Mostrando postagens com marcador Praia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Praia. Mostrar todas as postagens

sábado, 17 de janeiro de 2026

Conservadores se rendem ao biquíni. Não sobrou nada para a modéstia.


Recentemente, houve grande repercussão nas redes sociais em torno do tema do uso do biquíni. O debate, no entanto, revela menos uma controvérsia moral genuína e mais a confusão generalizada de conservadores católicos acerca da natureza da virtude da modéstia.

Há dois anos, publicamos neste blog o artigo “Conservadores se rendem à imodéstia”, no qual já se apontava um processo de regressão moral: costumes que haviam sido corretamente rejeitados por católicos do espectro conservador passaram a ser novamente tolerados e, depois, defendidos. Desde então, o quadro apenas se agravou. Muitos que se autodenominam conservadores passaram a adotar, na prática, os mesmos critérios morais do progressismo, apenas com uma linguagem diferente.

O episódio mais recente envolve a influenciadora Aimê Gumiero, católica recém-convertida, que afirmou publicamente que o uso de biquíni em praias e piscinas não constitui pecado. Sua argumentação segue um padrão já bastante conhecido.

Primeiramente, ela afirma que a modéstia “não é um conjunto de regras”. Essa afirmação, embora verdadeira em sentido estritamente técnico - pois a modéstia é uma virtude e não um código de direito -, é quase sempre usada de forma sofística. Na prática, serve para esvaziar qualquer critério objetivo e tornar a modéstia refém do julgamento subjetivo do indivíduo. Trata-se de um erro frequente: negar padrões razoáveis em nome de uma virtude supostamente “interior”, quando, na realidade, toda virtude moral possui atos externos regulados pela razão.

Em seguida, Aimê apela à virtude da prudência. Argumenta que a prudência exige adequação da vestimenta ao ambiente: não se usaria biquíni em uma missa, mas seria legítimo usá-lo na praia ou na piscina, pois “é isso que o ambiente pede”. Aqui se encontra um erro clássico: confundir prudência com simples rendição ao ambiente local.

A prudência não consiste em adaptar-se automaticamente aos costumes vigentes, mas em aplicar corretamente os princípios às circunstâncias concretas. Um determinado ambiente pode ser, ele mesmo, objetivamente imodesto. Nesses casos, o católico não apenas não deve conformar-se a ele, como deve evitá-lo, se possível; e, se não for possível evitá-lo, deve agir de modo mais virtuoso do que a média.

Esse princípio é claramente exposto por Pio XI ao tratar de eventos públicos de ginástica:

"Que os pais mantenham suas filhas longe do público de jogos e competições de ginástica, mas se as suas filhas são obrigadas a frequentar essas exposições, deixá-los ver que elas estejam totalmente e modestamente vestidas." (AAS, 1930, vol. 22)

Em outras palavras, se não houver necessidade, devem ser evitados; se houver necessidade, exige-se vestimenta plenamente modesta. O ambiente não legitima a imodéstia; ao contrário, agrava a obrigação de resistir a ela.

A pergunta central, portanto, não é se o biquíni é aceito socialmente na praia, mas se há causa justa para homens e mulheres permanecerem juntos em estado de seminudade. A teologia moral responde negativamente.

Antonio Peinador Navarro em "Cursus Brevior Theologiae Moralis":

"Não devem ser escusados de pecado grave as pessoas de diferente sexo que mutuamente se olham, conversam, passeiam, etc., quase nuas, nos balneários públicos, com trajes sumaríssimos que cobrem apenas as partes genitais dos homens ou das mulheres e os seios destas últimas. Embora não se procurem movidos por má intenção, entretanto o convívio demorado será necessariamente gravemente excitante. Ademais, quem assim se expõe à contemplação pública, comete pecado de grave escândalo" (COCULSA, Madrid, 1956, t. III, p. 596.)

Henry Davis em "Moral and Pastoral Theology":

"Os banhos de sol e de ar tomados juntos por membros de ambos os sexos e sem fantasias são fontes férteis de pecados graves, e não há justificativa para eles. [...] Nos exercícios de ginástica, mesmo quando se usam uniformes, deve-se ter cuidado especial com a modéstia cristã das moças e meninas, que é tão gravemente prejudicada por qualquer tipo de exibição em público." (p. 228, vol. II)

Antonio Royo Marin em "Teologia Moral para Seglares"

"Apresentam especiais perigos as excursões campestres com banho misto em açude ou rio; pois aos inconvenientes do banho público em geral devem acrescentar-se os que provém da frivolidade, leviandade e liberdade excessiva de um dia de excursão. Os pais católicos não permitirão jamais às suas filhas semelhantes excursões mistas." (Moral Especial, 551.6)

Outro ponto relevante é a contradição interna no discurso apresentado por Aimê. Afirma-se que o uso do biquíni seria moralmente aceitável apenas em determinados ambientes; contudo, ao divulgar imagens de si mesma de biquini para toda a internet, elimina-se qualquer noção coerente de “adequação ao ambiente”. A internet não é um espaço privado nem restrito, mas um meio de difusão universal.

Do ponto de vista moral, isso agrava a culpa da influenciadora, pois introduz o elemento do escândalo. A teologia moral é clara ao afirmar que a difusão de imagens provocantes constitui escândalo, na medida em que expõe um número indeterminado de pessoas a tentações.

Relembremos o que disse Teodoro Del Greco em "Compêndio de Teologia Moral" a respeito da divulgação de fotos e imagens de mulheres de biquíni:

"Concursos de Beleza. Outra ocasião de pecado e de cooperação no mal, com escândalo, é constituída hoje pelos chamados "Concursos de Beleza", subproduto de uma sociedade depravada. São concursos de caráter regional, nacional e universal, nos quais é escolhida a jovem que apresenta maiores perfeições de beleza física, para receber o título de "Miss" ou "Rainha". O atual processo seletivo é repugnante não só à consciência cristã, mas também a qualquer pessoa que tenha o mínimo senso de pudor. As candidatas ao título devem usar trajes reduzidíssimos, geralmente de tecido muito sutil, que permita os relevos de todo o corpo, até nas suas partes mais intimas. O exame é longo e minucioso, e o chamado desfile realiza-se perante numeroso público. O fato é reprovável sob todo e qualquer ponto de vista, porque constitui ocasião direta de pecado. A responsabilidade agrava-se, outrossim, pelo escândalo que causa o comparecimento da jovem ante o público muita vez heterogêneo. Isso, sem falar nas fotos e minuciosas mesuras levadas aos quatro ventos pelos rápidos veículos de publicidade, quais são a imprensa, o cinema, o rádio e a televisão." (n. 147)

"É reprovável o costume vigente em muitas academias de exibir aos pintores modelos de mulheres, cobertas somente nas partes genitais. Aqueles que, por necessidade, são obrigados a frequentar tais academias, usando as necessárias cautelas, estão justificados. [...] São escusadas, desde que usem as devidas cautelas somente se isto é o único meio para se livrarem da miséria. (n.226)"

Observa-se que a única razão que a teologia moral justifica uma mulher ficar seminua perante o sexo oposto é a grave necessidade, como realizar um trabalho imodesto para não passar fome. Aimê, no entanto, sem necessidade alguma, divulga imagens suas de biquíni voluntariamente.


O progressismo conservador entra em cena

Depois das declarações iniciais da influenciadora, houve uma reação forte. Muitos católicos perceberam corretamente o problema moral envolvido e criticaram tanto a posição quanto a exposição pública da influenciadora. Até aí, nada de inesperado. O que chama a atenção é o que acontece em seguida.

Entra em cena aquilo que podemos chamar de a ala dos conservadores progressistas. Pessoas que mantêm uma aparência conservadora, mas que, diante de qualquer tensão com o mundo, tendem sistematicamente a ceder nos princípios. É o opusdeísmo cultural por excelência.

Um dia após a polêmica, o Pe. José Eduardo resolve se pronunciar. E aqui precisamos ser claros quanto ao peso disso. Trata-se de um dos sacerdotes mais conhecidos do meio conservador no Brasil, ao lado do Pe. Paulo Ricardo, do Frei Gilson e do Pe. Leonardo Wagner. E esses três têm posições públicas claras e coerentes sobre o tema do biquíni.

O Pe. Paulo Ricardo, ao tratar dos remédios contra a pornografia, insiste na tolerância zero com aquilo que ele chama de soft porn, e cita explicitamente modelos de biquíni como exemplo.


Frei Gilson também já se posicionou contra o uso de biquínis e sungas. 



E o Pe. Leonardo Wagner deu, à época, a resposta mais conhecida e direta sobre o assunto, que se tornou viral.


Aliás, é preciso ressaltar que o Pe. Leonardo Wagner forneceu a visão moral correta acerca da frequência às praias, em plena consonância com o consenso dos teólogos:


Vemos assim que, do ponto de vista da teologia moral, a expectativa era simples: uma resposta objetiva, alinhada com a tradição moral da Igreja e com aquilo que sempre ensinaram os moralistas e os próprios sacerdotes citados. A saber: a condenação do biquíni em banhos mistos.

Mas isso não acontece com o Pe. José Eduardo. Vejamos sua resposta ao problema:

A TRETA DO BIQUÍNI

O debate “biquíni: pode ou não pode?” já nasce defeituoso porque troca a pergunta moral pela pergunta material. E a teologia moral, quando é séria, não começa pela “coisa” (tecido, centímetros, modelo), mas pelo ato humano enquanto escolhido. É exatamente isso que São João Paulo II recorda na Encíclica Veritatis Splendor (nº 78), retomando São Tomás: o “objeto” moral não é a descrição física do que se faz, mas a electio, a escolha deliberada pela qual a vontade assume aquela matéria como expressão de um sentido: de um fim próximo, de um “para quê” concreto.

Em linguagem tomista: o ato moral recebe sua espécie do objeto enquanto ordenado pela razão e querido pela vontade (cf. S. Th. I–II, q. 18). Por isso, “usar biquíni” é uma fórmula moralmente vazia, porque descreve apenas a matéria externa. A mesma matéria pode estar sob escolhas moralmente diversas. Uma mulher pode usar um traje de banho num contexto terapêutico (fisioterapia, tratamento dermatológico, reabilitação), ou num ambiente ordinário de lazer, ou ainda como instrumento de vaidade exibicionista, de sedução deliberada, de provocação calculada. A matéria pode ser parecida; a eleição é outra. E é a eleição que especifica moralmente o ato.

Quando a discussão fica no nível do “pode/não pode”, ela transforma a moral em um catálogo de objetos materiais, como se o pecado estivesse nas coisas; e isso não é catolicismo nem tomismo nem moralidade, é caricatura e burrice qualificada. O que pode ser pecado, quando o é, não é “usar X”, mas escolher X como meio para um fim desordenado: por exemplo, a ostentação de si para dominar olhares, a intenção de excitar a concupiscência alheia, o desprezo prático pela caridade e pelo bem espiritual do próximo, ou a recusa habitual da modéstia como virtude que guarda a dignidade da pessoa.

E aqui aparece por que a internet é um lugar péssimo para esse “debate”: porque o discernimento moral exige atenção às circunstâncias (ambiente, cultura concreta, intenção, previsibilidade do efeito, responsabilidade pelo escândalo em sentido próprio) e até à formação da consciência, coisas que não cabem num tribunal de cliques. Perguntar “biquíni é pecado?” é perguntar errado; a pergunta moral é: que escolha estou fazendo com isso, em que contexto, com que intenção, e que bem estou servindo ou ferindo? Se a conversa não sobe a esse nível, ela não é teologia moral: é só gente brigando por rótulos, com a matéria no lugar onde deveria estar a electio e tentando enfiar a própria ignorância na ignorância do outro.

Eu me pergunto: o que chama mais a atenção, de fato, uma mulher normal de biquíni ou uma mulher estranha parecendo uma muçulmana bem na praia? Ou, será que você está tão bem na pista que vai chamar a atenção dos outros quando nem o seu marido se sente muito interessado em você? Não sei…

Eu não tenho o costume de andar por aí sem camisa, mas, se o fizesse, quem se sentiria atraído por um bucho, cheio por acolá, que nem um boi andando de pé? Imodéstia? Acho que é mais mortificação ao próximo!...

As pessoas ficam nas nuvens, opinando a partir do seu próprio autoritarismo, quando a vida é mais simples para quem é sensato. A minha experiência, francamente, é que ninguém está muito aí para a gente.

A questão é irrelevante, a pergunta está errada e o debate é ocioso.


Em vez de responder diretamente à questão moral - o uso de biquíni na praia - o Pe. José Eduardo passa grande parte de sua manifestação afirmando que “a pergunta está errada”. E aqui já aparece um problema sério. Quando alguém insiste que a pergunta está errada, mas evita responder ao ponto central que move o debate, normalmente isso indica uma fuga do assunto.

Quando o padre afirma que “usar biquíni” é uma fórmula moralmente vazia, ele está abstraindo o problema real. Porque ninguém está discutindo um cenário terapêutico, médico ou de necessidade extrema. O contexto concreto é o banho misto, a praia moderna. E, nesse contexto, a teologia moral nunca considerou a matéria moralmente indiferente.

Quando finalmente o sacerdote se aproxima da resposta concreta, ele abandona completamente o registro teológico e passa ao deboche:

"Será que você está tão bem na pista que vai chamar a atenção dos outros quando nem o seu marido se sente muito interessado em você?"

Isso não é teologia moral. É basicamente ironia fingindo complexidade.

O padre introduz ainda um critério que simplesmente não existe na teologia moral: a autopercepção estética. 

Quando os teólogos tratam de banhos públicos e mistos, não há um único que apresente a autopercepção estética como fator moderador da modéstia, porque ela não pode depender de um critério tão subjetivo, uma vez que busca uma regra comum, objetiva e válida para todos.

E o critério sempre foi este: não é lícito a ninguém - seja gordo, magro, bonito ou feio -expor-se nu ou seminu diante do sexo oposto sem causa grave. Isso decorre do direito natural. As partes íntimas e menos honestas do corpo estão ordenadas à procriação e à intimidade, e por isso devem ser cobertas.

Aliás, todos sabem disso na prática. Basta observar o comportamento em ambientes como baladas. Mulheres que desejam atrair olhares encurtam deliberadamente suas roupas, usam decotes, vestidos justos, minissaias. Isso demonstra que a exposição do corpo não é moralmente neutra e não depende da autopercepção subjetiva, mas da própria natureza do corpo humano e de seus efeitos previsíveis.

Além disso, o critério proposto pelo padre é completamente inútil do ponto de vista moral. Pessoas consideradas feias namoram. Pessoas consideradas feias se casam. Sempre haverá quem se sinta atraído por elas. Logo, a modéstia não pode depender de como alguém se percebe esteticamente. 

O mais grave é que o Pe. José Eduardo sabe disso. Como teólogo moral, ele conhece perfeitamente esses princípios. O problema não é ignorância (ele é muito inteligente), é omissão e tergiversação. E isso ocorre porque ele se encontra engajado numa batalha constante contra grupos tradicionais, que são os que mais combatem a imodéstia. Nota-se no padre que a paixão da disputa domina e a razão começa a ceder.

E isso tem consequências. Almas se perdem. Fiéis se sentem autorizados a continuarem com a vergonhosa defesa do biquíni. A influenciadora que iniciou toda a polêmica se viu confirmada em seu erro. 



O escândalo se espalha.

Aqui precisamos falar também do problema específico das redes sociais. O Pe. José Eduardo tornou-se, na prática, um comentador compulsivo. Tudo vira conteúdo. Tudo vira resposta. Tudo vira provocação. Ele já não fala como teólogo, mas como influenciador que reage ao fluxo da internet. E isso é profundamente nocivo ao múnus sacerdotal.

Aqui relembremos conselhos fundamentais de Santo Afonso de Ligório em "A Selva" para a piedade sacerdotal, que servem muito bem aos nossos tempos marcados por padres influenciadores e tagarelas:

"O padre deve falar pouco. Quem fala muito com os homens, mostra que fala pouco com Deus. As almas de oração são avaras de palavras; quando se abre a boca do forno, escapa-se o calor. Tomás de Kempis diz: É no silêncio que a alma faz progressos. E S. Pedro Damião: O silêncio é o guarda da justiça. O mesmo nos ensina o Espírito Santo: No silêncio e na esperança estará a vossa força. Está no silêncio a nossa força, porque nunca se fala muito sem algum pecado."

"Com doçura: não se deixe ir à cólera nos seus discursos; não deixe escapar palavras injuriosas, mais próprias para azedar os ânimos, que para mover à piedade."

"Por S. Gregório de Nissa é o padre chamado um mestre da santidade. Mas, se o mestre é orgulhoso, como há de ensinar a humildade? Se é intemperante, como há de ensinar a mortificação? Se é vingativo, como ensinará a doçura?"

"Sede pacientes na humilhação. Eis o que nessas circunstâncias é necessário fazer: não se irritar nem se queixar, mas receber esses desprezos como justos castigos dos próprios pecados."

O sacerdote é chamado a ser mestre de santidade. Mas se se deixa dominar pelo orgulho, pela ironia, pela agressividade ou pela necessidade constante de responder, como ensinará humildade, moderação e prudência? O sacerdote ao perder o silêncio perde também a autoridade.

Mas o problema não terminou aí. Em seguida, em nova intervenção, o Pe. José Eduardo declarou estar “preocupado com os homens da nossa geração”, afirmando que muitos não conseguem olhar para uma mulher em traje de banho sem se sentirem tentados. E aqui precisamos parar e analisar com calma, porque essa fala introduz uma inversão moral extremamente grave.



Essa linha de raciocínio dialoga diretamente com o discurso do feminismo católico. Como já analisamos inúmeras vezes, a imodéstia feminina é uma bandeira central do feminismo. Quando mulheres são corrigidas por se vestirem de modo indecente, a resposta quase automática é: “os homens que se controlem”, “cuidem da própria taradice”, “o problema está no olhar masculino”.

É evidente que o homem é moralmente responsável pelo seu olhar. Ninguém nega isso. Homens chamados à castidade devem lutar contra pensamentos, desejos e movimentos desordenados. Contudo, disso não se segue - nem nunca se seguiu - que a mulher esteja dispensada da obrigação da modéstia. A Igreja sempre tratou essas obrigações como complementares, não como excludentes.

Além disso, homens verdadeiramente empenhados na castidade tendem, justamente por isso, a ser mais severos com as ocasiões de pecado. Eles não apenas resistem melhor às tentações, como também continuam exortando contra os trajes indecentes, tanto para elevar o padrão moral da sociedade quanto para evitar recaídas futuras. Como adverte São Paulo: “Aquele que pensa estar de pé, cuide para não cair” (1 Co 10,12).

No contexto concreto dessa polêmica, não se está discutindo “trajes de banho” em sentido genérico. Está-se falando do biquíni, o menor traje de banho existente, que se aproxima o máximo possível da nudez sem sê-lo formalmente. O esforço pela modéstia é unilateralmente do homem neste caso. Não há nenhuma razão proporcional para que mulheres andem com ele em público. Ele é indecente por si mesmo no contexto do banho misto. Por isso, homens estão plenamente justificados em exortar contra o seu uso público, independentemente de se sentirem pessoalmente atraídos ou não.


PS: O padre foi dirigido por padres do Opus Dei... Que surpresa... Só podia ser o Chaves, não?

Aqui ocorre outra distorção grave.

A luta ascética positiva é válida e necessária nas circunstâncias ordinárias da vida: trabalhar, estudar, circular pelas ruas, cumprir os deveres de estado. Nessas situações, o cristão não pode fugir do mundo e deve, de fato, educar seus sentidos e seu interior.

Mas isso não se aplica às ocasiões próximas de pecado. A tradição espiritual é absolutamente clara: diante de uma ocasião próxima e voluntária de pecado, a regra não é “treinar virtude”, mas fugir. A luta, nesse caso, é NEGATIVA. Evita-se o ambiente. Afasta-se da situação. Ninguém é chamado a provar sua virtude se expondo inutilmente ao perigo.

Colocar-se voluntariamente numa ocasião grave sem necessidade é, em si, um pecado. E diversos autores espirituais ensinam que, nessas circunstâncias, Deus não concede a graça eficaz para resistir. Não existe “luta ascética positiva” contra uma praia cheia de pessoas seminuas. O mandamento é simplesmente fugir.


O padre ignora completamente o contexto real em debate. Ou melhor, omite. Uma praia moderna, com milhares de mulheres seminuas, não exige “bisbilhotice” para provocar tentação. Basta enxergar. Apenas um cego não vê. Os exemplos dados - andar na rua, ser abordado por uma mulher mal-vestida - não são comparáveis, porque não envolvem busca voluntária da ocasião. A ida à praia envolve.


Aqui a confusão continua seu curso.

Sim, o mundo oferece inúmeras ocasiões de pecado. Mas isso não significa que todas sejam equivalentes. A teologia moral sempre distinguiu ocasiões remotas de ocasiões próximas, e ocasiões necessárias de ocasiões voluntárias. Pessoas não andam ordinariamente seminuas nas ruas, nos mercados ou nos ambientes de trabalho. A própria defensora do biquíni reconhece isso ao dizer que ele só seria “adequado” à praia e à piscina.

Ao equiparar o ambiente público ordinário à praia moderna, o padre legitima justamente o pior dos ambientes. E, ao fazer isso, libera a prática para os fiéis. É o que se constata nos comentários da publicação.






O resultado é previsível: seguidores sentem-se autorizados não apenas a manter esse costume objetivamente desordenado, mas também a suspeitar de homens que exortam contra ele das piores perversões sexuais possíveis. 


E o mais grave: o argumento não prova absolutamente nada. Não prova que o uso do biquíni seja lícito. Nem prova que quem o critica esteja errado. Pelo contrário.

Primeiro ponto: quem pratica uma virtude adquire maior clareza intelectual para identificar e combater os vícios contrários a ela. O vício, ao contrário, obscurece o juízo prático. Um homem habituado à pornografia torna-se progressivamente mais tolerante às ocasiões próximas. Ele normaliza a nudez, depois a seminudade, e deixa de perceber o problema moral. Esse é um efeito clássico da habituação ao vício. Não há qualquer sentido em pervertidos sexuais serem mais rigorosos com a modéstia do que os virtuosos.

Por isso, todos os conselhos espirituais sérios para o combate à pornografia insistem na eliminação das ocasiões próximas. O Pe. Paulo Ricardo, como vimos, ensina explicitamente que o homem deve evitar olhar mulheres de biquíni. Não se combate uma cultura pornográfica ampliando estímulos sensuais, mas restringindo-os.

Segundo ponto: mesmo que alguém que defenda a modéstia esteja pessoalmente lutando contra um vício sexual, isso não invalida em nada o argumento moral. A verdade de um princípio não depende da santidade subjetiva de quem o enuncia. Um pecador pode exortar legitimamente à virtude.

Um homem pode condenar a gula mesmo sendo obeso. Santo Tomás era obeso, e isso jamais invalidou sua doutrina sobre a temperança. Do mesmo modo, um homem que luta contra a pornografia pode - e deve - condenar trajes imodestos, porque está promovendo um bem objetivo para toda a sociedade.

Mesmo que fosse um hipócrita, o erro estaria apenas na incoerência pessoal, não na verdade defendida. 

No fundo, o que estamos vendo é uma inversão completa: transforma-se a imodéstia em algo neutro, e a defesa da modéstia em suspeita de perversão sexual. Os inimigos da Igreja fazem algo parecido. O movimento LGBT, por exemplo, acusa a Igreja de ser homofóbica justamente por muitos dos seus líderes serem homossexuais, esquecendo-se que isso não torna o pecado da sodomia em algo virtuoso. Esta inversão é satânica, pois consiste exatamente em chamar o mal de bem e o bem de mal.


Conclusão 

Para concluir, é preciso deixar isso absolutamente claro: não estamos discutindo preferências pessoais ou costumes culturais, mas princípios objetivos da moral da Igreja. Quando esses princípios são relativizados, as consequências não são abstratas - são espirituais. Consciências se confundem, o pecado perde sua gravidade e as almas ficam mais vulneráveis à ação do Inimigo.

A modéstia não é opcional nem circunstancial. Ela é uma exigência do direito natural e uma forma concreta de caridade. Enfraquecê-la não protege ninguém; ao contrário, expõe os mais fracos e normaliza ocasiões próximas de pecado.

Sacerdotes têm uma responsabilidade particular nesse ponto. Suas palavras formam consciências. Quando a clareza é substituída por ambiguidades ou por omissões calculadas, o resultado é o escândalo. O sacerdote deixa de ser luz e torna-se pedra de tropeço. 

Por fim, o católico precisa escolher se seguirá a tradição moral da Igreja ou se continuará tentando conciliar a verdade com o espírito do mundo. Essas duas coisas são incompatíveis. É da obediência à verdade que depende a salvação da nossa alma e a vitória de Cristo sobre o pecado.

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Desnudando o "O Catequista". Como "O Catequista" e Miguel Soriani são parte do mesmo problema.

No artigo "Assédio, agressão e ataques à "bolha católica"", comentamos que o caso Miguel Soriani talvez fosse um sinal de uma erosão da nova onda conservadora do Catocilismo pós-pandêmica, essencialmente marcada por ser moralmente laxista, feminista, antitradicional e dinheirista. Argumentamos que o Miguel Soriani era filho dessa onda.

Conforme expomos no artigo "Conservadores católicos se rendem à imodéstia", a página de Instagram O Catequista certamente é um dos maiores expoentes dessa onda. O que decidamente marca a principal característica da página é o seu laxismo moral.

Relembremos que O Catequista já apoiou: católico organizar festa de casamento LGBT, pessoas casadas darem carona para colegas de trabalho do sexo oposto, banhos públicos e mistos, uso de leggings na academia, entre outros.

A lista é imensa e, infelizmente, a tendência é de crescimento.

Recentemente, como dissemos, estorou nas redes sociais o caso Miguel Soriani, um terapeuta católico que vendia cursos e consultoria contra a pornografia, mas que, ao final, sucumbiu a ela e passou a trair a esposa encaminhando nudes para suas seguidores e pedindo o mesmo delas.

A página O Catequista foi uma de muitas que não só criticou o terapeuta como também tirou sarro da situação.


Apesar de Soriani merecer todas as críticas, consideramos o hábito do Catequista e de outras páginas de debocharem dos outros por causa de suas faltas lamentável. A derrisão ou zombaria, que consiste em expor a faltas alheias para ser alvo de chacota dos outros, é pecado, como ensina Antonio Royo Marin em sua "Teologia Moral para Leigos":

"821. Entende-se por zombaria ou derrisão do próximo o vício ou pecado de lançar na face do próximo suas culpas ou defeitos de forma jocosa para envergonhá-lo diante dos demais.

O zombador não trata diretamente de injuriar o próximo (isso é próprio do contumelioso), mas unicamente de ridicularizá-lo diante dos demais. Claro que indiretamente obscurece também a honra do próximo, e neste sentido a derrisão se relaciona muito de perto com a contumélia, da qual constitui uma subespécie.

Este feio pecado se opõe diretamente à justiça - porque viola o direito do próximo ao apreço e estima dos demais - e indiretamente à caridade. Se o zombador pretender diretamente o desprezo do próximo, faltará direta e gravemente à caridade."

Assim, a atitude de O Catequista merece todo o nosso reproche. Porém, o que vamos demonstrar a seguir é que a página, apesar de zombar de Soriani, não é uma real opositora das atitudes dele.

Em uma recente resposta à caixinha de perguntas do Instagram, O Catequista deu uma resposta a respeito da licitude de um católico assistir o reality show "Largados e Pelados". Vejamos:


"Largados e Pelados" é um reality show americano, no qual os participantes são enviados nus para lugares inóspitos para sobreviverem dias ou semanas. Muitos dos participantes são pessoas que não se conhecem, de sexos opostos e até mesmo casadas. Ocorre muito a situação de um homem casado dormir com uma mulher solteira ou casada, ambos nus, numa cabana improvisada.

Devia ser evidente para qualquer católico de consciência bem formada que o reality show é imoral, uma vez que promove o nudismo, a infidelidade e a imodéstia dos participantes. Lembremos que o compartilhamento de leito e cama (tori et mensae) e a visualização da nudez do próximo são direitos exclusivos dos esposos.

Porém, o que são verdades muito evidentes para este modesto blog são coisas inalcançáveis e incompreensíveis para o O Catequista. Notemos como a página responde a pergunta do seguidor.

Primeiro, o O Catequista, que tanto ataca os influencers, responde a pergunta igual um, isto é, dando bronca no seguidor e pedindo pra comprar o seu produto salvador.

Após, a página aborda a questão reduzindo o problema moral do programa à existência ou não de tapa sexo.

A resposta é bastante reveladora, porque, no fundo, traz à luz o que O Catequista verdadeiramente pensa sobre várias coisas. Fica mais fácil entender os seus posicionamentos morais, porque eles nada mais são do que uma consequência lógica da adesão de vários princípios morais laxos. Senão vejamos:

a) Se é possível aceitar que pessoas não casadas durmam juntas nuas, então não há inconveniência de um homem casado dar carona para uma colega do trabalho.

b) Se é possível assistir um programa de pessoas nuas cobertas apenas por um tapa sexo digital, então não há problemas de pessoas seminuas usarem biquínis ou sungas na praia.

c) Se é possível se entreter com um programa que incentiva o nudismo, a luxúria e a infidelidade conjugal, então que mal haveria em levar a família ao Carnaval, à praia ou aos festivais de Halloween?

Daí se vê que a dificuldade da página em condenar entretenimentos notadamente mundados decorre de uma consciência moral deficiente e cauterizada pelo laxismo.

Entretanto, para o que nos interessa neste artigo, a resposta revela ainda mais: o O Catequista adere todos os princípios que levaram Soriani à queda.

Expliquemos.

Ora, se é lícito ao católico assistir um programa de nudismo onde se pratica a infidelidade conjugal, como se pode condenar um homem casado, como Miguel Soriani, pelo compartilhamento de nudes com outras mulheres? 

Diríamos até que o O Catequista incentiva algo ainda mais grave, pois "Largados e Pelados" promove todas essas coisas em rede nacional enquanto Soriani o fez apenas no particular.

Alguém dirá: "Não é a mesma coisa. O Catequista defende o uso de "tapa sexo digital".

Na verdade, é a mesmíssima coisa. Como dissemos em vários lugares deste blog, não é o bastante cobrir as partes íntimas para tornar a coisa aceitável. É gravemente desonesto e pecaminoso não cobrir as partes privadas e semiprivadas quando se está na presença do sexo oposto, conforme ensina Antonio Peinador Navarro em "Cursos Brevior Theologiae Moralis":

"Não devem ser escusados de pecado grave as pessoas de diferente sexo que mutuamente se olham, conversam, passeiam, etc., quase nuas, nos balneários públicos, com trajes sumaríssimos que cobrem apenas as partes genitais dos homens ou das mulheres e os seios destas últimas. Embora não se procurem movidos por má intenção, entretanto o convívio demorado será necessariamente gravemente excitante. Ademais, quem assim se expõe à contemplação pública, comete pecado de grave escândalo" (COCULSA, Madrid, 1956, t. III, p. 596.)

E Dom Pius Mary Noonan em "Fig Leaves Are Not Enough: Open Letters on Modesty in Dress":

"Vamos começar descartando categoricamente e condenando vigorosamente o biquíni, para o qual não há literalmente nenhuma justificativa. Longe de respeitar a medida da modéstia, é o epítome da extrema e grave imodéstia. Embora satisfaça erroneamente o requisito legal de não estar nu (felizmente ainda existem leis na maioria dos lugares que proíbem a nudez pública), não atende aos requisitos da razão. Sejamos claros: usar um biquíni é estar nu, pela simples razão de que o próprio design não deixa opção ao olho a não ser ver as partes que faltam.
Uma observação simples provará meu ponto. Todos nós sabemos por experiência que tudo o que se destaca visualmente irá capturar e prender nossa atenção primeiro. Por exemplo, se temos um grupo de dez pessoas vestidas de preto e uma no meio vestida de vermelho, é a de vermelho que atrai a maior parte da atenção; a vermelha simplesmente se destaca. O primeiro ponto de interesse chama nossa atenção. Aplicando isso ao biquíni, quando o corpo nu de uma mulher tem apenas duas pequenas peças de roupa que cobrem as partes íntimas, mas revelam cuidadosa e intencionalmente sua forma, o olho do observador é, necessariamente, atraído precisamente para essas partes íntimas. Essas pequenas peças de roupa, portanto, não são projetadas para vestir, mas para revelar, atraindo toda a atenção para essa área. Sendo esse o caso, o observador está vendo essas áreas como objetos — isso explica por que o observador tende a objetificar a mulher — em vez de parte da pessoa inteira.⁠ Portanto, fica claro que o biquíni não é projetado para vestir, mas para despir. Em outras palavras, não se qualifica como roupa e parece ter sido projetado para despertar intencionalmente a luxúria nos homens. Aliás, se o biquíni fosse útil para nadar, nadadores profissionais os usariam, mas não o fazem. Sobre esse assunto, quando você for comprar roupas, lembre-se deste ponto fundamental: roupas são sobre esconder. Se você se pegar perguntando o quanto pode escapar em termos do que revela, você não está realmente procurando por roupas, mas por nudez."

Portanto, sim, o O Catequista é do mesmo time de Miguel Soriani. Debocham do último, mas Alexandre e Viviane Varela levam os filhos à praia moderna, com todos os problemas graves de imodéstia que ela tem, e defendem como eventual entretenimento dominical um programa cujo própósito é promover a nudez e a infidelidade matrimonial.  Pelas premissas aderidas pela página até mesmo a Banheira do Gugu estaria liberada para a família católica.

Em um nível mais profundo e considerando os princípios que se adota, portanto, conclui-se que O Catequista não é uma página realmente oposta ao comportamento de pessoas como Soriani, ao contrário, é uma investidora das mesmas ações (Stonks).

A pergunta do seguidor apenas relembrou vagamente ao O Catequista essa singela verdade, mas a página preferiu reprimir a própria consciência e chamar o seguidor de neurótico, maluco e sugerir a busca de um psicoterapeuta (pelos critérios da página podia ser o próprio Soriani).

Esse tipo de pertinácia do O Catequista já vimos em outros lugares, como demonstramos aqui (onde o O Catequista nega que a condenação dos Papas e teólogos dos banhos públicos seja das praias modernas), e não é um bom sinal. Em geral, significa uma cauterização profunda da consciência para diversos pecados.

Esperamos, no entanto, que um dia a página se atente para o que está fazendo e encaminhe seu apostolado para uma direção realmente sadia.


 

sexta-feira, 21 de junho de 2024

Conservadores católicos se rendem à imodéstia.


Breve contextualização

Entre os anos 2011-2019 o catolicismo tradicional atingia seu ápice no Brasil e o que mais se ouvia falar era:

1) Padre Paulo Ricardo;

2) Consagração a Nossa Senhora;

3) Missas Tridentinas;

4) Retomada da modéstia no vestir;

5) "Reforma da Reforma";

6) Uso do véu;

7) Famílias numerosas;

8) Valorização da maternidade;

9) Centros culturais católicos;

10) Livrarias católicas.

Do início da pandemia em 2020, no entanto, cresceu o fenômeno do marketing digital e com ele o número de "influencerscatólicos de estilo "coach" num discurso marcado pelo dinheirismo. A partir de então os valores sacros do catolicismo conservador brasileiro passaram a ser o que nomearemos aqui de "opusdeísmo cultural", isto é, o trabalho, o sucesso na vida e a amizade com o mundo.

(Obs: Não estamos nos opondo à espiritualidade do Opus Dei de buscar a santidade no mundo e pelo trabalho, mas aos erros gerais que a má compreensão dessa espiritualidade trouxe nos últimos anos. Por "opusdeísmo cultural" denominamos esses erros.)

Os frutos do "opusdeísmo cultural" têm sido a frequente contestação da onda tradicional anterior promovendo a atual "vibe" espiritual de seguintes características:

- Sucesso profissional. "Nenhuma pobreza resiste a 14h de trabalho"; "Trabalhe de domingo a domingo". Frases como estas e a hipervalorização do espírito workaholic se tornaram comuns no catolicismo instagrâmico, principalmente entre os homens. Católico de sucesso é o católico milionário.

- Desconstrução da modéstia no vestir. Influencers católicas, principalmente olavetes e marsiletes, fazem chacota do uso de véu, saias e vestidos. Elas precisam acabar com as inimigas "trads". Prega-se então a "modernização", isto é, que mulheres se vistam como executivas de grandes empresas. "Empoderamento" é o espírito que as roupas devem transmitir. Nega-se ainda a necessidade de elevar a modéstia em certos locais onde ela não é garantida como praias e academias, pois a conformidade total com o ambiente que se está é a regra absoluta. Valoriza-se, ademais, a autenticidade ao invés dos princípios de pudor.

- Queda da devoção a Nossa Senhora. Aumento da devoção a São Josemaria Escrivá. Fora dos círculos tradicionais e de grupos como Arautos do Evangelho, não se fala mais em devoção e consagração a Nossa Senhora. Por outro lado, explodiu a devoção a São Josemaria Escrivá. O compartilhamento massivo de frases de "Sulco", "Caminho", "Forja", principalmente aquelas que servem ao estilo "coach" de desenvolvimento pessoal, se tornaram norma nas redes sociais. Aqui, obviamente, os santos não têm culpa. São santos e amamos a todos. No entanto, estamos tentando descrever um fenômeno religioso. Nos últimos anos, o que se observou foi o declínio da devoção mariana (devoção muito característica dos círculos tradicionais), que deveria ser universal, e o aumento da devoção a santos que, de alguma forma, representam o zeigeist católico do momento, o que é muito particular. Não é um problema o aumento da devoção a determinado santo, mas ela deve significar também a manutenção da devoção à Mãe de Deus, a quem devemos culto de hiperdulia. Quando a devoção à Virgem diminui, devoção ínsita do espírito católico, é manifesto que o espírito do mundo de alguma forma tomou conta.

- Feminismo. Surgiram pessoas e apostolados especificamente determinados a zombar da "mulher tradicional", isto é, comprometida com a família. Impugna-se a hierarquia do lar (o marido como chefe), os filhos como fim primário do matrimônio e a necessidade da mulher submeter a vida profissional aos interesses da família. Tratam estas doutrinas como "ideologias da direita" e não como ensinamentos autênticos da Igreja.

- Indiferença à crise litúrgica. Abandonou-se o debate sobre a qualidade das missas. Jargões como "Domingo sem missa, semana sem graça", mesmo numa celebração cheia de abusos litúrgicos e música insuportável, passaram a ser a tônica do momento. De repente, os abusos não têm mais importância, desde que haja muita "devoção" na liturgia. Sem nenhuma surpresa, o carismatismo ganhou grande força entre católicos conservadores nos últimos anos. 

- Mundanização da santidade. O arquétipo de santo para esses católicos é o que chamaremos de "santo de calça jeans", isto é, aquele que se parece mais mundano do que cristão; aquele que pouco renuncia às coisas mundo. É santo, mas vai à praia, à balada, aos shows, etc. Santo não é mais aquele que pratica a caridade e a penitência com heroísmo, e sim aquele que é "feliz por ser católico" e também por ser mundano.

- Coachs e consultorias. Ao invés do estudo sério e pessoal busca-se o conhecimento pronto em um storie de Instagram ou em uma consultoria de R$ 500,00/hora.

Como diria Nosso Senhor, "pelos seus frutos conhecereis a árvore"...

Do combate à modéstia

Como dissemos a desconstrução da modéstia no vestir tem sido uma grande bandeira da nova "vibe" espíritual entre católicos. Compõe esta nova tendência a absoluta ojeriza a princípios e regras na modéstia no vestir. Deve reinar a liberdade e a consciência da pessoa, algo muito próprio do "opusdeísmo" cultural. Esta característica é oriunda do problema da centralidade da consciência na teologia moral contemporânea como bem diagnosticou o teólogo Matthew Levering aqui.

Nas últimas semanas, tem sido notária a campanha por influencers para a descontruir a ideia de que ir à praia e usar biquinis seja um grande problema moral para o católico.

Entendamos esse movimento. Se ir à praia cheia de pessoas do sexo oposto seminuas não é um problema de imodéstia, então absolutamente nada é. Por isso é importante quebrar o "preconceito" contra a praia.

Comecemos a nossa análise pelo comentário da terapeuta católica Angélica Baldi em seu reels do Instagram do dia 06 de junho de 2024:


Angélica define que modéstia é "passar despercebido", que devemos ler o que a realidade nos pede e que isso vale para praias e academias.

Angélica não diz a fonte que define modéstia no vestir como "passar despercebido". Citemos então, por ela, a definição de modéstia de alguns moralistas católicos lidos e recomendados por todos:

Antonio Royo Marín em "Teologia Moral para Seglares":
"É uma virtude derivada da temperança e tem por objeto guardar a devida ordem da razão na disposição do corpo e da vestimenta e no aparato das coisas exteriores." (Moral Especial, 514.1)
Dominic Prümmer em "Handbook of Moral Theology":
"A modéstia no vestir e nos adornos corporais leva a pessoa a evitar não apenas tudo o que é ofensivo e insuficiente, mas também tudo que é desnecessário." (n. 527.4.c)

Augustin Lehmkuhl: em "Theologiae Moralis": 

"A rigor, a modéstia é uma virtude que regula a atitude externa do homem, os movimentos, os gestos e todo o homem externo, para que tudo esteja de acordo com os ditames do decoro e da razão. No qual, é claro, deve-se levar em conta a pessoa, o lugar, o tempo, o negócio, etc." (n. 722)
Notemos, portanto, que "passar despercebido" não integra essencialmente a definição de modéstia. O que integra a modéstia é a ordem da razão na atitude externa do homem. Em uma praia ou academia, onde as pessoas, em regra, estão mal vestidas, dificilmente uma pessoa de ornato modesto irá passar despercebida. Contudo, agindo assim ela estará sendo modesta, apesar de estar sob o olhar atento de todos.

Passemos agora para uma recente postagem da página O Catequista, já bastante conhecida pela sua "opção preferencial pelo laxismo". A página de Viviane e Alexandre Varela publicou, em 17 de junho de 2024, o seguinte reels:


Como já indicamos acima, a nova "vibe" espiritual dos católicos conservadores valoriza acima de tudo a liberdade e a centralidade da consciência sobre a norma moral objetiva. Assim O Catequista, na mesma tendência e para reforçar a liberdade absoluta do católico de ir à praia, utiliza três justificativas:

1) Nenhum Papa proibiu praias ou piscinas mistas.

2) Não se deve confundir ocasião remota de ocasião próxima de pecado.

3) Cada um deve velar pela própria modéstia.

Analisemos. 

De fato, nenhum Papa proibiu explícitamente praias ou piscinas mistas. Contudo, se encontrássemos uma censura papal a ambientes similares a uma praia moderna, isto é, com pessoas de sexos opostos com pouquíssima roupa, poderíamos, com certeza moral, concluir que também há condenação das praias e piscinas mistas.

Pois bem, existe tal censura. Em 1930, o Papa Pio XI fez a seguinte advertência aos pais católicos:
"III. Que os pais mantenham suas filhas longe do público de jogos e competições de ginástica, mas se as suas filhas são obrigadas a frequentar essas exposições, deixá-los ver que elas estejam totalmente e modestamente vestidas."  (AAS, 1930, vol. 22)

Em competições de ginástica, em regra, as mulheres não estão de biquini, mas de "maiôs" ou de vestidos curtos. Este modo de vestir já foi suficiente para Pio XI ordenar que os pais deixassem suas filhas longe do público, isto é, de homens. Este é exatamente o princípio da separação de sexos.

Nota-se ainda que Pio XI escusou a ida de mulheres a esses ambientes apenas se fossem obrigadas a estar neles. E, se fossem, deveriam estar TOTALMENTE vestidas. Assim, caso um católico fosse à praia, onde sabidamente as pessoas estivessem seminuas, ele só poderia estar lá por obrigação, não por opção.

Esta dedução é tão óbvia que a opinião comum dos moralistas a respeito das praias mistas não seguiu de diferente modo. Citemos alguns:

Antonio Royo Marín em "Teologia Moral para Seglares":

"O banho ao ar livre em praias ou piscinas é altamente benéfico e saudável, mas com tal pretexto se cometem gravíssimos escândalos.

O ideal seria a separação absoluta dos sexos, como já se estabeleceu em algumas praias beneméritas e em muitas piscinas públicas." (Moral Especial, 551.6)

Antonio Peinador Navarro em "Cursus Brevior Theologiae Moralis":

"Não devem ser escusados de pecado grave as pessoas de diferente sexo que mutuamente se olham, conversam, passeiam, etc., quase nuas, nos balneários públicos, com trajes sumaríssimos que cobrem apenas as partes genitais dos homens ou das mulheres e os seios destas últimas. Embora não se procurem movidos por má intenção, entretanto o convívio demorado será necessariamente gravemente excitante. Ademais, quem assim se expõe à contemplação pública, comete pecado de grave escândalo" (COCULSA, Madrid, 1956, t. III, p. 596.)

 Henry Davis em "Moral and Pastoral Theology":

"Os banhos de sol e de ar tomados juntos por membros de ambos os sexos e sem fantasias são fontes férteis de pecados graves, e não há justificativa para eles. [...] Nos exercícios de ginástica, mesmo quando se usam uniformes, deve-se ter cuidado especial com a modéstia cristã das moças e meninas, que é tão gravemente prejudicada por qualquer tipo de exibição em público." (p. 228, vol. II)

Pe. José Maria Iraburu em "Elogio ao Pudor":
“Não é decente que homens e mulheres fiquem seminus em praias e piscinas, ou dito de outro modo, é indecente este costume está hoje moralmente aceito pela imensa maioria, também dos cristãos: Mas é mundano, não é cristão. Jesus, Maria e José não aceitariam tal uso, por mais generalizado que estivesse em sua terra e tampouco os santos.

[...] Certas modas, certas praias e piscinas mistas – nas quais é quase eliminado este velamento do corpo humano desejado por Deus – nada mais são do que um costume mundano, certamente contrário ao antigo ensinamento dos Padres e à tradição cristã, que superou o atrevimento dos pagãos. A nudez total ou parcial – relativamente normal no mundo greco-romano, nos banhos, nos ginásios, nos jogos atléticos e nas orgias – foi e tem sido rejeitada pela Igreja sempre e em todo o lado. Voltar a ele não indica nenhum progresso – recuperar a naturalidade do nu, retirando-lhe assim a malícia, generalizando-o, etc. – mas antes uma degradação."
Teodoro Del Greco em "Compêndio de Teologia Moral" aponta que é reprovável a visão de pessoas seminuas:
""É reprovável o costume vigente em muitas academias de exibir aos pintores modelos de mulheres, cobertas somente nas partes genitais. Aqueles que, por necessidade, são obrigados a frequentar tais academias, usando as necessárias cautelas, estão justificados. [...] São escusadas, desde que usem as devidas cautelas somente se isto é o único meio para se livrarem da miséria." (n. 226)

O Pe Antonio Laburu, espanhol, em Conferência na cidade de Bilbao em 1934, disse:

“Se em lugar da farsa farisaica de crer que se cumpre com a consciência de cristãos alargando uns imperceptíveis milímetros ou centímetros nos trajes de banhos e espetáculos para aplacar o peso na consciência e permanecer tranquilos, persuadindo-se que assim já não serão como os demais, se ao invés disto se procede-se com verdadeira perfeição e valentia cristã, ressuscitando os trajes com que nossas gerações se banharam, e com os que não se sufocaram nem perderam a saúde, se conseguiria, além de dar a face pelo pudor - de regressar para os direitos da moral de Jesus vilipendiada -, fixar claramente os campos entre aqueles que em público vendem seus corpos e com ele não lhes importa roubar almas a Deus, nem desprezar o sangue de Jesus Cristo, e os que não se rebaixam ao nível mais abjeto de animalidade e são coerentes com as doutrinas católicas que professam.”

O Episcopado também não ficou indiferente. O I Sínodo da Arquidiocese do Rio de Janeiro em 1949 estabeleceu os seguintes critérios:

"art. 499. A frequência a praias ou piscinas públicas não pode deixar de ser veementemente condenada como atentatória à moral, salvo quando houver a possibilidade de conciliar-se:

a) lugar discreto, ou hora não frequentada indistintamente por todos; 

b) traje decente;

c) companhia escolhida, e nunca mista."

O Pe. Luiz Fernando Pasquotto em Sermão em ocasião do Domingo da Septuagésima faz uma importante citação de um Decreto do Episcopado argentino:
O Episcopado argentino, preocupado também pela onda de imoralidade nestes temas, ditou em junho de 1933, um Decreto que diz: "Considerando com grande dor de nossas almas os gravíssimos danos espirituais que leva ao povo cristão a difusão da imoralidade pública em todas as suas manifestações; e tendo presente as instruções e decretos emanados da Santa Sé durante estes últimos anos; além disso, querendo estabelecer em alguns pontos normas práticas e concretas, que sirvam tanto aos fiéis como aos diretores de almas para ajustar os costumes externos de uma vida verdadeiramente cristã: Os Bispos, reunidos para velar pelo bem das almas que Nos foram destinadas, estabelecemos que não são conformes com a conduta cristã: 1) (...) a mistura simultânea de sexos nas piscinas públicas de natação e em certas diversões em que o traje é completamente inadequado (...)".

Basta. O exposto acima é suficiente para demonstrar o erro indesculpável do O Catequista. Os teólogos, os Papas e o episcopado, de maneira geral, reprovam banhos mistos. Sustentam também que se trata de ocasião grave de pecado, ao contrário do que diz a página de que a ocasião seria apenas remota. 

Seria preciso uma certa dose de pertinácia e obstinação para negar a verdade sobre este tema. Contudo, foi exatamente o que a página fez. Nos comentários à postagem, uma moça objetou que havia muitos textos como os que expusemos acima condenando os banhos públicos e mistos. 

A resposta do O Catequista foi a seguinte:

Como vimos, praticamente todos os moralistas e membros do Episcopado chamam de "banhos públicos" as praias e piscinas mistas. Para que fique ainda mais evidente este fato, segue mais uma citação da obra "Teologia Moral para Seglares" de Antonio Royo Marin:
"Apresentam especiais perigos as excursões campestres com banho misto em açude ou rio; pois aos inconvenientes do banho público em geral devem acrescentar-se os que provém da frivolidade, leviandade e liberdade excessiva de um dia de excursão. Os pais católicos não permitirão jamais às suas filhas semelhantes excursões mistas." (Moral Especial, 551.6)

A honestidade intelectual, portanto, requer que se reconheça que, quando os Papas e os teólogos falam de banhos públicos, eles estão se referindo às praias e piscinas modernas.

Ademais, o O Catequista sustenta que "banhos públicos" se referem a uma "cultura oriental" de banhos mistos na mesma banheira. Ora, mas no que isso se difere de banhos mistos na mesma piscina ou na mesma praia? O sabão? É uma distinção sem diferença.

Uma objeção, no entanto, se levanta. São João Paulo II, no livro "Amor e Responsabilidade", não ensina que o uso de trajes de banho não é contrário à modéstia?

Sim, ensina. Contudo, não negamos isso. Todos os moralistas admitem que é possível tomar banho em praias, piscinas e rios e, consequentemente, usar trajes de banho. Negam, no entanto, que esses banhos possam ser públicos e mistos. São João Paulo II não aborda no livro a questão dos banhos mistos. Portanto, seria temerário extrair consequências revolucionárias para a teologia moral a partir de coisas que o então cardeal não disse.

Deixemos o O Catequista, já devidamente exposto. Passemos para o influencer Thiago Vieira, dono de uma página no Instagram de 114 mil seguidores, que fez o seguinte comentário:

É muito possível que Thiago Vieira desconheça completamente os autores e textos que trouxemos há pouco sobre o tema "trajes de banho". Pois bem, ainda assim, citemos mais alguns:

Heribert Jone em "Moral Theology":

"Em si mesmo é ilícito usar mulheres e meninas como modelos apenas com os órgãos genitais cobertos" (n. 237.c)

Teodoro del Greco em "Compêndio de Teologia Moral"

"Concursos de Beleza. Outra ocasião de pecado e de cooperação no mal, com escândalo, é constituída hoje pelos chamados "Concursos de Beleza", subproduto de uma sociedade depravada. São concursos de caráter regional, nacional e universal, nos quais é escolhida a jovem que apresenta maiores perfeições de beleza física, para receber o título de "Miss" ou "Rainha". O atual processo seletivo é repugnante não só à consciência cristã, mas também a qualquer pessoa que tenha o mínimo senso de pudor. As candidatas ao título devem usar trajes reduzidíssimos, geralmente de tecido muito sutil, que permita os relevos de todo o corpo, até nas suas partes mais intimas. O exame é longo e minucioso, e o chamado desfile realiza-se perante numeroso público. O fato é reprovável sob todo e qualquer ponto de vista, porque constitui ocasião direta de pecado. A responsabilidade agrava-se, outrossim, pelo escândalo que causa o comparecimento da jovem ante o público muita vez heterogêneo. Isso, sem falar nas fotos e minuciosas mesuras levadas aos quatro ventos pelos rápidos veículos de publicidade, quais são a imprensa, o cinema, o rádio e a televisão." (n. 147)

No livro "Mary Was Her Life", da Irmã Mary Pierre, R.S.M., relata-se a descrição do desgosto sentido pela Venerável Maria Teresa Quevedo quando foi à praia com as amigas [na década de 1940] e viu "uma coleção vulgar de biquínis":

"Chegamos à praia de Sainte Jeanne de Luz no início da tarde. O Sr. Vinuesas nos disse para desembarcarmos e nos juntarmos aos nossos vizinhos franceses para nadar. Carmen e eu saltávamos como cangurus, estávamos tão ansiosas para conversar com eles em francês. No entanto, paramos de repente antes de alcançá-los. Nines, não posso dizer o quanto estávamos enojadas - cercadas por uma coleção vulgar de biquínis. Estragou o que poderia ter sido uma tarde perfeita. Acredite, não houve protesto quando a Sra. Vinuesas tocou a campainha do convés que anunciava a hora de nosso retorno a Fuenterrabia." (p. 72)

Portanto, o que Thiago Vieira chama de opiniões das "bolhas extremistas da direita" a respeito de biquinis nada mais é do que o ensino da Igreja a respeito da modéstia no vestir.

Conclusão

Do exposto, é imprescidível que o católico saiba como investigar e estudar certos temas, para não odiar aquilo que deveria amar. A melhor maneira de fazer isso é se deixar formar pelos bons sacedortes e buscar erudição com os autores católicos lidos e recomendados por todos. Se fizer isso, dificilmente o católico será enganado pelo mau conselho de influencers, que falam qualquer coisa nas redes sociais sem o devido estudo e preparo.

Católicas feministas odeiam homens católicos. E elas perderão tudo com isso.

Algumas páginas católicas feministas estão compartilhando um “estudo” que atesta que o movimento “tradwife” tem atraído homens que “odeiam” ...