Mal publicamos o artigo "Acabando com o Carnaval do "O Catequista"" e a página não satisfeita já inventou mais uma lorota para justificar sua paixão irracional pelo carnaval. Desta vez, a lorota é: Dom Bosco pulou o carnaval com seus meninos do Oratório.
Viviane em nova publicação no Instagram utiliza a biografia "A Vida de Dom Bosco" escrita pelo Pe. Giovanni Battista Lemoyne, para defender que Dom Bosco caiu na folia.
Diz Viviane que Dom Bosco queria ensinar os meninos do Oratório a "como viver o carnaval", a despeito das imoralidades da festa. Contudo, essa argumentação do O Catequista simplesmente não bate com a postura de Dom Bosco e dos padres que o ajudavam até então. Ora, se essa era a lição que Dom Bosco queria ensinar, por que ele não a deu nos carnavais anteriores? A resposta é muito simples: Dom Bosco não estava procurando ensinar como viver bem uma festa mundana. Durante o carnaval, Dom Bosco fazia programações dentro do Oratório, o que é totalmente lícito segundo explicamos no nosso artigo anterior. E a única vez que ele foi a um carnaval público não foi pelas razões ditas pelo O Catequista.
O próprio vídeo de Viviane explica o contexto da motivação de Dom Bosco:
"Naquele ano a Prefeitura de Turim havia autorizado que as instituições de caridade montassem uma barraca na Piazza Castello pra vender nos últimos dias de carnaval o que achassem melhor pro benefício dos pobres atendidos por suas obras."
A intenção de Dom Bosco em ir ao carnaval de Turim era apenas uma: angariar fundos para o Oratório por meio de uma barraca de vendas. Ou seja, Dom Bosco queria ir ao carnaval para trabalhar para o sustento do Oratório, não simplesmente para divertir-se.
A própria biografia utilizada por Viviane narra que Dom Bosco, antes de se entregar à Providência, buscava por todos os meios angariar recursos para o Oratório, sendo até mesmo engenhoso ao fazer isso. Uma de suas engenhosidades foi trabalhar no carnaval, como afirma o Pe. Lemoye:
"Dom Bosco sentiu-se obrigado a tentar esgotar todos os meios humanos, antes de se abandonar cegamente nos braços da Divina Providência. Por isso ele sempre pedia, de mil maneiras, usando as maneiras mais variadas, mais prudentes, mais engenhosas. Circulares, loterias, barracas de doações, e uma centena de outros meios foram usados quando as necessidades eram sérias, e os recursos diários ordinários eram insuficientes.
Durante o carnaval de 1869 ele teve uma ideia singular. Naquela época, o carnaval de Turim era o mais digno, tranquilo e agradável de toda a Itália; basta dizer que uma comissão especial, com plenos poderes e a polícia sob seu comando, zelava pela ordem, pela moral e pelo respeito a todas as classes de pessoas. Pois bem, ele obteve autorização da prefeitura para montar uma barraca de vendas na Piazza Castello, junto com outras instituições de caridade, para seu próprio benefício durante os últimos dias do Carnaval." (A Vida de Dom Bosco, vol. 2)
Ou seja, Dom Bosco tinha uma razão justa e proporcional para ir ao Carnaval. Ele foi por necessidade, não por opção. Como narra a própria biografia, o santo sentia-se obrigado a esgotar todos os meios possíveis para sustentar o Oratório.
Se aplicarmos os princípios expostos no artigo "O Catequista e a Opção Preferencial pelo Laxismo" sobre as espécies de cooperação com o mal, veremos que eventual cooperação de Dom Bosco neste caso seria remota e não necessária, sendo absolutamente escusável ele buscar o sustento do Oratório montando a barraca de vendas na festividade.
Todavia, desonestamente, o O Catequista omite todo esse contexto. Viviane chega a afirmar que Dom Bosco buscava "maneiras de ir ao Carnaval", como se quisesse arranjar desculpas para os seus meninos irem à festividade, quando claramente essa não era a verdade.
Omitindo informações importantes dessa maneira o O Catequista faz um verdadeiro anti-apostolado para os católicos, pois o exerce unicamente para anestesiar as consciências em prol de sua opção preferencial pelo laxismo.
Ademais, neste caso, a escolha de Dom Bosco como elemento de defesa do Carnaval parece ter sido bem calculada pelo O Catequista. Neste ano, o Centro Dom Bosco fez críticas públicas ao O Catequista por defender o Carnaval e agora a página buscou de alguma forma responder as censuras usando o patrono do CDB. Tenha sido esta a intenção ou não, o tiro saiu pela culatra. Dom Bosco não foi ao carnaval pelas razões que o O Catequista quis sugerir.
Enquanto o mundo católico se prepara para a Quaresma e diversos padres e bispos acautelam os fiéis das mazelas do Carnaval, o Catequista ano após ano, nas proximidades da Quaresma, se dedica a anestesiar as consciências a respeito da festividade.
Em 2024, Alexandre e Viviane Varela já havia publicado fotos dos próprios filhos "caindo na folia", como se vê aqui:
Na época, o casal justificou a publicação argumentando que a Igreja jamais condenara o Carnaval e porque neste baile infantil se encontravam "Muitas senhoras e senhores, jovens bem comportados, uma multidão de crianças e doguinhos, nenhum cheiro de cigarro".
Nota-se de cara, neste baile infantil, mulheres adultas muito mal vestidas, uma delas de mini-shorts e segurando uma cerveja na mão (o ápice da vulgaridade feminina), mas, para o O Catequista, era um baile "bem comportado".
Veremos na exposição deste artigo que este baile não cumpre os requisitos mínimos de um baile adequado.
A consciência de Alexandre e Viviane Varela está totalmente cauterizada quanto à verdadeira honestidade que os ambientes devem ter, afinal, eles não se importam de levar os filhos a uma praia mista com pessoas seminuas depois da Missa, conforme demonstramos no artigo "Sobre a obstinada idolatria dos conservadores católicos às praias".
Este ano, novamente, a página renovou seus votos de apoio ao Carnaval, desta vez apoiando-se nominalisticamente nos casos da Serva de Deus Odetinha e em Santa Giana Molla, que também teriam caído na folia.
Dizemos "nominalisticamente", porque o O Catequista simplesmente se recusa a justificar tecnicamente suas opiniões articulando os princípios da teologia moral ao caso concreto, mas ele simplesmente "extrai" conclusões a partir de comportamentos de certos santos ou pontífices, que puderam ter inúmeros motivos para agir de tal ou qual maneira ou que simplesmente não agiram bem.
Neste exemplo da Serva de Deus Odetinha, por exemplo, há coisa mais inadequada do que uma menina se vestir de menino? Qual a diferença disso para incentivar um menino a brincar de boneca? Qual a diferença de uma menina se vestir de menino no carnaval infantil e um marmanjo se vestir de princesa no carnaval adulto? É uma diferença de grau, não de essência. É evidente que os pais de Odetinha não tinham que permitir tal coisa.
Neste blog já argumentamos que o progressismo católico, quando não tem fundamento sólido na doutrina ou na teologia, apela nominalisticamente aos santos, pois sempre haverá algum que, sendo filho do seu tempo e carecendo de boa instrução, não agiu conforme a doutrina ou a boa teologia aconselham a agir. Não precisamos ir longe. Vejamos, por exemplo, o caso da Serva de Deus Chiara Petrillo.
Chiara e o marido eram ardorosos frequentadores da Renovação Carismática e Chiara morreu de forma heroica para levar a sua última gestação para frente. Contudo, Chiara, como qualquer santo que vive em tempos caóticos e sem muita instrução como os nossos, tinha diversos costumes mundanos, embora creiamos que todos eram vividos na mais absoluta boa-fé. Chiara, por exemplo, usava biquini na praia, algo simplesmente escandaloso para a modéstia no vestir, como demonstramos em diversas ocasiões.
Chiara era acostumada com missas hiper carismáticas com todos os problemas que descrevemos no artigo "Sobre o Tradismatismo". Em seu funeral, a missa, novamente, foi hiper carismática, fugindo completamente ao espírito de uma Missa Pro Defunctis, sendo animada com instrumentos musicais totalmente inadequados para a liturgia e até mesmo com o marido de Chiara, Enrico Petrillo, soltando a mão no violão:
Não estamos expondos essas coisas para detratar os santos, mas para mostrar o quão problemático é tomar o exemplo dos santos como se fosse uma norma moral, ainda mais no contexto de caos litúrgico e catequético que vivemos. O fenômeno dos "santos enganados" pelo espírito do tempo será cada vez mais comum, sendo absolutamente necessário os católicos filtrarem adequadamente o que é exemplar na vida dos santos e o que não é.
No caso de Odetinha e Santa Giana sabemos que houve engano dessas santas, tendo em vista a expressa condenação da Igreja aos bailes infantis:
"758. Reprovamos o abandono dos pais, que, concedendo a seus filhos absoluta liberdade no trato com pessoas de sexo diferente, não protegem bastante a sua pureza contra os perigos que a rodeiam, não evitam os namoros precoces, e não robustecem nem fomentam em seus corações o amor à castidade. Por isso, declaramos dignos de igual reprovação aos promotores e fautores dos bailes infantis, e gravissimamente encarecemos no Senhor aos pais, que não exponham seus filhos a tamanhos perigos, ainda que para buscar desculpas para os pecados, apresentem não poucos pretextos, com aparência de honestidade” (Concílio Plenário Limense da América Latina de 1900 aprovado por Leão XIII)
Feita esta introdução façamos agora uma análise da moralidade do carnaval, para que tenhamos uma visão justa do tema.
O carnaval enquanto festa
O Carnaval é um espetáculo público com danças. Assim, deve-se levar em conta as principais normas da moralidade tanto para o espetáculo quanto para a dança. Adianta-se, desde já, que o carnaval ser "popular", "mirim" ou "adulto" não é critério suficiente para julgar a situação.
1. Quanto aos espetáculos. Em geral, não são maus em si. Mas, segundo a opinião comum dos moralistas, seriam gravemente escandalosos se promovessem:
a) músicas e artes obscenas, antirreligiosas ou contrárias aos bons costumes;
b) roupas indecentes;
c) todo tipo de excesso (drogas, bebedeiras, chistes, etc).
As pessoas que participassem desses eventos, mesmo sem perigo pessoal, pecariam gravemente por escândalo (Zalba, Royo Marin). Aqui a normal é clara: não basta você estar sadio no local, o ambiente como um todo também precisa estar.
Por estes critérios o carnaval, mesmo o infantil, já se torna uma realidade muito difícil de se frequentar no Brasil, uma vez que, raramente, se observa o atendimento desses critérios.
Aqui pedimos licença para o leitor para notar como a página O Catequista é completamente amadora na abordagem desse assunto.
O Catequista defende com ardor o Frevo pernambucano como uma alternativa legítima de entretenimento carnavalesco. Na publicação deste ano de defesa do Carnaval, pode-se inclusive encontrar comentários de seguidores do O Catequista a respeito do Frevo e o endosso da página à festividade:
Notemos como os seguidores do O Catequista, seguindo o exemplo da página, são incapazes de um raciocínio moral. Defendem o Frevo porque ele é "cultural" ou porque a festividade faz parte da "identidade" deles, não porque seja algo moralmente sadio. Aqui funciona a lógica dos apegos, não da razão retamente aplicada. Todas as pessoas de consciência laxa pensam dessa maneira. A coisa é certa ou errada segundo o grau de apego/simpatia da pessoa, não segundo as normas da moralidade.
O Catequista aplaude os comentários e acrescenta seu endosso ao carnaval pernambucano.
Todavia, quando observamos o Frevo constatamos que ele não é celebrado de forma decente. Neste festival constata-se um grau altíssimo de indecência das mulheres. Vejamos que, nesta festividade, as moças costumam usar vestidos curtíssimos expondo totalmente as pernas e quando fazem pulos e giros a roupa íntima fica totalmente à mostra.
Aqui relembremos a orientação de Pio XI:
"Que os pais mantenham suas filhas longe do público de jogos e competições de ginástica, mas se as suas filhas são obrigadas a frequentar essas exposições, deixá-los ver que elas estejam totalmente e modestamente vestidas." (AAS, 1930, vol. 22)
O Frevo já foi um espetáculo um pouco mais modesto, como fica evidente nas imagens abaixo, mas com a decadência dos costumes ele próprio rendeu-se à indecência do vestir.
O Catequista não repara essas coisas porque, como dissemos, ele está anestesiado. Muitos anos de praia e de "Dança dos Famosos" entorpece todo tipo de consciência. Se o O Catequista defende a praia como um lugar adequado para um católico ir, apoiar o indecente Frevo pernambucano é fichinha.
2. Quanto aos bailes. A opinião comum dos teólogos não presume honestidade dos bailes públicos e mistos. A razão é manifesta: não são bailes controlados. Gury-Ferreres em "Compendium Theologiae Moralis" esclarecem o perigo de bailes públicos e mistos:
"O perigo provém de um duplo motivo: da íntima união dos corpos do homem e da mulher, e de que os que dançam se perdem entre a multidão, abandonados a si mesmos, dando lugar a uma maior liberdade para conversas indecentes [majorem libertatem habeant verba minus casta proferendi], quando todas as circunstâncias contribuem a incitá-los a pecar; e quanto mais familiaridade existe entre os que dançam, mais perigosas são estas danças e devem ser evitadas de qualquer modo.” (tomo I, n. 242)
Por isso Antonio Royo Marín em "Teologia Moral para Leigos" assinala que os bailes, se mistos, devem ser privados e combinar as seguintes condições:
1) Em locais privados e honestos; uma festa de casamento ou familiar, diante dos pais ou de pessoas de bons hábitos.
2) Com pessoas decentes; que sejam cavalheiras e sem malícia.
3) De maneira decente; uso de trajes que não sejam escandalosos ou sensuais.
4) Com boa intenção; com finalidade honesta ou honrosa. Ex: se divertir honestamente, encontrar um marido/esposa.
Nota-se por mais este critério que mesmo o "baile infantil" sugerido pelo O Catequista estaria condenado, tendo em vista que se trata de um baile público e não é festejado de maneira decente.
Outros moralistas também distinguem a honestidade dos bailes segundo (i) o modo de dançar e (ii) em razão das pessoas.
(i)No modo de dançar. Diversos moralistas (Arregui, Vicente Hernandez, Genicot, etc) e várias Conferências Episcopais apontaram o tango, a valsa, a mazurca, o galope, a polca, o schottisch, a habanera, a kamel-trot, o shimmy, o check-to-check, o one-step, o blues, o samba, o rock, etc., danças em que o homem e a mulher se abraçam apertado, dão giros, um passa por baixo das pernas do outro, etc., como danças que oferecem ocasiões próximas de pecado grave, tendo em vista o tipo de contato que há entre sexos, os gestos e a significação deles.
Observemos que um desses estilos, o tango, uma dança argentina altamente sensual, tem grande simpatia do Papa Francisco. Contudo, é impossível negar que ela seja uma ocasião de pecado grave, haja vista o tipo de interação e movimentos sensuais que há entre os dançarinos. O tango é a dança mais lembrada pelos moralistas como exemplo de dança intrinsecamente desonesta.
Daí a importância de não interpretar todos os comportamentos/gostos pessoais dos santos e dos pontífices como se fossem normas morais. Primeiro, porque o exemplo das outras pessoas, por mais estimadas que sejam, não é para nós uma norma moral. Seremos julgados tendo como parâmetro os mandamentos, não as outras pessoas. Segundo, porque não podemos buscar escusar nossas ações com base na consciência do outro. Isso é infantilismo espiritual. Terceiro, porque nem todos os santos foram realmente exemplares em todas as suas ações. Em muitas delas foram filhos de seu tempo, embora sempre de boa-fé.
Observamos nesse quadro também, como exemplo de dança desonesta, o samba. De fato, o samba requer, principalmente das mulheres, muitos movimentos de quadril, rebolados, algo intrinsecamente sensual. Não é à toa que os carnavais de samba no Brasil são altamente sensualizados. A sensualidade não é uma corrupção do samba, mas é ínsita dele.
Poderíamos facilmente acrescentar ao samba outras danças indecentes, mas, infelizmente, bastante populares no Brasil, como o pagode, o axé, o forró e o funk.
(ii) Em razão das pessoas. Diz respeito à honestidade e à decência das pessoas que dançam. Edouard Genicot em "Theologia Moralis" assim explica:
"A decência dos bailes depende especialmente das pessoas que nelas participam e do modo de dançar: por isso o confessor, quer ao permitir quer ao proibir as danças, deve prestar muita atenção à possibilidade ou não, especialmente às primeiras. Assim, as danças realizadas entre algumas famílias nas casas estão geralmente expostas a muito menos perigo do que as do público, tanto do campo como da cidade. Alguns condenam severamente o método de dançar já habitual mesmo nas famílias respeitáveis (polca, etc.), que as mulheres pobres devem abraçar com tal habilidade que parece impossível evitar graves pecados de luxúria. Outros, porém, como Berardi (De Recid. II. n. 165), não pensam que este perigo moral esteja tão universalmente presente, pois a própria experiência e os testemunhos dos penitentes parecem mostrar o contrário. E não é tão surpreendente assim: pois o toque entre o homem e a moça, feito na solidão e somente com esse carinho, muitas vezes o moverá mais à luxúria, do que quando a mente está distraída com muitas outras coisas e concentrada no ritmo da dança. Porém, existem danças, como o tango, o boston, que são absolutamente repreensíveis. Geralmente o perigo é maior nas danças mascaradas, porque muitos, libertos do medo de serem reconhecidos pelos outros, comportam-se com mais liberdade." (vol. 1, n. 241)
Antonio Arregui em "Summarium Theologiae Moralis" explica que o perigo dos bailes gradua-se da seguinte forma:
(i) bailes mascarados; concentra muitos perigos. Pessoas anônimas por trás de suas máscaras ou que assumem certo personagem durante o carnaval tendem a todo tipo de excessos.
(ii) bailes públicos; também ocasiona grandes perigos, tendo em vista a grande aglomeração de pessoas e o pouco controle do que se faz nele.
(iii) bailes em salões fechados; seria a danceteria moderna ou "balada". É um ambiente mais controlado, contudo, em geral, são ambientes escuros, com grande aglomeração de pessoas, o que favorece os pecados contra a castidade.
(iv) bailes privados, entre famílias honestas. São as festas controladas e com pessoas escolhidas. Geralmente, são festas familiares ou de casamento. Bailes feitos nessas circunstâncias, desde que com pessoas decentes, podem ser permitidos.
Apliquemos tais normas ao contexto do carnaval. Trata-se, como todos sabem, de um baile mascarado e público, ou seja, os dois piores tipos de bailes. Não é sem motivo que o carnaval é tão conhecido por suas extravagâncias e imoralidades. Mesmo o carnaval infantil, como vimos, não está isento de perigos. Tendo em vista que o carnaval mirim busca imitar o carnaval adulto, não é raro encontrar grande imodéstia no vestir nas meninas, danças inapropriadas, músicas inadequadas e maus exemplos de outras crianças, já que não há muito controle nos bailes públicos.
Genicot, teólogo belga do século XIX, dizia que os bailes feitos nas suas regiões eram intrinsecamente maus:
"Embora, teoricamente, reger danças possa ser um ato de virtude, na prática, como acontece em nossas regiões, é inerentemente perigoso e ocasião para muitos pecados. Portanto, os confessores devem ser incentivados e sabiamente afastados deles, mas especialmente os jovens de ambos os sexos que até agora viveram na castidade." (Ibidem)
O que dizer, portanto, de um "carnaval mirim" com mulheres mal vestidas e com danças imodestas como o samba? Nenhum pai responsável deveria levar seus filhos para esses lugares.
Os Papas e o Carnaval
Por fim, lidemos com uma última objeção do O Catequista. Um seguidor fez um comentário lúcido a respeito da Serva de Deus Odetinha:
O comentário foi perfeito. Odetinha morreu com apenas 9 anos de idade. Crianças nessa idade, conforme explicamos no artigo "O novo curso de Bernardo Küster e o Catolicismo Tradicional", possuem aquilo que chamamos de "certeza respectiva da fé":
"Em suma, a fé autêntica, tal como nós, católicos, a entendemos, pressupõe e exige uma certeza racional prévia do fato da revelação de Deus. Desta forma, a fé será um assentimento prudente, firme e irrevogável, que são propriedades do verdadeiro ato de fé. Para as crianças e os rudes, a “respectiva” certeza deste fato da revelação será suficiente; Para muitos adultos, a certeza <<vulgar>>> do mesmo será suficiente. Mas aos estudantes universitários e aos estudantes de teologia que queiram proceder cientificamente devem ser dadas demonstrações científicas e objetivamente válidas deste fato fundamental para a fé." (Miguel Nicolau, "A Crise da Igreja", n. 108)
A certeza respectiva significa que a criança crerá tendo como base moral e de fé o ensino do pai e da mãe, do professor católico, do catequista, do pároco, prescindido daquilo que se denomina "demonstração científica da fé".
Em outras palavras, se os pais de Odetinha disseram que o carnaval era bom, a base da moralidade de Odetinha não será qualquer teólogo moral ou documento pontifício, mas a afirmação dos pais. Portanto, apelar para a "santinha" impelida pelos pais a participar do carnaval é um argumento muito fraco para justificar a festa.
O Catequista respondeu a objeção da seguinte maneira:
Aqui parece que temos o argumento mais "sério" do O Catequista em sua defesa falida do Carnaval. Os papas teriam autorizado e patrocinado oficialmente os carnavais de rua de Roma até a unificação italiana. Portanto, vamos à folia!
No entanto, é preciso dizer que, novamente, o O Catequista cai na armadilha de tirar conclusões apressadas a partir de comportamentos dos pontífices ao invés de sentar na cadeira e raciocinar a partir de princípios bem definidos. O modus operandi do O Catequista é sempre este: ele não busca pensar, ele busca atalhos.
Pelo raciocínio do O Catequista seria lícito, por exemplo, mulheres irem seminuas ou de topless à missa, já que São João Paulo II celebrou uma missa para nativos seminus de Papua Nova Guiné em 1984:
Pois bem, é evidente que o raciocínio do O Catequista está errado. Sabemos que entre o século XVI e o XIX foram numerosíssimos os santos reprovavam o carnaval. Em suas "Meditações", Santo Afonso de Ligório, patrono da Teologia Moral, por exemplo, dirigia palavras duríssimas contra o carnaval:
“Por este amigo, a quem o Espírito Santo nos exorta a sermos fiéis no tempo da sua pobreza, podemos entender que é Jesus Cristo, que especialmente nestes dias de carnaval é deixado sozinho pelos homens ingratos e como que reduzido à extrema penúria. Se um só pecado, como dizem as Escrituras, já desonra a Deus, o injuria e o despreza, imagina quanto o divino Redentor deve ficar aflito neste tempo em que são cometidos milhares de pecados de toda a espécie, por toda a condição de pessoas, e quiçá por pessoas que lhe estão consagradas. Jesus Cristo não é mais suscetível de dor; mas, se ainda pudesse sofrer, havia de morrer nestes dias desgraçados e havia de morrer tantas vezes quantas são as ofensas que lhe são feitas.
É por isso que os santos, a fim de desagravarem o Senhor de tantos ultrajes, aplicavam-se no tempo de carnaval, de modo especial, ao recolhimento, à penitência, à oração, e multiplicavam os atos de amor, de adoração e de louvor para com o seu Bem-Amado. No tempo do carnaval, Santa Maria Madalena de Pazzi passava as noites inteiras diante do Santíssimo Sacramento, oferecendo a Deus o sangue de Jesus Cristo pelos pobres pecadores. O Bem-aventurado Henrique Suso guardava um jejum rigoroso a fim de expiar as intemperanças cometidas. São Carlos Borromeu castigava o seu corpo com disciplinas e penitências extraordinárias. São Filipe Néri convocava o povo para visitar com ele os santuários e realizar exercícios de devoção. O mesmo praticava São Francisco de Sales, que, não contente com a vida mais recolhida que então levava, pregava ainda na igreja diante de um auditório numerosíssimo. Tendo conhecimento que algumas pessoas por ele dirigidas, que se relaxavam um pouco nos dias de carnaval, repreendia-as com brandura e exortava-as à comunhão frequente.
Numa palavra, todos os santos, porque amaram a Jesus Cristo, esforçaram-se por santificar o mais possível o tempo de carnaval. Meu irmão, se amas também este Redentor amabilíssimo, imita os santos. Se não podes fazer mais, procura ao menos ficar, mais do que em outros tempos, na presença de Jesus Sacramentado ou bem recolhido em tua casa, aos pés de Jesus crucificado, para chorar as muitas ofensas que lhe são feitas."
Também sabemos que Papa Bento XIV instituiu as 40 horas de adoração ao Santíssimo em reparação aos pecados cometidos no carnaval e concedeu indulgência plenária a quem participasse da adoração.
"A Igreja repetidamente fez esforços para verificar os excessos do carnaval, especialmente na Itália. Durante o século XVI, em particular, uma forma especial da Oração das Quarenta Horas foi instituída em muitos lugares na segunda e terça-feira do entrudo, em parte para afastar as pessoas dessas perigosas ocasiões de pecado, em parte para fazer expiação pelos excessos cometidos. Por uma constituição especial endereçada por Bento XIV aos arcebispos e bispos dos Estados Pontifícios, e intitulada "Super Bacchanalibus", uma indulgência plenária foi concedida em 1747 àqueles que participaram da Exposição do Santíssimo Sacramento, que deveria ser realizada diariamente por três dias durante a temporada de carnaval." (Fonte: Aleteia)
Portanto, é inequívoco que tanto a Igreja quanto os santos sabiam que o carnaval era ou havia se tornado, no mínimo, uma festa problemática. Então por que ele continuou até a unificação italiana?
A resposta mais provável é que os Papas simplesmente toleraram o carnaval, tal como São João Paulo II tolerou a imodéstia dos nativos de Papua Nova Guiné, dado o enraizamento da festa na cultura popular. Como sabemos, os papas entre os séculos XVI e XIX tinham sob sua tutela os chamados Estados Pontifícios e não podiam simplesmente acabar com todos os problemas sociais na canetada. Por isso toleravam certos males. Trata-se aqui exatamente do princípio do mal menor. A aplicação deste princípio explica com perfeição a continuidade dos carnavais nos territórios pontifícios e a condenação ininterrupta dos santos a essa festividade.
Conclusão
De todo o exposto, fica manifesto o desserviço que tem prestado o O Catequista (mais um) a respeitto do carnaval. Mesmo que, em tese, se pudesse dizer que nem todo carnaval é mau, atualmente, não há carnaval sadio no Brasil. Assim, ao invés de gastar tempo e energia tentando convencer os católicos que se pode achar uma agulha no palheiro (agulha que, como vimos, nem o O Catequista encontrou), o O Catequista poderia incentivar os católicos a entrarem em espírito de recolhimento para a Quaresma.
Ademais, o carnaval, das grandes festas, é a que menos tem sentido. O que se comemora no carnaval? Qual herói é lembrado, qual data histórica é recordada, que santo é venerado, que Salvador é adorado? Nenhum. O carnaval tornou-se uma festa de vazão, vazão de uma alegria sem causa e sem nobreza. Por que incentivar os católicos a participarem de algo sem sentido, com muitas ocasiões próximas de pecado, sendo que eles podem recolher-se para uma Quaresma cheia de significado?
Que larguem esse laxismo vergonhoso que só levam às pessoas a pecarem mais e tomem a Cruz que a Quaresma convida a abraçar.
O Papa Francisco segue internado no hospital Gemelli de Roma há 14 dias. O quadro do pontífice, segundo os últimos boletins médicos, segue complexo e com prognóstico reservado, isto é, sem uma previsão clínica de melhora, embora o Santo Padre tenha apresentado uma leve melhora nos últimos dias.
Diante desse cenário, o Vaticano convocou vigílias de oração pela recuperação da saúde do pontífice e o mundo católico como um todo se levantou para rezar pela mesma intenção.
Contudo, é simplesmente um fato que o pontificado do Papa Francisco tem sido marcado como um dos mais polarizados da História. O pontífice é reconhecido como um dos grandes representantes do progressismo católico e diversas ações do seu pontificado foram marcadas por notáveis polêmicas. Enumeramos algumas:
a) O desmantelamento da Pontifícia Academia para a Vida mediante a reforma do seu estatuto, incluindo nisso a retirada da declaração de fidelidade dos seus membros ao Magistério e admissão de membros abortistas;
b) A abertura de uma pastoral, em Amoris Laetitia, para promover a comunhão para casais em segunda união, revertendo a pastoral proposta pela Veritatis Splendor;
c) A reversão da doutrina da pena de morte;
d) A dolorosa e severa restrição da Missa Tridentina mediante a promulgação do motu proprio "Traditiones Custodes";
e) O sepultamento da "Reforma da Reforma" de Bento XVI;
f) A promoção do clero progressista, principalmente do lobby LGBT;
g) O reerguimento da Teologia da Libertação;
h) A permissão de benção de pares homossexuais em "Fiducians Supplicans";
i) O partidarismo na punição de bispos e cardeais conservadores;
j) A ruptura com a venerável tradição do serviço do altar exclusivamente masculino;
k) Apoio a políticos abortistas e combate a políticos conservadores;
l) A declaração de que todas as religiões levam a Deus e que a pluralidade delas é um dom ou presente de Deus;
m) A declaração de desejo por um inferno vazio.
A lista de controvérsias não é pequena e por tais razões muitos proeminentes católicos chegaram a aventar que estaríamos diante do pior pontificado da História. Durante o pontificado de Francisco, além de haver um grande decréscimo das vocações, verificamos notórios católicos, alguns deles heróis de guerra da apologética católica, cardeais, bispos, etc., adotarem uma postura crítica ao pontificado, tais como Scott Hahn, Phil Lawler, George Weigel, Ralph Martin, Edward Feser, Cardeal Sarah, Dom Athanasius Schneider, Cardeal Gerard Müller, Eric Sammons, Karl Keating, entre outros.
No atual pontificado, verificamos como os grandes machucados pelo pontificado de Francisco os católicos tradicionais, que foram surpreendidos com a reversão da Summorum Pontificum de Bento XVI pela Traditiones Custodes. Este documento foi particularmente doloroso, porque recolocou a Igreja em uma situação análoga a dos anos 80, nos quais as missas tridentinas eram extremamente raras e o que restava ao católico era se contentar com a já controversa Missa Nova cheia de abusos litúrgicos. No entanto, além de tradicionalistas, muito católicos ratzengerianos e wojtylianos (George Weigel, por exemplo) também encontram-se entre os católicos ressentidos com o atual pontificado, dado que Francisco, infelizmente, tornou-se conhecido por reverter a obra de seus últimos dois predecessores, esta sempre muito marcada pela busca da correção dos excessos do Concílio e pela reconciliação interna da Igreja.
Pois bem. Ao que parece o Papa Francisco chegou ao seu estado mais delicado de saúde. Os médicos não excluem o risco de morte. Diante desse cenário, muitos católicos foram criticados por católicos progressistas por não estarem, neste momento, apresentando muita comoção pública pela recuperação física do pontífice. Michael Matt, por exemplo, foi duramente criticado por Dave Armstrong por fazer a seguinte afirmação em seu Instagram:
"Somos obrigados a orar por uma recuperação rápida e completa do Papa Francisco? Por que essa seria a santa vontade de Deus? Francisco tem 88 anos. Vamos orar para que ele se arrependa, tenha uma morte feliz e enfrente a eternidade nas boas graças de Deus, independentemente do que pensemos de seu pontificado."
Matt é um conhecido tradicionalista americano e ferrenho opositor do pontificado de Francisco. Nesta fala, Matt entende que não estamos obrigados a rezar pela recuperação da saúde do papa, mas apenas por sua conversão e boa eternidade com Deus. Dave julgou a fala de Matt como verdadeiramente desprezível, dando a entender que o desejo de todo católico deve ser o reestabelecimento da saúde do papa.
Tradução:
"Reacionário Michael Matt (do infame "Remnant"): Não estamos obrigados a rezar pela recuperação do Papa, mas sim por seu arrependimento!
++++++++++++++++++++
"Somos obrigados a orar por uma recuperação rápida e completa do Papa Francisco? Por que essa seria a santa vontade de Deus? Francisco tem 88 anos. Vamos orar para que ele se arrependa, tenha uma morte feliz e enfrente a eternidade nas boas graças de Deus, independentemente do que pensemos de seu pontificado." [20-2-25 em seu trapo vergonhoso]
Efésios 6:18 (RSV) "Orem em todo o tempo no Espírito, com toda oração e súplica. Para esse fim, mantenham-se alertas com toda a perseverança, fazendo súplicas por todos os santos."
Tenho alertado as pessoas sobre o Remnant e outros grupos reacionários desse tipo durante os 28 anos desde que tenho um site/blog. Há mil boas RAZÕES para isso: uma delas é evidente nas opiniões e no comportamento desprezíveis de Matt."
Não compartilhamos de muitas das opiniões de Michael Matt e não entendemos como razoável a sua postura muitas vezes acintosa contra o Santo Padre. Devemos sempre ter em mente que o Sumo Pontífice, como ensina o Pe. William Faber em "Da Devoção ao Papa", é realmente uma pessoa venerável, razão pela qual devemos ter verdadeira piedade filial, independente de quem seja. Não é admissível a um cristão zombar ou desprezar o Sumo Pontífice. Não é possível, por isso mesmo, nutrir ódio de inimizade, pelo qual se deseja o mal enquanto tal ao próximo, contra o Santo Padre.
No entanto, devemos nos perguntar: Michael Matt mentiu? Católicos que foram feridos por este pontificado estão realmente obrigados a desejar e rezar pela pronta recuperação do Papa? É o que iremos descobrir.
Para tanto façamos um digressão sobre (i) como se compreende o ódio e a caridade pelos inimigos e (ii) se um papa pode ser o nosso inimigo.
O ódio e o amor pelos inimigos
Santo Afonso de Ligório ao tratar do ódio e do amor aos inimigos em sua Teologia Moral distingue o ódio de inimizade do ódio de abominação:
"Embora seja pecado mortal ex genere suo o ódio de inimizade, ou seja, à pessoa secundum se e aos bens que em si possui, desejando-lhe mal por mal, ou na medida em que é mal para ela; contudo muitas vezes é lícito o ódio de abominação, ou seja, de qualidade, com o qual aborrecemos não o homem, mas sua malícia, ou a pessoa em quanto é má, ou prejudicial a nós, como ensina Coninck e as opinião comum."
E complementa:
"É lícito desejar mal ao próximo, por exemplo, temporal (desde que não seja mais grave que justo), em quanto é para ele um bem, por exemplo, doença ou adversidade, para que se emende dos seus pecados. Bonacina", com funda-mento em muitos. Mas é preciso prevenir que não seja feito por vingança, com que pecas mortalmente, conforme se pode ler no Salmo 108 sobre o inimigo. Porém, em geral, é lícito desejar a outras pessoas, com afeto ineficaz, males de pena por causa do bem espiritual próprio ou alheio: porque, como nesse afeto se antepõe o bem espiritual ao temporal, não é desordenado. Veja-se Lessius. - [Veja o que será dito no Liv. V, n. 21].
<<Assim, é lícito, por exemplo, desejar a morte ao heresiarca ou ao perturbador da paz pública, por causa do bem comum e de muitos; conforme o passo de Gálatas 5, 12: Oxalá fossem cortados. Também é lícito entristecer-se com as dignidades concedidas aos indignos, ou com a saúde de quem dela se vale para pecar. Igualmente é lícito desejar a alguém a morte, pobreza ou doença, para que abandone o pecado e mude de vida. Pela mesma razão, Bonacina, Azor e Palao escusam de pecado a mãe que deseja a morte das filhas, quando, por alguma deformidade ou penúria, não lhes pode arranjar núpcias por meios honestos e cômodos». [Isto porém não se deve admitir de jeito nenhum; como dizem acertadamente os Salmanticenses e Roncaglia)"
Segundo padroeiro dos confessores e moralistas, o ódio de inimizade é aquele em que odiamos a pessoa em si mesma e desejamos a ela o mal pelo mal, isto é, como um ato de vingança. Já no ódio de abominação se detesta não a pessoa, mas a sua malícia, os seus pecados ou o mal que faz a nós. O ódio de inimizade é proibido nutrirmos contra qualquer pessoa, inimiga ou não, porque somos obrigados por dever de caridade a desejar a salvação do próximo. Desejar o mal gratuito ao inimigo significaria um ódio à criação de Deus e à bondade que ele inscreveu nas criaturas. Assim, odiar uma pessoa é o odiar o próprio Deus. O ódio de abominação, porém, é lícito termos, desde que não odiemos a pessoa em si mesma, e poderíamos inclusive desejar um mal temporal, mesmo a morte, para um inimigo visando o bem moral dele, isto é, a sua conversão e mudança de vida, ou o bem comum. Inclusíve é lícito nos entristecermos com a saúde de quem dela se utiliza mal.
O mesmo entendimento é seguido por outros moralistas. Antonio Royo Marín, em sua "Teologia Moral para Leigos", assim ensina:
"Já falamos dele ao expor a doutrina sobre o perdão aos inimigos. Aqui nos limitamos a recordar alguns princípios fundamentais.
1.º) O ÓDIO DE INIMIZADE (pelo qual se deseja ao próximo algum mal enquanto tal, ou se tem alegria por seus males, ou tristeza por seus bens) opõe-se diretamente à caridade (amor de benevolência) e é em si pecado mortal, a não ser por pequenez de matéria ou imperfeição do ato. Consta expressamente na Sagrada Escritura (1Jo 2, 9; 3, 14-15; 4, 20, etc.) e pelo fato de que o próximo, ainda que seja mau e pecador, foi redimido por Cristo, é membro do Corpo místico de Cristo (em ato ou em potencia) e está destinado à vida que são outros tantos motivos de caridade.
2.º) O ÓDIO DE ABOMINAÇÃO (que recai sobre o próximo enquanto pecador, perseguidor da Igreja, ou pelo mal que nos causa injustamente) pode ser reto e legítimo caso se deteste não a pessoa mesma do próximo, mas o que há de mau nela; porém, caso seja odiada pelo que há nela de bom ou pelo mal que nos causa justamente (v.g., o juiz, o superior, etc., castigando legitimamente o delinquente), opõe-se à caridade (amor de concupiscência) e é pecado em si grave, a não ser por pequenez de matéria ou por imperfeição do ato.
3.º) Não há pecado algum em desejar ao próximo algum mal fisico, mas sob a razão de bem moral (v.g., uma enfermidade para que se arrependa sua má vida). Tampouco o seria alegrar-se com a morte do próximo que propagava erros ou heresias, perseguia a Igreja, etc., contanto que este gozo não redunde em ódio para com a própria pessoa que causava aquele mal. A razão é que odiar o que em si é odioso não é nenhum pecado, mas totalmente obrigatório quando se odeia segundo a reta ordem da razão e da maneira e com a finalidade devidas. Não obstante, é preciso estar muito alerta para não passar do ódio de legítima abominação do mal ao ódio de inimizade para com a pessoa culpada, o que nunca é lícito, ainda que se trate de um grande pecador, já que ainda está em tempo de se arrepender e se salvar. Somente os demônios e os condenados do inferno se tornaram definitivamente indignos de todo ato de caridade em qualquer de suas manifestações." (n. 538)
Antonio Arregui em "Summarium Theologiae Moralis" igualmente diz:
"Nem todos os penitentes que se acusam de ódio são imediatamente acusados de pecado grave; pois muitas vezes confundem o ódio da inimizade, que é exercido contra uma pessoa em si mesma e dos bens que ela possui, com o ódio da abominação, que é exercido contra suas más qualidades, ou sobre uma pessoa considerada prejudicial para nós, ou com uma aversão natural e invencível que não é má em si." (n. 140)
Portanto, não é contrário ao preceito de amarmos os nossos inimigos o ódio de abominação e o desejo de certos males para sua correção ou para o bem comum. Com isto estabelecido, abordaremos agora se é possível existir ódio de abominação contra um papa.
Os maus papas e o ódio de abominação
Não há qualquer dúvida razoável de que maus papas existiram. Até mesmo o mais ferrenho dos continuístas é capaz de reconhecer esta verdade. Na História da Igreja já se viu papas sodomitas, assassinos, estupradores, fornicadores e favorecedores de heresia. Alguns desses Papas foram publicamente defenestrados pela Igreja Romana, sendo o maior exemplo o Papa Honório. Honório, independente se ensinou heresia ou não, não tem boa memória perante a Igreja e é contado entre os anematizados por ela.
Com efeito, é possível afirmarmos que, sim, um papa pode ser tanto inimigo pessoal de um indivíduo, já que é capaz de pecados mortais contra a vida, o matrimônio, o patrimônio de alguém, etc., quanto um inimigo da Igreja, na medida em que diz heresias (Se um Papa pode ser herege é disputado entre os teólogos) ou que as favorece (não é disputável se um Papa pode favorecer heresias, pois a Igreja confirmou que Honório fez isso).
Sendo assim, é igualmente possível existir ódio de abominação a um pontífice.
Nesse contexto, é simplesmente um fato que o pontificado de Francisco machucou muitos católicos. Papa Francisco tomou decisões impopulares que geraram (e ainda geraram) uma onda de desconfiança e até de profundo ressentimento contra o Sumo Pontífice. Lembremos que a Traditiones Custodes dizimou comunidades frutuosas inteiras de católicos ligados à Missa Tridentina. Uma ação pastoral dessas dificilmente não poderia ser enquadrada como um pecado contra caridade. Mesmo um católico progressista como Karl Rahner reconhecia que o Papa que pretendesse extinguir um rito tradicional cometeria uma falta gravíssima contra a caridade e a unidade da Igreja:
"Imagine que o Papa, como pastor supremo da Igreja, emitiu hoje um decreto exigindo que todas as igrejas unidas do Oriente abandonassem a sua liturgia oriental e adoptassem o rito latino... O Papa não excederia a competência do seu primado jurisdicional e o decreto seria legalmente válido.
Mas também podemos colocar uma questão totalmente diferente. Seria moralmente lícito que o Papa emitisse tal decreto? Qualquer homem razoável e qualquer cristão verdadeiro teria de responder “não”. Qualquer confessor do Papa teria de lhe dizer que na situação concreta da Igreja hoje tal decreto, apesar da sua validade jurídica, seria subjetiva e objetivamente uma ofensa moral gravíssima contra a caridade, contra a unidade da Igreja bem entendida (que não exige uniformidade), contra a possível reunião dos Ortodoxos com a Igreja Católica Romana, etc., um pecado mortal do qual o Papa só poderia ser absolvido se revogasse o decreto." (Studies in Modern Theology de Karl Rahner (Herder, 1965, pp. 394-395)
Pe. Chad Ripperger igualmente afirma em seu livro "The Binding Force of Tradition" que o ataque aos monumentos da Tradição, nos quais os ritos tradicionais se inserem, é um pecado, podendo ser até mesmo grave, contra a caridade:
"Se alguém ama o próximo, desejará garantir que o próximo receba a tradição tão plenamente quanto possível para o bem da sua salvação. As extensas mudanças recentes na tradição tornaram mais difícil a salvação das nossas almas, o que é contra a caridade. O assalto aos monumentos, bem como a clareza doutrinária sobre a fé e a moral ensinada pela Igreja, devastou os afetos que as pessoas têm pelas coisas da fé e às quais estão apegadas de uma forma devidamente ordenada. O impacto que teve nas pessoas é claramente contra a caridade e não pode ser interpretado de outra forma que não seja pecaminoso, muitas vezes gravemente pecaminoso, especialmente quando falamos do desprezo com que estas coisas foram mudadas, bem como do desprezo demonstrado por aqueles que foram atados a elas de maneira corretamente ordenada."
Papa Francisco, ademais, foi um tanto controverso nesta decisão, tendo em vista que revogou inteiramente a legislação de um predecessor ainda vivo, Bento XVI, colocando em risco a credibilidade das decisões da Igreja.
Além disso, as declarações polêmicas tais como "Gosto de pensar em um inferno vazio", "A pluralidade das religiões é um dom de Deus", "A pena de morte é inadmissível para além de toda circunstância" são tão ou mais problemáticas que o ensino dúbio de Honório.
Por tais motivos, é totalmente compreensível que alguns católicos se sintam verdadeiramente feridos e ressentidos com Francisco e não nutram agora afetos especiais de amizade, não fiquem entristecidos com sua enfermidade e nem façam comoção pública pela sua rápida recuperação.
Os sentimentos desses católicos não são censuráveis, se não são movidos por ódio de inimizade, mas unicamente pelo desejo de que os males temporais ajudem o Papa a mudar os rumos do pontificado ou a conquistar a vida eterna (opinião de Michael Matt) ou ainda para ver o fim de um governo especialmente doloroso.
É preciso dizer que Deus exige de nós uma caridade sobrenatural para com o próximo, mas não exige, absolutamente, uma caridade repulsiva à natureza ou contrária ao bem comum. Em outras palavras, Deus quer que conservemos em absoluto o desejo de salvação do próximo, porém não exige que desejemos ao próximo a preservação de todo mal. Alguns males temporais, em certas circunstâncias, são medicinais para ele. Desejar ao próximo todo bem possível e imaginável não seria nem mesmo reto em algumas ocasiões, especialmente naquelas em que a justiça precisa seguir seu curso.
Pois bem. O que esses católicos machucados pelo pontificado podem fazer então? As opções são diversas. Eles podem:
1. Rezar pela recuperação do Papa, para que não venha um papa pior. Esta posição é uma das sugestões indicadas por Santo Tomás de Aquino em "De Regno":
"Verdadeiramente, costuma acontecer, na tirania, tornar-se a posterior mais grave que a precedente, pois não retira os gravames anteriores e, até, pela perversidade do coração, excogita novos. Por essa razão (Valério Máximo, Memorabilia, VI, 2, ext. 2), como outrora, em Siracusa, todos desejassem a morte de Dionísio, certa velha orava continuamente a fim de que ele ficasse incólume e sobrevivesse a ela. Disso sabendo, interrogou o tirano por que fazia assim. Ao que respondeu: “Quando eu era menina, como tivéssemos pesado tirano, desejava a morte dele; morto esse, sucedeu-lhe outro algo mais rude, cujo fim de dominação eu tinha por grande bem. E começamos a ter um governo mais intolerável, que és tu. Portanto, se fores derrubado, sucederá um pior no teu lugar”." (Cap. VII)
2. Rezar pela recuperação do Papa, mas pedindo que ele se torne santo ou mude os rumos do pontificado. Nesse sentido, pode-se rezar a prece "Oremus Pro Pontifice Nostro" que pede a Deus que vivifique o Papa e lhe dê santidade de vida na Terra.
℣.Oremus pro Pontifice nostro NN.
℟. Dominus conservet eum, et vivificet eum, et beatum faciat eum in terra, et non tradat eum in animam inimicorum eius.
℣. Tu es Petrus,
℟. Et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam.
Oremus.
Deus, omnium fidelium pastor et rector, famulum tuum NN, quem pastorem Ecclesiae tuae praeesse voluisti, propitius respice: da ei, quaesumus, verbo et exemplo, quibus praeest, proficere: ut ad vitam, una cum grege sibi credito, perveniat sempiternam.
Per Christum, Dominum nostrum.
℟. Amen.
3. Rezar para que a doença enfrentada pelo Papa o ajude a se santificar.
4. Rezar para que, se o destino do Papa for o pior, que ele descanse em amizade com Deus. Esta é a posição de Michael Matt.
5. Rezar para que, se o Papa falecer, ele descanse em amizade com Deus e que o seu sucessor seja um bom papa. Esta parece ser a posição de Timothy Gordon:
6. Rezar para que Deus exerça seu juízo e vontade sobre o pontífice ponderando, na oração, as dificuldades do pontificado.
Todas essas atitudes não contrariam a devida piedade filial ao Papa e o amor aos inimigos. Em nenhuma dessas hipóteses se deseja o mal em si do Pontífice, mas somente o bem dele ou da Igreja nas condições pontuadas pelos teólogos.
Dito isso, rezemos pelo Papa Francisco para que Deus exerça sua soberana vontade em todas as coisas e que o Papa, quer nesta vida ou na outra, seja um grande amigo de Deus.
A página "O Catequista" publicou em seu Instagram um feed respondendo uma pergunta sobre festas de casamento LGBT. A pergunta e resposta seguiram o seguinte teor:
"Católicos podem prestar serviços para essas cerimônias?
Profissionais autônomos e empresários católicos, muitas vezes, ficam em dúvida se devem ou não prestar serviço para cerimônias de casamento g@i. A resposta está na doutrina sobre a colaboração formal ou remota com o mal.
Não é pecado que um católico preste serviço em uma festa de casamento g@i (como confeiteiro, fotógrafo, cerimonialista, músico, etc.), pois a colaboração com o mal, nesse caso, é remota, e não formal.
São João Paulo II (Evangelium Vitae) explica que a cooperação formal com o mal acontece quando, com a sua ação, a pessoa participa diretamente na execução de um ato injusto. E também quando a sua ação sinaliza a aprovação daquele ato imoral."
O Catequista é conhecido por ser uma página católica de humor que busca explicar descontraidamente a doutrina católica. Contudo, sua característica principal dos últimos anos tem sido a sua tendência cada vez mais aberta pela OPL (Opção Preferencial pelo Laxismo), dando conselhos a dezena de milhares de pessoas altamente duvidosos e, muitas vezes, contrários à opinião comum dos teólogos.
Voltemos à postagem.
Primeiramente, notemos que a resposta do Catequista não versa sobre "matrimônios civis" LGBT, mas sobre festas, isto é, bailes e espetáculos que buscam comemorar a união entre pessoas do mesmo sexo. Em segundo lugar, O Catequista não se dirige para operários, mas para profissionais autônomos e empresários, ou seja, profissionais que possuem autonomia na prestação de serviços, isto é, de aceitar ou negar certo trabalhos.
O Catequista, infelizmente, não traz qualquer fonte que corrobore a sua interpretação de que a cooperação de profissionais autônomos e empresários numa festa imoral é apenas material. A alusão ao ensino de São João Paulo II em "Evangelium Vitae" apenas explica o que é a cooperação formal com o mal, porém não como ele se aplica a este caso concreto.
Tomemos, no entanto, para resolver essa questão, a definição fornecida pelo próprio O Catequista de cooperação formal com o mal, isto é, participação direta na execução de um ato injusto cuja cooperação sinaliza aprovação da má ação. A pergunta subsequente, portanto, é: qual ato injusto estamos falando?
Como aludimos acima, o objeto da postagem da página são as festas de casamento LGBT, em outras palavras, festas imorais, algo que O Catequista (ainda) não nega. Embora festas ou bailes em si mesmos não sejam imorais, a causa formal de uma festa LGBT seria a ideologia LGBT, isto é, a afirmação da licitude do pecado de inversão sexual. Portanto, uma festa realizada para especificamente reafirmar essa ideologia seria, em si mesma, imoral.
Reformulemos então a pergunta: É lícito ao católico, como profissional autônomo ou empresário, organizar festas, espetáculos e bailes em si mesmos imorais?
O Catequista responde que a prestação de serviços nesses casos seria apenas uma cooperação remota. No entanto, é, no mínimo, descuidada a resposta da página.
Para demonstrar isso, façamos uma rápida exposição da doutrina da cooperação com o mal. Segundo a síntese do teólogo Dominic Prummer em sua obra "Handbook of Moral Theology", a cooperação com o mal seria descrita nos seguintes termos:
DEFINIÇÃO E TIPOS. A cooperação no mal é a concordância no ato pecaminoso de outra pessoa. Conseqüentemente, a cooperação difere do escândalo na medida em que este último causa a má vontade do pecador (por conselho, ordem ou exemplo), enquanto a cooperação pressupõe a má vontade do pecador e é um meio de trazer essa má vontade vontade até a conclusão em ato externo.
1. A cooperação é imediata se for cooperação atual no pecado ato pecaminoso de outro (como na prática do onanismo); é mediata se fornece outros atos ou objetos que não estão tão intimamente ligados ao pecado do agente.
A cooperação mediata é próxima se a ajuda prestada for imediatamente relacionada com o pecado de outra pessoa, como vender veneno a um assassino; é remota quando a ajuda não está tão imediatamente ligada ao ato do outro, como vender um campo a um judeu que possa construir nele uma sinagoga.
2. A cooperação é formal se for dada ajuda a outro para cometer pecado enquanto pecado; é material se cooperarmos apenas na ação física. Conseqüentemente, a cooperação formal é um ato que é mau em si mesmo, tanto por causa de seu objeto quanto por causa da intenção do agente. A cooperação material é em si um bom ato que é abusado por outra pessoa para cometer pecado.
234. PRINCÍPIO. A cooperação formal no pecado de outra pessoa é sempre pecaminosa; a cooperação material às vezes é permitida.
A cooperação formal inclui o consentimento para o pecado de outra pessoa. Portanto, é uma ofensa não só contra a caridade, mas também contra a virtude violada pelo pecado em que se coopera.
A segunda parte do princípio deriva do fato de que a cooperação material é em si um bom ato que é abusado por outro através de sua própria maldade. Portanto, tudo o que foi dito sobre os atos que são indiretamente voluntários em n. 23 pode ser aplicado aqui e é usado para resolver casos que frequentemente surgem sobre diferentes assuntos relacionados com a cooperação de empregados, trabalhadores, lojistas, comerciantes, etc.
Em reforço à exposição de Prümmer, como é sempre ilícita a cooperação formal, segue-se como seria a aplicação prática desses princípios para a cooperação material de uma ação gravemente proibida, segundo o teólogo Antonio Royo Marín:
"Princípio: a cooperação puramente material com o pecado alheio pode ser lícita nas seguintes condições: a) se a ação com a qual se coopera é lícita em si mesma boa ou indiferente; b) caso se tenha reta intenção; e c) se há causa justa e proporcionada à gravidade do pecado alheio e à próximidade do concurso que se lhe presta.
Combinando estas condições de todos os modos possíveis, eis aqui os resultados aos quais se pode chegar:
1º) A UMA AÇÃO GRAVEMENTE PROIBIDA (v.g. comer carne em dia de abstinência) pode-se prestar colaboração puramente material com uma ação em si boa ou indiferente (v.g., preparando a carne, servindo-a, etc);
a) Cooperação próxima e necessária, somente para evitar um dano muito grave (v.g., perda do emprego, ruína total do negócio);
b) Cooperação próxima e não necessária, ou remota e necessária, para evitar um grave dano próprio (v.g., perda notável de dinheiro, graves desgostos familiares, etc.).
c) Cooperação remota e não necessária, por dano leve (v.g. perda de um ganho ordinário, a indignação transitória do pai ou do amo, etc)."
(Teologia Moral para Seglares, Moral Especial, Livro II, Tratado I , n. 554.3)
De início, percebe-se que a resposta do O Catequista é realmente inadequada, pois presume que toda cooperação material sem anuência ao pecado do próximo é remota. Contudo, no caso concreto da participação de músicos, cerimonialistas e fotógrafos em uma festa LGBT, é patente que a prestação de serviços transita, minimamente, entre a cooperação imediata e a cooperação mediata próxima com o mal.
Músicos atuam como animadores da festa tornando-a lúdica e atrativa. Sobre a participação deles em festas imorais, assinala Royo Marín novamente em sua "Teologia Moral para Seglares":
"Os músicos não podem colaborar em espetáculos, salas de festas ou bailes francamente imorais, a não ser com causa muito grave (v.g. ficar sem o soldo necessário para viver), e ainda então deverão buscar outro meio de vida o quanto antes lhes seja possível. (Moral Especial, Livro II, Tratado I , n. 554.4.f)
Portanto, tendo em vista que músicos podem trabalhar em tais festas apenas se tiverem um motivo muito grave, presume-se que a cooperação deles é, de fato, imediata ou mediata próxima.
Os cerimonialistas por sua vez são os grandes organizadores da festa de casamento. A cooperação deles não se pode dizer que é meramente material, pois eles organizam a festa tal como desejam os clientes. No caso presente, eles organizariam segundo a índole de uma festa LGBT. A cooperação deles presume assentimento com o pecado dos clientes. Portanto, a cooperação deles é formal. Nesse sentido, citemos a autoridade do teólogo Teodoro del Greco em seu "Compêndio de Teologia Moral":
"Organizar bailes imorais e escandalosos é grave pecado de cooperação no mal." (n. 147)
Soma-se ainda ao pecado de cooperação formal o escândalo que promovem esses profissionais ao organizarem tais festas. A respeito, novamente, citamos Royo Marín:
"Cometem gravíssimo pecado de escândalo os compositores da letra e da música, as empresas que os apresentam em seus salões, os atores que atuam neles e os que contribuem com seu dinheiro e aplauso para sustentar esses espetáculos. E pecam gravemente os que assistem a eles sabendo de sua imoralidade ou periculosidade. Se animam outros a fazer o mesmo, são réus de grave escândalo.
Sob outro aspecto, cometem gravíssimo pecado de escândalo o autor, o compositor, o empresários, os atores e os colaboradores de uma representação na qual se impugna ou se ridiculariza a religião, ou a fé, ou os costumes cristãos. Pecam gravemente os que assistam a ela, mesmo descontando o perigo próprio e toda a aprovação. do irreligioso enquanto tal." (Moral Especial, Livro II, Tratado I , n. 550.5.d)
Portanto, o cerimonialista que coopera numa festa que reafirma o pecado de inversão sexual também comete grave pecado de escândalo.
Fotógrafos, por sua vez, em boa parte dos casos, são chamados não apenas para tirar fotos como também para produzir "álbuns de casamento". No caso de preparação de "álbuns LGBT", eles seriam equiparados a artesãos que fabricam objetos injuriosos ao sacramento do matrimônio. Segundo Royo Marín, nunca seria lícito fabricar tais produtos:
"Não é lícito jamais fabricar, preparar ou vender coisas aptas unicamente para o pecado (v.g., preservativos ou produtos anticoncepcionais, livros ou imagens totalmente obscenos ou injuriosos contra Deus ou contra a religião, etc." (Moral Especial, Livro II, Tratado I , n. 554.3.b)
A cooperação assim, na maioria das vezes, é realmente formal, pois o fotógrafo é contratado para registrar plasticamente ações gravemente proibidas pela Igreja e pela lei natural. Integra o trabalho do fotógrafo de uma festa LGBT, por exemplo, pedir para que os noivos se posicionem enquanto casal ou tenham momentos de intimidade (v.g, "beijo dos noivos") para o registro das fotos.
Por fim, no caso de cozinheiros e confeiteiros em festas LGBT, em geral, sua cooperação será remota. Mas será, na maioria das vezes, uma cooperação remota e necessária, pois, em regra, não se realiza festas sem oferecimento de comida e bebida. Ou seja, não existiria uma festa de casamento sem o trabalho deles. Conforme a explicação que oferecemos de Royo Marín, a cooperação, neste caso, só seria admissível quando houvesse ameaça de grave dano pessoal.
Conclusão
Nota-se como as nuances da cooperação com o mal são variáveis. Ao contrário do que alega O Catequista, é perfeitamente possível alguém cooperar remotamente com o mal e pecar, se a cooperação for necessária para a realização da má ação.
O Catequista ao simplificar, de maneira grosseira, que nunca há pecado na cooperação remota com o mal apenas demonstra sua total falta de intimidade com a Teologia Moral da Igreja.
Essas simplificações da página que favorecem uma mentalidade laxa não são escusáveis. O Catequista possui mais de 100 mil no Instagram e sua responsabilidade pelas orientações que fornece que dá é grave.
Que possam reaver a postura do apostolado e tratar da maneira adequada os assuntos que abordam.