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terça-feira, 19 de maio de 2026

Católicas feministas odeiam homens católicos. E elas perderão tudo com isso.



Algumas páginas católicas feministas estão compartilhando um “estudo” que atesta que o movimento “tradwife” tem atraído homens que “odeiam” as mulheres. Um resumo do estudo foi publicado na página de Instagram do The Times.



Tradução: "Movimento Tradwife atrai homens que são hostis às mulheres"

O estudo é da Psychology of Women Quarterly e, segundo a publicação, o movimento tem atraído homens com forte inclinação sexista, defensores da ideia de que as mulheres não devem trabalhar fora de casa e de que devem submeter-se aos seus maridos

Primeiramente, esclareçamos o que é a revista Psychology of Women Quarterly. Trata-se de uma revista feminista e, como era de se esperar, possui noções bastante equivocadas de “sexismo”, incompatíveis com aquilo que a Igreja entende por autêntico sexismo.

A revista, por exemplo, publica artigos de pesquisadoras feministas que consideram “sexista” a retórica antiaborto, como se pode observar aqui. Não se trata, portanto, de um parâmetro confiável para medir o sexismo masculino.

O tema deste artigo, porém, não é a revista em si, mas o que certas católicas feministas entendem como “ódio às mulheres”.

O feminismo, no sentido condenado pela Igreja, é, em suma, a heresia que nega a submissão da esposa ao marido, bem como os deveres da maternidade. Vejamos, pois, a síntese magisterial:

Feminismo enquanto rejeição da submissão da esposa ao marido

"A mulher, criada como companheira do homem, deve permanecer sob o poder de amor e carinho, mas sempre sob seu poder. Quão equivocado, portanto, é esse feminismo que busca corrigir a obra de Deus." (São Pio X - Discurso para a Delegação do Sindicato das Senhoras Católicas Italianas em 1909)

Feminismo enquanto rejeição dos deveres da maternidade

"O enfraquecimento da presença materna, com as suas qualidades femininas, é um risco grave para a nossa terra. Aprecio o feminismo, quando não pretende a uniformidade nem a negação da maternidade." (Amoris Laetitia, 173)

Embora feministas católicas tentem argumentar que é possível existir um “bom feminismo”, ao endossarem estudos como os da Psychology of Women Quarterly, acabam apenas confessando aquilo que todos já sabiam: defendem precisamente o feminismo condenado, pois negam, em seus corações, a submissão ao esposo e os deveres da maternidade. No fim, o “bom feminismo” teoricamente aventado não passa de uma cortina de fumaça para justificar o feminismo herético.

Muitas católicas feministas, porém, ainda não têm completa coragem de negar explicitamente a doutrina da Igreja, então adotam um expediente diferente: tentam demonstrar o quanto o casamento tradicional é opressivo ou atrai opressão.

Desse modo, tentam impor a ilação de que quem defende a hierarquia familiar, a volta das mães ao trabalho no lar estaria igualmente contribuindo para cultura de "ódio às mulheres" sem que uma coisa tenha qualquer relação com a outra. E o mais constrangedor de tudo é travestirem esse feminismo mal confessado com roupagem de ciência, de "estudos". É patético. Simplesmente patético. Felizmente, na postagem da The Times, um homem desmascarou a farsa do "estudo":


Tradução: "Este “estudo” é um clássico exemplo de nonsense enviesado da Psychology of Women Quarterly. Ele destaca uma única correlação (“sexismo hostil”), enquanto ignora décadas de dados sobre a queda da felicidade feminina, o esgotamento de casais de dupla renda, o colapso da fertilidade e as razões pelas quais muitos casais escolhem voluntariamente a especialização de papéis para alcançar melhores resultados. Retratar o apelo do movimento tradwife como mero ressentimento masculino é um desserviço aos leitores — existe verdadeira agência e reais ponderações para além da ideologia. Jornalismo fraco."

O fato de feministas católicas atacarem tanto o matrimônio vivido de maneira tradicional nos leva ao tema principal de nosso artigo: católicas feministas odeiam homens católicos.


O ódio a homens católicos

Não é incomum encontrar católicas feministas alertando sobre os “riscos” de se relacionar com homens católicos, sobretudo os do meio tradicional, porque estes, por serem melhor formados que a média, são mais conscientes de seus deveres. Frequentemente compartilham relatos de supostos “abusos” praticados por esses homens, como exigir que suas mulheres usem véu na igreja - obedecer São Paulo! Que terrível ofensa a Deus, não é mesmo? -, deixem seus empregos para se dedicarem ao lar - exatamente o que o Magistério tradicionalmente recomenda - ou ainda regulem as roupas que elas vestem e as proíbam de frequentar certos ambientes, como praias e academias.




Estamos sendo irônicos evidentemente. Não há abuso em nenhuma dessas coisas, por óbvio. Abuso, no sentido empregado pela Igreja, seria exigir que a mulher pecasse contra Deus, mesmo que venialmente, em obediência ao esposo. Neste caso, seria verdadeiramente um abuso, pois a autoridade do marido vem justamente de Deus para que o homem possa servi-Lo. Fora desse caso, é apenas a autoridade legítima do marido acontecendo.

O marido pode regular o ornamento da mulher, proibir que frequente certos lugares e exigir que use véu na igreja porque, como chefe da família, ele tem o dever de liderar e corrigir seus membros. Ouçamos Antonio Royo Marín a respeito:

"Deveres especiais do esposo. Uma vez que o esposo é por direito natural e divino o cabeça e chefe da família (Gn 3,16; 1Cor 11,9; Cl 3,18), cabe-lhe governar a mulher, mas sempre na qualidade de companheira, não de escrava. E assim deve:

c) CORRIGI-LA CARITATIVAMENTE se delínque, com o fim de emendá-la e evitar o escândalo. Mas sem recorrer jamais aos golpes ou maus-tratos nem aos insultos soezes ou frases duras, que a nenhum resultado prático conduzem e perturbam terrivalmente a paz e tranquilidade do lar. (Teologia Moral para Seglares, n. 834.2)"

Contudo, sob a ótica de uma feminista católica, a liderança e a correção do marido são coisas absolutamente intoleráveis, porque elas negam, no fundo de suas almas, a submissão ao esposo no matrimônio.

O que leva ao passo seguinte: a rejeição de homens católicos que são absolutamente conscientes de seus deveres e a preferência da feminista por homens inferiores na fé.

O maior temor de uma feminista católica não é, curiosamente, a impiedade do mundo, mas a piedade do lar. Mais especificamente, o que ela teme é casar-se com um homem católico, devidamente formado e convicto, pois este lhe colocaria freios nos ímpetos revolucionários e nos gritos de independência. Assim, não é raro ver feministas católicas preferindo namorar protestantes, ateus, mundanos, católicos de IBGE, "feministos", sob o pretexto de que no meio católico está difícil encontrar “homens de verdade”.

Não duvidamos que encontrar o cônjuge ideal, ainda mais nos nossos tempos de fragmentação e desordem, seja um desafio digno de epopeia. Mas convém notar que a feminista católica não foge dos homens católicos porque não os encontra, mas porque os encontra e percebe, com um misto de admiração e horror, que eles são uma ameaça ao seu feminismo.

Optando, então, por homens inferiores na formação da fé, ela acredita poder moldá-los, talhando-os à imagem de suas próprias convicções. Quer ensiná-los o que é mais importante – a fé –, mas de um modo que esteja em conformidade com sua perspectiva feminista. 

Não percebe, entretanto, que, ao agir assim, mina os alicerces da própria família. Primeiro, porque há nisso um ato de supremo egoísmo: ela não busca um pai católico para seus filhos, alguém que os guie no caminho da santidade, mas um homem que satisfaça seus desejos e que não se oponha aos seus diálogos particulares com a serpente. No final, o risco de que todos se percam é imenso. Adão já nos deu uma bela lição do fim trágico que resulta um homem ser omisso e subserviente à esposa.

O mais irônico de tudo é que, ao buscar um homem que a deixe livre em suas ideias, ela se prende ainda mais aos seus próprios erros. Por isso o verdadeiro dever de uma feminista católica - se é que tal figura pode existir sem contradição - é justamente livrar-se do feminismo, e isso se dá, acima de tudo, pela submissão ao marido. Mas como poderá submeter-se a alguém que não a governa? Como poderá aprender a docilidade se escolheu um guia que teme guiá-la?

No fim, a busca por um homem que não imponha regras é, na verdade, a busca por um homem que também não siga regras. E um homem sem regras é apenas um menino grande, esperando ser educado.

O grande paradoxo é que, ao fugir de um chefe, essas católicas feministas acabam criando súditos. E nenhuma rainha governa sem pagar o preço da coroa.

No caso, o preço da coroa é a própria ruína da família.


A autoridade do marido e a graça divina

As Escrituras são categóricas sobre o modo como a mulher se salvará: pela maternidade (1 Tm 2,15).

Isto implica que as graças de uma mulher casada só serão dadas por Deus se ela cumprir seus deveres como esposa e mãe.

Deus, de fato, é Pai das bênçãos, mas não as distribui aleatoriamente. Ele as concede de modo ordenado, isto é, para um fim e, principalmente, de modo hierárquico, ou seja, pelos representantes que Ele instituiu.

No Antigo Testamento, antes da instituição do sacerdócio levítico, os principais dispensadores das bênçãos - inclusive das sacerdotais - eram os chefes de família, os patriarcas. Essas bênçãos eram tão ricas em graças que eram verdadeiramente disputadas pelos filhos. O exemplo mais conhecido dessa disputa foi o dos irmãos Esaú e Jacó. Jacó “roubou” a bênção patriarcal de seu irmão e foi imensamente bem-sucedido. Em outro episódio, o mesmo Jacó, ao deparar-se com um anjo, lutou com ele por uma bênção. O patriarca adotava como estratégia buscar sempre a bênção de seus superiores, porque sabia da importância dela para ter dias felizes na terra.

Após a instituição do sacerdócio levítico e, posteriormente, do sacerdócio católico, as bênçãos patriarcais foram redistribuídas. Se antes se concentravam exclusivamente nos pais de família, hoje estes dividem tal papel com os sacerdotes.

Todavia, mesmo com essa divisão de funções, a bênção patriarcal não deixou de ser grande e de vital importância para a prosperidade dos filhos e da família. A esse respeito, vejamos as luminosas palavras do grande Cardeal Isidro Gomá y Tomás:

"Entre nós, cristãos, a bênção paterna não tem o mesmo sentido profundo que a bênção patriarcal tinha para o povo de Deus. Esta era uma ação sacerdotal pela qual Deus, fiel às suas promessas de bênção feitas àquela raça, transmitia dos pais aos filhos todo o caudal de suas misericórdias para com ela. Agora, o sacerdote nos abençoe em nome de Deus, o bendito do Pai, sobre quem veio a plenitude da bênção com a plenitude da divindade.

Mas Deus não diminuiu a dignidade do pai na nova lei. "Quem ousaria dizer que a bênção paterna, na lei da graça, tenha perdido seu poder?", diz Dupanloup. "Não acredito nisso. Creio que a vida, que a conservação das raças e a prosperidade das famílias ainda podem encontrar nela a mesma segurança que a bênção dos velhos patriarcas; além do que, segundo o espírito e o caráter da graça evangélica, creio que desta bênção dos pais cristãos sai, mais abundante que em outras épocas, uma graça sobrenatural para produzir, aumentar e perpetuar nas famílias cristãs não somente a vida, mas, o que é ainda mais precioso, o bem de viver e o tesouro hereditário das virtudes domésticas e das esperanças celestiais.

Quem dera que se reavivasse o antigo costume de os pais abençoarem os filhos, sobretudo nos momentos solenes de suas vidas, e no transe soleníssimo, para o pai e para os filhos, de deixar ele o mundo para lhes legar o tesouro das tradições domésticas! Mas pobres dos pais de hoje! Como iriam abençoar seus filhos se a muitos faltam o sentido de Deus?" (La Familia, 1942, 4ª ed., p. 140-143)

O autor Craig Hill em seu livro "O Poder da Benção dos Pais" traz uma convicção semelhante. Craig explica que os judeus são prósperos em todas as partes do mundo justamente porque conservaram a cultura patriarcal dos pais abençoarem seus filhos:

"Talvez você se pergunte: “Que tipo de costumes e tradições os judeus praticam que podem fazer prosperar suas almas?”. Creio que a resposta reside no costume que discutimos no início do capítulo anterior: a bênção paterna. Como já vimos, todos os pais são profetas para seus filhos, mas nem todas as profecias vêm de Deus. Creio que as almas dos filhos judeus tendem a prosperar não apenas pela bênção paterna do Sabbath, a cada semana, mas também porque sua cultura naturalmente favorece a bênção dos filhos durante as sete etapas críticas da vida.

Embora o conceito da bênção seja claramente explicado na cultura hebraica bíblica, e vejamos remanescentes dela na cultura judaica de hoje, não creio que Deus tenha querido que os judeus tivessem um monopólio sobre a bênção. Creio que Deus quis que o estilo de vida de bênção e a transmissão da bênção durante as sete etapas críticas da vida funcionassem naturalmente em cada família e cultura da terra. Essas tradições de bênção não se originaram com os judeus, mas são caminhos ancestrais que provêm de Deus e que são para qualquer pessoa, em qualquer lugar."

Essas citações indicam que os maridos, justamente por serem chefes e representantes da família, são o canal ordinário que Deus utiliza para distribuir graças no lar. Um pai católico que ama a Deus, os filhos e a esposa, liderando espiritualmente sua casa, torna-se canal ordinário de prosperidade material e espiritual para todos os membros da família, como bem demonstra a ilustração abaixo.




Daí a grande desgraça, por exemplo, dos filhos órfãos, que não apenas perdem a ajuda material dos pais, mas também as graças que viriam por causa da autoridade paterna.

O Cardeal Isidro Gomá y Tomás, nesse sentido, afirma que há uma maneira de deixar os filhos “órfãos” das graças paternas mesmo com os pais vivos: o pai não ser católico.

Um pai que não pratica a religião e que não cumpre seus deveres enquanto pai e esposo atrai menos as graças divinas para sua família.

Sendo assim, é seguro dizer que uma católica feminista que, por puro egoísmo e espírito de independência, priva seus filhos de um pai católico ao casar-se com um homem do mundo, um “católico de IBGE” ou um “feministo” que não exerce sua autoridade marital, torna seus filhos órfãos das graças que seriam conquistadas por um pai católico consciente de seus deveres.

Os maridos, enquanto chefes de família, participam do poder das chaves concedido por Deus e são meios ordinários de graças para suas famílias. 

Portanto, se Deus quer que as mulheres se santifiquem e se salvem mediante a submissão aos maridos, segue-se a conclusão óbvia: se desprezam essa autoridade e buscam anulá-la, as graças que seriam concedidas por Deus por meio dessa submissão deixarão de ser dadas. E dois exemplos disso podem ser mencionados: Eva e Jezabel.

Os Santos Padres são unânimes em reconhecer que Eva caiu na tentação da serpente porque estava desacompanhada de Adão, e este igualmente caiu porque se deixou liderar pela esposa.

São Roberto Belarmino, em "A Arte de Bem Morrer", comenta o seguinte sobre Jezabel:
"O mesmo Apóstolo ensina posteriormente as mulheres a serem submissas aos seus maridos, assim como a Igreja é submissa a Cristo. Jezabel não observou este preceito; por querer controlar seu marido ela se perdeu e perdeu a ele, assim como todos os seus filhos."



Jezabel sendo devorada por cães. Por Andrea Celesti.

Portanto, é manifesto que a mulher que “demite” a autoridade do marido - quer desprezando-a, quer usurpando-a ao casar-se com homens não católicos ou temerosos de exercê-la - torna-se causa da ruína e da desgraça da família.

A estas que rejeitam a autoridade do marido, o Pe. Antonio Royo Marín chamaria de “aquelas que receiam receber um marido” ou, em outras palavras, que não estão aptas a receber o sacramento do matrimônio:

"O desprezo pelo homem a excessiva timidez diante dele, o espírito de independência, o horror aos deveres conjugais, o medo dos sofrimentos da maternidade ou o trabalho de educar, etc., levam-nas a renunciar ao matrimônio e ficar perpetuamente solteiras." (Espiritualidade dos Leigos, n. 375)

Como punição, se forem feministas solteiras, é provável que Deus permita que essas mulheres padeçam de solteirice perpétua, de relacionamentos caóticos e intermitentes ou ainda de um receio interminável de assumir um compromisso definitivo, passando quatro ou cinco anos namorando um rapaz para, no fim, não dar em nada. Isto quando não se tornam, por uma nota quase artística da ironia divina, mães solteiras, obrigadas a carregar o peso e a responsabilidade da maternidade sem as abundantes graças que ordinariamente decorreriam da chefia do marido. Assim, acabam vivendo sob o peso de suas próprias decisões e sob a desgraça de seu próprio feminismo.

Não estamos dizendo, evidentemente, que mães solteiras ou esposas cujos maridos não sejam católicos não possam alcançar tais graças. Santa Mônica é exemplo de esposa e mãe que, mesmo sem um marido católico, alcançou graças para a conversão da família. Contudo, Santa Mônica enquadra-se como caso verdadeiramente extraordinário. Sua santidade pessoal constitui um diferencial raríssimo em relação à média das pessoas. Sem essa perseverança heroica, dificilmente teria alcançado a conversão da família. E relembremos que a conquista dessa graça foi árdua: levou décadas. É perfeitamente legítimo pensar, portanto, que, se seu marido fosse católico, a conversão de Santo Agostinho talvez não tivesse levado trinta anos para acontecer.

Em suma, queremos dizer que mulheres que, por culpa própria, casam-se mal ou se revoltam contra a autoridade do marido acabam dificultando a obtenção das graças de Deus para a própria família. Essas graças tornam-se mais difíceis de alcançar, porque quem as solicita não é, na ordem estabelecida por Deus, a autoridade que Ele instituiu.

Um exemplo pode ilustrar melhor esse ponto. A consagração de um país a Nosso Senhor feita por um cidadão comum pode ser algo muito nobre; contudo, muito mais eficaz para a nação seria a consagração realizada pelas mãos do Chefe de Estado. Não sem razão, Nosso Senhor, nas aparições a Santa Margarida Maria Alacoque, não pediu que um cidadão qualquer consagrasse a França ao Sagrado Coração, mas sim o rei Luís XIV.

Deus quer comunicar Sua graça, mas deseja distribuí-la pelos meios ordinários que Ele próprio estabeleceu. Na família, esse meio é o chefe do lar, o homem. Se a esposa usurpa esse lugar, a graça dificilmente será alcançada da mesma forma.




Devemos dizer também que a autoridade, quando instituída por Deus, existe sempre para o bem daquele que lhe está subordinado. A autoridade dos pais é um bem para os filhos. Da mesma maneira, a autoridade do marido é um bem para a mulher.

Não constitui, portanto, uma "solução" para a católica feminista escolher um homem “feministo” que se recuse a liderar. Ela estará sendo "masoquista" e fazendo um mal contra si mesma. Um homem que não exerce sua autoridade também peca diante de Deus e igualmente será punido por isso, pois liderar a família é dever seu. Recordemos o ensinamento do imortal Papa Pio XII:

"Vós, maridos, fostes investidos da autoridade. Cada um de vós é chefe do lar, com todos os deveres e as responsabilidades que este título representa. Não hesiteis, portanto, em exercer a autoridade, não renegueis os deveres, e não fujais das responsabilidades." (Alocução aos Recém-Casados. 10 de setembro de 1941)

Quão patético é observar homens unindo-se à insubmissão de suas esposas e ostentando essa cumplicidade como símbolo de masculinidade. Mal sabem eles que também se tornam cooperadores da desgraça da própria família. Deus puniu Adão por sua subserviência à esposa com dificuldades materiais, um símbolo da dificuldade do marido "feministo" para obter graças para a família:

E disse em seguida ao homem: “Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. (Gn 3,17)

A Tradição da Igreja consigna igualmente que às mulheres de espírito livre e insubmisso - assim como aos filhos que não se submetem aos pais - estão reservadas as maiores infelicidades nesta terra.

São João Crisóstomo, nesse sentido, ensinava que mulheres assim eram causa da destruição do lar:

"A esposa é uma segunda autoridade. Ela não deve exigir igualdade, pois está sujeita à cabeça; nem deve o marido menosprezar sua sujeição, pois ela é o corpo... Onde há autoridade igual, nunca há paz. Uma família não pode ser uma democracia, governada por todos, mas a autoridade deve necessariamente repousar em uma pessoa. O mesmo se aplica à Igreja...."

“Mas se [o domínio/liderança do lar] for de outra forma, tudo é virado de cabeça para baixo e jogado em confusão. E assim como quando os generais de um exército estão em paz uns com os outros, todas as coisas estão em devida subordinação, enquanto que, por outro lado, se eles estão em desacordo, tudo é virado de cabeça para baixo; assim, eu digo, é também aqui. Por isso, diz ele, "Esposas, sejam submissas a seus próprios maridos, como ao Senhor." (Complete Works of Saint John Chrysostom, loc. 132419.1 32426)

O Papa Pio XI, em Casti Connubii, igualmente diz que a insubmissão é a causa da ruína da mulher:

"Além disso, essa falsa liberdade e igualdade antinatural com o marido torna-se prejudicial à própria mulher, pois, se ela se afasta do trono verdadeiramente real ao qual o Evangelho a elevou dentro dos muros do lar, muito em breve cairá — se não na aparência, certamente na realidade — na antiga escravidão e se tornará, mais uma vez, como no paganismo, um mero instrumento do prazer ou do capricho do homem"

Santo Tomás de Aquino nos Comentários às Cartas de São Paulo é ainda mais incisivo:

“O Filósofo diz que o domínio das mulheres é a morte de uma família, como tiranos de uma comunidade.”

O Aquinate acrescenta, no mesmo comentário, que a mulher que não se submete ao marido blasfema contra a Palavra de Deus, isto é, contra a própria Revelação divina:

“A outra coisa que ela deve observar é a subordinação, porque quando uma mulher tem poder, ela tenta se opor aos planos do marido: uma mulher, se ela tem superioridade, é contrária ao marido (Sir 25:30). Portanto, ele diz, “obedientes aos seus maridos”, daí é dito: seu desejo será para seu marido, e ele te governará (Gn 3:16). E isso, “para que a palavra de Deus não seja blasfemada”, ou seja, para que sua desobediência não seja uma ocasião para blasfêmia.” 

Essa observação de Santo Tomás conduz-nos a outra conclusão: mulheres que rejeitam a submissão aos maridos não apenas odeiam homens católicos, mas o próprio catolicismo, pois, no fundo, revoltam-se contra o próprio Deus e Sua Revelação.

Católicas feministas que escolhem relacionar-se com homens mundanos ou de formação religiosa muito inferior à delas o fazem porque a vida autenticamente católica lhes seria verdadeiramente insuportável. Preferem, assim, homens que não representem ameaça alguma ao seu feminismo.

Outro ponto importante é a observação feita pelas Escrituras: se a mulher assume superioridade, a tendência é opor-se ao marido. Como já dissemos, a autoridade do marido foi dada para o bem da mulher. Se o homem conscientemente não a exerce, ou se a mulher a usurpa, o resultado é desastroso para a família.

Conclusão

Diante de tais observações, a católica feminista possui apenas dois caminhos: ou abandona o feminismo e reconcilia-se com a ordem estabelecida por Deus, aceitando humildemente os deveres da maternidade, da vida doméstica e da submissão ao marido; ou nega a realidade e permanece encastelada no pequeno e ressentido “clubinho das feministas”, onde mulheres amarguradas contra homens católicos continuam afundadas nos próprios erros, guiando a si mesmas cegamente.

O grande problema é que a rejeição da autoridade do marido jamais permanece sem consequências. Quando a mulher rejeita o chefe que Deus lhe deu, frequentemente acaba submetida a senhores muito piores: às ideologias, ao orgulho, ao mercado, às paixões desordenadas e, muitas vezes, a homens fracos, omissos ou mundanos, incapazes de conduzir uma família à santidade.

Por isso, o verdadeiro dever da mulher católica não é lutar contra a autoridade masculina, mas santificar-se dentro da hierarquia querida por Deus. Porque a autoridade do marido, quando exercida segundo a lei divina, não existe para destruir a mulher, mas para conduzi-la, protegê-la e ajudá-la a chegar ao Céu.

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Três urgências do próximo pontificado

O novo Papa — seja quem for, venha de onde vier, com os traços de Pedro ou os gestos de Apolo — terá diante de si não uma página em branco, mas uma folha manchada. Haverá feridas a suturar, pilares a restaurar e, sobretudo, a coragem de desagradar aos que vivem da paz dos compromissos ambíguos. Três tarefas se impõem com urgência: libertar o sagrado, anunciar o verdadeiro e purificar o governo.

1. Libertar o sagrado

Entre as dores do último pontificado, poucas foram tão agudas quanto o cativeiro imposto à Missa Tridentina. A ferida aberta pela sua restrição ainda sangra nos corações dos fiéis — não por rebeldia, mas por amor. A Missa Antiga não precisa ser tolerada como uma peça de museu; precisa ser libertada como um prisioneiro injustamente condenado. E não apenas por justiça à tradição, mas por misericórdia com a própria Missa Nova, hoje tão extraviada nos desertos do experimentalismo litúrgico que já não sabe se é sacrifício ou espetáculo.

É irônico — como quase tudo na história da Igreja — que a única Missa que nunca foi abolida de fato tenha sido a mais perseguida de direito. A sua libertação será o primeiro passo não de uma cruzada estética, mas de uma restauração espiritual.

2. Anunciar o verdadeiro

Confundiu-se, nos últimos anos, evangelização com entretenimento. Sorrisos simpáticos, abraços coletivos, freiras dançantes e padres performáticos. Evangelizar hoje foi rebaixado a um exercício de cordialidade afetiva. A Boa Nova virou um bom dia e o Anúncio um abraço. Evangelizar já não é anunciar o Reino. É organizar retiros com músicas de flauta doce, distribuir pulseirinhas coloridas e repetir que “Deus te ama” com a mesma voz que se usa para consolar um gatinho ferido. 

A ironia atinge seu cume quando os novos evangelistas — os mesmos que condenam com ardor qualquer forma de evangelização verdadeira como proselitismo — organizam simpósios inteiros para discutir como converter... sem converter. Eles dizem: “É preciso anunciar, mas sem impor; é necessário dialogar, mas sem convencer; é urgente evangelizar, mas sem usar palavras.”. E o novo evangelista, ao ver um pagão, não lhe pergunta se quer ser batizado, mas se gostaria de conversar sobre "experiências significativas". Ao que parece, o Espírito Santo se converteu ao estilo zen e agora trabalha com gestos interpretativos. E de repente se espera que o muçulmano, o ateu e o agnóstico descubram a divindade de Cristo pela temperatura do sorriso do padre. Mas o mundo não foi salvo por um gesto simbólico: foi salvo por uma pregação sangrenta.

Contra tudo isso, ressurge a figura do padre Federico Highton no Malawi.


Sem powerpoints, sem danças, sem comitê de acolhimento inter-religioso. Apenas o Evangelho, uma catequese de dez minutos e a pergunta mais subversiva da modernidade: “Queres ser batizado?” E diante do “sim”, os sacramentos. Nenhum formulário. Nenhum workshop. Nenhum cardeal dançante.

E, no entanto, São Pedro evangelizou assim. São Francisco Xavier evangelizou assim. E Cristo também.

3. Purificar o Governo

A Igreja sempre teve pecadores. Mas há um tipo de pecado que grita mais alto do que todos: a nomeação episcopal errada. Santo Afonso de Ligório — um moralista, não um influenciador — dizia que promover indignos ao episcopado e ao cardinalato é pecado mortal:

“É certo que de nenhum modo se eximem de pecado mortal os que promovem os menos dignos ao episcopado e ao cardinalato.” (Th. Moralis, Lib. III, a. II, q. 91)

E por quê? Porque os cargos eclesiásticos existem para o bem comum da Igreja, e não para as alianças políticas nem para a paz dos corruptos.

Mas a lógica recente foi a inversa: bons bispos e cardeais foram silenciados; os piores entre eles, promovidos com fanfarra.

O próximo Papa não reformará tudo — e nem precisa. Mas deve iniciar a correção. A paz confortável dos Tuchos, Martins, Roches e Hollerichs da vida precisa ser perturbada. 

Purificar a hierarquia é salvar as almas. Pois uma Igreja sem santos no altar terá demônios no púlpito.

Conclusão

Em suma, a Igreja não precisa de novidades: precisa de veracidade. Uma liturgia que santifica, uma pregação que converte, uma hierarquia que governa com retidão. São essas as três colunas que o próximo pontificado deve restaurar — e restaurar com zelo apostólico, não com prudência mundana.

quinta-feira, 24 de abril de 2025

Entre a fumaça branca e a fumaça woke: a morte de Francisco e as perspectivas para o próximo conclave.

A morte de um Papa é, por definição, um evento de luto. Mas, para muitos católicos, especialmente os que ainda rezam em latim e acreditam em anjos com espadas flamejantes, a notícia da morte de Francisco foi recebida com um misto de sobriedade e esperança, como se após longos anos no deserto alguém tivesse finalmente encontrado um oásis… ou, ao menos, parado de caminhar em círculos. O conclave se aproxima. E se alguns esperam por continuidade, outros imploram por conversão. Não do Papa, mas dos cardeais.

Com ligeiro atraso — porque o tempo da eternidade não se mede em minutos — comentamos a maior notícia da semana: a morte do Papa Francisco. Sua partida, embora há muito aguardada pelos oráculos e pelos boletins médicos, foi súbita. O Vaticano informou que o pontífice sucumbiu a um acidente vascular cerebral, seguido de parada cardiorrespiratória. Não teve tempo de pronunciar suas últimas palavras, tampouco de receber os últimos sacramentos, ao contrário de São João Paulo II e do contemplativo Bento XVI, que expirou enquanto rezava, como nos contou seu secretário pessoal, Dom Georg GänsweinRezando — como quem sabe que está prestes a encontrar Aquele que é.

Não faremos aqui um elogio fúnebre. Nem um dossiê de erros. Já o dissemos antes — com a reverência de um servo ferido, mas não rebelde — que foi um tempo difícil para os católicos tradicionais. Mas como ensinou Nosso Senhor, “deixai os mortos sepultar os seus mortos”. O luto cristão não é um memorial de mágoas, mas uma esperança vestida de luto.

A este Papa, desejamos sinceramente a salvação de sua alma e oferecemos nossas orações em sufrágio. O juízo eterno já foi pronunciado — e foi feito por Aquele cujas balanças são mais exatas que os nossos artigos. E, diferente do Twitter, no Céu não há botão de editar.

O conclave se aproxima. Um conclave é sempre um mistério envolto em fumaça, mas hoje em dia também é um evento midiático com ares de eleição parlamentar. Homens com anéis, celulares e simpatias pelo Greenpeace decidirão quem sentará na cadeira do pescador. E o que está em jogo é mais do que a sucessão de um pontífice: é a continuidade — ou não — de um projeto de Igreja que parece ter sido escrito numa reunião de marketing da ONU.

O que nos preocupa, de fato, é o que virá. Sim, porque um Papa pode morrer, mas a barca de Pedro não naufraga — apenas muda de timoneiro. A eleição vindoura dirá se o espírito do pontificado de Francisco encontrará continuação ou se a Igreja, como quem desperta de um longo torpor, respirará novamente com os pulmões da Tradição. Esperamos, com humildade e firmeza, que respire.

Não é segredo para ninguém que, sob Francisco, o catolicismo progressista recebeu não apenas abrigo, mas alforria. Bispos conservadores foram depostos, comunidades tridentinas desfeitas, e as teologias da libertação e da inversão sexual tiveram projeção inédita — tudo sob a justificativa de uma Igreja que "não se fecha em si mesma", como se a verdade precisasse de arejamento, e as doutrinas eternas passaram a conviver com “desenvolvimentos pastorais” que lembram mais liquidação de fim de estoque do que teologia.

Mas a realidade, essa senhora impiedosa, é que 80% dos cardeais eleitores foram escolhidos por Francisco. Ou seja: o conclave está para o pontificado como a sobremesa está para o jantar — geralmente repete o sabor do prato principal.

Eis os favoritos da casa:

1. Pietro Parolin, organizador nato e inimigo declarado da Missa Tridentina — um Francisco com Excel.

2. Luis Antonio Tagle, "Imagine all the people"… sem missa tridentina.

3. Matteo Zuppi, autor de prefácio para livro de teologia LGBT. Um cardeal que fala muito em pontes, mas não parece saber onde termina a margem do Evangelho.

4. Jean-Marc Aveline, acredita tanto no ecumenismo que talvez seja capaz de canonizar Lutero, Ghandi e Pikachu.

5. Péter Erdo, canonista húngaro, meio conservador, meio neutro — ou seja, um meio termo que pode pender.

6. Robert Sarah, o último dos moicanos. Tradicional, santo, litúrgico — mas, talvez, santo demais para ser eleito.

Se os de primeira linha tropeçarem, a segunda linha pode surpreender. A esperança, essa danada de virtude teologal, espreita candidatos mais palatáveis. É provável que emergam os nomes da retaguarda — que, em matéria de fé, muitas vezes são os verdadeiros guardiões da frente:

1. Pierbattista Pizzabala, patriarca latino de Jerusalém — nomeado por Taylor Marshall,  o que já é uma curiosidade.

2. Malcolm Ranjith, do Sri Lanka, tradicional e corajoso — proibiu acólitas. Não teme as meninas, o que é raro hoje em dia.

3. Gerhard Müller, ex-prefeito da CDF, teólogo nato. O problema é que tem amigos demais entre os liberais — e isso costuma ser contagioso.

4. Raymond Leo Burke, leão da Tradição. Mas o leão ruge isolado — e o conclave prefere os pastores mudos.

5. William Eijk. Holandês, conservador e crítico da exortação Amoris Laetitia. Não sabemos se é um defensor da Missa Tradicional, mas é um nome para se guardar no bolso.

6. Orani Tempesta. brasileiro, monge, e amante da Missa Tradicional. Colocado aqui não por força diplomática, mas por profecia — o que não se deve ignorar levianamente.

Este blog não finge: quer um Papa tradicional. Que ame a Missa Antiga, tema o Inferno e ignore as estatísticas do Pew Research. Um homem com espinha dorsal, joelhos no chão e o Catecismo no coração. Um camponês da eternidade.

E por isso, nossa torcida é clara:

1. Sarah;

2. Burke;

3. Ranjith;

4. Müller.

Se vier um milagre, agradeceremos. Se não, nos resta a paciência dos mártires e a ironia dos profetas.

Contudo, em que pese as nossas preferências, é preciso lembrar que o colégio cardinalício, desde sua formalização no século XII, raramente produziu santos. As escolhas, não raro, privilegiaram a administração em detrimento da santidade, como se o Reino de Deus dependesse de planilhas.

Hoje, os cardeais parecem mais preocupados com:

1. Administração (o Vaticano está falido, não se esqueça);

2. Imagem pública (não se pode ter um Papa que seja cancelável no Twitter);

3. Unidade institucional (não a da fé — essa é secundária — mas a dos departamentos e fundações).

Esses critérios produzem Parolins, Zuppis e Avelines. Mas talvez — talvez! — Deus nos surpreenda, como fez tantas vezes ao longo da história. Talvez surja um moderado conservador, um Erdo, um Pizzaballa, um Eijk. Talvez, o Espírito Santo, cansado de ser citado como desculpa para ambiguidades, queira ser obedecido.

O que esperamos é que o próximo pontífice seja inspirado pelo Espírito Santo e lembre, a despeito de todo seu passado progressista ou conservador, do primeiro dever da Cátedra Petrina, isto é, guardar o Depósito da Fé, como nos ensina o imortal Concílio Vaticano I:

"Pois o Espírito Santo foi prometido aos sucessores de Pedro, não para que, por sua revelação, tornassem conhecida alguma nova doutrina, mas para que, com sua assistência, guardassem religiosamente e expusesse fielmente a revelação ou depósito da fé transmitido pelos apóstolos."  (Concílio Vaticano I, Sessão 4, Capítulo 4)

E guardar também as grandes tradições da Igreja, como exigia o antigo juramento papal:

"Manter a disciplina e o rito da Igreja, como os encontrei e como os descobri dados pelos meus santos predecessores, invioláveis." (Patrologia Latina, 105, 42C (Liber Diurnos Romanorum Pontificul, Lib. II, Titulum VII))

Conclusão

E o que nos resta?

Nos resta a fé. Não a fé nos homens de púrpura, mas naquele que escolheu fundar a Igreja sobre Pedro — um pescador impulsivo, e não um diplomata emérito. A Igreja sobreviveu a imperadores, a invasões bárbaras e até a certos papas. Sobreviverá também a este conclave. Ou não. Mas a Igreja é mais velha que qualquer coisa escrita contra ela, e mais jovem que qualquer moda que tente superá-la.

Se o próximo Papa for um santo, louvado seja Deus. Se for apenas um bom administrador, rezemos. Se for um desastre, então preparemos as catacumbas. Já estivemos lá antes. E, ao contrário do que dizem os teólogos da moda, os cristãos são mais perigosos quando estão nas sombras.

Que venha a fumaça — e que, por milagre ou misericórdia, seja branca.

terça-feira, 4 de março de 2025

Dom Bosco caiu na folia? Derrubando mais uma lorota de Viviane Varela (O Catequista)


Mal publicamos o artigo "Acabando com o Carnaval do "O Catequista"" e a página não satisfeita já inventou mais uma lorota para justificar sua paixão irracional pelo carnaval. Desta vez, a lorota é: Dom Bosco pulou o carnaval com seus meninos do Oratório.

Viviane em nova publicação no Instagram utiliza a biografia "A Vida de Dom Bosco" escrita pelo Pe. Giovanni Battista Lemoyne, para defender que Dom Bosco caiu na folia.


Diz Viviane que Dom Bosco queria ensinar os meninos do Oratório a "como viver o carnaval", a despeito das imoralidades da festa. Contudo, essa argumentação do O Catequista simplesmente não bate com a postura de Dom Bosco e dos padres que o ajudavam até então. Ora, se essa era a lição que Dom Bosco queria ensinar, por que ele não a deu nos carnavais anteriores? A resposta é muito simples: Dom Bosco não estava procurando ensinar como viver bem uma festa mundana. Durante o carnaval, Dom Bosco fazia programações dentro do Oratório, o que é totalmente lícito segundo explicamos no nosso artigo anterior. E a única vez que ele foi a um carnaval público não foi pelas razões ditas pelo O Catequista.

O próprio vídeo de Viviane explica o contexto da motivação de Dom Bosco:
"Naquele ano a Prefeitura de Turim havia autorizado que as instituições de caridade montassem uma barraca na Piazza Castello pra vender nos últimos dias de carnaval o que achassem melhor pro benefício dos pobres atendidos por suas obras."

A intenção de Dom Bosco em ir ao carnaval de Turim era apenas uma: angariar fundos para o Oratório por meio de uma barraca de vendas. Ou seja, Dom Bosco queria ir ao carnaval para trabalhar para o sustento do Oratório, não simplesmente para divertir-se.

A própria biografia utilizada por Viviane narra que Dom Bosco, antes de se entregar à Providência, buscava por todos os meios angariar recursos para o Oratório, sendo até mesmo engenhoso ao fazer isso. Uma de suas engenhosidades foi trabalhar no carnaval, como afirma o Pe. Lemoye:

"Dom Bosco sentiu-se obrigado a tentar esgotar todos os meios humanos, antes de se abandonar cegamente nos braços da Divina Providência. Por isso ele sempre pedia, de mil maneiras, usando as maneiras mais variadas, mais prudentes, mais engenhosas. Circulares, loterias, barracas de doações, e uma centena de outros meios foram usados ​​quando as necessidades eram sérias, e os recursos diários ordinários eram insuficientes.

Durante o carnaval de 1869 ele teve uma ideia singular. Naquela época, o carnaval de Turim era o mais digno, tranquilo e agradável de toda a Itália; basta dizer que uma comissão especial, com plenos poderes e a polícia sob seu comando, zelava pela ordem, pela moral e pelo respeito a todas as classes de pessoas. Pois bem, ele obteve autorização da prefeitura para montar uma barraca de vendas na Piazza Castello, junto com outras instituições de caridade, para seu próprio benefício durante os últimos dias do Carnaval." (A Vida de Dom Bosco, vol. 2)

Ou seja, Dom Bosco tinha uma razão justa e proporcional para ir ao Carnaval. Ele foi por necessidade, não por opção. Como narra a própria biografia, o santo sentia-se obrigado a esgotar todos os meios possíveis para sustentar o Oratório.

Se aplicarmos os princípios expostos no artigo "O Catequista e a Opção Preferencial pelo Laxismo" sobre as espécies de cooperação com o mal, veremos que eventual cooperação de Dom Bosco neste caso seria remota e não necessária, sendo absolutamente escusável ele buscar o sustento do Oratório montando a barraca de vendas na festividade.

Todavia, desonestamente, o O Catequista omite todo esse contexto. Viviane chega a afirmar que Dom Bosco buscava "maneiras de ir ao Carnaval", como se quisesse arranjar desculpas para os seus meninos irem à festividade, quando claramente essa não era a verdade.

Omitindo informações importantes dessa maneira o O Catequista faz um verdadeiro anti-apostolado para os católicos, pois o exerce unicamente para anestesiar as consciências em prol de sua opção preferencial pelo laxismo.

Ademais, neste caso, a escolha de Dom Bosco como elemento de defesa do Carnaval parece ter sido bem calculada pelo O Catequista. Neste ano, o Centro Dom Bosco fez críticas públicas ao O Catequista por defender o Carnaval e agora a página buscou de alguma forma responder as censuras usando o patrono do CDB. Tenha sido esta a intenção ou não, o tiro saiu pela culatra. Dom Bosco não foi ao carnaval pelas razões que o O Catequista quis sugerir.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Papa Francisco adoece. Qual deve ser a atitude do católico que se sente machucado pelo pontificado?


O Papa Francisco segue internado no hospital Gemelli de Roma há 14 dias. O quadro do pontífice, segundo os últimos boletins médicos, segue complexo e com prognóstico reservado, isto é, sem uma previsão clínica de melhora, embora o Santo Padre tenha apresentado uma leve melhora nos últimos dias.

Diante desse cenário, o Vaticano convocou vigílias de oração pela recuperação da saúde do pontífice e o mundo católico como um todo se levantou para rezar pela mesma intenção.

Contudo, é simplesmente um fato que o pontificado do Papa Francisco tem sido marcado como um dos mais polarizados da História. O pontífice é reconhecido como um dos grandes representantes do progressismo católico e diversas ações do seu pontificado foram marcadas por notáveis polêmicas. Enumeramos algumas: 

a) O desmantelamento da Pontifícia Academia para a Vida mediante a reforma do seu estatuto, incluindo nisso a retirada da declaração de fidelidade dos seus membros ao Magistério e admissão de membros abortistas;

b) A abertura de uma pastoral, em Amoris Laetitia, para promover a comunhão para casais em segunda união, revertendo a pastoral proposta pela Veritatis Splendor;

c) A reversão da doutrina da pena de morte;

d) A dolorosa e severa restrição da Missa Tridentina mediante a promulgação do motu proprio "Traditiones Custodes";

e) O sepultamento da "Reforma da Reforma" de Bento XVI;

f) A promoção do clero progressista, principalmente do lobby LGBT;

g) O reerguimento da Teologia da Libertação;

h) A permissão de benção de pares homossexuais em "Fiducians Supplicans";

i)  O partidarismo na punição de bispos e cardeais conservadores;

j) A ruptura com a venerável tradição do serviço do altar exclusivamente masculino;

k) Apoio a políticos abortistas e combate a políticos conservadores;

l) A declaração de que todas as religiões levam a Deus e que a pluralidade delas é um dom ou presente de Deus;

m) A declaração de desejo por um inferno vazio. 

 

A lista de controvérsias não é pequena e por tais razões muitos proeminentes católicos chegaram a aventar que estaríamos diante do pior pontificado da História. Durante o pontificado de Francisco, além de haver um grande decréscimo das vocações, verificamos notórios católicos, alguns deles heróis de guerra da apologética católica, cardeais, bispos, etc., adotarem uma postura crítica ao pontificado, tais como Scott Hahn, Phil Lawler, George Weigel, Ralph Martin, Edward Feser, Cardeal Sarah, Dom Athanasius Schneider, Cardeal Gerard Müller, Eric Sammons, Karl Keating, entre outros.

No atual pontificado, verificamos como os grandes machucados pelo pontificado de Francisco os católicos tradicionais, que foram surpreendidos com a reversão da Summorum Pontificum de Bento XVI pela Traditiones Custodes. Este documento foi particularmente doloroso, porque recolocou a Igreja em uma situação análoga a dos anos 80, nos quais as missas tridentinas eram extremamente raras e o que restava ao católico era se contentar com a já controversa Missa Nova cheia de abusos litúrgicos. No entanto, além de tradicionalistas, muito católicos ratzengerianos e wojtylianos (George Weigel, por exemplo) também encontram-se entre os católicos ressentidos com o atual pontificado, dado que Francisco, infelizmente, tornou-se conhecido por reverter a obra de seus últimos dois predecessores, esta sempre muito marcada pela busca da correção dos excessos do Concílio e pela reconciliação interna da Igreja.

Pois bem. Ao que parece o Papa Francisco chegou ao seu estado mais delicado de saúde. Os médicos não excluem o risco de morte. Diante desse cenário, muitos católicos foram criticados por católicos progressistas por não estarem, neste momento, apresentando muita comoção pública pela recuperação física do pontífice. Michael Matt, por exemplo, foi duramente criticado por Dave Armstrong por fazer a seguinte afirmação em seu Instagram:

"Somos obrigados a orar por uma recuperação rápida e completa do Papa Francisco? Por que essa seria a santa vontade de Deus? Francisco tem 88 anos. Vamos orar para que ele se arrependa, tenha uma morte feliz e enfrente a eternidade nas boas graças de Deus, independentemente do que pensemos de seu pontificado."

Matt é um conhecido tradicionalista americano e ferrenho opositor do pontificado de Francisco. Nesta fala, Matt entende que não estamos obrigados a rezar pela recuperação da saúde do papa, mas apenas por sua conversão e boa eternidade com Deus. Dave julgou a fala de Matt como verdadeiramente desprezível, dando a entender que o desejo de todo católico deve ser o reestabelecimento da saúde do papa. 


Tradução:

"Reacionário Michael Matt (do infame "Remnant"): Não estamos obrigados a rezar pela recuperação do Papa, mas sim por seu arrependimento!

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"Somos obrigados a orar por uma recuperação rápida e completa do Papa Francisco? Por que essa seria a santa vontade de Deus? Francisco tem 88 anos. Vamos orar para que ele se arrependa, tenha uma morte feliz e enfrente a eternidade nas boas graças de Deus, independentemente do que pensemos de seu pontificado." [20-2-25 em seu trapo vergonhoso]

Efésios 6:18 (RSV) "Orem em todo o tempo no Espírito, com toda oração e súplica. Para esse fim, mantenham-se alertas com toda a perseverança, fazendo súplicas por todos os santos."

Tenho alertado as pessoas sobre o Remnant e outros grupos reacionários desse tipo durante os 28 anos desde que tenho um site/blog. Há mil boas RAZÕES para isso: uma delas é evidente nas opiniões e no comportamento desprezíveis de Matt."

Não compartilhamos de muitas das opiniões de Michael Matt e não entendemos como razoável a sua postura muitas vezes acintosa contra o Santo Padre. Devemos sempre ter em mente que o Sumo Pontífice, como ensina o Pe. William Faber em "Da Devoção ao Papa", é realmente uma pessoa venerável, razão pela qual devemos ter verdadeira piedade filial, independente de quem seja. Não é admissível a um cristão zombar ou desprezar o Sumo Pontífice. Não é possível, por isso mesmo, nutrir ódio de inimizade, pelo qual se deseja o mal enquanto tal ao próximo, contra o Santo Padre.

No entanto, devemos nos perguntar: Michael Matt mentiu? Católicos que foram feridos por este pontificado estão realmente obrigados a desejar e rezar pela pronta recuperação do Papa? É o que iremos descobrir.

Para tanto façamos um digressão sobre (i) como se compreende o ódio e a caridade pelos inimigos e (ii) se um papa pode ser o nosso inimigo.


O ódio e o amor pelos inimigos

Santo Afonso de Ligório ao tratar do ódio e do amor aos inimigos em sua Teologia Moral distingue o ódio de inimizade do ódio de abominação:

"Embora seja pecado mortal ex genere suo o ódio de inimizade, ou seja, à pessoa secundum se e aos bens que em si possui, desejando-lhe mal por mal, ou na medida em que é mal para ela; contudo muitas vezes é lícito o ódio de abominação, ou seja, de qualidade, com o qual aborrecemos não o homem, mas sua malícia, ou a pessoa em quanto é má, ou prejudicial a nós, como ensina Coninck e as opinião comum."

E complementa:

"É lícito desejar mal ao próximo, por exemplo, temporal (desde que não seja mais grave que justo), em quanto é para ele um bem, por exemplo, doença ou adversidade, para que se emende dos seus pecados. Bonacina", com funda-mento em muitos. Mas é preciso prevenir que não seja feito por vingança, com que pecas mortalmente, conforme se pode ler no Salmo 108 sobre o inimigo. Porém, em geral, é lícito desejar a outras pessoas, com afeto ineficaz, males de pena por causa do bem espiritual próprio ou alheio: porque, como nesse afeto se antepõe o bem espiritual ao temporal, não é desordenado. Veja-se Lessius. - [Veja o que será dito no Liv. V, n. 21].

<<Assim, é lícito, por exemplo, desejar a morte ao heresiarca ou ao perturbador da paz pública, por causa do bem comum e de muitos; conforme o passo de Gálatas 5, 12: Oxalá fossem cortados. Também é lícito entristecer-se com as dignidades concedidas aos indignos, ou com a saúde de quem dela se vale para pecar. Igualmente é lícito desejar a alguém a morte, pobreza ou doença, para que abandone o pecado e mude de vida. Pela mesma razão, Bonacina, Azor e Palao escusam de pecado a mãe que deseja a morte das filhas, quando, por alguma deformidade ou penúria, não lhes pode arranjar núpcias por meios honestos e cômodos». [Isto porém não se deve admitir de jeito nenhum; como dizem acertadamente os Salmanticenses e Roncaglia)"

Segundo padroeiro dos confessores e moralistas, o ódio de inimizade é aquele em que odiamos a pessoa em si mesma e desejamos a ela o mal pelo mal, isto é, como um ato de vingança. Já no ódio de abominação se detesta não a pessoa, mas a sua malícia, os seus pecados ou o mal que faz a nós. O ódio de inimizade é proibido nutrirmos contra qualquer pessoa, inimiga ou não, porque somos obrigados por dever de caridade a desejar a salvação do próximo. Desejar o mal gratuito ao inimigo significaria um ódio à criação de Deus e à bondade que ele inscreveu nas criaturas. Assim, odiar uma pessoa é o odiar o próprio Deus. O ódio de abominação, porém, é lícito termos, desde que não odiemos a pessoa em si mesma, e poderíamos inclusive desejar um mal temporal, mesmo a morte, para um inimigo visando o bem moral dele, isto é, a sua conversão e mudança de vida, ou o bem comum. Inclusíve é lícito nos entristecermos com a saúde de quem dela se utiliza mal.

O mesmo entendimento é seguido por outros moralistas. Antonio Royo Marín, em sua "Teologia Moral para Leigos", assim ensina:

"Já falamos dele ao expor a doutrina sobre o perdão aos inimigos. Aqui nos limitamos a recordar alguns princípios fundamentais.

1.º) O ÓDIO DE INIMIZADE (pelo qual se deseja ao próximo algum mal enquanto tal, ou se tem alegria por seus males, ou tristeza por seus bens) opõe-se diretamente à caridade (amor de benevolência) e é em si pecado mortal, a não ser por pequenez de matéria ou imperfeição do ato. Consta expressamente na Sagrada Escritura (1Jo 2, 9; 3, 14-15; 4, 20, etc.) e pelo fato de que o próximo, ainda que seja mau e pecador, foi redimido por Cristo, é membro do Corpo místico de Cristo (em ato ou em potencia) e está destinado à vida que são outros tantos motivos de caridade.

2.º) O ÓDIO DE ABOMINAÇÃO (que recai sobre o próximo enquanto pecador, perseguidor da Igreja, ou pelo mal que nos causa injustamente) pode ser reto e legítimo caso se deteste não a pessoa mesma do próximo, mas o que há de mau nela; porém, caso seja odiada pelo que há nela de bom ou pelo mal que nos causa justamente (v.g., o juiz, o superior, etc., castigando legitimamente o delinquente), opõe-se à caridade (amor de concupiscência) e é pecado em si grave, a não ser por pequenez de matéria ou por imperfeição do ato.

3.º) Não há pecado algum em desejar ao próximo algum mal fisico, mas sob a razão de bem moral (v.g., uma enfermidade para que se arrependa sua má vida). Tampouco o seria alegrar-se com a morte do próximo que propagava erros ou heresias, perseguia a Igreja, etc., contanto que este gozo não redunde em ódio para com a própria pessoa que causava aquele mal. A razão é que odiar o que em si é odioso não é nenhum pecado, mas totalmente obrigatório quando se odeia segundo a reta ordem da razão e da maneira e com a finalidade devidas. Não obstante, é preciso estar muito alerta para não passar do ódio de legítima abominação do mal ao ódio de inimizade para com a pessoa culpada, o que nunca é lícito, ainda que se trate de um grande pecador, já que ainda está em tempo de se arrepender e se salvar. Somente os demônios e os condenados do inferno se tornaram definitivamente indignos de todo ato de caridade em qualquer de suas manifestações." (n. 538)

Antonio Arregui em "Summarium Theologiae Moralis" igualmente diz:

"Nem todos os penitentes que se acusam de ódio são imediatamente acusados ​​de pecado grave; pois muitas vezes confundem o ódio da inimizade, que é exercido contra uma pessoa em si mesma e dos bens que ela possui, com o ódio da abominação, que é exercido contra suas más qualidades, ou sobre uma pessoa considerada prejudicial para nós, ou com uma aversão natural e invencível que não é má em si." (n. 140)

Portanto, não é contrário ao preceito de amarmos os nossos inimigos o ódio de abominação e o desejo de certos males para sua correção ou para o bem comum. Com isto estabelecido, abordaremos agora se é possível existir ódio de abominação contra um papa.


Os maus papas e o ódio de abominação

Não há qualquer dúvida razoável de que maus papas existiram. Até mesmo o mais ferrenho dos continuístas é capaz de reconhecer esta verdade. Na História da Igreja já se viu papas sodomitas, assassinos, estupradores, fornicadores e favorecedores de heresia. Alguns desses Papas foram publicamente defenestrados pela Igreja Romana, sendo o maior exemplo o Papa Honório. Honório, independente se ensinou heresia ou não, não tem boa memória perante a Igreja e é contado entre os anematizados por ela.

Com efeito, é possível afirmarmos que, sim, um papa pode ser tanto inimigo pessoal de um indivíduo, já que é capaz de pecados mortais contra a vida, o matrimônio, o patrimônio de alguém, etc., quanto um inimigo da Igreja, na medida em que diz heresias (Se um Papa pode ser herege é disputado entre os teólogos) ou que as favorece (não é disputável se um Papa pode favorecer heresias, pois a Igreja confirmou que Honório fez isso).

Sendo assim, é igualmente possível existir ódio de abominação a um pontífice.

Nesse contexto, é simplesmente um fato que o pontificado de Francisco machucou muitos católicos. Papa Francisco tomou decisões impopulares que geraram (e ainda geraram) uma onda de desconfiança e até de profundo ressentimento contra o Sumo Pontífice. Lembremos que a Traditiones Custodes dizimou comunidades frutuosas inteiras de católicos ligados à Missa Tridentina. Uma ação pastoral dessas dificilmente não poderia ser enquadrada como um pecado contra caridade. Mesmo um católico progressista como Karl Rahner reconhecia que o Papa que pretendesse extinguir um rito tradicional cometeria uma falta gravíssima contra a caridade e a unidade da Igreja:

"Imagine que o Papa, como pastor supremo da Igreja, emitiu hoje um decreto exigindo que todas as igrejas unidas do Oriente abandonassem a sua liturgia oriental e adoptassem o rito latino... O Papa não excederia a competência do seu primado jurisdicional e o decreto seria legalmente válido.

Mas também podemos colocar uma questão totalmente diferente. Seria moralmente lícito que o Papa emitisse tal decreto? Qualquer homem razoável e qualquer cristão verdadeiro teria de responder “não”. Qualquer confessor do Papa teria de lhe dizer que na situação concreta da Igreja hoje tal decreto, apesar da sua validade jurídica, seria subjetiva e objetivamente uma ofensa moral gravíssima contra a caridade, contra a unidade da Igreja bem entendida (que não exige uniformidade), contra a possível reunião dos Ortodoxos com a Igreja Católica Romana, etc., um pecado mortal do qual o Papa só poderia ser absolvido se revogasse o decreto." (Studies in Modern Theology de Karl Rahner (Herder, 1965, pp. 394-395)

Pe. Chad Ripperger igualmente afirma em seu livro "The Binding Force of Tradition" que o ataque aos monumentos da Tradição, nos quais os ritos tradicionais se inserem, é um pecado, podendo ser até mesmo grave, contra a caridade:

"Se alguém ama o próximo, desejará garantir que o próximo receba a tradição tão plenamente quanto possível para o bem da sua salvação. As extensas mudanças recentes na tradição tornaram mais difícil a salvação das nossas almas, o que é contra a caridade. O assalto aos monumentos, bem como a clareza doutrinária sobre a fé e a moral ensinada pela Igreja, devastou os afetos que as pessoas têm pelas coisas da fé e às quais estão apegadas de uma forma devidamente ordenada. O impacto que teve nas pessoas é claramente contra a caridade e não pode ser interpretado de outra forma que não seja pecaminoso, muitas vezes gravemente pecaminoso, especialmente quando falamos do desprezo com que estas coisas foram mudadas, bem como do desprezo demonstrado por aqueles que foram atados a elas de maneira corretamente ordenada."

Papa Francisco, ademais, foi um tanto controverso nesta decisão, tendo em vista que revogou inteiramente a legislação de um predecessor ainda vivo, Bento XVI, colocando em risco a credibilidade das decisões da Igreja.

Além disso, as declarações polêmicas tais como "Gosto de pensar em um inferno vazio", "A pluralidade das religiões é um dom de Deus", "A pena de morte é inadmissível para além de toda circunstância" são tão ou mais problemáticas que o ensino dúbio de Honório.

Por tais motivos, é totalmente compreensível que alguns católicos se sintam verdadeiramente feridos e ressentidos com Francisco e não nutram agora afetos especiais de amizade, não fiquem entristecidos com sua enfermidade e nem façam comoção pública pela sua rápida recuperação.

Os sentimentos desses católicos não são censuráveis, se não são movidos por ódio de inimizade, mas unicamente pelo desejo de que os males temporais ajudem o Papa a mudar os rumos do pontificado ou a conquistar a vida eterna (opinião de Michael Matt) ou ainda para ver o fim de um governo especialmente doloroso.

É preciso dizer que Deus exige de nós uma caridade sobrenatural para com o próximo, mas não exige, absolutamente, uma caridade repulsiva à natureza ou contrária ao bem comum. Em outras palavras, Deus quer que conservemos em absoluto o desejo de salvação do próximo, porém não exige que desejemos ao próximo a preservação de todo mal. Alguns males temporais, em certas circunstâncias, são medicinais para ele. Desejar ao próximo todo bem possível e imaginável não seria nem mesmo reto em algumas ocasiões, especialmente naquelas em que a justiça precisa seguir seu curso.

Pois bem. O que esses católicos machucados pelo pontificado podem fazer então? As opções são diversas. Eles podem:

1. Rezar pela recuperação do Papa, para que não venha um papa pior. Esta posição é uma das sugestões indicadas por Santo Tomás de Aquino em "De Regno":

"Verdadeiramente, costuma acontecer, na tirania, tornar-se a posterior mais grave que a precedente, pois não retira os gravames anteriores e, até, pela perversidade do coração, excogita novos. Por essa razão (Valério Máximo, Memorabilia, VI, 2, ext. 2), como outrora, em Siracusa, todos desejassem a morte de Dionísio, certa velha orava continuamente a fim de que ele ficasse incólume e sobrevivesse a ela. Disso sabendo, interrogou o tirano por que fazia assim. Ao que respondeu: “Quando eu era menina, como tivéssemos pesado tirano, desejava a morte dele; morto esse, sucedeu-lhe outro algo mais rude, cujo fim de dominação eu tinha por grande bem. E começamos a ter um governo mais intolerável, que és tu. Portanto, se fores derrubado, sucederá um pior no teu lugar”." (Cap. VII)

2. Rezar pela recuperação do Papa, mas pedindo que ele se torne santo ou mude os rumos do pontificado. Nesse sentido, pode-se rezar a prece "Oremus Pro Pontifice Nostro" que pede a Deus que vivifique o Papa e lhe dê santidade de vida na Terra.

℣.Oremus pro Pontifice nostro NN.

℟. Dominus conservet eum, et vivificet eum, et beatum faciat eum in terra, et non tradat eum in animam inimicorum eius.

℣. Tu es Petrus,

℟. Et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam.

Oremus.

Deus, omnium fidelium pastor et rector, famulum tuum NN, quem pastorem Ecclesiae tuae praeesse voluisti, propitius respice: da ei, quaesumus, verbo et exemplo, quibus praeest, proficere: ut ad vitam, una cum grege sibi credito, perveniat sempiternam. 

Per Christum, Dominum nostrum. 

℟. Amen.

3. Rezar para que a doença enfrentada pelo Papa o ajude a se santificar.

4. Rezar para que, se o destino do Papa for o pior, que ele descanse em amizade com Deus. Esta é a posição de Michael Matt.

5. Rezar para que, se o Papa falecer, ele descanse em amizade com Deus e que o seu sucessor seja um bom papa. Esta parece ser a posição de Timothy Gordon:



6. Rezar para que Deus exerça seu juízo e vontade sobre o pontífice ponderando, na oração, as dificuldades do pontificado.

Todas essas atitudes não contrariam a devida piedade filial ao Papa e o amor aos inimigos. Em nenhuma dessas hipóteses se deseja o mal em si do Pontífice, mas somente o bem dele ou da Igreja nas condições pontuadas pelos teólogos.

Dito isso, rezemos pelo Papa Francisco para que Deus exerça sua soberana vontade em todas as coisas e que o Papa, quer nesta vida ou na outra, seja um grande amigo de Deus.

Católicas feministas odeiam homens católicos. E elas perderão tudo com isso.

Algumas páginas católicas feministas estão compartilhando um “estudo” que atesta que o movimento “tradwife” tem atraído homens que “odeiam” ...