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sábado, 17 de janeiro de 2026

Conservadores se rendem ao biquíni. Não sobrou nada para a modéstia.


Recentemente, houve grande repercussão nas redes sociais em torno do tema do uso do biquíni. O debate, no entanto, revela menos uma controvérsia moral genuína e mais a confusão generalizada de conservadores católicos acerca da natureza da virtude da modéstia.

Há dois anos, publicamos neste blog o artigo “Conservadores se rendem à imodéstia”, no qual já se apontava um processo de regressão moral: costumes que haviam sido corretamente rejeitados por católicos do espectro conservador passaram a ser novamente tolerados e, depois, defendidos. Desde então, o quadro apenas se agravou. Muitos que se autodenominam conservadores passaram a adotar, na prática, os mesmos critérios morais do progressismo, apenas com uma linguagem diferente.

O episódio mais recente envolve a influenciadora Aimê Gumiero, católica recém-convertida, que afirmou publicamente que o uso de biquíni em praias e piscinas não constitui pecado. Sua argumentação segue um padrão já bastante conhecido.

Primeiramente, ela afirma que a modéstia “não é um conjunto de regras”. Essa afirmação, embora verdadeira em sentido estritamente técnico - pois a modéstia é uma virtude e não um código de direito -, é quase sempre usada de forma sofística. Na prática, serve para esvaziar qualquer critério objetivo e tornar a modéstia refém do julgamento subjetivo do indivíduo. Trata-se de um erro frequente: negar padrões razoáveis em nome de uma virtude supostamente “interior”, quando, na realidade, toda virtude moral possui atos externos regulados pela razão.

Em seguida, Aimê apela à virtude da prudência. Argumenta que a prudência exige adequação da vestimenta ao ambiente: não se usaria biquíni em uma missa, mas seria legítimo usá-lo na praia ou na piscina, pois “é isso que o ambiente pede”. Aqui se encontra um erro clássico: confundir prudência com simples rendição ao ambiente local.

A prudência não consiste em adaptar-se automaticamente aos costumes vigentes, mas em aplicar corretamente os princípios às circunstâncias concretas. Um determinado ambiente pode ser, ele mesmo, objetivamente imodesto. Nesses casos, o católico não apenas não deve conformar-se a ele, como deve evitá-lo, se possível; e, se não for possível evitá-lo, deve agir de modo mais virtuoso do que a média.

Esse princípio é claramente exposto por Pio XI ao tratar de eventos públicos de ginástica:

"Que os pais mantenham suas filhas longe do público de jogos e competições de ginástica, mas se as suas filhas são obrigadas a frequentar essas exposições, deixá-los ver que elas estejam totalmente e modestamente vestidas." (AAS, 1930, vol. 22)

Em outras palavras, se não houver necessidade, devem ser evitados; se houver necessidade, exige-se vestimenta plenamente modesta. O ambiente não legitima a imodéstia; ao contrário, agrava a obrigação de resistir a ela.

A pergunta central, portanto, não é se o biquíni é aceito socialmente na praia, mas se há causa justa para homens e mulheres permanecerem juntos em estado de seminudade. A teologia moral responde negativamente.

Antonio Peinador Navarro em "Cursus Brevior Theologiae Moralis":

"Não devem ser escusados de pecado grave as pessoas de diferente sexo que mutuamente se olham, conversam, passeiam, etc., quase nuas, nos balneários públicos, com trajes sumaríssimos que cobrem apenas as partes genitais dos homens ou das mulheres e os seios destas últimas. Embora não se procurem movidos por má intenção, entretanto o convívio demorado será necessariamente gravemente excitante. Ademais, quem assim se expõe à contemplação pública, comete pecado de grave escândalo" (COCULSA, Madrid, 1956, t. III, p. 596.)

Henry Davis em "Moral and Pastoral Theology":

"Os banhos de sol e de ar tomados juntos por membros de ambos os sexos e sem fantasias são fontes férteis de pecados graves, e não há justificativa para eles. [...] Nos exercícios de ginástica, mesmo quando se usam uniformes, deve-se ter cuidado especial com a modéstia cristã das moças e meninas, que é tão gravemente prejudicada por qualquer tipo de exibição em público." (p. 228, vol. II)

Antonio Royo Marin em "Teologia Moral para Seglares"

"Apresentam especiais perigos as excursões campestres com banho misto em açude ou rio; pois aos inconvenientes do banho público em geral devem acrescentar-se os que provém da frivolidade, leviandade e liberdade excessiva de um dia de excursão. Os pais católicos não permitirão jamais às suas filhas semelhantes excursões mistas." (Moral Especial, 551.6)

Outro ponto relevante é a contradição interna no discurso apresentado por Aimê. Afirma-se que o uso do biquíni seria moralmente aceitável apenas em determinados ambientes; contudo, ao divulgar imagens de si mesma de biquini para toda a internet, elimina-se qualquer noção coerente de “adequação ao ambiente”. A internet não é um espaço privado nem restrito, mas um meio de difusão universal.

Do ponto de vista moral, isso agrava a culpa da influenciadora, pois introduz o elemento do escândalo. A teologia moral é clara ao afirmar que a difusão de imagens provocantes constitui escândalo, na medida em que expõe um número indeterminado de pessoas a tentações.

Relembremos o que disse Teodoro Del Greco em "Compêndio de Teologia Moral" a respeito da divulgação de fotos e imagens de mulheres de biquíni:

"Concursos de Beleza. Outra ocasião de pecado e de cooperação no mal, com escândalo, é constituída hoje pelos chamados "Concursos de Beleza", subproduto de uma sociedade depravada. São concursos de caráter regional, nacional e universal, nos quais é escolhida a jovem que apresenta maiores perfeições de beleza física, para receber o título de "Miss" ou "Rainha". O atual processo seletivo é repugnante não só à consciência cristã, mas também a qualquer pessoa que tenha o mínimo senso de pudor. As candidatas ao título devem usar trajes reduzidíssimos, geralmente de tecido muito sutil, que permita os relevos de todo o corpo, até nas suas partes mais intimas. O exame é longo e minucioso, e o chamado desfile realiza-se perante numeroso público. O fato é reprovável sob todo e qualquer ponto de vista, porque constitui ocasião direta de pecado. A responsabilidade agrava-se, outrossim, pelo escândalo que causa o comparecimento da jovem ante o público muita vez heterogêneo. Isso, sem falar nas fotos e minuciosas mesuras levadas aos quatro ventos pelos rápidos veículos de publicidade, quais são a imprensa, o cinema, o rádio e a televisão." (n. 147)

"É reprovável o costume vigente em muitas academias de exibir aos pintores modelos de mulheres, cobertas somente nas partes genitais. Aqueles que, por necessidade, são obrigados a frequentar tais academias, usando as necessárias cautelas, estão justificados. [...] São escusadas, desde que usem as devidas cautelas somente se isto é o único meio para se livrarem da miséria. (n.226)"

Observa-se que a única razão que a teologia moral justifica uma mulher ficar seminua perante o sexo oposto é a grave necessidade, como realizar um trabalho imodesto para não passar fome. Aimê, no entanto, sem necessidade alguma, divulga imagens suas de biquíni voluntariamente.


O progressismo conservador entra em cena

Depois das declarações iniciais da influenciadora, houve uma reação forte. Muitos católicos perceberam corretamente o problema moral envolvido e criticaram tanto a posição quanto a exposição pública da influenciadora. Até aí, nada de inesperado. O que chama a atenção é o que acontece em seguida.

Entra em cena aquilo que podemos chamar de a ala dos conservadores progressistas. Pessoas que mantêm uma aparência conservadora, mas que, diante de qualquer tensão com o mundo, tendem sistematicamente a ceder nos princípios. É o opusdeísmo cultural por excelência.

Um dia após a polêmica, o Pe. José Eduardo resolve se pronunciar. E aqui precisamos ser claros quanto ao peso disso. Trata-se de um dos sacerdotes mais conhecidos do meio conservador no Brasil, ao lado do Pe. Paulo Ricardo, do Frei Gilson e do Pe. Leonardo Wagner. E esses três têm posições públicas claras e coerentes sobre o tema do biquíni.

O Pe. Paulo Ricardo, ao tratar dos remédios contra a pornografia, insiste na tolerância zero com aquilo que ele chama de soft porn, e cita explicitamente modelos de biquíni como exemplo.


Frei Gilson também já se posicionou contra o uso de biquínis e sungas. 



E o Pe. Leonardo Wagner deu, à época, a resposta mais conhecida e direta sobre o assunto, que se tornou viral.


Aliás, é preciso ressaltar que o Pe. Leonardo Wagner forneceu a visão moral correta acerca da frequência às praias, em plena consonância com o consenso dos teólogos:


Vemos assim que, do ponto de vista da teologia moral, a expectativa era simples: uma resposta objetiva, alinhada com a tradição moral da Igreja e com aquilo que sempre ensinaram os moralistas e os próprios sacerdotes citados. A saber: a condenação do biquíni em banhos mistos.

Mas isso não acontece com o Pe. José Eduardo. Vejamos sua resposta ao problema:

A TRETA DO BIQUÍNI

O debate “biquíni: pode ou não pode?” já nasce defeituoso porque troca a pergunta moral pela pergunta material. E a teologia moral, quando é séria, não começa pela “coisa” (tecido, centímetros, modelo), mas pelo ato humano enquanto escolhido. É exatamente isso que São João Paulo II recorda na Encíclica Veritatis Splendor (nº 78), retomando São Tomás: o “objeto” moral não é a descrição física do que se faz, mas a electio, a escolha deliberada pela qual a vontade assume aquela matéria como expressão de um sentido: de um fim próximo, de um “para quê” concreto.

Em linguagem tomista: o ato moral recebe sua espécie do objeto enquanto ordenado pela razão e querido pela vontade (cf. S. Th. I–II, q. 18). Por isso, “usar biquíni” é uma fórmula moralmente vazia, porque descreve apenas a matéria externa. A mesma matéria pode estar sob escolhas moralmente diversas. Uma mulher pode usar um traje de banho num contexto terapêutico (fisioterapia, tratamento dermatológico, reabilitação), ou num ambiente ordinário de lazer, ou ainda como instrumento de vaidade exibicionista, de sedução deliberada, de provocação calculada. A matéria pode ser parecida; a eleição é outra. E é a eleição que especifica moralmente o ato.

Quando a discussão fica no nível do “pode/não pode”, ela transforma a moral em um catálogo de objetos materiais, como se o pecado estivesse nas coisas; e isso não é catolicismo nem tomismo nem moralidade, é caricatura e burrice qualificada. O que pode ser pecado, quando o é, não é “usar X”, mas escolher X como meio para um fim desordenado: por exemplo, a ostentação de si para dominar olhares, a intenção de excitar a concupiscência alheia, o desprezo prático pela caridade e pelo bem espiritual do próximo, ou a recusa habitual da modéstia como virtude que guarda a dignidade da pessoa.

E aqui aparece por que a internet é um lugar péssimo para esse “debate”: porque o discernimento moral exige atenção às circunstâncias (ambiente, cultura concreta, intenção, previsibilidade do efeito, responsabilidade pelo escândalo em sentido próprio) e até à formação da consciência, coisas que não cabem num tribunal de cliques. Perguntar “biquíni é pecado?” é perguntar errado; a pergunta moral é: que escolha estou fazendo com isso, em que contexto, com que intenção, e que bem estou servindo ou ferindo? Se a conversa não sobe a esse nível, ela não é teologia moral: é só gente brigando por rótulos, com a matéria no lugar onde deveria estar a electio e tentando enfiar a própria ignorância na ignorância do outro.

Eu me pergunto: o que chama mais a atenção, de fato, uma mulher normal de biquíni ou uma mulher estranha parecendo uma muçulmana bem na praia? Ou, será que você está tão bem na pista que vai chamar a atenção dos outros quando nem o seu marido se sente muito interessado em você? Não sei…

Eu não tenho o costume de andar por aí sem camisa, mas, se o fizesse, quem se sentiria atraído por um bucho, cheio por acolá, que nem um boi andando de pé? Imodéstia? Acho que é mais mortificação ao próximo!...

As pessoas ficam nas nuvens, opinando a partir do seu próprio autoritarismo, quando a vida é mais simples para quem é sensato. A minha experiência, francamente, é que ninguém está muito aí para a gente.

A questão é irrelevante, a pergunta está errada e o debate é ocioso.


Em vez de responder diretamente à questão moral - o uso de biquíni na praia - o Pe. José Eduardo passa grande parte de sua manifestação afirmando que “a pergunta está errada”. E aqui já aparece um problema sério. Quando alguém insiste que a pergunta está errada, mas evita responder ao ponto central que move o debate, normalmente isso indica uma fuga do assunto.

Quando o padre afirma que “usar biquíni” é uma fórmula moralmente vazia, ele está abstraindo o problema real. Porque ninguém está discutindo um cenário terapêutico, médico ou de necessidade extrema. O contexto concreto é o banho misto, a praia moderna. E, nesse contexto, a teologia moral nunca considerou a matéria moralmente indiferente.

Quando finalmente o sacerdote se aproxima da resposta concreta, ele abandona completamente o registro teológico e passa ao deboche:

"Será que você está tão bem na pista que vai chamar a atenção dos outros quando nem o seu marido se sente muito interessado em você?"

Isso não é teologia moral. É basicamente ironia fingindo complexidade.

O padre introduz ainda um critério que simplesmente não existe na teologia moral: a autopercepção estética. 

Quando os teólogos tratam de banhos públicos e mistos, não há um único que apresente a autopercepção estética como fator moderador da modéstia, porque ela não pode depender de um critério tão subjetivo, uma vez que busca uma regra comum, objetiva e válida para todos.

E o critério sempre foi este: não é lícito a ninguém - seja gordo, magro, bonito ou feio -expor-se nu ou seminu diante do sexo oposto sem causa grave. Isso decorre do direito natural. As partes íntimas e menos honestas do corpo estão ordenadas à procriação e à intimidade, e por isso devem ser cobertas.

Aliás, todos sabem disso na prática. Basta observar o comportamento em ambientes como baladas. Mulheres que desejam atrair olhares encurtam deliberadamente suas roupas, usam decotes, vestidos justos, minissaias. Isso demonstra que a exposição do corpo não é moralmente neutra e não depende da autopercepção subjetiva, mas da própria natureza do corpo humano e de seus efeitos previsíveis.

Além disso, o critério proposto pelo padre é completamente inútil do ponto de vista moral. Pessoas consideradas feias namoram. Pessoas consideradas feias se casam. Sempre haverá quem se sinta atraído por elas. Logo, a modéstia não pode depender de como alguém se percebe esteticamente. 

O mais grave é que o Pe. José Eduardo sabe disso. Como teólogo moral, ele conhece perfeitamente esses princípios. O problema não é ignorância (ele é muito inteligente), é omissão e tergiversação. E isso ocorre porque ele se encontra engajado numa batalha constante contra grupos tradicionais, que são os que mais combatem a imodéstia. Nota-se no padre que a paixão da disputa domina e a razão começa a ceder.

E isso tem consequências. Almas se perdem. Fiéis se sentem autorizados a continuarem com a vergonhosa defesa do biquíni. A influenciadora que iniciou toda a polêmica se viu confirmada em seu erro. 



O escândalo se espalha.

Aqui precisamos falar também do problema específico das redes sociais. O Pe. José Eduardo tornou-se, na prática, um comentador compulsivo. Tudo vira conteúdo. Tudo vira resposta. Tudo vira provocação. Ele já não fala como teólogo, mas como influenciador que reage ao fluxo da internet. E isso é profundamente nocivo ao múnus sacerdotal.

Aqui relembremos conselhos fundamentais de Santo Afonso de Ligório em "A Selva" para a piedade sacerdotal, que servem muito bem aos nossos tempos marcados por padres influenciadores e tagarelas:

"O padre deve falar pouco. Quem fala muito com os homens, mostra que fala pouco com Deus. As almas de oração são avaras de palavras; quando se abre a boca do forno, escapa-se o calor. Tomás de Kempis diz: É no silêncio que a alma faz progressos. E S. Pedro Damião: O silêncio é o guarda da justiça. O mesmo nos ensina o Espírito Santo: No silêncio e na esperança estará a vossa força. Está no silêncio a nossa força, porque nunca se fala muito sem algum pecado."

"Com doçura: não se deixe ir à cólera nos seus discursos; não deixe escapar palavras injuriosas, mais próprias para azedar os ânimos, que para mover à piedade."

"Por S. Gregório de Nissa é o padre chamado um mestre da santidade. Mas, se o mestre é orgulhoso, como há de ensinar a humildade? Se é intemperante, como há de ensinar a mortificação? Se é vingativo, como ensinará a doçura?"

"Sede pacientes na humilhação. Eis o que nessas circunstâncias é necessário fazer: não se irritar nem se queixar, mas receber esses desprezos como justos castigos dos próprios pecados."

O sacerdote é chamado a ser mestre de santidade. Mas se se deixa dominar pelo orgulho, pela ironia, pela agressividade ou pela necessidade constante de responder, como ensinará humildade, moderação e prudência? O sacerdote ao perder o silêncio perde também a autoridade.

Mas o problema não terminou aí. Em seguida, em nova intervenção, o Pe. José Eduardo declarou estar “preocupado com os homens da nossa geração”, afirmando que muitos não conseguem olhar para uma mulher em traje de banho sem se sentirem tentados. E aqui precisamos parar e analisar com calma, porque essa fala introduz uma inversão moral extremamente grave.



Essa linha de raciocínio dialoga diretamente com o discurso do feminismo católico. Como já analisamos inúmeras vezes, a imodéstia feminina é uma bandeira central do feminismo. Quando mulheres são corrigidas por se vestirem de modo indecente, a resposta quase automática é: “os homens que se controlem”, “cuidem da própria taradice”, “o problema está no olhar masculino”.

É evidente que o homem é moralmente responsável pelo seu olhar. Ninguém nega isso. Homens chamados à castidade devem lutar contra pensamentos, desejos e movimentos desordenados. Contudo, disso não se segue - nem nunca se seguiu - que a mulher esteja dispensada da obrigação da modéstia. A Igreja sempre tratou essas obrigações como complementares, não como excludentes.

Além disso, homens verdadeiramente empenhados na castidade tendem, justamente por isso, a ser mais severos com as ocasiões de pecado. Eles não apenas resistem melhor às tentações, como também continuam exortando contra os trajes indecentes, tanto para elevar o padrão moral da sociedade quanto para evitar recaídas futuras. Como adverte São Paulo: “Aquele que pensa estar de pé, cuide para não cair” (1 Co 10,12).

No contexto concreto dessa polêmica, não se está discutindo “trajes de banho” em sentido genérico. Está-se falando do biquíni, o menor traje de banho existente, que se aproxima o máximo possível da nudez sem sê-lo formalmente. O esforço pela modéstia é unilateralmente do homem neste caso. Não há nenhuma razão proporcional para que mulheres andem com ele em público. Ele é indecente por si mesmo no contexto do banho misto. Por isso, homens estão plenamente justificados em exortar contra o seu uso público, independentemente de se sentirem pessoalmente atraídos ou não.


PS: O padre foi dirigido por padres do Opus Dei... Que surpresa... Só podia ser o Chaves, não?

Aqui ocorre outra distorção grave.

A luta ascética positiva é válida e necessária nas circunstâncias ordinárias da vida: trabalhar, estudar, circular pelas ruas, cumprir os deveres de estado. Nessas situações, o cristão não pode fugir do mundo e deve, de fato, educar seus sentidos e seu interior.

Mas isso não se aplica às ocasiões próximas de pecado. A tradição espiritual é absolutamente clara: diante de uma ocasião próxima e voluntária de pecado, a regra não é “treinar virtude”, mas fugir. A luta, nesse caso, é NEGATIVA. Evita-se o ambiente. Afasta-se da situação. Ninguém é chamado a provar sua virtude se expondo inutilmente ao perigo.

Colocar-se voluntariamente numa ocasião grave sem necessidade é, em si, um pecado. E diversos autores espirituais ensinam que, nessas circunstâncias, Deus não concede a graça eficaz para resistir. Não existe “luta ascética positiva” contra uma praia cheia de pessoas seminuas. O mandamento é simplesmente fugir.


O padre ignora completamente o contexto real em debate. Ou melhor, omite. Uma praia moderna, com milhares de mulheres seminuas, não exige “bisbilhotice” para provocar tentação. Basta enxergar. Apenas um cego não vê. Os exemplos dados - andar na rua, ser abordado por uma mulher mal-vestida - não são comparáveis, porque não envolvem busca voluntária da ocasião. A ida à praia envolve.


Aqui a confusão continua seu curso.

Sim, o mundo oferece inúmeras ocasiões de pecado. Mas isso não significa que todas sejam equivalentes. A teologia moral sempre distinguiu ocasiões remotas de ocasiões próximas, e ocasiões necessárias de ocasiões voluntárias. Pessoas não andam ordinariamente seminuas nas ruas, nos mercados ou nos ambientes de trabalho. A própria defensora do biquíni reconhece isso ao dizer que ele só seria “adequado” à praia e à piscina.

Ao equiparar o ambiente público ordinário à praia moderna, o padre legitima justamente o pior dos ambientes. E, ao fazer isso, libera a prática para os fiéis. É o que se constata nos comentários da publicação.






O resultado é previsível: seguidores sentem-se autorizados não apenas a manter esse costume objetivamente desordenado, mas também a suspeitar de homens que exortam contra ele das piores perversões sexuais possíveis. 


E o mais grave: o argumento não prova absolutamente nada. Não prova que o uso do biquíni seja lícito. Nem prova que quem o critica esteja errado. Pelo contrário.

Primeiro ponto: quem pratica uma virtude adquire maior clareza intelectual para identificar e combater os vícios contrários a ela. O vício, ao contrário, obscurece o juízo prático. Um homem habituado à pornografia torna-se progressivamente mais tolerante às ocasiões próximas. Ele normaliza a nudez, depois a seminudade, e deixa de perceber o problema moral. Esse é um efeito clássico da habituação ao vício. Não há qualquer sentido em pervertidos sexuais serem mais rigorosos com a modéstia do que os virtuosos.

Por isso, todos os conselhos espirituais sérios para o combate à pornografia insistem na eliminação das ocasiões próximas. O Pe. Paulo Ricardo, como vimos, ensina explicitamente que o homem deve evitar olhar mulheres de biquíni. Não se combate uma cultura pornográfica ampliando estímulos sensuais, mas restringindo-os.

Segundo ponto: mesmo que alguém que defenda a modéstia esteja pessoalmente lutando contra um vício sexual, isso não invalida em nada o argumento moral. A verdade de um princípio não depende da santidade subjetiva de quem o enuncia. Um pecador pode exortar legitimamente à virtude.

Um homem pode condenar a gula mesmo sendo obeso. Santo Tomás era obeso, e isso jamais invalidou sua doutrina sobre a temperança. Do mesmo modo, um homem que luta contra a pornografia pode - e deve - condenar trajes imodestos, porque está promovendo um bem objetivo para toda a sociedade.

Mesmo que fosse um hipócrita, o erro estaria apenas na incoerência pessoal, não na verdade defendida. 

No fundo, o que estamos vendo é uma inversão completa: transforma-se a imodéstia em algo neutro, e a defesa da modéstia em suspeita de perversão sexual. Os inimigos da Igreja fazem algo parecido. O movimento LGBT, por exemplo, acusa a Igreja de ser homofóbica justamente por muitos dos seus líderes serem homossexuais, esquecendo-se que isso não torna o pecado da sodomia em algo virtuoso. Esta inversão é satânica, pois consiste exatamente em chamar o mal de bem e o bem de mal.


Conclusão 

Para concluir, é preciso deixar isso absolutamente claro: não estamos discutindo preferências pessoais ou costumes culturais, mas princípios objetivos da moral da Igreja. Quando esses princípios são relativizados, as consequências não são abstratas - são espirituais. Consciências se confundem, o pecado perde sua gravidade e as almas ficam mais vulneráveis à ação do Inimigo.

A modéstia não é opcional nem circunstancial. Ela é uma exigência do direito natural e uma forma concreta de caridade. Enfraquecê-la não protege ninguém; ao contrário, expõe os mais fracos e normaliza ocasiões próximas de pecado.

Sacerdotes têm uma responsabilidade particular nesse ponto. Suas palavras formam consciências. Quando a clareza é substituída por ambiguidades ou por omissões calculadas, o resultado é o escândalo. O sacerdote deixa de ser luz e torna-se pedra de tropeço. 

Por fim, o católico precisa escolher se seguirá a tradição moral da Igreja ou se continuará tentando conciliar a verdade com o espírito do mundo. Essas duas coisas são incompatíveis. É da obediência à verdade que depende a salvação da nossa alma e a vitória de Cristo sobre o pecado.

sábado, 27 de dezembro de 2025

"Vocação para trabalhar fora?" Pe. Scaramelli refuta o feminismo católico.


Já tratamos neste blog, em diversas ocasiões, do chamado “feminismo católico”, mostrando as múltiplas vias pelas quais ele tem penetrado inclusive no meio conservador. Longe de arrefecer, esse fenômeno renova-se continuamente, alargando sua influência e assumindo novas formas.

Entre seus traços mais característicos está a defesa do trabalho externo da mulher casada. Trata-se de uma marca constante do feminismo moderno. A tradição católica, expressa no ensinamento de inúmeros papas, teólogos e santos, sempre manifestou sérias reservas diante da cultura que afasta a mulher do lar e do cuidado da família para conduzi-la à busca de interesses próprios fora dele. Sobre isso, já publicamos diversos textos, entre os quais:

"O Trabalho da Mulher Casada e a Direita Feminista"

"Ser do lar pelos filhos, sim! Pelo marido não. O feminismo conservador ataca novamente."

"REACT - Live do Pe. José Eduardo e Jéssyca Jacóbus."

Aliás, deveria ser evidente, à luz do discernimento espiritual, que, se o dever impele ao cuidado do lar, o seu o contrário - o trabalho externo -, nada mais é do que um impulso suspeito, com cheiro de tentação.

Mais recentemente, o argumento tem sido reformulado. Sustenta-se agora que a mulher possuiria “múltiplas vocações”, que não se esgotariam na esfera doméstica, e que negar tais vocações equivaleria a uma violência contra si mesma. Essa tese foi retomada por diversas influenciadoras conservadoras. Aqui, porém, examinaremos a forma mais articulada dessa ideia, apresentada em um vídeo de Letícia Cazarré.

Letícia Cazarré é esposa de Juliano Cazarré, ator da Rede Globo, atualmente no elenco da novela Três Graças. Não se vê razão plausível para a admiração quase acrítica de que o casal goza em certos ambientes conservadores católicos.

Nos últimos anos, Juliano participou de diversas novelas, algumas das quais lhe impuseram cenas românticas com outras atrizes, apesar de seu estado matrimonial. Ora, segundo a doutrina moral católica, profissões que expõem habitualmente ao pecado grave devem ser abandonadas. Acrescente-se a isso o fato de Letícia ter divulgado, em 2024, imagens de sua família no Rock in Rio, evento amplamente criticado e evitado por católicos conscientes, inclusive por sacerdotes de orientação conservadora, como o Pe. Paulo Ricardo.

Não há, portanto, fundamento razoável para que o casal seja erigido como referência espiritual ou convidado para eventos religiosos. Ainda que adotem algumas posições conservadoras, permanecem profundamente inseridos no modo de vida próprio do meio artístico secular.

Sabe-se, ademais, que são próximos do Opus Dei. Um sacerdote verdadeiramente preocupado com sua salvação, exercendo a caridade na forma mais elevada - a franqueza -, aconselhá-los-ia a afastar-se de um ambiente que os conduz continuamente a concessões morais.  Esperamos que algum sacerdote corajoso os ajude nessa virada de chave.

Voltemos, porém, ao ponto central.

Após anos dedicados ao lar, Letícia Cazarré - já como girl boss - publicou um vídeo intitulado “Lugar de Mulher Católica é em Casa?”, no qual apresenta sua experiência pessoal como fundamento para uma revisão do ideal tradicional. O núcleo de seu argumento é simples: cada mulher teria uma história própria; logo, o modelo da mulher do lar não poderia ser universal.


Comecemos com a descrição do vídeo:

"Durante muito tempo se repetiu que o lugar da mulher católica era, exclusivamente, em casa. Essa visão ganhou força, encantou muitas de nós e parecia o ideal perfeito no papel. Mas, com o passar do tempo, o que parecia belo trouxe também frustração, cobranças internas e até culpa por não conseguir se encaixar nesse molde. A verdade é que cada mulher tem uma história, dons e caminhos únicos diante de Deus — e não existe uma forma única de viver a vocação feminina. Neste episódio do *Vai Por Mim*, vamos conversar sobre como essa ideia surgiu, por que tantas mulheres tentaram segui-la e o que aprendemos com essa experiência. Se tem feito sentido pra mim olhar para isso com mais clareza e liberdade, pode fazer pra você também. Vem comigo!"

Essa linha de raciocínio não é nova. Trata-se de uma aplicação típica do nominalismo feminista à teologia moral. Quando o ensinamento universal da Igreja não pode ser diretamente negado, procura-se relativizá-lo pela exceção subjetiva.

A Igreja, entretanto, sempre ensinou que, no matrimônio, a prioridade da mulher está no cuidado do lar e da família. Esse princípio não é fruto de circunstâncias históricas passageiras, mas de uma compreensão objetiva da ordem natural e sobrenatural. Diante disso, feministas recorrem a uma teologia ad hoc de “vocação”. Vejamos o que Letícia diz a respeito:

"Eu vivi 6 anos totalmente dedicados à minha casa e à minha família e eu posso falar que foi essencial. Foi um dos momentos mais marcantes, importantes e transformadores da minha vida. E eu, Letícia, particularmente, faria tudo de novo. Só que pra mim chegou um momento em que eu precisei lembrar de quem eu era. Veio uma inquietação, uma coisa silenciosa, em que eu precisei me perguntar: E minha contribuição para o mundo lá fora? [...] Eu sentia que eu tinha algo dentro de mim, um chamado, uma vocação para criar, ensinar, para transformar vidas, não só dentro da minha casa, mas também fora de casa. Como diz uma amiga minha: "Essa vontade de trabalhar também foi Deus que colocou no nosso coração.
A psicologia do desenvolvimento humano, por exemplo, mostra que a gente tem múltiplas vocações, simultâneas. E que negar totalmente uma delas - como a intelectual ou a profissional - gera sintomas ruins. Gera ansiedade, frustração, perda de sentido. [...] A psicologia mostra que quando uma parte de quem a gente é é negada por muito tempo acontece um desequilíbrio. Não porque você está errada, mas é porque é como se estivesse incompleta. A teologia e Tradição cristã também falam disso. Elas valorizam o lar, mas também honram o trabalho. Santa Zélia, Santa Gianna, Santa Teresa D'Ávila, todas elas trabalhavam."

Convém, portanto, esclarecer o termo. Em sentido teológico clássico, vocação é o chamado sobrenatural de Deus a um estado de vida. Tradicionalmente, reconhecem-se três: sacerdócio, vida religiosa e matrimônio. Vocação não se confunde - erro comum dos conservadores olavetes - com profissão, talento ou inclinação psicológica. Uma pessoa pode exercer diversas profissões e ter muitos talentos, mas não há múltiplas vocações divinas.

Uma vez assumido o estado de vida, toda a personalidade, bem como os talentos naturais, devem ordenar-se a ele. É o estado que define a identidade fundamental da pessoa.

Letícia, porém, afirma ter experimentado uma “inquietação” que a levou a questionar “quem ela era”. Tal afirmação revela uma dissociação entre identidade e estado de vida. Ora, é precisamente o estado de vida que manifesta quem a pessoa é: o sacerdote como sacerdote, o religioso como religioso, o casado como casado.

Aqui é oportuno recordar o ensinamento do Pe. Giovanni Battista Scaramelli. Em sua obra "Discernimento dos Espíritos", ele ensina que todo impulso que leva alguém a desgostar-se de sua vocação ou a desejar algo estranho a ela deve ser considerado suspeito. A constância no estado assumido é condição ordinária de santificação:

"O espírito que, depois de feita a eleição do estado, anseia outro estado, deve-se ter por muito suspeito, porque o Apóstolo quer que cada um se mantenha constante em sua vocação. E acrescenta Santo Efrém, que naquele estado a que temos sido chamados, deixemos a âncora e atemos ao cabo o nosso barquinho, se não queremos nos perder no mar lamacento desta vida. E por isso, quando alguém se tem fixado em algum estado, não deve aspirar a outro, mesmo que pareça ou seja na realidade mais perfeito, senão que deve procurar a sua perfeição naquele em que Deus o colocou.

[...] 

Assim procedia o Apóstolo com os novos cristãos da primitiva Igreja. Caminha, dizia-lhes, retamente, segundo a forma da vocação pela qual Deus os chamou. Vossa vocação requer humildade, mansidão, paciência e caridade. Trilhais este caminho, e chegareis seguros à pátria celestial. Assim fazia São Bernardo, que para caminhar com retidão e segurança pelo caminho da perfeição colocava sempre diante de si mesmo sua vocação. Daí se segue que certas resoluções, ainda que santas à primeira vista, de abandonar a própria vocação, para passar a outro estado (ou mais retirado, ou mais austero, ou mais trabalhador, ou mais devoto), de ordinário devem atribuir-se ou à inconstância da natureza ou à ilusão diabólica.

[...]

O espírito que é levado a coisas incomuns (fora do costume), singulares e que não são próprias de seu estado, é grandemente duvidoso. Assim, seria duvidoso o espírito de um religioso de vida ativa ou mista que amasse demasiado a solidão, o retiro e a contemplação. Duvidoso também o espírito de um religioso de vida contemplativa que quisesse atender à saúde espiritual dos outros com a pregação e demais obras, próprias da vida ativa. Duvidoso é o espírito de uma casada que não quisesse acomodar-se a seus empregos, mas que desejasse fazer vida de monja em sua casa, e de um casado que quisesse viver como religioso no exterior. Duvidoso seria o espírito daquele monge de claustro que, relativamente ao vestir, comer e outras operações cotidianas, quisesse afastar-se do que prescrevem as regras e os costumes de seu monastério." (p. 111)

Letícia não se detém nesse discernimento. Parte do pressuposto de que a inquietação interior é necessariamente divina, simplesmente porque confirma seus desejos. Não distingue a voz de Deus da própria vontade.

A preocupação com o “legado” pessoal e com a “contribuição para o mundo” revela, além disso, um traço típico de vaidade espiritual. Pe. Scaramelli, novamente, alerta contra esse tipo de impulso descrevendo como uma moção tipicamente diabólica:

"O demônio, sabendo que as coisas novas e singulares, de ordinário, excitam admiração em quem as vê e vaidade em quem as pratica, é muito amigo de sugeri-las aos entendimentos menos humildes e pouco cautelosos, e de atraí-los a essas coisas com aparência de uma rara virtude."

"O demônio vem disfarçadamente para nos enganar com bons afetos, e com pensamentos aparentemente devotos, mesmo que em princípio cause algum deleite, no fim deixa sempre a alma inquieta e turbada."

Nesse discurso sobre “minha contribuição para o mundo”, subjaz ainda o vício da especialidade: o desejo de ser vista como alguém singular, indispensável. Trata-se menos de caridade e mais de ego. A caridade olha para a necessidade; a vaidade, para si.

Afirmar, ademais, que só se contribui com o mundo mediante uma profissão externa equivale a negar o valor social e espiritual do trabalho doméstico - o que é manifestamente falso - como ensina São João Paulo II:

"A experiência confirma que é necessário aplicar-se em prol da revalorização social das funções maternas, dos trabalhos que a elas andam ligados e da necessidade de cuidados, de amor e de carinho que têm os filhos, para se poderem desenvolver como pessoas responsáveis, moral e religiosamente amadurecidas e psicologicamente equilibradas." (Laborem Exercens, n. 19)

Scaramelli ensina ainda que, quando Deus chama alguém a algo verdadeiramente fora de seu estado, Ele manifesta essa vontade por sinais especiais, não por inquietações vagas ou impulsos genéricos.

"Necessário advertir ainda que quando Deus elege uma alma para coisas que não são próprias de seu estado, ou que são pouco conformes ao instituto de vida que foi abraçado, costuma dar sinais especiais de sua vontade. Assim, Santa Catarina de Sena, havendo chegado à presença de Gregório XI para tratar a reconciliação dos florentinos com a Santa Igreja, manifestou ao Sumo Pontífice os pensamentos e desejos ocultos que tinha em seu coração, de voltar a Roma, que a ninguém havia manifestado; e com isto deu o Senhor claros sinais de que a Santa Virgem era inspirada por Deus para empreender aquela expedição, ainda que incompatível com a sua condição. Assim também, ocupando-se São Bernardo fora do claustro com seculares em públicos ou privados negócios, fazia a cada passo milagres com os quais autenticava o Senhor o seu espírito. Assim, à Santa Maria Madalena de Pazzi se lhe inchavam as pernas caso calçasse, tal como as outras religiosas, e se desvanecia todo inchaço quando andava com os pés descalços. Se jejuava a pão e água, retinha a comida que era assimilada com proveito, mas se tomava outros mantimentos, logo os rejeitava com ímpeto." (p. 114)

A inquietação relatada por Letícia, ao contrário, é difusa, indeterminada, estéril. A moção divina é clara e distinta; a diabólica, confusa e inquietante, como nos ensina Scaramelli:

"O espírito divino traz sempre luz à nossa mente. Deus freqüentemente declara na Sagrada Escritura que Ele é luz, sem mescla de obscuridade nem trevas." (p.58)

"A primeira marca do espírito diabólico sobre os atos da vontade é a inquietude, a turbação e o alvoroço, afetos de todo opostos à paz que Deus comunica." (p. 93)

Letícia prossegue e afirma que uma amiga a aconselhou dizendo que Deus colocou em nosso coração o desejo de trabalhar fora. De onde essa amiga tirou isso? O trabalho externo da mulher sempre foi visto pela Igreja e pela teologia católica como um dos maiores inimigos externos da família. Como, de repente, tornou-se moção divina?

Não há fim para o abismo do feminismo conservador.

Por fim, Letícia recorre à “psicologia do desenvolvimento humano” para sustentar a tese das múltiplas vocações e afirmar que não segui-las é "anular si mesma". Cazarré cai numa psicologia rasa, divorciada da teologia. Ansiedade, frustração e perda de sentido jamais são critério último para o católico. Muitas vezes, são precisamente sinais de tentação, como ensina Scaramelli.

"O demônio não só é pai da mentira, mas também das trevas; e por isso, quando investe contra nós abertamente, faz o que é próprio de sua natureza, e produz em nossa mente trevas, obscuridade e escuridão. Isso é o que nos assegura São João Crisóstomo. E então ofusca a mente, obscurece o entendimento, enche a alma de tribulações, de ansiedade e angústias." (p.66)

"O sétimo sinal é a desordem (desconcerto) das paixões. São Gregório compara o demônio ao lobo, que, entrando na manada, alvoroça todo o rebanho. Com a sua chegada todas as ovelhas se põem em movimento e consternação; treme, perde-se, salta e foge. Assim, o inimigo do gênero humano, saindo das cavernas do inferno, qual lobo furioso, entre nas almas e as revoluciona inteiramente. Comove as paixões, agita-as, desconcerta-as e as põem em tumulto." (p. 104-105)

O católico não deve simplesmente ceder às angústias fazendo aquilo que lhe agrada, mas antes discernir sua causa. Se tais angústias surgem da fidelidade à vocação, não procedem de Deus.

Ao contrário, o espírito divino conduz à mortificação dos próprios desejos. O Evangelho é claro: negar-se a si mesmo, carregar a cruz e seguir a Cristo.

"O sétimo sinal é a mortificação voluntária das inclinações internas. Não se pode pôr em dúvida que seja isto um sólido caráter do espírito divino, porque o próprio Redentor nos disse por Sua boca. Veja-se aqui a divisa dos seguidores de Cristo e que têm seu espírito: abnegar-se a si mesmo, contradizer a seus desejos e abater suas paixões. Quem são os generosos soldados do Redentor, que conquistam seu Reino celestial? Os mortificados, que fazem força e violência a si mesmos. Para que um grão de trigo produza frutos, necessário se faz que morra sepultado na terra; assim, para que o homem produza frutos de vida eterna, convém que também morra com o exercício de uma incessante mortificação." (p. 88)

É exatamente isso que desmonta a retórica feminista do “não podemos nos anular”. O espírito divino manda anular-se; o espírito do mundo manda afirmar-se.

Santa Gianna Beretta Molla, frequentemente citada como exemplo contrário, confirma precisamente essa verdade. Ela chegou a prometer abandonar a carreira médica para dedicar-se integralmente à maternidade, mesmo reconhecendo o sofrimento que tal renúncia lhe causaria. Não ignorou a frustração; subordinou-a a um bem maior.

"Depois de retornar a Ponte Nuovo, Gianna tentou reorganizar sua vida, querendo encontrar tempo para tudo: Pietro e seus filhos, o gerenciamento de sua casa e sua prática médica. Pietro viu como ela sempre estava ocupada e perguntou se ela consideraria desistir de sua prática. O olhar que Gianna lhe deu em resposta, no entanto, desencorajou Pietro de perguntar novamente. “Eu prometo a você”, ela lhe disse um dia, “que quando tivermos mais um filho, interromperei meu trabalho médico e serei mãe em tempo integral, mesmo que isso seja difícil para mim”. (Santa Gianna Beretta Molla: A Woman's Life. Giuliana Pelucchi)

Eis a diferença essencial. O sofrimento não desaparece, mas é iluminado pelo sentido da vocação. Por isso, não pode jamais ser o critério último das decisões de quem pretende viver segundo a fé católica.

Conclusão

Em suma, o discurso das “múltiplas vocações” não passa de uma tentativa moderna de dissolver, por vias psicológicas e subjetivistas, um ensinamento constante da Igreja. Ao confundir vocação com inclinação ou talento, substitui-se a ordem objetiva da vida cristã por uma leitura emotiva da experiência pessoal.

A tradição da Igreja jamais ensinou que a fidelidade à vocação se mede pela ausência de sofrimento ou frustração. Ao contrário, sempre soube que a cruz acompanha necessariamente todo chamado autêntico de Deus. Quando o mal-estar interior se torna critério último de decisão, já não se discerne a vontade divina, mas apenas se legitima o próprio querer.

No matrimônio, a mulher encontra no cuidado do lar e da família não uma negação de si, mas a forma própria e ordinária de sua realização moral e espiritual. Eventuais exceções, quando verdadeiramente queridas por Deus, manifestam-se de modo claro e evidente; não nascem de inquietações vagas nem de racionalizações tardias.

O verdadeiro discernimento não começa perguntando “o que me faz sentir melhor”, mas “a que estado Deus me chamou”. Fora dessa ordem, toda teologia da vocação degenera em psicologismo e toda liberdade acaba reduzida à submissão às próprias paixões. É precisamente essa inversão que o chamado feminismo conservador insiste em promover - e é contra ela que a razão católica deve permanecer vigilante e firme.

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Depois de Francisco: O Despertar das Linhas de Batalha


O Centro Dom Bosco publicou um livro de Michael Haynes a respeito dos problemas do Catecismo amarelo — e, francamente, não é isso que causa espanto. O CDB vem marchando para cada vez mais perto da Fraternidade São Pio X.

O que, sim, surpreende — e até diverte — é perceber quão numerosas são as almas que nunca ouviram falar do movimento tradicionalista, nem do estranho e velho ofício de discutir apaixonadamente dentro da mesma Igreja. Como se alguém estranhasse que irmãos brigassem na mesma casa por amor ao mesmo pai. São almas que desconhecem por completo as questões que o tradicionalismo introduz nos debates da vida eclesial.

Durante certo tempo, as discussões sobre o Concílio Vaticano II e seus efeitos na vida da Igreja pareceram recolher-se como soldados feridos à sombra de um hospital de campanha — ou melhor, de um pontificado de campo. O “efeito Francisco”, com sua força centrífuga e sua lógica desconcertante, conseguiu adormecer — ou ao menos distrair — os debates teológicos mais profundos com uma avalanche de gestos, improvisos e perplexidades pastorais.

Diversos setores tradicionalistas, bem como alguns segmentos conservadores, foram constrangidos a suspender disputas internas para se unirem na tentativa de compreender e enfrentar um pontificado que, com inquietante clareza, demonstrava resistência, quando não repulsa, à herança doutrinal e litúrgica de viés conservador/tradicional.

O Papa Francisco introduziu no governo da Igreja um estilo inédito entre os pontífices pós-conciliares: mais alinhado às tendências progressistas, não raro marcado por improvisações teológicas, termos recém-criados ("Igreja sinodal", "Igreja samaritana"), e uma retórica frequentemente crítica à Tradição (“indietrismo”, por exemplo). Em consequência, debates outrora centrais — como o significado preciso do subsistit in da Lumen Gentium, a natureza da liberdade religiosa ou o problema teológico do monoteísmo comum com os muçulmanos — foram substituídos por urgências mais imediatas: a disciplina da Eucaristia em casos irregulares, a aprovação implícita de bênçãos a uniões contrárias à moral natural, a severa restrição à Missa tridentina, bem como declarações desconcertantes relativas ao inferno ou ao valor salvífico universal das outras religiões.

Enquanto os tradicionalistas combatiam, no Brasil, floresciam, como brotos em terreno alternativo, os chamados “Missionários Digitais”. Eram apóstolos de outro campo de batalha: mais catequético, mais motivacional, mais instagrâmico. Para eles, as discussões dos tradicionalistas soavam como murmúrios em latim numa estação de metrô. Seus seguidores — em sua maioria recém-convertidos ou neófitos entusiasmados por Frei Gilson e por The Chosen — buscavam fervor, consolo, louvor e estética. A teologia, no entanto, ficava num canto da sala, como um avô cansado. Nomes como Allan Carrion, Santa Carona, Segundo Católico, Colo de Deus e Católicos de Verdade dominavam esse cenário, promovendo um catolicismo acessível, emocional e oficialista — quando não apenas alheio à crise, ao menos inconsciente dela.

Junto a esse universo, erguia-se ainda a torre dos influenciadores do marketing católico, formados na escola pragmática de Ítalo Marsili, Ícaro de Carvalho e, claro, do sempre discreto Opus Dei. Foi uma época em que choveram — como maná requentado — frases de São Josemaria Escrivá e exortações a uma vida de sucesso profissional com oração matinal, missa diária e virtudes bem diagramadas — tudo isso, porém, sem encarar o elefante eucarístico na sala: a ruína da liturgia, o silêncio cúmplice de maus pastores, a decadência doutrinal. Temas que os tradicionalistas, quase sozinhos, continuavam a debater como quem tenta reacender uma lâmpada numa catedral sem luz. Era, muitas vezes, uma espiritualidade de bons costumes e bons contratos.

Com a morte do Papa Francisco, o quadro se transforma. Os tradicionalistas e essas duas correntes que antes corriam em paralelo — missionários digitais e influenciadores pragmáticos — começam a se olhar nos olhos. Muitos “Missionários Digitais” e dos seus seguidores, ainda sem compreensão adequada da teologia e da eclesiologia tradicionalista, reagem ao tradicionalismo como uma criança reage a um trovão: com medo, risos nervosos e, sobretudo, sem entender. E tentam nomear o que não compreendem com palavras herdadas do susto: "sedevacantismo", "protestantismo". Quando, na verdade, tudo não passa do eterno retorno de uma questão que se recusa a morrer: afinal, qual o tamanho que o Vaticano II deve ter na vida católica? Por sua vez, os influenciadores de matriz liberal-católica, como aqueles vinculados ao universo de Marsili e afins, encontram-se em visível declínio. Como o catolicismo nunca foi o centro de suas atividades, a progressiva secularização de seus perfis, agora mais profissionais, confirma uma orientação mais voltada ao sucesso pessoal do que à integridade da fé.

E assim, o que se desenha no horizonte não é o apaziguamento da controvérsia, mas o seu renascimento. O antigo debate sobre o Vaticano II — como um fogo soterrado sob as cinzas — começa a reacender. Tradicionalistas e continuístas retomam seus postos no front, e os fiéis dos missionários digitais, como ovelhas surpreendidas pelo fogo nos dois lados do campo, acabarão se alinhando, cedo ou tarde, a um dos dois exércitos.

Em suma, o que se anuncia não é o fim de uma era, mas o juízo de sua consistência. O “efeito Francisco”, por mais desconcertante que tenha sido, serviu — como um estranho profeta de fábula — para revelar as fragilidades e descompassos da vida católica contemporânea. Mostrou-nos que há um tradicionalismo que resistiu não por nostalgia, mas por convicção; e que há um catolicismo midiático que, por evitar as perguntas difíceis, agora precisa dar respostas inevitáveis.

domingo, 2 de março de 2025

Acabando com o Carnaval do "O Catequista"

Enquanto o mundo católico se prepara para a Quaresma e diversos padres e bispos acautelam os fiéis das mazelas do Carnaval, o Catequista ano após ano, nas proximidades da Quaresma, se dedica a anestesiar as consciências a respeito da festividade.

Em 2024, Alexandre e Viviane Varela já havia publicado fotos dos próprios filhos "caindo na folia", como se vê aqui:




Na época, o casal justificou a publicação argumentando que a Igreja jamais condenara o Carnaval e porque neste baile infantil se encontravam "Muitas senhoras e senhores, jovens bem comportados, uma multidão de crianças e doguinhos, nenhum cheiro de cigarro".

Nota-se de cara, neste baile infantil, mulheres adultas muito mal vestidas, uma delas de mini-shorts e segurando uma cerveja na mão (o ápice da vulgaridade feminina), mas, para o O Catequista, era um baile "bem comportado".

Veremos na exposição deste artigo que este baile não cumpre os requisitos mínimos de um baile adequado. 

A consciência de Alexandre e Viviane Varela está totalmente cauterizada quanto à verdadeira honestidade que os ambientes devem ter, afinal, eles não se importam de levar os filhos a uma praia mista com pessoas seminuas depois da Missa, conforme demonstramos no artigo "Sobre a obstinada idolatria dos conservadores católicos às praias".

Este ano, novamente, a página renovou seus votos de apoio ao Carnaval, desta vez apoiando-se nominalisticamente nos casos da Serva de Deus Odetinha e em Santa Giana Molla, que também teriam caído na folia.



Dizemos "nominalisticamente", porque o O Catequista simplesmente se recusa a justificar tecnicamente suas opiniões articulando os princípios da teologia moral ao caso concreto, mas ele simplesmente "extrai" conclusões a partir de comportamentos de certos santos ou pontífices, que puderam ter inúmeros motivos para agir de tal ou qual maneira ou que simplesmente não agiram bem.

Neste exemplo da Serva de Deus Odetinha, por exemplo, há coisa mais inadequada do que uma menina se vestir de menino? Qual a diferença disso para incentivar um menino a brincar de boneca? Qual a diferença de uma menina se vestir de menino no carnaval infantil e um marmanjo se vestir de princesa no carnaval adulto? É uma diferença de grau, não de essência. É evidente que os pais de Odetinha não tinham que permitir tal coisa.

Já de Santa Gianna não há muitas informações do contexto que ela comemorava o carnaval com os filhos, mas, como já informamos inúmeras vezes neste blog, Santa Gianna foi muito mais filha do seu tempo que se possa imaginar, tendo algumas condutas que não eram realmente aconselháveis para uma mãe católica.

Neste blog já argumentamos que o progressismo católico, quando não tem fundamento sólido na doutrina ou na teologia, apela nominalisticamente aos santos, pois sempre haverá algum que, sendo filho do seu tempo e carecendo de boa instrução, não agiu conforme a doutrina ou a boa teologia aconselham a agir. Não precisamos ir longe. Vejamos, por exemplo, o caso da Serva de Deus Chiara Petrillo.

Chiara e o marido eram ardorosos frequentadores da Renovação Carismática e Chiara morreu de forma heroica para levar a sua última gestação para frente. Contudo, Chiara, como qualquer santo que vive em tempos caóticos e sem muita instrução como os nossos, tinha diversos costumes mundanos, embora creiamos que todos eram vividos na mais absoluta boa-fé. Chiara, por exemplo, usava biquini na praia, algo simplesmente escandaloso para a modéstia no vestir, como demonstramos em diversas ocasiões.


Chiara era acostumada com missas hiper carismáticas com todos os problemas que descrevemos no artigo "Sobre o Tradismatismo". Em seu funeral, a missa, novamente, foi hiper carismática, fugindo completamente ao espírito de uma Missa Pro Defunctis, sendo animada com instrumentos musicais totalmente inadequados para a liturgia e até mesmo com o marido de Chiara, Enrico Petrillo, soltando a mão no violão:


Não estamos expondos essas coisas para detratar os santos, mas para mostrar o quão problemático é tomar o exemplo dos santos como se fosse uma norma moral, ainda mais no contexto de caos litúrgico e catequético que vivemos. O fenômeno dos "santos enganados" pelo espírito do tempo será cada vez mais comum, sendo absolutamente necessário os católicos filtrarem adequadamente o que é exemplar na vida dos santos e o que não é.

No caso de Odetinha e Santa Giana sabemos que houve engano dessas santas, tendo em vista a expressa condenação da Igreja aos bailes infantis:
"758. Reprovamos o abandono dos pais, que, concedendo a seus filhos absoluta liberdade no trato com pessoas de sexo diferente, não protegem bastante a sua pureza contra os perigos que a rodeiam, não evitam os namoros precoces, e não robustecem nem fomentam em seus corações o amor à castidade. Por isso, declaramos dignos de igual reprovação aos promotores e fautores dos bailes infantis, e gravissimamente encarecemos no Senhor aos pais, que não exponham seus filhos a tamanhos perigos, ainda que para buscar desculpas para os pecados, apresentem não poucos pretextos, com aparência de honestidade” (Concílio Plenário Limense da América Latina de 1900 aprovado por Leão XIII)
Feita esta introdução façamos agora uma análise da moralidade do carnaval, para que tenhamos uma visão justa do tema.

O carnaval enquanto festa

O Carnaval é um espetáculo público com danças. Assim, deve-se levar em conta as principais normas da moralidade tanto para o espetáculo quanto para a dança. Adianta-se, desde já, que o carnaval ser "popular", "mirim" ou "adulto" não é critério suficiente para julgar a situação.

1. Quanto aos espetáculos. Em geral, não são maus em si. Mas, segundo a opinião comum dos moralistas, seriam gravemente escandalosos se promovessem:

a) músicas e artes obscenas, antirreligiosas ou contrárias aos bons costumes;

b) roupas indecentes;

c) todo tipo de excesso (drogas, bebedeiras, chistes, etc).

As pessoas que participassem desses eventos, mesmo sem perigo pessoal, pecariam gravemente por escândalo (Zalba, Royo Marin). Aqui a normal é clara: não basta você estar sadio no local, o ambiente como um todo também precisa estar.

Por estes critérios o carnaval, mesmo o infantil, já se torna uma realidade muito difícil de se frequentar no Brasil, uma vez que, raramente, se observa o atendimento desses critérios.

Aqui pedimos licença para o leitor para notar como a página O Catequista é completamente amadora na abordagem desse assunto.

O Catequista defende com ardor o Frevo pernambucano como uma alternativa legítima de entretenimento carnavalesco. Na publicação deste ano de defesa do Carnaval, pode-se inclusive encontrar comentários de seguidores do O Catequista a respeito do Frevo e o endosso da página à festividade:






Notemos como os seguidores do O Catequista, seguindo o exemplo da página, são incapazes de um raciocínio moral. Defendem o Frevo porque ele é "cultural" ou porque a festividade faz parte da "identidade" deles, não porque seja algo moralmente sadio. Aqui funciona a lógica dos apegos, não da razão retamente aplicada. Todas as pessoas de consciência laxa pensam dessa maneira. A coisa é certa ou errada segundo o grau de apego/simpatia da pessoa, não segundo as normas da moralidade.

O Catequista aplaude os comentários e acrescenta seu endosso ao carnaval pernambucano.

Todavia, quando observamos o Frevo constatamos que ele não é celebrado de forma decente. Neste festival constata-se um grau altíssimo de indecência das mulheres. Vejamos que, nesta festividade, as moças costumam usar vestidos curtíssimos expondo totalmente as pernas e quando fazem pulos e giros a roupa íntima fica totalmente à mostra.




Aqui relembremos a orientação de Pio XI:
"Que os pais mantenham suas filhas longe do público de jogos e competições de ginástica, mas se as suas filhas são obrigadas a frequentar essas exposições, deixá-los ver que elas estejam totalmente e modestamente vestidas."  (AAS, 1930, vol. 22)
O Frevo já foi um espetáculo um pouco mais modesto, como fica evidente nas imagens abaixo, mas com a decadência dos costumes ele próprio rendeu-se à indecência do vestir.




O Catequista não repara essas coisas porque, como dissemos, ele está anestesiado. Muitos anos de praia e de "Dança dos Famosos" entorpece todo tipo de consciência. Se o O Catequista defende a praia como um lugar adequado para um católico ir, apoiar o indecente Frevo pernambucano é fichinha.

2. Quanto aos bailes. A opinião comum dos teólogos não presume honestidade dos bailes públicos e mistos. A razão é manifesta: não são bailes controlados. Gury-Ferreres em "Compendium Theologiae Moralis" esclarecem o perigo de bailes públicos e mistos:
"O perigo provém de um duplo motivo: da íntima união dos corpos do homem e da mulher, e de que os que dançam se perdem entre a multidão, abandonados a si mesmos, dando lugar a uma maior liberdade para conversas indecentes [majorem libertatem habeant verba minus casta proferendi], quando todas as circunstâncias contribuem a incitá-los a pecar; e quanto mais familiaridade existe entre os que dançam, mais perigosas são estas danças e devem ser evitadas de qualquer modo.” (tomo I, n. 242)
Por isso Antonio Royo Marín em "Teologia Moral para Leigos" assinala que os bailes, se mistos, devem ser privados e combinar as seguintes condições:
1) Em locais privados e honestos; uma festa de casamento ou familiar, diante dos pais ou de pessoas de bons hábitos.

2) Com pessoas decentes; que sejam cavalheiras e sem malícia.

3) De maneira decente; uso de trajes que não sejam escandalosos ou sensuais.

4) Com boa intenção; com finalidade honesta ou honrosa. Ex: se divertir honestamente, encontrar um marido/esposa.
Nota-se por mais este critério que mesmo o "baile infantil" sugerido pelo O Catequista estaria condenado, tendo em vista que se trata de um baile público e não é festejado de maneira decente.

Outros moralistas também distinguem a honestidade dos bailes segundo (i) o modo de dançar e (ii) em razão das pessoas. 

(i) No modo de dançar. Diversos moralistas (Arregui, Vicente Hernandez, Genicot, etc) e várias Conferências Episcopais apontaram o tango, a valsa, a mazurca, o galope, a polca, o schottisch, a habanera, a kamel-trot, o shimmy, o check-to-check, o one-step, o blues, o samba, o rock, etc., danças em que o homem e a mulher se abraçam apertado, dão giros, um passa por baixo das pernas do outro, etc., como danças que oferecem ocasiões próximas de pecado grave, tendo em vista o tipo de contato que há entre sexos, os gestos e a significação deles.

Observemos que um desses estilos, o tango, uma dança argentina altamente sensual, tem grande simpatia do Papa Francisco. Contudo, é impossível negar que ela seja uma ocasião de pecado grave, haja vista o tipo de interação e movimentos sensuais que há entre os dançarinos. O tango é a dança mais lembrada pelos moralistas como exemplo de dança intrinsecamente desonesta.





Daí a importância de não interpretar todos os comportamentos/gostos pessoais dos santos e dos pontífices como se fossem normas morais. Primeiro, porque o exemplo das outras pessoas, por mais estimadas que sejam, não é para nós uma norma moral. Seremos julgados tendo como parâmetro os mandamentos, não as outras pessoas. Segundo, porque não podemos buscar escusar nossas ações com base na consciência do outro. Isso é infantilismo espiritual. Terceiro, porque nem todos os santos foram realmente exemplares em todas as suas ações. Em muitas delas foram filhos de seu tempo, embora sempre de boa-fé.

Observamos nesse quadro também, como exemplo de dança desonesta, o samba. De fato, o samba requer, principalmente das mulheres, muitos movimentos de quadril, rebolados, algo intrinsecamente sensual.  Não é à toa que os carnavais de samba no Brasil são altamente sensualizados. A sensualidade não é uma corrupção do samba, mas é ínsita dele.



Poderíamos facilmente acrescentar ao samba outras danças indecentes, mas, infelizmente, bastante populares no Brasil, como o pagode, o axé, o forró e o funk.

(ii) Em razão das pessoas. Diz respeito à honestidade e à decência das pessoas que dançam. Edouard Genicot em "Theologia Moralis" assim explica:
"A decência dos bailes depende especialmente das pessoas que nelas participam e do modo de dançar: por isso o confessor, quer ao permitir quer ao proibir as danças, deve prestar muita atenção à possibilidade ou não, especialmente às primeiras. Assim, as danças realizadas entre algumas famílias nas casas estão geralmente expostas a muito menos perigo do que as do público, tanto do campo como da cidade. Alguns condenam severamente o método de dançar já habitual mesmo nas famílias respeitáveis ​​(polca, etc.), que as mulheres pobres devem abraçar com tal habilidade que parece impossível evitar graves pecados de luxúria. Outros, porém, como Berardi (De Recid. II. n. 165), não pensam que este perigo moral esteja tão universalmente presente, pois a própria experiência e os testemunhos dos penitentes parecem mostrar o contrário. E não é tão surpreendente assim: pois o toque entre o homem e a moça, feito na solidão e somente com esse carinho, muitas vezes o moverá mais à luxúria, do que quando a mente está distraída com muitas outras coisas e concentrada no ritmo da dança. Porém, existem danças, como o tango, o boston, que são absolutamente repreensíveis. Geralmente o perigo é maior nas danças mascaradas, porque muitos, libertos do medo de serem reconhecidos pelos outros, comportam-se com mais liberdade." (vol. 1, n. 241)
Antonio Arregui em "Summarium Theologiae Moralis" explica que o perigo dos bailes gradua-se da seguinte forma:
(i) bailes mascarados; concentra muitos perigos. Pessoas anônimas por trás de suas máscaras ou que assumem certo personagem durante o carnaval tendem a todo tipo de excessos.

(ii) bailes públicos; também ocasiona grandes perigos, tendo em vista a grande aglomeração de pessoas e o pouco controle do que se faz nele.

(iii) bailes em salões fechados; seria a danceteria moderna ou "balada". É um ambiente mais controlado, contudo, em geral, são ambientes escuros, com grande aglomeração de pessoas, o que favorece os pecados contra a castidade.

(iv) bailes privados, entre famílias honestas. São as festas controladas e com pessoas escolhidas. Geralmente, são festas familiares ou de casamento. Bailes feitos nessas circunstâncias, desde que com pessoas decentes, podem ser permitidos.
Apliquemos tais normas ao contexto do carnaval. Trata-se, como todos sabem, de um baile mascarado e público, ou seja, os dois piores tipos de bailes. Não é sem motivo que o carnaval é tão conhecido por suas extravagâncias e imoralidades. Mesmo o carnaval infantil, como vimos, não está isento de perigos. Tendo em vista que o carnaval mirim busca imitar o carnaval adulto, não é raro encontrar grande imodéstia no vestir nas meninas, danças inapropriadas, músicas inadequadas e maus exemplos de outras crianças, já que não há muito controle nos bailes públicos.

Genicot, teólogo belga do século XIX, dizia que os bailes feitos nas suas regiões eram intrinsecamente maus:
"Embora, teoricamente, reger danças possa ser um ato de virtude, na prática, como acontece em nossas regiões, é inerentemente perigoso e ocasião para muitos pecados. Portanto, os confessores devem ser incentivados e sabiamente afastados deles, mas especialmente os jovens de ambos os sexos que até agora viveram na castidade." (Ibidem)
O que dizer, portanto, de um "carnaval mirim" com mulheres mal vestidas e com danças imodestas como o samba? Nenhum pai responsável deveria levar seus filhos para esses lugares.


Os Papas e o Carnaval

Por fim, lidemos com uma última objeção do O Catequista. Um seguidor fez um comentário lúcido a respeito da Serva de Deus Odetinha:


O comentário foi perfeito. Odetinha morreu com apenas 9 anos de idade. Crianças nessa idade, conforme explicamos no artigo "O novo curso de Bernardo Küster e o Catolicismo Tradicional", possuem aquilo que chamamos de "certeza respectiva da fé":
"Em suma, a fé autêntica, tal como nós, católicos, a entendemos, pressupõe e exige uma certeza racional prévia do fato da revelação de Deus. Desta forma, a fé será um assentimento prudente, firme e irrevogável, que são propriedades do verdadeiro ato de fé. Para as crianças e os rudes, a “respectiva” certeza deste fato da revelação será suficiente; Para muitos adultos, a certeza <<vulgar>>> do mesmo será suficiente. Mas aos estudantes universitários e aos estudantes de teologia que queiram proceder cientificamente devem ser dadas demonstrações científicas e objetivamente válidas deste fato fundamental para a fé." (Miguel Nicolau, "A Crise da Igreja", n. 108)
A certeza respectiva significa que a criança crerá tendo como base moral e de fé o ensino do pai e da mãe, do professor católico, do catequista, do pároco, prescindido daquilo que se denomina "demonstração científica da fé".

Em outras palavras, se os pais de Odetinha disseram que o carnaval era bom, a base da moralidade de Odetinha não será qualquer teólogo moral ou documento pontifício, mas a afirmação dos pais. Portanto, apelar para a "santinha" impelida pelos pais a participar do carnaval é um argumento muito fraco para justificar a festa.

O Catequista respondeu a objeção da seguinte maneira:



Aqui parece que temos o argumento mais "sério" do O Catequista em sua defesa falida do Carnaval. Os papas teriam autorizado e patrocinado oficialmente os carnavais de rua de Roma até a unificação italiana. Portanto, vamos à folia!

No entanto, é preciso dizer que, novamente, o O Catequista cai na armadilha de tirar conclusões apressadas a partir de comportamentos dos pontífices ao invés de sentar na cadeira e raciocinar a partir de princípios bem definidos. O modus operandi do O Catequista é sempre este: ele não busca pensar, ele busca atalhos.

Pelo raciocínio do O Catequista seria lícito, por exemplo, mulheres irem seminuas ou de topless à missa, já que São João Paulo II celebrou uma missa para nativos seminus de Papua Nova Guiné em 1984:






Pois bem, é evidente que o raciocínio do O Catequista está errado. Sabemos que entre o século XVI e o XIX foram numerosíssimos os santos reprovavam o carnaval. Em suas "Meditações", Santo Afonso de Ligório, patrono da Teologia Moral, por exemplo, dirigia palavras duríssimas contra o carnaval:
“Por este amigo, a quem o Espírito Santo nos exorta a sermos fiéis no tempo da sua pobreza, podemos entender que é Jesus Cristo, que especialmente nestes dias de carnaval é deixado sozinho pelos homens ingratos e como que reduzido à extrema penúria. Se um só pecado, como dizem as Escrituras, já desonra a Deus, o injuria e o despreza, imagina quanto o divino Redentor deve ficar aflito neste tempo em que são cometidos milhares de pecados de toda a espécie, por toda a condição de pessoas, e quiçá por pessoas que lhe estão consagradas. Jesus Cristo não é mais suscetível de dor; mas, se ainda pudesse sofrer, havia de morrer nestes dias desgraçados e havia de morrer tantas vezes quantas são as ofensas que lhe são feitas.

É por isso que os santos, a fim de desagravarem o Senhor de tantos ultrajes, aplicavam-se no tempo de carnaval, de modo especial, ao recolhimento, à penitência, à oração, e multiplicavam os atos de amor, de adoração e de louvor para com o seu Bem-Amado. No tempo do carnaval, Santa Maria Madalena de Pazzi passava as noites inteiras diante do Santíssimo Sacramento, oferecendo a Deus o sangue de Jesus Cristo pelos pobres pecadores. O Bem-aventurado Henrique Suso guardava um jejum rigoroso a fim de expiar as intemperanças cometidas. São Carlos Borromeu castigava o seu corpo com disciplinas e penitências extraordinárias. São Filipe Néri convocava o povo para visitar com ele os santuários e realizar exercícios de devoção. O mesmo praticava São Francisco de Sales, que, não contente com a vida mais recolhida que então levava, pregava ainda na igreja diante de um auditório numerosíssimo. Tendo conhecimento que algumas pessoas por ele dirigidas, que se relaxavam um pouco nos dias de carnaval, repreendia-as com brandura e exortava-as à comunhão frequente.

Numa palavra, todos os santos, porque amaram a Jesus Cristo, esforçaram-se por santificar o mais possível o tempo de carnaval. Meu irmão, se amas também este Redentor amabilíssimo, imita os santos. Se não podes fazer mais, procura ao menos ficar, mais do que em outros tempos, na presença de Jesus Sacramentado ou bem recolhido em tua casa, aos pés de Jesus crucificado, para chorar as muitas ofensas que lhe são feitas."
Também sabemos que Papa Bento XIV instituiu as 40 horas de adoração ao Santíssimo em reparação aos pecados cometidos no carnaval e concedeu indulgência plenária a quem participasse da adoração.
"A Igreja repetidamente fez esforços para verificar os excessos do carnaval, especialmente na Itália. Durante o século XVI, em particular, uma forma especial da Oração das Quarenta Horas foi instituída em muitos lugares na segunda e terça-feira do entrudo, em parte para afastar as pessoas dessas perigosas ocasiões de pecado, em parte para fazer expiação pelos excessos cometidos. Por uma constituição especial endereçada por Bento XIV aos arcebispos e bispos dos Estados Pontifícios, e intitulada "Super Bacchanalibus", uma indulgência plenária foi concedida em 1747 àqueles que participaram da Exposição do Santíssimo Sacramento, que deveria ser realizada diariamente por três dias durante a temporada de carnaval." (Fonte: Aleteia)
Portanto, é inequívoco que tanto a Igreja quanto os santos sabiam que o carnaval era ou havia se tornado, no mínimo, uma festa problemática. Então por que ele continuou até a unificação italiana?

A resposta mais provável é que os Papas simplesmente toleraram o carnaval, tal como São João Paulo II tolerou a imodéstia dos nativos de Papua Nova Guiné, dado o enraizamento da festa na cultura popular. Como sabemos, os papas entre os séculos XVI e XIX tinham sob sua tutela os chamados Estados Pontifícios e não podiam simplesmente acabar com todos os problemas sociais na canetada. Por isso toleravam certos males. Trata-se aqui exatamente do princípio do mal menor. A aplicação deste princípio explica com perfeição a continuidade dos carnavais nos territórios pontifícios e a condenação ininterrupta dos santos a essa festividade.


Conclusão

De todo o exposto, fica manifesto o desserviço que tem prestado o O Catequista (mais um) a respeitto do carnaval. Mesmo que, em tese, se pudesse dizer que nem todo carnaval é mau, atualmente, não há carnaval sadio no Brasil. Assim, ao invés de gastar tempo e energia tentando convencer os católicos que se pode achar uma agulha no palheiro (agulha que, como vimos, nem o O Catequista encontrou), o O Catequista poderia incentivar os católicos a entrarem em espírito de recolhimento para a Quaresma.

Ademais, o carnaval, das grandes festas, é a que menos tem sentido. O que se comemora no carnaval? Qual herói é lembrado, qual data histórica é recordada, que santo é venerado, que Salvador é adorado? Nenhum. O carnaval tornou-se uma festa de vazão, vazão de uma alegria sem causa e sem nobreza. Por que incentivar os católicos a participarem de algo sem sentido, com muitas ocasiões próximas de pecado, sendo que eles podem recolher-se para uma Quaresma cheia de significado?

Que larguem esse laxismo vergonhoso que só levam às pessoas a pecarem mais e tomem a Cruz que a Quaresma convida a abraçar.

Católicas feministas odeiam homens católicos. E elas perderão tudo com isso.

Algumas páginas católicas feministas estão compartilhando um “estudo” que atesta que o movimento “tradwife” tem atraído homens que “odeiam” ...