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sexta-feira, 14 de março de 2025

Considerações sobre Frei Gilson e o Rosário da Madrugada.

 

Frei Gilson foi recentemente alvo de ataques de jornalistas de esquerda após afirmar em pregação que a mulher foi criada para ser auxiliar do homem. O jornalista Helder Maldonado fez o seguinte comentário na plataforma X:


A página católica de esquerda Katholicos Brasil também se manifestou, publicando um extenso comentário no qual chamou o frei de "fundamentalista":


Diversos católicos e figuras da direita brasileira reagiram aos ataques, destacando os números impressionantes do Frei Gilson, que reuniu 1,3 milhão de pessoas em seu Rosário da Madrugada às 4h da manhã no último dia 10 de março.

Diante desse cenário, abordaremos primeiramente a figura do Frei Gilson e, posteriormente, faremos uma análise do Rosário da Madrugada.

Sobre Frei Gilson

Frei Gilson é um sacerdote dos Carmelitas Mensageiros do Espírito Santo, tem 38 anos e notabilizou-se nos últimos anos pelo famoso Rosário da Madrugada. Segundo o religioso, a ideia surgiu de seu desejo de realizar uma penitência mais significativa para Deus. Ele escolheu rezar um rosário às 4h da manhã e, posteriormente, abriu essa prática para outras pessoas, especialmente aquelas que sofriam de insônia, para que rezassem junto com ele.

Em pouco tempo, Frei Gilson viu suas transmissões ao vivo atraírem centenas de milhares de pessoas, chegando ao auge de mais de 1 milhão de participantes. Seu estilo carismático é evidente, como demonstram suas missas, que incluem momentos de louvor antes do Ofertório e são acompanhadas por instrumentos musicais como piano, bateria, violão e guitarra.


Todas essas imposturas carismáticas na liturgia nós nos afastamos e já comentamos extensamente nos artigos "Sobre o Tradismatismo" e "O PHN é um avivamento católico?". É grave o dever dos sacerdotes carismáticos de corrigir essa postura. Esperamos que Frei Gilson faça isso no futuro.

Embora essas práticas carismáticas na liturgia sejam alvo de críticas e mereçam correção, é importante notar que Frei Gilson se destaca de outros padres carismáticos. Ao contrário de figuras como Pe. Marcelo Rossi ou Pe. Fábio de Melo, ele não busca celebridade ou fama pessoal. Quando convidado a participar de podcasts, seu foco é a pregação, e suas mensagens são ortodoxas e acessíveis ao público mais simples. Em muitos aspectos, ele pode ser comparado a um "Pe. Paulo Ricardo do povão", transmitindo humildade e sinceridade em suas intenções.

Os ataques da esquerda a Frei Gilson revelam um equívoco fundamental sobre sua postura. Ele não se posiciona como um sacerdote engajado em disputas políticas ou como um "padre bolsonarista". Embora a direita brasileira busque associá-lo a seus valores, ele próprio não adota uma postura partidária. Assim, as críticas que o rotulam como "fundamentalista", "machista" ou "bolsonarista" parecem infundadas e desproporcionais, considerando a popularidade e a reputação do religioso.

Admiramos Frei Gilson por sua dedicação e compreendemos que os ataques contra sua pessoa são injustos e exagerados. A preocupação da esquerda em relação a 2026 é compreensível, pois Frei Gilson representa um símbolo de uma crescente adesão popular a valores religiosos e conservadores.

Ponderemos agora sobre o Rosário da Madrugada.

Sobre o Rosário da Madrugada

O Rosário da Madrugada parece ter surgido de uma moção divina, dado o grande número de pessoas que se reúnem em um horário tão improvável para rezar. Levantar-se às 4h da manhã é uma prática penitencial que contrasta com a cultura popular brasileira, mais associada a festas e diversões noturnas. Ver milhões de brasileiros dispostos a esse sacrifício espiritual é um fenômeno significativo.

O brasileiro é conhecido por ficar até tarde da noite em festas, baladas, carnaval e fazer vigílias para comprar ingressos de show das figuras mais patéticas possíveis como, por exemplo, Madonna:


Portanto, o brasileiro se levantar 4h da manhã para rezar o terço parece ser um verdadeiro despertar para a vida espiritual. Finalmente, o brasileiro começa a olhar para o céu.

O Rosário da Madrugada também tem atraído católicos afastados, pessoas mundanas e até protestantes. O youtuber Marlon Arlanas destaca o grande número de protestantes que acompanham a oração.


Os comentários de protestantes que acompanham o rosário do frei são numerosos. Coletamos alguns:



Ficamos satisfeitos em ver protestantes rezando o terço, pois o rosário é considerado um instrumento poderoso contra as heresias, como explica Pe. Paulo Ricardo em sua homilia "Santo Rosário, arma contra a heresia":


"Eis por que o Rosário é uma arma poderosíssima: nele estão condensadas todas as verdades em que cremos, as quais são um antídoto contra os erros e desvios de ordem não só intelectual, mas ainda prática e moral. Pela repetição litânica do Pai-nosso, da Saudação angélica e da doxologia, o Rosário é uma verdadeira escola de teologia, pois nos alimenta a fé, sem a qual é impossível agradar a Deus (cf. Hb 11,6), e impede-nos de naufragar no cisma e na heresia."

Compreendemos que o sucesso do Rosário da Madrugada é, de fato, uma daquelas obras da Providência que realizam grandes prodígios em terras brasileiras. Não há nação que concentre tamanha fertilidade espiritual como o Brasil, nem país em que Deus, nos últimos tempos, pareça ter mais prazer em manifestar suas obras.

Contudo, não obstante os méritos e os frutos visíveis obtidos pelo Frei Gilson por meio dessa devoção, é necessário apontar algumas ressalvas importantes. Aqui, convém ao leitor, especialmente aquele mais entusiasmado pelo trabalho do Frei Gilson, exercitar a maturidade espiritual ao considerar tais ponderações. Não são poucos os que interpretam qualquer questionamento como "implicância", "problematização gratuita" ou mesmo como um "ataque" pessoal ao religioso.

Cumpre deixar claro que não é próprio do autêntico católico render culto de personalidade a quem quer que seja. Nomes veneráveis como o de Pe. Paulo Ricardo, Frei Gilson ou qualquer outra figura digna de estima devem ser avaliados com respeito, sim, mas também com objetividade e discernimento. A verdade não se curva diante do prestígio pessoal, nem o bem se sustenta apenas em números impressionantes.

Tal reflexão, longe de ser um ataque, busca apenas relembrar que a fé, em sua essência mais pura, não se alimenta de ídolos ou de fenômenos de massa, mas sim do amor sincero à Verdade e ao Bem supremo, aquele que é o fundamento de toda verdadeira devoção.

Atualmente, os indicadores quantitativos do Rosário da Madrugada são notáveis, mas ainda se aguarda a confirmação de frutos duradouros e de um legado bem estabelecido. Afinal, como nos recorda a sabedoria evangélica, é pelos frutos que se conhece a árvore.

Portanto, enquanto esperamos que o tempo revele a profundidade dessa obra, não nos eximamos de fazer as observações que se mostram pertinentes. A fé, para ser robusta, não teme o exame; e a verdade, para brilhar, não foge à luz da reflexão honesta.

Pois bem. Há, em essência, duas questões que devem ser ponderadas acerca do rosário da madrugada, e a cada fiel cabe examinar sua própria situação com prudência e discernimento:

1. Se o rosário da madrugada não interfere nos deveres de estado

Ainda que as primeiras horas da manhã sejam, por excelência, um tempo propício à oração, o mais desejável é que estas se realizem de maneira a não prejudicar as obrigações cotidianas.

As orações durante a madrugada, especialmente para o leigo sobrecarregado de responsabilidades, podem colidir com os deveres do estado de vida. Não por acaso, existe uma edição do Breviário destinada aos leigos que omite as horas de terça, sexta e nona, já pressupondo a limitação de tempo daqueles que vivem no mundo e não em um claustro.

Portanto, é imprescindível avaliar a conveniência de adotar essa prática devocional. Como ensina São Francisco de Sales em "Filotéia":

"A verdadeira devoção nada destrói; ao contrário, tudo aperfeiçoa. Por isso, caso uma devoção impeça os legítimos deveres da vocação, isso mesmo denota que não é uma devoção verdadeira." (Parte I, cap. 3)

Convém lembrar que Frei Gilson é um religioso, habituado a rezar o Breviário em momentos do dia que um leigo, em geral, não teria condições de dedicar à oração.

2. Se o rosário da madrugada favorece o progresso na oração

A principal finalidade da oração vocal, segundo os mestres da espiritualidade, é inflamar o coração no amor a Deus. Nesse sentido, não importa tanto  a quantidade de orações e nem quão cedo se acorda para rezá-las, mas sim o fervor da caridade que elas despertam na alma. Como adverte Antonio Royo Marín em "Teologia da Perfeição Cristã":

"1ª Não é conveniente multiplicar as palavras na oração, mas insistir sobretudo no afeto interior. Adverte-nos expressamente o Senhor no Evangelho: «Quando orardes não faleis muito, como os gentios, que pensam serem escutados à força de palavras Não vos assemelheis a eles, pois vosso Pai conhece perfeitamente as coisas de que necessitais antes que as peçais» (Mt 6,7-8). Tenham-no em conta tantos devotos e devotas que passam o dia recitando orações inacabáveis, talvez com descuido de seus deveres mais urgentes.

2º Não se confunda a prolixidade nas formulas de oração, que deve cessar quando se tenha alcancado o afeto ou fervor interior, com a permanência na oração enquanto dure fervor. Este último é convenientissimo e deve prolongar-se todo o tempo que seja possivel, inclusive várias horas, se é compatível com os deveres do próprio estado (cf. 83,14 ad 1,2 et q.). O próprio Cristo nos deu exemplo de longa oração, passando nela, ás vezes, noites inteiras (Lc 6,12) e intensificando-a no meio de sua agonia no Getsemani (Lc 22,43), embora sem multiplicar as palavras, mas empregando sempre a mesma fórmula breve: «fiat voluntas tua».

3 Como o fim da oração vocal é excitar o afeto interior, não devemos vacilar um instante em abandonar as orações vocais, a não ser que sejam obrigatórias, para nos entregarmos ao fervor interior da vontade, quando este tenha brotado com força. Seria um erro muito grande querer continuar então a oração vocal, que já havia perdido toda sua razão de ser e poderia estorvar o fervor interior." (n. 495)

Um erro comum entre os devotos do rosário da madrugada é cair no que Adolphe Tanquerey, em seu "Compêndio de Teologia Ascética e Mística", chama de "fervor indiscreto dos principiantes". Trata-se de um zelo precipitado, em que a pessoa se lança a múltiplos esforços de perfeição sem ponderar se tais práticas realmente a santificam:

"A causa principal deste defeito é substituir a própria atividade à de Deus: em vez de refletir antes de operar, em vez de pedir e seguir as luzes do Espírito Santo, precipita-se o homem na ação com ardor febril; em vez de consultar o diretor, faz primeiro o que quer, e só depois é que lhe vai dar conta do fato consumado; donde um sem-número de imprudências, esforços perdidos sem conta: <<magni passus extra viam>>."

Muitos adotam o rosário da madrugada por simples imitação, movidos pela onda do momento, sem um exame criterioso. Contudo, essa prática traz consigo alguns inconvenientes que não podem ser ignorados.

a) O horário. Sendo de madrugada, é naturalmente um período incômodo para a maioria dos leigos, que necessitam de energia para cumprir seus deveres de estado ao longo do dia. O corpo humano, apesar de toda a sua complexidade, ainda não aprendeu a dispensar o repouso, e privar-se dele em nome de uma devoção pode ser mais imprudência que piedade.

b. O uso de telas. Para acompanhar o terço da madrugada, a pessoa precisa acessar plataformas como YouTube ou Instagram, territórios fecundos para a distração. A cada oração rezada, surgem também opções profanas para clicar, mensagens a verificar e conteúdos que atiçam a curiosidade. Ademais, as telas não apenas cansam os olhos, mas também vínculam o orante a consolações sensíveis e imediatas. Querendo ou não, abrir essas plataformas aciona os mecanismos de dopamina em muitos. Uma alternativa mais sóbria e superior às telas são os devocionários impressos, pois são menos lúdicos e dedicam-se exclusivamente à oração.

c. A extensão do tempo. Frei Gilson reza o rosário completo – os 15 mistérios – seguido de uma meditação e, por fim, celebra a missa. Somente o rosário consome cerca de duas horas; se o fiel acompanhar todo o programa, ultrapassará quatro horas. Ora, como já mencionado, as orações vocais, especialmente pela manhã, não devem ser excessivamente longas e extenuantes, mas o suficiente para acender o fervor interior, sem consumir as energias necessárias para o restante do dia.

d.  A substituição da oração pessoal pela coletiva no horário mais precioso para a meditação. Embora a oração comunitária, sobretudo a litúrgica, seja objetivamente superior, a oração particular é mais eficaz para a santificação individual da alma. Como ensina o teólogo Antonio Royo Marín:

"Não esqueçamos que, em definitivo, é cada alma quem ora, porque mesmo a oração comum cada um deve apropriar-se e personalizar, e nem sempre as funções e fórmulas comuns correspondem às pré-disposições pessoais. É, naturalmente, o sujeito quem deve procurar acomodar-se ao espírito religioso da Igreja. Porém, é indubitável que muitas vezes o orante encontra na liberdade de sua comunicação pessoal com Deus, maior facilidade e maior fruto." (Teologia da Perfeição Cristã, n. 489)

Com efeito, a experiência espiritual indica que a oração individual produz frutos mais profundos para a alma na maioria dos casos. E, como sublinha o Pe. Lucas Altmeyer (IBP) no sermão "Os Católicos Barulhentos e a Presença de Deus":

"O melhor momento para a oração é a manhã, porque a agitação do dia ainda não dissipou o nosso espírito. É uma questão natural. Nós ainda não estamos mergulhados nas preocupações do dia. Estamos mais recolhidos, mais propícios ao recolhimento. Quem perde a oração da manhã tem grande chance de ser um fracassado na vida de oração durante o dia também."

Portanto, embora o rosário da madrugada possa ser praticado com boa intenção, é necessário ponderar se tal prática não está substituindo silenciosamente aquilo que é mais simples, mais silencioso e, paradoxalmente, mais profundo: a oração pessoal no segredo da manhã silenciosa, quando a alma, ainda não dispersa pelas inquietações diárias, pode fitar o Criador com um coração indiviso.

e. Os ruídos. O rosário do Frei Gilson, embora mais sóbrio que o habitual em círculos carismáticos, ainda preserva aquela "Voz Gigantesca" que, por mais que tentemos, nunca conseguimos silenciar completamente. Os discursos do Frei, o violão com suas melodias worship, são como ecos que reverberam em nossos corações. E, como não poderia deixar de ser, tudo isso é transmitido, sem filtros ou pausa, diretamente no Instagram ou no YouTube. Em outras palavras, a "guloseima espiritual" se mistura ao ruído constante, logo na primeira oração da manhã, como um banquete oferecido com pressa.

O Beato Frei Maria Eugênio do Menino Jesus, OCD, em sua obra "Quero ver a Deus", nos adverte que o progresso na oração demanda de nós "exigências muito particulares de silêncio e solidão". Ele nos recorda que, para ouvir a verdadeira voz de Deus, devemos primeiro aprender a silenciar o mundo ao nosso redor — uma arte cada vez mais difícil em tempos de excessos. A reflexão é clara: como pode a alma alcançar Deus, se não é capaz de ouvir a própria voz na quietude?:

"Toda a tarefa que exige aplicação séria das nossas faculdades supõe o recolhimento e o silêncio que a tornam possível. O estudioso tem necessidade de silêncio para pre-parar suas experiências, para anotar-lhe com cuidado as condições e os resultados. O filósofo recolhe-se na solidão para ordenar e penetrar seus pensamentos.

Este silêncio, que o pensador procura avidamente para dar à reflexão todas as suas energias intelectuais, será ainda mais necessário à pessoa espiritual para aplicar toda a sua alma na busca do seu objeto divino.

No sermão da montanha, Jesus nos fala da necessidade da solidão para a oração:

Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechando tua por-ta, ora ao teu Pai que está lá, no segredo; e teu Pai, que vê no segredo, te recompensará.

A oração contemplativa própria das regiões a que chegamos tem exigências muito particulares de silêncio e solidão. A Sabedoria divina, na contemplação, não esclarece apenas a inteligência; ela atua sobre a alma toda inteira. Por isso, exige desta última uma orientação do ser, um recolhimento e uma pacificação daquilo que há de mais profundo nela, a fim de receber a ação de seus raios transformadores." (p. 492-493)

O Pe. Lucas Altmeyer no mesmo sermão que citamos também diz:

"Não é possível conciliar o barulho com a vida espiritual. Música barulhenta, missa barulhenta, oração barulhenta, grupo de oração barulhento, instrumentos barulhentos e até padre barulhento são um fracasso na nossa vida espiritual. Missa barulhenta é um fracasso na nossa vida de oração. Grupo de oração barulhento é um grupo fajuto de oração.

Você pode se sentir bem, você pode gostar sensivelmente de estar ali, mas não significa que você está rezando, ainda que sensivelmente você esteja contente.

A oração verdadeira tem como essência a consciência da presença de Deus e esta presença é silenciosa. Só o silêncio e o recolhimento podem nos dar a verdadeira presença de Deus.

Vocês conhecem a história do Profeta Elias que lemos na Sagrada Escritura. Deus mandou [Elias] subir ao Monte e disse que Ele mesmo passaria diante de Elias. [...] Deus se encontrava na brisa suave. Por isso um católico barulhento jamais encontrará Deus de verdade e muito menos poderá viver na presença do Senhor."

Todos esses inconvenientes deveriam incitar, antes de mais nada, uma reflexão desapaixonada e objetiva: seria o rosário da madrugada, afinal, um instrumento verdadeiramente útil para o progresso na oração, ou apenas uma distração revestida de fervor? Aquele que possui uma grande família — algo raro entre os carismáticos, sem dúvida — deve ponderar: será que vale a pena sacrificar tantas horas da madrugada para rezar o rosário diante das telas, ou seria mais proveitoso unir-se à sua família e rezá-lo em um horário mais apropriado, no calor da convivência familiar?

Para aquele que se encontra excessivamente preso às consolações sensíveis, a questão se impõe com a mesma urgência: vale a pena ceder à tentação de ligar o computador ou o celular nas primeiras horas da madrugada, abrindo as portas do Instagram ou do YouTube, quando o verdadeiro desafio seria, ao contrário, cultivar o desapego? E, por último, para o que deseja superar as dificuldades da oração — distrações, desânimo, secura da alma, e o apego constante às consolações — deve refletir se, na realidade, entregar-se à oração coletiva é a solução definitiva, ou se o mais sábio seria enfrentar, com coragem e sem subterfúgios, as adversidades espirituais em solitário combate.

É evidente, portanto, que não há justificativa alguma para seguir modismos ou ceder à curiosidade vazia. A vida espiritual, de uma seriedade incomensurável, não pode ser arriscada em aventuras impensadas. Aquele que a cultiva deve ser maduro e, acima de tudo, aplicar, com sabedoria, apenas aquilo que, de fato, o une verdadeiramente a Deus.

Mesmo durante a Quaresma, as penitências precisam ser escolhidas com cuidado. Nenhuma alma deve se entregar ao rosário da madrugada "porque sim". Cada penitência deve ser revestida de um propósito claro e específico. Nesse sentido, não podemos deixar de recomendar com veemência o Sermão do Pe. Ivan Chudzik (IBP), intitulado "O que a Quaresma não é: três ilusões sobre a penitência", para que, ao buscarmos a renovação espiritual, saibamos verdadeiramente o que devemos evitar.


Compreendemos que o Rosário da Madrugada é uma devoção inicial, que serve como um suave convite aos católicos de IBGE ou àqueles que, distantes da Igreja, buscam uma reaproximação com o Sagrado. Semelhante a muitas iniciativas da Renovação Carismática, esta prática tem o poder de reacender a chama da fé em corações resfriados. Contudo, é preciso refletir que o católico que, ao longo dos anos, tem se empenhado na vida de oração, e que já percorreu um longo caminho de fé, dificilmente se verá despertando ao romper da madrugada para acionar as telas de um computador ou celular, buscando rezar por meio do YouTube ou Instagram — salvo em casos muito pontuais. Ao contrário, esse fiel cultivará sua oração em um espaço mais íntimo e silencioso, onde o recolhimento e a solidão se tornam o solo fecundo para o diálogo com Deus. Ele reservará a oração coletiva para momentos específicos, como o terço em família ou a novena na igreja.

Feita estas ressalvas, desejamos que o Rosário da Madrugada, como um portal sagrado para muitos, seja luz e guia na conversão dos corações e no despertar das almas para a superação da acídia espiritual. Que aqueles que, porventura, cruzarem o limiar desta porta de fé possam florescer em toda a sua plenitude, jamais se afastando da graça divina, e assim, alcançar a devoção que jamais se apaga – o rosário permanente, a vida eterna.

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

RCC e o "Homem com Voz de Garotinha" - O Problema da Afeminação da Música Católica

 

Há cerca de 3 anos Kyle Thompson do canal do Youtube "Undaunted. Life" realizou um podcast com o tema "Contemporary Worship Music is for Women and Effeminate Men" ("A Música de Adoração Contemporânea é para Mulheres e Homens Afeminados").

Segundo Kyle, os problemas do Worship cristão contemporâneo seriam estes:

1. É divisivo. É voltado para o público jovem. A pessoa só vai à igreja se esta tiver o estilo worship.

2. É egocêntrico, pois se volta inteiramente para o "eu".

3. É afeminado. Trata Cristo/Deus como um namorado.

4. Esconde a face "temível" de Deus, pois Ele é sempre retratado como um amigo fofo. Nunca como um juiz ou como o Leão de Judá. 

5. É sentimentalista. As músicas são excessivamente emocionais.

6. Não é realmente uma boa música. É repetitiva, estereotipada. Muitas são criadas a partir do country, do jazz ou do rock. Cristãos deveriam ser capazes de produzir uma música de nível mais alto e profundo do que optar sempre por música industrial.

7. É teologicamente falido. São músicas cativantes para ficarem guardadas na memória, mas não possuem conteúdo de fé para ser meditado.

Kyle ainda explica o porquê o porquê do Worship ser para mulheres e homens afeminados.

1. Mulheres consomem muito mais esse tipo de música do que homens. O worship é comercialmente feito para elas.

2. A ênfase está nas emoções. Efeminado é justamente aquele que não consegue controlar suas emoções.

3. É tudo sobre Cristo como cordeiro. Nada sobre Cristo como leão. A passividade é valorizada ao invés da fortaleza.

4. As músicas são escritas por mulheres ou por homens afeminados.

5. Se a letra desse tipo de música fosse escrita por homens de verdade, ela soaria como algo homoerótico. As Escrituras nunca descrevem a relação entre homens e Deus em termos eróticos. Homens buscam um líder masculino, não um amante masculino.

As observações de Kyle se coadunam com a opinião de Calvin Johansson que publicamos no artigo "O problema da música gospel". A música cristã contemporânea (Gospel) é causa de imaturidade espiritual e atrapalha objetivamente a santidade, porque, na verdade, é um lixo musical que não favorece a oração.

Contudo, Kyle acrescenta mais um problema, o da afeminação da música cristã.

Neste blog, já comentamos no artigo "Sobre o Tradismatismo" sobre o problema da música carismática católica. Nesse artigo criticamos o uso de música não-litúrgica por carismáticos na missa. Porém, convém descatar o quanto a Renovação Carismática tem sido pródiga em produzir também músicas afeminadas.

Neste contexto, nota-se a música do Pe. Marcelo Rossi "Yeshua", agora regravada com o cantor Thiaginho (sim, aquele mesmo).

A canção encaixa-se com perfeição nos problemas descritos por Kyle Thompson sobre o worship cristão atual. Vejamos a letra:

Ele chora, Jesus, esse nome que ele chora/Te chamam de Deus e de Senhor/Te chamam de Rei e de Salvador/Mas eu me atrevo a te chamar de meu amor/Te chamam de Deus e de Senhor/Te chamam de Rei e de Salvador/Mas eu me atrevo a te chamar de meu amor

Yeshua, Yeshua/Tu és tão lindo/Que nem sei me expressar/Yeshua, Tu és tão lindo/Jesus/Meu Rei/Te chamam de Deus e de Senhor/Te chamam de Rei e de Salvador/Mas eu me atrevo a te chamar de meu amor/Te chamam de Deus e de Senhor/Te chamam de Rei e de Salvador

Mas eu me atrevo a te chamar de meu amor/Yeshua, Yeshua/Tu és tão lindo/Que nem sei me expressar/Yeshua, Tu és tão lindo/Yeshua, Yeshua/Tu és tão lindo/Que nem sei me expressar

Jesus/Yeshua, Tu és tão lindo/Tu és tão lindo/Yeshua, Yeshua/Que nem sei me expressar/Yeshua, Tu és tão lindo/Que nem sei me expressar/Yeshua, Tu és tão lindo/Jesus

A música é repetiva, sem conteúdo teológico, sentimentalista, judaizante e, se for cantada por homens, soa como algo homoafetivo.

Padre Marcelo, previsivelmente e para a nossa infelicidade, também canta essa música em suas missas:


Já a canção "Jesus, Meu Esposo" da Comunidade Católica Colo de Deus, que citaremos apenas alguns trechos, vemos um homem se autonomeando "esposa" e chamando Jesus de "meu esposo". A música só faz sentido se imaginarmos que se trata de uma relação homoafetiva.

Segue a letra:
É digno que a esposa/Se cubra com as vestes do esposo/É justo que eu meu vista com as feridas do teu corpo/Jesus, meu esposo
Eu troco as coroas desse mundo/Pela coroa e os teus espinhos/É justo que eu me cubra com a tua dor/Jesus meu esposo
Me deixe entrar/Me deixa entrar/(Na brecha do teu peito)/Te conhecer por dentro/Em tuas chagas, cura e libertação encontrar/Me deixa entrar/(Na brecha do teu peito)/Te conhecer por dentro, meu Jesus/(Te conhecer por dentro)/E em tuas chagas, cura e libertação (encontrar)/
Me deixa entrar, ê, ê, ê/Na brecha do teu peito/Te conhecer por dentro, e em tuas chagas/E em tuas chagas, cura e libertação (encontrar)
Avivamento encontrar/Esperança encontrar/Tua face encontrar, avivamento/Avivamento encontrar, esperança/
Esperança encontrar, tua face/A tua face encontrar/Meu esposo, e ele é/Jesus meu esposo/
Jesus meu esposo, Jesus meu esposo, Jesus meu esposo/Eu estou entrando, Eu estou entrando, E quanto mais eu entro/Mais eu me encanto
Eu estou entrando (estou entrando)/Eu estou entrando (eu estou entrando)/E quanto mais eu entro/Mais eu me apaixono
Eu estou entrando (eu estou entrando)/Eu estou entrando (eu estou entrando)/E quanto mais eu me apaixono/Mais eu me conheço
E descubro que eu sou louco/E descubro que eu sou louco/E descubro que eu te amo
Primeiramente, a música traz a frase "É justo que a noiva se vista com as vestes do esposo". A afirmação, no entanto, é péssima, porque esposas simplesmente não se vestem de esposo e nem é justo fazê-lo, visto que por direito natural homens e mulheres devem se vestir diferente. É uma frase sem sentido e que favorece a ideologia de gênero. Certamente, a esposa deve assumir muitas coisas do esposo, mas a veste não é uma delas.

Depois a letra fala de Jesus como "esposo". De fato, Nosso Senhor é retratado pela Tradição como Esposo, mas sempre da Igreja ou da alma, nunca do indivíduo enquanto tal. A canção, porém, retrata Cristo como esposo de um eu lírico masculino, pois a voz poética é de um homem ("E descubro que eu sou louco"). Esta abordagem é completamente homossexual, pois Cristo é tomado como um parceiro romântico de um outro homem, algo nunca feito antes pelos santos. Não se verá nos escritos espirituais de Santo Agostinho, São Bernardo, Santo Tomás de Aquino ou de São João da Cruz Jesus Cristo sendo tomado como esposo de si mesmos.

Notemos como só faz sentido a "esposa se vestir com as vestes do esposo", se imaginarmos que se trata de uma relação entre dois homens.

Por fim, a canção diz:
Jesus meu esposo, Jesus meu esposo, Jesus meu esposo/Eu estou entrando, Eu estou entrando, E quanto mais eu entro/Mais eu me encanto.

Eu estou entrando (estou entrando)/Eu estou entrando (eu estou entrando)/E quanto mais eu entro/Mais eu me apaixono.
A música parece parafrasear o verso 4 do primeiro capítulo de Cântico dos Cânticos:
"Arrasta-me após ti; corramos! O rei introduziu-me nos seus aposentos. Exultaremos de alegria e de júbilo em ti. Tuas carícias nos inebriarão mais que o vinho. Quanta razão há de te amar!" (Ct 1,4)
Todavia, notemos a diferença. O eu lírico da canção da Colo de Deus é masculino. Já o eu lírico de Cântico dos Cânticos é feminino. Na música da Colo, portanto, o homem literalmente se torna a mulher da relação (!).

Em suma, na música temos: um homem se autodeclarando "esposa" e fazendo de Cristo um par romântico e um homem se apaixonando na medida que "entra" no seu esposo.

Um rapaz homossexual tem nesta música um verdadeiro "lar". Ele é convidado a "sair do armário" toda vez que a canta, pois pensa que é justo falar de Cristo como um par romântico esquecendo-se que ele é verdadeiro Deus, mas, antes de tudo, verdadeiro homem.

Só por este fato esta música deveria ser extirpada dos shows carismáticos e da música católica como todo. Não sabemos quem seja, mas não duvidamos que o compositor da canção seja, de fato, um homem homossexual ou muito afeminado.

Continuemos.

No clipe da música, se vê ainda jovens andando a esmo e rapazes tendo gestos e movimentos muito afetados:


A afeminação dos movimentos é resultado direto da música tocada, tendo em vista que ela incentiva a espontâneidade e a explosão de sentimentos ao invés da sobriedade/gravidade do espírito de devoção.

A música, além de homoafetiva, gera problemas de imodéstia corporal. Segundo Antonio Royo Marín, a modéstia corporal
"É uma virtude que nos inclina a guardar o devido decoro nos gestos e nos movimentos corporais" (Teologia Moral para Leigos, tomo I, p. 585).
E continua o mesmo autor:
"Gestos bruscos e descompassados, gargalhadas ruidosas, olhares fixos ou indiscretos, modos afetados e amaneirados e outras mil impertinências desse tipo são indício, geralmente, de um interior desordenado e vulgar." (p. 586)

Ora, se há rapazes católicos com tendências e trejeitos homossexuais, mas que buscam viver o ensino da Igreja, nada pior e inóspito pra eles do que um ambiente que os incentiva a terem explosões de sentimentos e de imodéstia corporal, pois ambos geram a efeminação do comportamento masculino.

Com efeito, não é surpresa que do meio carismático alguns ícones famosos tenham se assumido publicamente homossexuais e com vida sexual ativa, como foi o famoso caso do cantor Gil Monteiro, que confessou, em 2022, que estava "casado" há pelo menos cinco anos com seu "marido".

Do exposto, concordamos inteiramente com o Dr. Peter Kwasniewski, quando diz, na segunda parte do seu artigo Sacred Music vs Praise and Worship - Does it Matter?que o Worship cristão deveria ser totalmente excluído não só da liturgia como também da adoração devocional:

"Não pode haver lugar para música pop contemporânea inspirada ou influenciada pelo pop na liturgia porque ela viola vários dos princípios repetidamente dados nos documentos da Igreja. O fato de muitos padres e bispos não aplicarem essas regras e não parecerem se importar não vem ao caso, assim como o fato de a maioria dos católicos discordar da Humanae Vitae (incluindo muitos membros do clero) não justifica a contracepção. A vasta maioria dos católicos está em um estado de profunda ignorância, desrespeito habitual e, às vezes, desobediência total, e devemos encarar o fato de que isso é parte da causa da atual crise de identidade, doutrina e disciplina na Igreja.

Eu iria mais longe e diria que precisamos nos afastar da moda ou modismo de usar música derivada de estilos populares contemporâneos para qualquer atividade litúrgica ou devocional. Faríamos bem na adoração, por exemplo, se retornássemos a um papel muito maior para o silêncio e um uso consistente de cantos mais simples. A oração silenciosa, combinada com o canto, permite que pessoas de temperamentos, personalidades, idades, situações pelas quais estão passando em um determinado dia, etc., estejam unidas em oração de uma forma que pode ser adaptada às necessidades de cada uma. A oração vocal, ou uma forma de música mais “emocionante”, embora essas coisas possam ter seu lugar na vida cristã, não facilitam a oração em grupo, portanto a oração litúrgica, da forma que o silêncio e o canto (e a música sacra) o fazem."

A RCC faria um grande bem à música católica brasileira, se começasse a promover autêntica música sacra e deixasse de lado o pop religioso. Como vimos, não é um estilo autênticamente católico, empobrece a música cristã, impede a santificação de irmãos com tendências homossexuais e causa imaturidade espiritual dos fiéis.

sexta-feira, 19 de julho de 2024

O PHN é um avivamento católico? Uma breve reflexão.


No último 14 de julho, foi encerrada a 26ª edição do acampamento PHN ("Por Hoje Não") em Cachoeira Paulista - SP cujo tema foi "Ou Santos ou Nada".

O evento contou com um recorde de público contando com cerca de 187 mil fiéis. O acampamento teve ainda a participação de católicos influentes como Frei Gilson, Pe. Roger Luis, Pe. Paulo Ricardo, Pe. Marcelo Rossi, entre outros.

Em nosso artigo "Conservadores católicos se rendem à imodéstia" destacamos que duas características da vibe católica do momento são a indiferença à crise litúrgica e a mundanização da santidade:

Indiferença à crise litúrgica. Abandonou-se o debate sobre a qualidade das missas. Jargões como "Domingo sem missa, semana sem graça", mesmo numa celebração cheia de abusos litúrgicos e música insuportável, passaram a ser a tônica do momento. De repente, os abusos não têm mais importância, desde que haja muita "devoção" na liturgia. Sem nenhuma surpresa, o carismatismo ganhou grande força entre católicos conservadores nos últimos anos. 

Mundanização da santidade. O arquétipo de santo para esses católicos é o que chamaremos de "santo de calça jeans", isto é, aquele que se parece mais mundano do que cristão; aquele que pouco renuncia às coisas mundo. É santo, mas vai à praia, à balada, aos shows, etc. Santo não é mais aquele que pratica a caridade e a penitência com heroísmo, e sim aquele que é "feliz por ser católico" e também por ser mundano.

Vemos no carismatismo brasileiro algo semelhante. É comum ouvir de pregadores carismáticos exortações à santidade com dizeres do tipo "Precisamos ser santos", "Nascemos para a santidade" seguindo-se por inúmeras frases de santos. Todavia, ignoram os instrumentos ordinários que forjaram os santos durante a História da Igreja.

A grande forja de santos e maior fonte de vida da Igreja é a Sagrada Eucaristia. O amor à Eucaristia pode-se traduzir em piedade litúrgica. Um autêntico avivamento católico precisa necessariamente passar pelo avivamento litúrgico. Esta é a conclusão mais manifesta que se extrai do  ensino da Sacrosanctum Concilium:

"Contudo, a Liturgia é simultâneamente a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força. Na verdade, o trabalho apostólico ordena-se a conseguir que todos os que se tornaram filhos de Deus pela fé e pelo Baptismo se reunam em assembleia para louvar a Deus no meio da Igreja, participem no Sacrifício e comam a Ceia do Senhor.

A Liturgia, por sua vez, impele os fiéis, saciados pelos «mistérios pascais», a viverem «unidos no amor»; pede «que sejam fiéis na vida a quanto receberam pela fé»; e pela renovação da aliança do Senhor com os homens na Eucaristia, e aquece os fiéis na caridade urgente de Cristo. Da Liturgia, pois, em especial da Eucaristia, corre sobre nós, como de sua fonte, a graça, e por meio dela conseguem os homens com total eficácia a santificação em Cristo e a glorificação de Deus, a que se ordenam, como a seu fim, todas as outras obras da Igreja." (n. 10)

"Avivamento", portanto, só pode ter como causa a fonte de vida da Igreja, isto é, a Liturgia, visto que é dela é que a Igreja retira toda a sua força.

Contudo, quando observamos as missas do PNH ou carismáticas em geral, constatamos que a missa, muitas vezes, é apenas um apêndice dos shows carismáticos.

Nota-se, por exemplo, a Missa do Pe. Marcelo Rossi no PHN deste ano: 

Verificamos nesta missa os mesmos erros que citamos no artigo "Sobre o Tradismatismo":

A Renovação Carismática ainda possui muitos trejeitos protestantes. Ela não consegue separar muito bem, por exemplo, o que é próprio para grupos de oração do que é adequado para a liturgia.

A RCC, ordinariamente, ao invés de se render ao sensus perennis universalis Ecclesiae da tradição musical católica, promove na liturgia, via de regra, a marca e o estilo dos seus próprios grupos, geralmente gospel, e assim massificam o seu produto musical.

Toda a missa do Pe. Marcelo é envolvida por músicas não litúrgicas, pedido de palmas, conversações intermináveis, performances, isto é, imersa em abusos litúrgicos.

Note-se ainda que, ao pronunciar as Palavras da Consagração, Pe. Marcelo envolve o ato de certa teatralidade sorrindo o tempo todo para as espécies eucarísticas e apenas narrando  a Última Ceia como um fato histórico [01:03:34]. Não se vê traços de assertividade em suas palavras. Este modo de consagrar pode ocasionar defeito na forma do sacramento como bem observa o teólogo moral Merbelbach em  sua "Summa Theologiae Moralis":

"As Palavras da Consagração devem ser pronunciadas não apenas como se ditas por Cristo historicamente, narrativamente ou recitativamente, como propósito de narrar aquelas coisas que Cristo fez... mas elas devem também ser ditas assertivamente ou significativamente, com o propósito de imitar Cristo e aplicar as palavras ao que está presente [o pão e o vinho]"

O clima festivo que toma conta do ars celebrandi das missas da RCC, muitas vezes, é uma grave distração para o sacerdote que, no instante da consagração, não pronuncia das Palavras da Consagração com a seriedade que deveria pronunciar.

Do exposto, como é possível haver um avivamento católico quando se despreza quase que por completo a piedade litúrgica?

Digamos já a resposa: não é possível.

O avivamento por meio da piedade litúrgica é o que distingue especificamente o avivamento católico do protestante. Façamos a distinção.

Avivamento protestante: É orientado unicamente como uma forma de (1) "libertar os protestantes do imanenismo ateu ou experiências religiosas meramente individuais", (2) ajudá-los a suportar as carências de uma vida sem os sacramentos da Igreja e (3) prepará-los para receber a Evangelização da Igreja (Evangelii Gaudium, 284). Ou seja, fora da Igreja Deus pode suscitar a religiosidade natural do ser humano para que a desgraça do mundo e das pessoas não seja completa. Não há orientação litúrgica desses avivamentos.

Avivamento católico: Toda a espiritualidade não-litúrgica está ordenada para a espiritualidade litúrgica, para que esta seja o principal motor de santificação dos fiéis. É isto o que ensina, novamente, a Sacrosanctum Concilium:

"A participação na sagrada Liturgia não esgota, todavia, a vida espiritual. O cristão, chamado a rezar em comum, deve entrar também no seu quarto para rezar a sós ao Pai, segundo ensina o Apóstolo, deve rezar sem cessar. E o mesmo Apóstolo nos ensina a trazer sempre no nosso corpo os sofrimentos da morte de Jesus, para que a sua vida se revele na nossa carne mortal. É essa a razão por que no Sacrifício da Missa pedimos ao Senhor que, tendo aceite a oblação da vítima espiritual, faça de nós uma «oferta eterna» a si consagrada.

São muito de recomendar os exercícios piedosos do povo cristão, desde que estejam em conformidade com as leis e as normas da Igreja, e especialmente quando se fazem por mandato da Sé Apostólica.

Gozam também de especial dignidade as práticas religiosas das Igrejas particulares, celebradas por mandato dos Bispos e segundo os costumes ou os livros legitimamente aprovados.

Importa, porém, ordenar essas práticas tendo em conta os tempos litúrgicos, de modo que se harmonizem com a sagrada Liturgia, de certo modo derivem dela, e a ela, que por sua natureza é muito superior, conduzam o povo." (n. 12-13)

São Pio X em Tra Le Sollicitude também ensinou que, para o renascimento do espírito cristão no mundo, seria necessário promover a piedade litúrgica:

"Sendo de fato nosso vivíssimo desejo que o espírito cristão refloresça em tudo e se mantenha em todos os fiéis, é necessário prover antes de mais nada à santidade e dignidade do templo, onde os fiéis se reúnem precisamente para haurirem esse espírito da sua primária e indispensável fonte: a participação ativa nos sacrossantos mistérios e na oração pública e solene da Igreja."

Portanto, uma avivamento católico cheio de pregações, orações e louvor devem suscitar maior piedade litúrgica. Se não houver este resultado, o avivamento simplesmente não é verdadeiro.

Sabe-se que o PHN não é conhecido pela dignidade das missas, mas por reunir figuras conhecidas do meio carismático para shows e pregações, não sendo muito diferente em essência dos retiros protestantes. Assim, não é irrazoável concluir que o sucesso do PHN se dê principalmente enquanto espetáculo para massas e não propriamente pela ação da graça divina.

A respeito, bem pontuou o filósofo Joathas Bello em suas redes sociais:

A efusividade do carismatismo, as grandes concentrações das JMJ's, o sucesso dos "padres cantores"... nada disso é sinal de qualquer vitalidade católica.

Este tipo de manifestação é o de uma alegria exterior, que em muitos casos pode até não ser pecaminosa (carnal), mas que não é signo particular da alegria da conversão. Em si mesma, é só uma alegria explicável humanamente.

Que o conteúdo (do evento, das canções, da intenção psicológica ou subjetiva) sejam católicos não tem nada a ver com o ser uma expressão da alegria cristã propriamente dita. Em si mesma, essa expressões não são índice algum da Verdade do Catolicismo ou da presença do Espírito Santo.

O mesmo equívoco "exteriorista" se passa até com certos motivos da apologética clássica: a "rápida expansão" ou o "morrer pela causa" não são indícios de verdade alguma, à parte do contexto integral e dos motivos reais.

A Fé é uma "forma" interior de ser (a partir de um modo de entender e amar profunda e espiritualmente); ela tem de alcançar estas formas humanas exteriores, por óbvio, mas isto não se faz, por exemplo, com expressões "carismatistas" que justapõem às formas de alegria no mundo um teor católico meramente lógico e imaginado (não transformante da mente e do coração).

Do mesmíssimo modo que, por exemplo, um fiel do Opus Dei (ou qualquer católico) não "santifica o trabalho" só por fazer sucesso ou cumprir tecnicamente bem sua tarefa e justapor uma intenção psicológica católica ao que faz; mas o santifica apenas e tão somente se o cumpre como penitência, sem ambição de riqueza, para colaborar com sua casa e o próximo mais do que com "o desenvolvimento da humanidade" (sic) etc. 

Ou seja, nunca se é católico simplesmente juntando um conteúdo cristão ao que já se faz (entenda-se, que não seja pecado objetivo, obviamente), mas somente mudando essencialmente a forma espiritual que anima a atividade exterior. 

E como o lugar por excelência para aprender a forma interior católica é o culto, a ideia de "adaptá-lo ao homem moderno" (que é  essencialmente "homem exterior") é uma tragédia anunciada.

Para aprender a ser católico "por dentro" temos que aprender a adorar retamente como os santos de todos os tempos. Nos santos do nosso tempo, o "nosso tempo" é acidental. Ele não pode refluir sobre a forma celebrativa, excluir a atitude contemplativa e o espírito expiatório, mas tem de ser interiormente modificado desde a posse da Fé interior de sempre.

Por isso, a principal tarefa pastoral católica é a preservação e expansão da Missa Romana Tradicional e do Canto Gregoriano.

Estamos dizendo com isso que Deus nunca suscita outras formas de avivamento além do litúrgico? Não. Arguimos que todos os avivamentos autênticos dentro da Igreja devem reforçar a piedade litúrgica.

Por que o Movimento Litúrgico na sua fase final não foi um avivamento autêntico dentro da Igreja? Porque ele desembocou na Revolução e na impiedade litúrgica.

Por que o PHN não é um avivamento autêntico? Porque todos os anos ele acontece, mas em nenhum há um sacerdote que se digne a realizar uma única missa de acordo com as normas e a Tradição litúrgica da Igreja.

Como pode ser verdadeiro um avivamento, se ele não se orienta pela principal fonte de santificação da Igreja, a Liturgia?

Impossível.

quinta-feira, 4 de julho de 2024

Sobre o "Tradismatismo"

Em um recente reels de Instagram a página de humor "Brasil RTC" compartilhou um vídeo do Pe. Roger Luis, numa missa de Vígilia Pascal 30.03.2024 da Canção Nova, puxando em latim o "Gloria" da Missa De Angelis ou Missa VIII:


Para a surpresa de todos o que se seguiu, no entanto, foi o Gloria cantado em português ao som de bateria, guitarra, palmas e danças. A missa completa pode ser conferida aqui.

A página atribuiu o episódio ao fenômeno do "tradismatismo". A expressão foi cunhada pela primeira vez pelo Pe. José Eduardo, sacerdote da diocese de Osasco-SP, em 2016, no seu Facebook.


A postagem teve muitas reações, compartilhamentos e comentários. Gostaríamos, assim, de investigar o conceito de "tradismático" e se ele é, como dizem alguns, uma pessoa tradicionalista que gosta siricantalanapraia.

O que é o tradismatismo?

Começemos então com o autor do conceito de tradismatismo, o Pe. José Eduardo. Em uma postagem do dia seguinte o sacerdote prestou alguns esclarecimentos sobre a nova palavra cunhada:

OS TRADISMÁTICOS E A CONTRADIÇÃO 

Ao escrever ontem sobre os #Tradismáticos, estava apenas descrevendo um fenômeno real (basta olhar o número de curtidas e de pessoas que se identificaram com a descrição), e não fazendo um juízo de valores. Cada qual tenha sua opinião sobre o fato. Mas, o que me parece impossível é negá-lo.

Nossa Igreja é católica, universal, justamente por isso: cabem todos, aliás, como disse Nosso Senhor ao comparar a Igreja com uma rede de pesca que recolhe peixes de todo tipo, rompendo, assim, todo nazismo religioso.

O filósofo marxista Ernst Laclau, em "Hegemonia e estratégia socialista", ensina que o movimento revolucionário, para alcançar o poder, precisa dividir a sociedade em grupos antagônicos, criar contradições e usá-las em seu favor, escolhendo eventualmente a contradição que for mais favorável à sua vontade de dominação.

De algum modo, os católicos de nossos dias se cansaram desse jogo dialético, estão jogando fora os rótulos e criando liberdade de tráfego, excluindo todas as tendências progressistas e socialistas, que eles já perceberam ser justamente uma das causadoras de rotulacões, além de serem a representação oposta do que desejam: a exclusão completa do sobrenatural e a usurpação da Igreja como instrumento de poder.

Como no Brasil muita gente tem a mentalidade de torcedor, e se apega ao rótulo que foi criado para ser sua camisa de força mental como o fanático de um time, leituras como essa acabam se tornando quase impossíveis. De fato, as pessoas apressam-se em identificar quem é a favor ou contra à sua tribo, incapacitando-se para entender realidades mais complexas, que transcendem esse jogo.

Cabe à nós, como Igreja, não apenas interpretar o fenômeno, mas interagir com o mesmo de modo criativo, sabendo integrá-lo num esforço positivo de apostolado. Caso contrário, pela pressa de separar o joio do trigo, iremos sacrificar o trigo e, como diz Jesus no Evangelho, isso não é tarefa nossa. 

No mundo do puritanismo, repetidas vezes condenado pela Igreja, tudo se reduz ao simplismo do "preto ou branco", no contraste mais absoluto entre ambos. Desde o maniqueísmo, montanismo, catarismo, até chegarmos à tendências puritanistas mais modernas, a contradição sempre foi a armadilha em que caíram aqueles que não sabem viver no tempo das ambivalências, no tempo da Igreja militante, e querem viver apocalipticamente a antecipação da Jerusalém celeste aqui. Esconde-se aí um complexo de milenarismo, complexo que arroga à sua inconsciente vítima a prerogativa de acusar de hereges a todos que não recaem sob seu estreito horizonte de consciência, enquanto ele mesmo desconhece ou tem uma noção vaga e confusa do que seja "heresia", a negação pertinaz do dogma, que não foi negado por ninguém.

Não percebem estes que, deste modo, caem nas malhas dialéticas da contradição, e fazem direitinho o jogo do inimigo. Aceitam a divisão ao invés de verem de um ponto mais alto as consonâncias, integrando num todo harmônico aquilo que, em si, nunca foi contraposto.

A culpada do engodo é a ignorância histórica. Quando se lê a vida dos santos pregadores e místicos vê-se claramente que os mesmos sofreram as mesmas incompreensões, exatamente por enxergarem esse todo desde cima, não se implicando nas contradições daqueles que têm uma visão metonímica.

O fato é que os #Tradismáticos escandalizam os progressistas, os tradicionalistas e até os próprios carismáticos. Estão hoje em maior e crescente número, mas são os mais "desigrejados" de todos. Perambulam de lado a lado sem encontrar guarida e compreensão…

Este é o fenômeno. As opiniões acerca dele podem ser as mais plurais possíveis. 

Os rótulos já foram rasgados, o tráfego está aberto e bem-aventurado quem não se escandalizar disso, antes, souber ser Cristo de braços abertos, como São Paulo, que se fez tudo para todos!

Notemos que o padre fala que está descrevendo um novo movimento e que os "rótulos já foram rasgados", mas quando olhamos as postagens do sacerdote de 9 e 10 de outubro de 2016 não vemos qualquer descrição do movimento e nem definição do conceito.

Então, afinal, do que estamos falando?

Em um shorts do Youtube o Pe. Francisco do Amaral buscou tentar explicar o que é o tradismatismo:

Transcrição:

Existe católico tradismático?

Em certo sentido todo católico é tradismático. Porque o católico é chamado a abraçar tudo aquilo que Jesus deixou. Então o católico abraça o Magistério, a Tradição, a Escritura, os sacramentos, as devoções e os carismas da Igreja.

Agora, a gente pode falar também "ser tradismático", como eu me identifico, no sentido de amar as tradições litúrgicas da Igreja, os ritos válidos, o incenso, a batina, e ao mesmo tempo se identificar com a espiritualidade de Pentecostes, como a gente vive da Renovação Carismática Católica. E nesse sentido, também eu me identifico como tradismático.

Mas eu vou falar a verdade para vocês. Eu não gosto muito desse negócio de rótulo, não. Católico carismático, católico tradicional, católico isso, católico aquilo. Eu acho que isso pode dividir a Igreja. Então, o tradismático, nesse sentido que eu estou falando, ele não quer ser um novo rótulo, não. Ele quer falar de um católico que quer abraçar toda a verdade deixada por Jesus na Igreja.

Pedro Isnard, carismático, em canal no Youtube também buscou definir o que é tradismático:


Nas palavras de Pedro, você é tradicional quando "ama liturgia, ama tudo que a Igreja trouxe pra você ao longo dos anos, reza um Pai Nosso e uma Ave Maria em latim, vai ao Novus Ordo, vai a Missa Tradicional (tridentina) e está tudo bem. Você está em casa, você é católico." [01'42"]. Após, Pedro acrescenta que tradismático é o indivíduo que é tradicional e que vive o carisma mais tradicional de todos, o dom de línguas vivido pela RCC.

Por fim, Padre Paulo Ricardo, ao receber a pergunta "É possível ser tradismático?" de uma moça carismática que se identifica com a Missa Tridentina, responde que ser católico e tradicional é pleonasmo. Em seguida, ela faz uma alusão à Carta aos Coríntios de São Paulo, na qual o apóstolo fala em "guardar tradições" e também descreve os dons carismáticos. Assim, dá a entender o padre que é possível ser "tradismático".


O que se observa nas três definições colhidas é que "tradicional" nunca é definido no sentido de "tradicionalista", e sim num significado mais largo que mais se aproxima de "conservador", isto é, aquele que gosta que as coisas sejam feitas "conforme as regras da Igreja", independente de quais sejam essas regras.

Tradicionalista, contudo, esteja ou não em comunhão com a Igreja, nunca pode ser descrito como um mero conservador, pois ele é fruto de um incômodo. Um incômodo com a direção pastoral que a Igreja tomou após o Concílio Vaticano II, ou seja, as atuais regras.

Pode-se dizer que a espiritualidade tradicionalista consiste na preservação da Missa de São Pio V, dos hábitos e devoções pré-conciliares e um acento crítico ou de reserva às novas pastorais litúrgica, catequética e de evangelização pós-conciliares.

Nesse sentido, destaca-se a descrição do carisma do Instituto Bom Pastor (IBP) em seu site:
"O carisma específico do Instituto do Bom Pastor, ou seja, o que o torna específico e a sua razão de ser, é a defesa e difusão da Tradição Católica em todas as suas formas: doutrinal, apostólica e litúrgica. Em particular, os padres do IBP celebram a missa exclusivamente no rito tradicional, ou seja, segundo a liturgia conhecida como “São Pio V”. Além disso, o Instituto foi fundado com a tarefa explícita de oferecer uma crítica construtiva e teológica de certas reformas nascidas do Concílio Vaticano II, uma crítica que visa oferecer a toda a Igreja um novo olhar sobre a sua própria identidade.

Este apego à Tradição é decididamente para os sacerdotes da IBP uma forma de servir a Igreja, na submissão ao Papa, ao serviço dos bispos católicos, e para o bem de todos os fiéis: é a expressão do seu desejo de oferecer a toda a Igreja e ao mundo as riquezas e os benefícios da Tradição Católica como um tesouro do qual todos devem haurir."

No protocolo de acordo assinado por Mons. Lefebvre e a Santa Sé em 1988, nota-se igualmente um certo "direito de reserva" da FSSPX a respeito de certas reformas conciliares:

"Em relação a certos pontos ensinados pelo Concílio Vaticano II ou relativos a reformas posteriores da liturgia e do direito, e que nos parecem dificilmente conciliáveis ​​com a Tradição, comprometemo-nos a ter uma atitude positiva de estudo e de comunicação com a Santa Sé, evitando toda a polêmica."

No livro "Considerações sobre as formas do rito romano da santa missa", a Administração Apostólica São João Maria Vianney justifica a preferência pela Missa de São Pio V reconhecendo o cenário crítico do Novus Ordo:

"Ninguém de correta visão pode negar a existência da atual crise na Igreja, afirmada por vários Papas. E essa crise tem muito a ver com a Liturgia, especialmente após a reforma conciliar, que, infelizmente deu azo a muitos abusos litúrgicos. [...] a Missa na forma extraordinária do Rito Romano, por sua maior precisão e rigor nas rubricas, apresenta mais segurança e proteção contra tais abusos litúrgicos."

No site do Instituto Cristo Rei e Sacerdote também justifica a celebração da missa tradicional em razão das muitas mudanças ocorridas na liturgia após o Concílio Vaticano II:

"O Instituto de Cristo Rei celebra a Liturgia Romana clássica, a "Missa Latina", em sua forma tradicional de acordo com os livros litúrgicos promulgados em 1962 pelo Papa São João XXIII. Durante seu pontificado, o Papa São João Paulo II exortou os bispos a serem generosos em permitir seu uso. Foi com sua bênção que o Instituto começou a celebrar a Missa Tradicional.

O Papa Bento XVI também desejou que o tesouro da liturgia romana tradicional, que foi celebrada sem mudanças por séculos e séculos, fosse preservada para todas as gerações. Seguindo os passos de São João Paulo II, o Papa Bento XVI, com seu documento histórico Summorum Pontificum, restaurou aos padres a liberdade de celebrar a "forma extraordinária" do rito romano.

A Missa Latina Tradicional foi a forma exclusiva celebrada durante o Concílio Vaticano II. Na verdade, a maioria das mudanças que foram introduzidas pela reforma litúrgica dos anos 1960 ocorreram nos anos após o Concílio Vaticano II. O próprio Concílio nunca aboliu a liturgia tradicional, e seu famoso documento sobre a Liturgia da Igreja, Sacrosanctum Concillium, menciona apenas a possibilidade de algumas adaptações; ele nunca pediu uma mudança de linguagem, a remoção de orações, nem virtualmente nenhuma das práticas agora comuns no Novus Ordo Missae, a “Nova Missa”."

Portanto, um católico tradicionalista nunca será um "tradicional" no sentido de "conservador". A distinção é importante, porque pode parecer para muitos que, ao se falar em "tradismáticos",  que há um movimento de adesão de católicos tradicionalistas à espiritualidade carismática quando simplesmente não há. Este é o tema o que abordaremos no tópico a seguir.

Buscando entender o fenômeno

1. Tradismatismo: um movimento unilateral

É necessário constatar o seguinte fato: o tradismatismo não é uma tendência nos círculos tradicionalistas. Não se vê o fenômeno tradismático entre católicos ligados ao Instituto Bom Pastor, Administração Apostólica São João Maria Vianney, Montfort, Centro Dom Bosco, IPCO, etc. Não há grupos de oração em línguas, batismos no Espírito Santo e Cercos de Jericó entre tradicionalistas, mas há grupos inteiros de carismáticos cada vez mais adotando formas tradicionalistas. O tradismatismo é um fenômeno específico da Renovação Carismática.

Neste ponto discordamos do Pe. José Eduardo que os tradismáticos sejam pessoas não compreendidas e "desigrejadas". Tradismáticos são carismáticos em busca da Tradição.

2. A romanização da Renovação Carismática

Conforme descrevemos aqui, entre os anos 2011-2019, houve um verdadeiro boom do catolicismo tradicional no Brasil. Neste período, se observou muitos católicos carismáticos descobrindo a Missa Tradicional e aderindo-a. Em regra, os carismáticos que participavam ativamente de apostolados tradicionais deixavam a Renovação Carismática entendendo que ela havia sido uma importante porta de entrada para o Catolicismo, uma espécie de infância do católico, mas que ao se adquirir maior formação catequética e litúrgica a consequência natural seria o catolicismo tradicional. Outros não tão assíduos permaneceram em suas comunidades carismáticas, mas se tornaram mais comedidos. Quiseram manter seu carisma, mas entenderam os diversos problemas que permeiam o carismatismo.

Em suma, o desenvolvimento do catolicismo tradicional no país provocou e têm provocado o que chamaremos aqui de romanização da Renovação Carismática, isto é, uma maior tomada de consciência da necessidade de readequação do carismatismo à identidade católica.

Expliquemos.

Como é arquisabido, a RCC é oriunda de movimentos neopentecostais e historicamente sempre lhe foi muito ínsito certa assimilação da cultura protestante neopentecostal (biblicismo, fundamentalismo, sentimentalismo, worship, etc). Todavia, o crescimento do catolicismo tradicional no Brasil desencadeou em alguns setores da Renovação um processo de afastamento das fontes protestantes e de aproximação das fontes católicas. Entendemos que este é o verdadeiro tradismatismo que vem ocorrendo entre os carismáticos nos últimos anos, a purgação gradual do neopentecostalismo protestante no movimento.

A esquerda e a direita da RCC se posicionam conforme o afastamento ou a aproximação das fontes católicas.

3. Um processo lento

Evidentemente, essa romanização não significa uma "tridentinização" da carismatismo como alguns querem fazer crer, mas sim uma certa dose de conservadorismo num movimento muito conhecido pela sua índole antilitúrgica e desprendida de fórmulas, que cheirava mais a protestantismo do que catolicismo. Fazemos essa distinção porque, realmente, o tradicionalismo ligado à Missa Tridentina não têm recebido influências carismáticas em sua espiritualidade. Parece-nos que o tradicionalismo e o carismatismo ainda são espiritualidades antagônicas. O tradicionalismo é afirmação triunfante do romanismo enquanto que o carismatismo é uma afirmação triunfante do ecumenismo. Tradicionalistas rejeitam ou não promovem o ecumenismo. Carismáticos, por sua vez, falam, muitas vezes, de pregadores e avivamentos protestantes como se pertencessem à sua religião.

É patente, no entanto, que o processo de romanização da RCC tem sido muito lento. A Renovação Carismática ainda possui muitos trejeitos protestantes. Ela não consegue separar muito bem, por exemplo, o que é próprio para grupos de oração do que é adequado para a liturgia.

A RCC, ordinariamente, ao invés de se render ao sensus perennis universalis Ecclesiae da tradição musical católica, promove na liturgia, via de regra, a marca e o estilo dos seus próprios grupos, geralmente gospel, e assim massificam o seu produto musical. 

Nota-se, a respeito, a Comunidade Colo de Deus, que praticamente reproduz os seus shows na missa e talvez seja, neste aspecto, o pior dos exemplos. Neste vídeo, tomado apenas para ilustrar, a missa e o padre realmente ficam em segundo plano enquanto predominam as "performances" dos músicos e, claro, a "Voz Gigantesca" dos seus animadores (gritaria e falatório intermináveis).

Já outras comunidades como Shalom, Fraternidade João Paulo II, Caminho, Instituto Hesed, etc., possuem missas mais comedidas, mas, musicalmente, dificilmente reproduzem um canto litúrgico autêntico. Suas músicas são quase sempre modernas (gospel) acompanhadas de violão, bateria e guitarra; o órgão de tubos, instrumento preferido pela Igreja, fica aos cuidados das teias de aranha. 

Neste vídeo de uma missa do Instituto Hesed observa-se moças de véu, religiosos de hábito, altar com arranjo beneditino, cantos em latim, etc., mas, novamente, com melodia inadequada, instrumentos inadequados, freira na bateria, músicas não litúrgicas cantadas em shows de cantores carismáticos como Irmã Kelly e Eugênio Jorge, danças, entre outros.

Nesta outro vídeo, agora da missa da Pe. Roger Luis, além de todo o paranoma inadequado anterior há o acréscimo de orações espontâneas e em línguas em menos de 15 min de missa.

Estes exemplos comprovam que ainda há na RCC um contínuo esquecimento das orientações do Discatério para o Culto Divino acerca da liturgia, mesmo entre carismáticos que seriam denominados por muitos como "tradismáticos".

“A eficácia das ações litúrgicas não está na busca contínua de novidades rituais, ou de simplicações ulteriores, mas no aprofundamento da palavra de Deus e do mistério celebrado, cuja presença está assegurada pela observância dos ritos da Igreja e não dos impostos pelo gosto pessoal de cada sacerdote. Tenha-se presente, ademais, que a imposição de reconstruções pessoais dos ritos sagrados por parte do sacerdote ofende a dignidade dos fiéis e abre caminho para o individualismo e o personalismo na celebração de ações que diretamente pertencem a toda Igreja”. (Liturgicae instaurationes, n. 1)

O panorama da música carismática atual na liturgia é fundamentalmente contrário ao ensino da Igreja sobre a música sacra e litúrgica. Contudo, esperamos que o processo de romanização que passa alguns setores da RCC possa finalmente trazer a devida maturidade ao movimento.

Talvez, seja o Pe. José Eduardo o melhor exemplo de carismático "romanizado" ou "tradismático" que sabe distinguir o culto de oração carismático da liturgia pública da Igreja. Note-se como em suas missas o órgão é utilizado bem como o canto gregoriano:


Pe. José Eduardo não é um católico tradicionalista ou um sacerdote conhecido por rezar Missas Tridentinas. Suas missas são versus populum, possui leitoras, acólitas, totalmente em vernáculo, coisas que um sacerdote tradicionalista simplesmente rejeitaria. Mas é notório que suas missas não possuem um espírito carismático. Nenhum católico se sente "colonizado" pela RCC nas missas do padre como ocorre nas missas da Canção Nova, Colo de Deus, Instituto Hesed e afins.

Conclusões

1. O tradismatismo não é a síntese de tradicionalismo com carismatismo.

2. É um movimento que parte de dentro da RCC.

3. O tradicionalismo e a RCC são espiritualidades antagônicas, visto que a primeira parte de um acento crítico ao ecumenismo e às novas pastorais enquanto que a segunda é essencialmente ecumênica e amante das novas formas pastorais.

4. O tradismatismo é, na verdade, a romanização do carismatismo, isto é, uma maior assimilação da identidade católica em um movimento essencialmente caracterizado pela sua afirmação ecumênica.


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