, mas na análise influencerística do Santa Carona, sigamos.





Zelo pelo sagrado é uma virtude. O problema dos zelotas é que trocaram o zelo religioso pela ambição política. O religioso deveria servir aos fins políticos, o que é obviamente uma inversão, o correto é que o poder temporal seja submisso ao poder religioso. Os zelotas inverteram os princípios. Neste sentido, descendente dos zelotas, hoje, seriam os teólogos da libertação ou, em sinal oposto a estes, os conservadores-direitistas, muito afoitos às narrativas ideológicas da política atual, não os tradicionalistas, que por princípio militam pelo Reinado Social de Cristo.

Aliás, o zelo, como dito, é uma virtude, muito em falta em nossos dias. Pecam terrivelmente pela falta de zelo, por exemplo, os laxistas, dentre os quais muito são conservadores-continuístas. É um zelo a mulher usar véu em lugar sagrado, ratificado perenemente por nada mais nada menos que São Paulo, mas os continuístas acham estranho usar véu. É um zelo comungar na boca e de joelhos, mas a maioria dos católicos não o fazem, apegando-se ao argumento do “direito” sobre a piedade. É um zelo o canto gregoriano na Missa, mas os continuístas não fazem questão de militar pela qualidade da música litúrgica… E assim poderíamos seguir passando por vários tópicos. O que quero mostrar é que essa falta de zelo é sempre em favor dos costumes do mundo contra o costumes tradicionais da Igreja (nem vou adentrar na questão doutrinal que fundamentam tais práticas, coloquemos em termo de costume, do jeito que o conservador gosta). Sendo assim, quem é mais zelota, espiritualmente falando, os tradicionalistas ou os continuístas, sobretudo em seu subgrupo laxistas?


As consequências do pensamento zelota não podem deixar de ser catastróficas, pois é a inversão da ordem que coloca o religioso a serviço de objetivos políticos.

Agora, o que isso tem a ver com os tradicionalistas? Estes não têm nem estão lutando pelo poder político. Quanto ao poder eclesiástico, eles são perseguidos. Por mais que se diga que se deva acolher a “todos, todos e todos”, sabe-se que, na prática, os tradicionalistas não são bem-vindos nas paróquias. Ademais, são, segundo a quantidade, minoritários. Tudo o que os tradicionalistas têm é a defesa de um conjunto de teses críticas ao Concílio Vaticano II, argumentando que dito Concílio rompeu com a ortodoxia da fé. Ou seja, o âmbito de influencia das correntes tradicionalistas é o campo cultural, sem influência sobre o poder eclesiástico vigente.

O tradicionalismo cresce “por fora” da Igreja, porque “por dentro” são perseguidos.


A preocupação dos zelotas era terrena. Quem se enquadraria melhor na descrição de “zelo exacerbado e desordenado pelo Templo” é o fariseu, justamente quem mandava no templo, quem detinha o poder espiritual. E precisamente porque não queriam que alguém reinasse acima deles no Templo, mataram o próprio Deus.

Toda uma bizarra analogia com os zelotas para chegar no grosseiro sofisma de que a culpa é do mensageiro?

Se as coisas estão ruins, a culpa não é do reformador e de quem detém o poder da ação concreta, mas de quem denuncia os maus frutos?

Malvados “zelotas” que falam o que estão vendo. Seria melhor que fizesse como o avestruz, que enterra a cabeça na terra para não ver.

forma mentis do Carona lembra-me uma passagem que escrevi na Apresentação da edição que fizemos das obras morais e pastorais de Santo Agostinho:

"Havia na época de Santo Agostinho os hereges priscilianistas que, além de muitas heresias doutrinais, defendiam um método de atuação a partir de um pensamento permissivo à mentira: “pode-se mentir para converter o próximo à nossa religião”. Por conta disso, eles fingiam ser católicos para, quando tivessem oportunidade, convencer os católicos a apostasiarem em favor da heresia de Prisciliano. Consêncio está preocupado com a refutação das heresias, e nisto foi elogiado pelo Doutor da Igreja, e com o desmascaramento dos hereges que se fingem de católicos para enganar os católicos. Neste ponto, consulta Santo Agostinho para saber se seria uma boa ideia imitar o método priscilianista “para o bem”, ou seja, mentir para fazer-se passar por priscilianista a fim de os converter à fé católica, isto é, à Verdade, ou pelo menos, quando isso não fosse possível, os descobrir para que não mais pudessem mais atuar a modo de espião no meio católico.

Eis uma obra obrigatória [A obra Contra a Mentira] para qualquer teólogo pastoralista moderno, incluindo também os defensores do ecumenismo irenista moderno, cuja abordagem pastoral se tornou hegemônica no período após o Concílio Vaticano II. Descobrirão que Santo Agostinho já refutava e previa o fracasso de seus intentos pastoralistas, pois, em relação ao que praticam hoje, no que diferem em essência do método priscilianista?

Em nome de um diálogo ecumênico, por exemplo, os católicos não devem fingir que a devoção aos Santos e a Nossa Senhora não são, assim, tão importantes? Não cedem os bispos as suas igrejas para serem sacrilegamente profanadas pelos cultos de falsas religiões? Não são marginalizados os católicos polemistas, porque supostamente estariam atrapalhando a pastoral da igreja com seus discursos dito rígidos? Na conversão dos próprios jovens, não omitem os padres aqueles preceitos doutrinais que mais contrastam contra o mundo moderno, principalmente os de modéstia e castidade, porque isso supostamente os entristeceria de praticar a religião? E o que dizer dos casados? Estaria a castidade conjugal fora de moda? E para que combater o feminismo em favor dos conselhos do Apóstolo Paulo aos Efésios, se em nome da “adaptação para conversão” a Igreja pode incentivar disciplinas feministas, até chegar ao ponto de aceitar que acessem a Sagrada Comunhão os adúlteros recasados? E o termo empregado para permitir esses e outros desvios escandalosos não é o tal do “discernimento pastoral”?"

Em nada ficaria surpreso Santo Agostinho em ver que, diante de tal pastoral enlouquecida, ou mais precisamente, mentirosa, pois não são estas as práticas que a Igreja crê e defende, mesmo os católicos supostamente convertidos seriam mais mundanos do que católicos, uma espécie de pagão batizado:

Ficaria, pois, muito claro que não hesitamos em condenar, com toda a sinceridade de nossa piedade, os perversos erros da heresia priscilianista acerca de Deus, da alma, do corpo e de outros temas; porém, no que se refere a mentir para ocultar a verdade, admitiríamos (Deus nos livre!) um dogma comum com eles? Ora, este é um mal tão grande, que mesmo se nosso empenho de os capturar e os mudar por meio da mentira prosperasse, de modo que fossem conquistados e mudados, nenhum ganho compensaria o dano que resultou disso: nós mesmos nos corrompemos ao buscar sua correção. De fato, ao utilizar este embuste, perverteríamos a nós mesmos em parte, e eles seriam corrigidos pela metade, visto que não corrigiríamos neles a opinião errônea de que se pode mentir em prol da verdade, pois seria o que lhes ensinaríamos e lhes mandaríamos pôr em prática a fim de poder capturá-los. E assim, não os emendaríamos ao não lhes arrancar essa patranha pela qual creem que se possa camuflar a verdade, e, além disso, enganaríamos a nós mesmos ao lhes buscar por meio dessa falsidade. Ademais, nunca poderemos saber a sinceridade da conversão daqueles aos quais mentimos quando estavam na perversão, pois provavelmente farão, uma vez capturados, o que fizemos para capturá-los, e não só porque estavam acostumados a fazê-lo, mas também porque encontraram o mesmo comportamento conosco” (Santo Agostinho, Contra a Mentira, 6)

Em essência, a pastoral moderna, que é permissiva com os pecados do mundo, e, por isso, favorece a corrupção dos costumes, junto com seu ecumenismo moderno, que pratica o relativismo religioso e favorece a difusão de heresias e erros doutrinais, já nasceram para fracassar. Não tinha como dar certo."

É verdade que Santa Carona não chega ao absurdo de propor a mentira, mas a simples omissão para “não expor” as fragilidades. Todavia, tais fragilidades são fruto de má doutrina e, portanto, expô-las não é zelo excessivo, mas zelo.

Estão errados os tradicionalistas em seus argumentos? Denunciam erros que não são erros? Que sejam refutados ou contrapostos. Rotulá-los de “zelotas”, porém, é desonesto.

O problema é que fazer isso significa adentrar no mérito de questões sensíveis. E para o Santa Carona, fazer isso não é zelo, mas “expor a fragilidade da Igreja”, como se a Igreja estivesse fragilizada por causa de seus críticos, e não por causa de heresias que obscurecem a sua pureza doutrinal…

É arriscado pegar carona com esse tipo de miopia.


Também não me espanta, ainda que por motivos diferentes do Carona. De fato, a dinâmica hodierna das paróquias modernas não são harmonizáveis com o conhecimento da Crise da Igreja à luz da Tradição. É um contraste muito grande que vai desde a música litúrgica (normalização do violão) até conteúdo catequético.


Novamente demonstração da miopia do Carona. Mas antes, vamos colocar um pingo no "i".

É um elemento desonesto da retórica na internet chamar de ataque o que é crítica. Santa Carona faz isso. Espero que o faça por vício inconsciente de influencers, que por usar muito a internet acaba pegando, sem notar, muitos cacoetes. Mas ataque é diferente de crítica. Quem ataca a Igreja é, doutrinalmente, a heresia, e, moralmente, os pecados públicos, que, por causa de seu mau exemplo, induzindo outros ao pecado e ao erro, se chamam escândalos.

Quem refuta uma heresia ou critica escândalos pratica um ato de zelo, na esteia de como disse Santo Agostinho: “Ficaria, pois, muito claro que não hesitamos em condenar, com toda a sinceridade de nossa piedade, os perversos erros da heresia“.

Os apostolados tradicionais não são um tabloide ou mídia de fofoca, senão que seus discursos, em sua atuação polêmica-intraeclesiástica – versam sobre a crise e/ou sobre os efeitos gerados por ela.

Ademais, os escândalos e heresias são tanto mais graves quanto mais alta é a hierarquia de quem cai neles. Assim, por ser maior os escândalos causados por prelados, maior a necessidade de corrigi-lo, sob risco de outras almas – sobretudo as sem instrução – perecerem juntas.


Outros artigos [aqui e aqui] já lidaram recentemente sobre essa questão do tradicionalista e a vida paroquial. Mas volto a repetir: Se a vida paroquial é nociva ao progresso espiritual [por causa do tal aggiornamento pós-conciliar que impregnou na pastoralidade moderna], é prudente o afastamento (que não necessariamente significa isolamento).

Sobre “se refugiar em centros ideológicos”, aqui já saímos da miopia para adentrar na absurdidade.

O “Maledicente Carona” sugere que a vida paroquial não é ideológica enquanto que os centros – associações civis criadas por católicos – o são. Primeiramente, não é porque uma associação de leigos católicos não está sob jurisdição paroquial que ela é ideológica. Segundo, sobre ideologia nas paróquias, basta voltar ao que escrevi na Apresentação que reuniu algumas obras de Santo Agostinho.

A coisa é absurda, porque é uma completa inversão. Centros como o Dom Bosco buscam ter uma forte base tomista, cuja característica é não ser ideológica. As paróquias, em geral, estão mais ou menos contaminadas por uma corrente teológico-ideológica chamada “Nova Teologia”.

Ok, talvez eu esteja sendo injusto com o Santa Carona. Ele toma paróquia em seu sentido ideal, que significa “estabelecimento no estrangeiro”. Seria o local onde os leigos, após seu período de trabalho no mundo, mas não sendo do mundo, iriam para poder estar em casa, ou seja, seguros quanto aos ensinos e atividades, todos eles iluminados pela fé e aquecidos pela caridade.

Ó Carona, pretensamente Santa, que imagem fazes da paróquia? Medita, recomendo, a passagem de São Lucas 18,1: “Acaso quando o filho homem voltar achará a fé na terra?”. Medita o que o Catecismo atual da Igreja (não vou recomendar o Catecismo Romano de Trento, para não soar ideológico) em seu n. 675: “Antes da vinda de Cristo, a Igreja deverá passar por uma prova final, que abalará a fé de numerosos crentes. A perseguição, que acompanha a sua peregrinação na Terra, porá a descoberto o «mistério da iniquidade», sob a forma duma impostura religiosa, que trará aos homens uma solução aparente para os seus problemas, à custa da apostasia da verdade. A suprema impostura religiosa é a do Anticristo, isto é, dum pseudo-messianismo em que o homem se glorifica a si mesmo, substituindo-se a Deus e ao Messias Encarnado“.

Medita e depois responde: Estão as paróquias blindadas da impostura religiosa? Coloque os óculos para não ver miopemente, e responde: A substituição do canto gregoriano por ritmos mais sentimentais, o padre rezando de frente ao povo, o leigo leitor em substituição às ordens menores, o não-uso do véu, a comunhão na mão, a imodéstia feminina, o dialoguismo, a escassez de parresia, etc., está mais próximo do homem que glorifica a Deus ou do homem que glorifica a si mesmo?

Responde Carona, quem é o responsável por esse estado de coisas? Todo esse turbilhão humanista (humanismo será a religião do Anticristo, isto é, o homem que se glorifica a si mesmo) propicia ou atrapalha o progresso na santidade?

Não é na Eucaristia onde mais gloriamos a Deus? Então por que a liturgia é onde a coisa está mais avacalhada? Por que é tão difícil achar um lugar onde a Adoração Eucarística seja feita de maneira recolhida, sem o barulho dos instrumentos e dos ritmos mundanos?

A realidade paroquial está ruim. E o que você faz? Culpa quem é vítima desse estado de coisas!

Honestamente, quem tu achas que causa mais mal do que bem às almas sem instrução, quem denuncia esse estado de coisas, mostrando que há uma riqueza que as próprias autoridades atuais estão escondendo, ou quem, devendo instruir as almas na ortodoxia da Fé, não só não o faz, como ainda o faz ensinando ao modo hegemônico, isto é, humanista?

Carona, para que a Igreja não fosse considerada machista, mudaram a tradução de São Paulo! Não é mais submissão (sede submissas a seus maridos), mas solicitude (sede solícitas). Isto é lido em plena missa, em determinado domingo!

Continuas tankando o que sugeriste? Não há ideologia nas paróquias?

É verdade que dirás, mais a frente, que há muito modernismo nas paróquias. Mas por que deixar vago demais? Por que, não mais sendo míope, mas se cegando, criticas aqueles que com palavras condenam os erros que a hierarquia pratica com ação?


Só pode haver comunhão na verdade. Na Igreja, a comunhão significa, efetivamente, concórdia na Fé. Ou seja, além do batismo (que nos dá a vida sobrenatural) é necessário a integridade da fé.

Aqui evidenciamos novamente a miopia de Carona. Ele inverteu a lógica. diz que “a fé católica só está verdadeiramente viva quando há comunhão com a Igreja”, quando na realidade só há comunhão com a Igreja quando a fé católica está verdadeiramente viva.

A régua não é a comunhão, mas a ortodoxia da fé. Xô fraternidade humanista!

Assim, quando o Papa Francisco mina a ortodoxia, gera escândalo. E criticar – filialmente, claro – o escândalo não será “ferir” a comunhão ou “expor fragilidade”, mas zelo.

forma mentis continuísta é uma bagunça mesmo.

Ele admite, corretamente, uma heresia em roga: o modernismo. Admite que o modernismo é canal para perdição das almas. Admite que invadiu as paróquias. MAS AÍ DE TI SE NÃO FREQUENTAR AS PARÓQUIAS E TENTAR FAZER APOSTOLADO PRESCINDINDO DELAS! Acima de tudo, é preciso a comunhão, embora a heresia não seja fonte de comunhão. Mas estar em comunhão é estar próximo da heresia, de outro modo, seria melhor afastar-se da vida paroquial. Mas se afastar da vida paroquial é não querer pagar o preço da comunhão. E o preço da comunhão é uma vida lado a lado com a heresia, em pleno ambiente paroquial, que é fonte de descomunhão.

Parece contraditório. Mas só o é do ponto de vista Tradicional. Do ponto de vista humanista, é perfeitamente possível conciliar esse estado de coisas. Basta colocar a “paz com o irmão” acima da ortodoxia da fé, e chamar isso de caridade ou prudência. Aos críticos desse estado de coisa – desse “fingimento pastoral-paroquial”, de fingir por exemplo, que comunhão na mão e tão piedoso quanto comunhão na boca, ou que o véu é mera questão de gosto, quando não esquesitice reacionária – basta chamá-los de “revoltosos” que lançam “ataques”. Jogo de linguagem, sim, mas a “comunhão” tem seus preços a pagar…

O Carona mira numa coisa e acerta noutra. De fato, é próprio da estratégia diabólica trabalhar com opostos igualmente errôneos (os revolucionários chamam de dialética e tomam isso como método de vida válido. Sim, os revolucionários pensam segundo a lógica dialética, ou seja, demoníaca). Diante de um problema real, sugerirá o demônio duas soluções falsas, ou se preferir, uma falsa solução à esquerda e uma falsa solução à direita. Em última instância, a nota para discernir se a solução é falsa ou não reside no que eu chamo de “critério do Anticristo”. Se a solução está baseada em humanismo, é falsa; se está baseada na glória de Deus e defesa da fé em sua integralidade, é provavelmente verdadeira.

De fato, diante do modernismo reinante, que atualmente obscurece a verdadeira Igreja, escondendo seus tesouros e combatendo sua Tradição, duas são as atitudes erradas. À esquerda, promover ou ser conivente com a heresia. À direita, revoltar-se contra a autoridade.

Em relação à autoridade, devemos ser dóceis sempre. Porém, não somos kantianos. Não pensamos segundo imperativos categóricos. O princípio da docilidade à autoridade existe porque é obrigação desta zelar (olha o termo de novo) pela verdade e pela retidão. Ora, se a autoridade é pela verdade e pelo bem, é insensatez revoltar-se contra ela. Contudo, quando o que está em jogo é a própria verdade e o próprio bem, a autoridade descumpre seu papel, então, neste caso, é lícito que o inferior não obedeça ao superior (Cf. Suma Teológica, II-II, q. 105, art. 5).

Mas como explicar essas nuances para quem confunde crítica com ataque e revolta?

Os tradicionalistas rezam pelo Papa. Suas adorações, muito mais sóbrias e solenes do que vemos nas paróquias diocesanas, suplicam a Deus a favor do Papa e a favor das autoridades.

Então, sim, a revolta é uma atitude errônea (é por isso que os tradicionalistas não passam pano para os sedevacantistas, senão que os desprezam). Mas também o é a condescendência e a omissão. Em termos de espiritualidade: a mornidão.

É fake news atrelar as críticas à Igreja pós-conciliar a uma atitude, em si, revoltosa. É pelos frutos que conhecereis. Os frutos dos modernismo são maus. Não dá para tapar o sol com a peneira do fingimento nem com truques linguísticos (rotulagem barata, chamar a crítica de ataque, falar de “comunhão” na paróquia num contexto de hegemonia herética, etc).


Deve ser fantástico dirigir-se ao grupo mais perseguido atualmente e, ao mesmo tempo, o mais doutrinalmente correto – os tradicionalistas – para difamá-lo chamando de ideológico e revoltado e, não obstante, crendo-se ser obediente e uma arauto da comunhão. É a receita para praticar o mal em ato, imaginando-se estar fazendo o bem. Cuidemos para não cair na tentação do “Santa” Carona.


Nominalismo nas alturas.

Ao contrário das ideias soltas do Carona, cuja forma mentis já criticamos (mas que ele, se ler, vai entender como um ataque), os católicos tradicionalistas, por sua base tomista, preferem discernir não com base em canetada ou carteiraço, nem surfar em modas doutrinais ou fazer malabarismo com costumes mundanos, mas com base na Tradição Magisterial, uma vez que a Verdade não se contradiz.

Enfim, está batendo num espantalho.


Quanta coragem! Curvar-se, na prática, ao status quo do conservadorismo católico e tornar vago problemas graves concretos no dia a dia paroquial, tudo em nome da “comunhão”, da “obediência” e, claro, implicitamente, da fraternidade #CNBB.

Novamente, não está nem no Catecismo Romano, mas no Catecismo atual (n. 675), “A perseguição (…) porá a descoberto o «mistério da iniquidade», sob a forma duma impostura religiosa, que trará aos homens uma solução aparente para os seus problemas, à custa da apostasia da verdade".

Não é uma impostura religiosa como o modernismo, que é o responsável pelas desordens na vida da Igreja (embora o Carona atribua a culpa aos tradicionalistas por uma inversão que é típica da mentalidade revolucionária), mas está mitigada nas posturas conservadoras e continuístas, onde a defesa da Tradição jamais deve cobrar o preço de descontentar o irmão ou criticar – sem revolta ou ódio, é claro – a má autoridade. Não deixa de ser um apreço por uma falsa paz à custa da apostasia da verdade.

Não se assuste o leitor. Chesterton já via essa marcha revolucionária no espírito conservador: “⁠O mundo está dividido entre conservadores e progressistas. O negócio dos progressistas é continuar cometendo erros. O negócio dos conservadores é evitar que erros sejam corrigidos“. Os católicos tradicionais têm o hábito de denunciar essa dialética hegeliana que faz avançar a Crise da Igreja. Naturalmente, isso causa raiva e unem sinistramente libertários e conservadores em ataque contra os tradicionalistas. Que coisa, não? #quico #chaves

Mas, claro, é sempre possível optar pela “obediência” e pela “comunhão”. Sendo assim, não esqueçamos! Se houver escândalo, ignore, pois, ignorando-o, não irá expor nenhuma fragilidade. Se for criticar, ainda que seja o modernismo, que seja de forma vaga; colocar as coisas em termos concretos pode ofender a sensibilidade dos sem instrução. E se for criticar os tradicionalistas, faça através de um espantalho sem nunca entrar no mérito de suas teses; para isso, chame-os de desobedientes e revoltosos, se eles têm razão ou não, é secundário, que tudo fique de forma vaga. Mais genialmente humanista que isso é impossível.

Fonte: Instituto Santo Atanásio

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