No artigo "Assédio, agressão e ataques à "bolha católica"", comentamos que o caso Miguel Soriani talvez fosse um sinal de uma erosão da nova onda conservadora do Catocilismo pós-pandêmica, essencialmente marcada por ser moralmente laxista, feminista, antitradicional e dinheirista. Argumentamos que o Miguel Soriani era filho dessa onda.
Conforme expomos no artigo "Conservadores católicos se rendem à imodéstia", a página de Instagram O Catequista certamente é um dos maiores expoentes dessa onda. O que decidamente marca a principal característica da página é o seu laxismo moral.
Relembremos que O Catequista já apoiou: católico organizar festa de casamento LGBT, pessoas casadas darem carona para colegas de trabalho do sexo oposto, banhos públicos e mistos, uso de leggings na academia, entre outros.
A lista é imensa e, infelizmente, a tendência é de crescimento.
Recentemente, como dissemos, estorou nas redes sociais o caso Miguel Soriani, um terapeuta católico que vendia cursos e consultoria contra a pornografia, mas que, ao final, sucumbiu a ela e passou a trair a esposa encaminhando nudes para suas seguidores e pedindo o mesmo delas.
A página O Catequista foi uma de muitas que não só criticou o terapeuta como também tirou sarro da situação.
Apesar de Soriani merecer todas as críticas, consideramos o hábito do Catequista e de outras páginas de debocharem dos outros por causa de suas faltas lamentável. A derrisão ou zombaria, que consiste em expor a faltas alheias para ser alvo de chacota dos outros, é pecado, como ensina Antonio Royo Marin em sua "Teologia Moral para Leigos":
"821. Entende-se por zombaria ou derrisão do próximo o vício ou pecado de lançar na face do próximo suas culpas ou defeitos de forma jocosa para envergonhá-lo diante dos demais.
O zombador não trata diretamente de injuriar o próximo (isso é próprio do contumelioso), mas unicamente de ridicularizá-lo diante dos demais. Claro que indiretamente obscurece também a honra do próximo, e neste sentido a derrisão se relaciona muito de perto com a contumélia, da qual constitui uma subespécie.
Este feio pecado se opõe diretamente à justiça - porque viola o direito do próximo ao apreço e estima dos demais - e indiretamente à caridade. Se o zombador pretender diretamente o desprezo do próximo, faltará direta e gravemente à caridade."
Assim, a atitude de O Catequista merece todo o nosso reproche. Porém, o que vamos demonstrar a seguir é que a página, apesar de zombar de Soriani, não é uma real opositora das atitudes dele.
Em uma recente resposta à caixinha de perguntas do Instagram, O Catequista deu uma resposta a respeito da licitude de um católico assistir o reality show "Largados e Pelados". Vejamos:
"Largados e Pelados" é um reality show americano, no qual os participantes são enviados nus para lugares inóspitos para sobreviverem dias ou semanas. Muitos dos participantes são pessoas que não se conhecem, de sexos opostos e até mesmo casadas. Ocorre muito a situação de um homem casado dormir com uma mulher solteira ou casada, ambos nus, numa cabana improvisada.
Devia ser evidente para qualquer católico de consciência bem formada que o reality show é imoral, uma vez que promove o nudismo, a infidelidade e a imodéstia dos participantes. Lembremos que o compartilhamento de leito e cama (tori et mensae) e a visualização da nudez do próximo são direitos exclusivos dos esposos.
Porém, o que são verdades muito evidentes para este modesto blog são coisas inalcançáveis e incompreensíveis para o O Catequista. Notemos como a página responde a pergunta do seguidor.
Primeiro, o O Catequista, que tanto ataca os influencers, responde a pergunta igual um, isto é, dando bronca no seguidor e pedindo pra comprar o seu produto salvador.
Após, a página aborda a questão reduzindo o problema moral do programa à existência ou não de tapa sexo.
A resposta é bastante reveladora, porque, no fundo, traz à luz o que O Catequista verdadeiramente pensa sobre várias coisas. Fica mais fácil entender os seus posicionamentos morais, porque eles nada mais são do que uma consequência lógica da adesão de vários princípios morais laxos. Senão vejamos:
a) Se é possível aceitar que pessoas não casadas durmam juntas nuas, então não há inconveniência de um homem casado dar carona para uma colega do trabalho.
b) Se é possível assistir um programa de pessoas nuas cobertas apenas por um tapa sexo digital, então não há problemas de pessoas seminuas usarem biquínis ou sungas na praia.
c) Se é possível se entreter com um programa que incentiva o nudismo, a luxúria e a infidelidade conjugal, então que mal haveria em levar a família ao Carnaval, à praia ou aos festivais de Halloween?
Daí se vê que a dificuldade da página em condenar entretenimentos notadamente mundados decorre de uma consciência moral deficiente e cauterizada pelo laxismo.
Entretanto, para o que nos interessa neste artigo, a resposta revela ainda mais: o O Catequista adere todos os princípios que levaram Soriani à queda.
Expliquemos.
Ora, se é lícito ao católico assistir um programa de nudismo onde se pratica a infidelidade conjugal, como se pode condenar um homem casado, como Miguel Soriani, pelo compartilhamento de nudes com outras mulheres?
Diríamos até que o O Catequista incentiva algo ainda mais grave, pois "Largados e Pelados" promove todas essas coisas em rede nacional enquanto Soriani o fez apenas no particular.
Alguém dirá: "Não é a mesma coisa. O Catequista defende o uso de "tapa sexo digital".
Na verdade, é a mesmíssima coisa. Como dissemos em vários lugares deste blog, não é o bastante cobrir as partes íntimas para tornar a coisa aceitável. É gravemente desonesto e pecaminoso não cobrir as partes privadas e semiprivadas quando se está na presença do sexo oposto, conforme ensina Antonio Peinador Navarro em "Cursos Brevior Theologiae Moralis":
"Não devem ser escusados de pecado grave as pessoas de diferente sexo que mutuamente se olham, conversam, passeiam, etc., quase nuas, nos balneários públicos, com trajes sumaríssimos que cobrem apenas as partes genitais dos homens ou das mulheres e os seios destas últimas. Embora não se procurem movidos por má intenção, entretanto o convívio demorado será necessariamente gravemente excitante. Ademais, quem assim se expõe à contemplação pública, comete pecado de grave escândalo" (COCULSA, Madrid, 1956, t. III, p. 596.)
E Dom Pius Mary Noonan em "Fig Leaves Are Not Enough: Open Letters on Modesty in Dress":
"Vamos começar descartando categoricamente e condenando vigorosamente o biquíni, para o qual não há literalmente nenhuma justificativa. Longe de respeitar a medida da modéstia, é o epítome da extrema e grave imodéstia. Embora satisfaça erroneamente o requisito legal de não estar nu (felizmente ainda existem leis na maioria dos lugares que proíbem a nudez pública), não atende aos requisitos da razão. Sejamos claros: usar um biquíni é estar nu, pela simples razão de que o próprio design não deixa opção ao olho a não ser ver as partes que faltam.
Uma observação simples provará meu ponto. Todos nós sabemos por experiência que tudo o que se destaca visualmente irá capturar e prender nossa atenção primeiro. Por exemplo, se temos um grupo de dez pessoas vestidas de preto e uma no meio vestida de vermelho, é a de vermelho que atrai a maior parte da atenção; a vermelha simplesmente se destaca. O primeiro ponto de interesse chama nossa atenção. Aplicando isso ao biquíni, quando o corpo nu de uma mulher tem apenas duas pequenas peças de roupa que cobrem as partes íntimas, mas revelam cuidadosa e intencionalmente sua forma, o olho do observador é, necessariamente, atraído precisamente para essas partes íntimas. Essas pequenas peças de roupa, portanto, não são projetadas para vestir, mas para revelar, atraindo toda a atenção para essa área. Sendo esse o caso, o observador está vendo essas áreas como objetos — isso explica por que o observador tende a objetificar a mulher — em vez de parte da pessoa inteira. Portanto, fica claro que o biquíni não é projetado para vestir, mas para despir. Em outras palavras, não se qualifica como roupa e parece ter sido projetado para despertar intencionalmente a luxúria nos homens. Aliás, se o biquíni fosse útil para nadar, nadadores profissionais os usariam, mas não o fazem. Sobre esse assunto, quando você for comprar roupas, lembre-se deste ponto fundamental: roupas são sobre esconder. Se você se pegar perguntando o quanto pode escapar em termos do que revela, você não está realmente procurando por roupas, mas por nudez."
Portanto, sim, o O Catequista é do mesmo time de Miguel Soriani. Debocham do último, mas Alexandre e Viviane Varela levam os filhos à praia moderna, com todos os problemas graves de imodéstia que ela tem, e defendem como eventual entretenimento dominical um programa cujo própósito é promover a nudez e a infidelidade matrimonial. Pelas premissas aderidas pela página até mesmo a Banheira do Gugu estaria liberada para a família católica.
Em um nível mais profundo e considerando os princípios que se adota, portanto, conclui-se que O Catequista não é uma página realmente oposta ao comportamento de pessoas como Soriani, ao contrário, é uma investidora das mesmas ações (Stonks).
A pergunta do seguidor apenas relembrou vagamente ao O Catequista essa singela verdade, mas a página preferiu reprimir a própria consciência e chamar o seguidor de neurótico, maluco e sugerir a busca de um psicoterapeuta (pelos critérios da página podia ser o próprio Soriani).
Esse tipo de pertinácia do O Catequista já vimos em outros lugares, como demonstramos aqui (onde o O Catequista nega que a condenação dos Papas e teólogos dos banhos públicos seja das praias modernas), e não é um bom sinal. Em geral, significa uma cauterização profunda da consciência para diversos pecados.
Esperamos, no entanto, que um dia a página se atente para o que está fazendo e encaminhe seu apostolado para uma direção realmente sadia.
Um tema, porém, ainda não abordado por nós, é o uso do escárnio/deboche como método feminista de destruição de adversários. O deboche, a chacota, o escárnio é ínsito no comportamento feminista como veremos mais a frente. Infelizmente, talvez inconscientemente, moças católicas tendentes ao feminismo têm adotado o mesmo tipo de conduta.
Para entendermos como funciona o deboche como método precisamos compreender primeiro o que é o feminismo.
Feministas por negarem em seus corações que quem inventou o patriarcado foi o próprio Deus, pois este constituiu Adão como chefe da humanidade e os sacerdotes como governadores da Igreja, utilizam diversos mecanismos para minar a autoridade do homem e controlá-lo, entre os quais um deles é o escárnio.
O deboche, também chamado derrisão, tem por fim suscitar a vergonha do próximo, como ensina o Doutor Angélico:
"Como já dissemos, os pecados por palavras devem ser considerados, sobretudo relativamente à intenção de quem as profere. Por onde, esses pecados se distinguem pelas diversas intenções que tem quem fala contra outrem. Ora, quem profere um convício visa deprimir a honra daquele contra quem o irroga; se detrai visa depreciar-lhe o bom nome; e se sussurra, destruir-lhe a amizade. Assim também, fazendo derrisão, visa fazer enrubescer aquele que é objeto dela. E sendo este fim distinto dos outros, também o pecado de derrisão distingue-se dos já referidos." (S. Th. II-II, q.75, a.1, sol.)
O escárnio, portanto, é um ataque à autoestima do próximo. Homens e mulheres atacam a autoestima uns dos outros de modos diferentes. Homens quando querem tirar a autoestima das mulheres eles batem, se tornam grosseiros, violentos e traidores. Mulheres quando querem tirar a autoestima dos homens debocham. A esposa ideal nunca usa o deboche para diminuir ninguém. Mas como a feminista é o arquétipo da anti-esposa, então ela, casada ou não, sempre será rixosa, reclamona e, principalmente, debochada.
A mulher católica nunca é debochada. Se a violência dos homens é o oposto da proteção que deveriam oferecer, o deboche da mulher é o oposto da brandura e docilidade que deveria apresentar, pois a mulher católica é caracterizada, principalmente, pela sua personalidade amável, como ensinava o imortal Pio XII:
A esposa é o sol da família com a clareza de seu olhar e a chama de sua palavra; olhar e palavra que penetram suave mente na alma, a vencem e enternecem, acalmam o tumulto das paixões, e levam ao homem a alegria do bem-estar e da conversação familiar, depois de uma longa jornada de contínuo e às vezes penoso trabalho, no escritório ou no campo, ou de imperiosos negócios no comércio ou na indústria. Seus olhos e sua boca lançam uma luz e um acento, que num raio têm mil fulgores e num som mil afetos. São raios e sons que brotam do coração de mãe, criam e vivificam o paraiso da infância e irradiam sempre bondade e suavidade, ainda quando advertem ou repreendem, pois as almas juvenis, que sentem com mais força, recolhem com maior intimidade e profundidade os ditames do amor.
A esposa é o sol da família com sua cândida natureza, sua digna simplicidade e seu cristão e honesto decoro, tanto no recolhimento e na retidão do espírito, como na sutil harmonia da atitude e vestimenta, no adorno e na postura, a um só tempo reservada e afetuosa. Sentimentos tênues, a dos traços do rosto, ingênuos silêncios e sorrisos, um condescendente movimento de cabeça, dão-lhe a graça de uma flor requintada e, no entanto, simples, que abre a corola para receber e espelhar as cores do sol. Oh! Se soubésseis que profundos sentimentos de afeto e gratidão suscita e imprime no coração do pai de família e dos filhos essa imagem de esposa e mãe! O anjos, que velam sobre as casas e ouvem as orações dela, impregnai de perfumes celestiais aquele lar de felicidade cristä!
Mas, que sucede quando a família está privada desse sol? Que sucede quando a esposa, continuamente e em cada circunstância, mesmo nas relações mais íntimas, não hesita em demonstrar quanto lhe pesa a vida conjugal? Onde está sua amorosa doçura, quando uma dureza excessiva na educação, uma suscetibilidade mal domada e uma frieza irada no olhar e nas palavras, sufocam nos filhos a alegria e o feliz consolo que teriam de encontrar na mãe; quando ela se limita a perturbar com tristeza e amargurar com voz áspera, com lamentos e repreensões, a confiada convivência no ambiente familiar? (Discurso do Papa aos Recém Casados – A Esposa e Mãe – Sol do Lar Doméstico, 11 de Março de 1942)
O Pe. Mathias de Bremscheid em "A Donzela Cristã" também ensina o mesmo:
"Se o caráter possuir apenas inflexibilidade e firmeza, degenera em capricho e rigidez, e tornar-se-á desagradável e repulsivo. À firmeza cumpre aliar a brandura e mansidão.
Sê firme e inflexível no tocante aos princípios essenciais, e inabalavelmente fiel ao cumprimento consciencioso dos deveres; contudo, evita toda aspereza no trato com teus semelhantes e mostra-te afável e branda com todos.
...Assim deve ser a jovem virtuosa: firme nos princípios, tenaz e enérgica nas atitudes, avessa à insensibilidade e grosseira; compassiva e amável; indulgente e atenciosa; e assim, sua vida esparzirá felicidade, alegria, prosperidade e bênçãos.
Se quiseres adquirir esta doçura de caráter, impõe-te seriamente o esforço de combater, com energia, a tua natureza arrebatada e a tua propensão para a cólera. Habitua-se a falar e tratar com todos pacificamente e com brandura.
O Divino Salvador elogia a mansidão, dizendo: “Bem-aventurados os mansos, porque eles possuirão a terra”. (Mt., 5,4)
... Não te obstines na tua opinião, nem tomes facilmente resolução irrevogável em coisas secundárias, se não estiveres seguramente convencida diante de Deus, de que isso em quaisquer circunstâncias constitui um dever imutável.
Nas pequenas contrariedades e dissabores, não te exaltes intimamente, nem profiras palavras de enfado; domina-te, corajosamente e não permitas que se altere o teu humor. Se aprenderes desde cedo a aliar doçura e indulgência, à firmeza e energia, evitarás, muitos contratempos e situações dolorosas..."
As Sagradas Escrituras também reprovam a mulher irascível, rixosa e destemperada:
"Melhor é habitar no deserto do que com uma mulher impertinente e intrigante" (Pr 21,19)
"É melhor habitar um canto do terraço do que viver com uma mulher impertinente." (Pr 25,24)
"Goteira que cai de contínuo em dia de chuva e mulher litigiosa, tudo é a mesma coisa. Querer retê-la é reter o vento, ou pegar azeite com a mão. (Pr 27,15-16)
No livro "O Poder Oculto da Amabilidade", o Pe. Lawrence Lovasik afirma que a união íntima com Nosso Senhor faz desaparecer do cristão o hábito do deboche:
"A amabilidade é nossa imitação da Divina Providência. A amabilidade, para ser perfeita e duradoura, deve ser uma imitação consciente de Deus. Se você estiver sinceramente conformando-se à imagem de Jesus Cristo, a aspereza, a amargura e o sarcasmo desaparecem. A própria tentativa de ser como Jesus já é uma fonte de doçura dentro de você, fluindo com uma graça fácil sobre todos que estão ao seu alcance."
O mesmo é repetido pelo Pe. William Faber na obra "A Bondade":
"O conhecimento crescente do pouco que valemos, proporcionado pela união crescente com Deus sob o impulso da graça, torna-nos compreensivos com os outros. A aspereza, a amargura, a ironia mordaz, a meticulosa observação dos outros, a procura de motivos para menosprezar os outros - tudo isso desaparece quando alguém, seriamente, se conforma com a imagem de Jesus Cristo."
O exposto permite-nos dizer que a atitude debochada ou escarniciosa não deve ser um comportamento entre cristãos. A ironia, é claro, trata-se de um recurso retórico que pode evidenciar melhor o absurdo, mas o sarcasmo ou a ironia mordaz para humilhar, diminuir o próximo é um pecado mortal e não pode ser tolerado.
O deboche do feminismo católico
O feminismo, como dissemos, vive de escárnio. E o feminismo católico não é diferente. Ele é escarnecedor, rixoso e debochado. Nos debates, principalmente sobre modéstia, é comum ouvirmos comentários feministas debochados sobre mulheres tradicionais. Como dissemos no artigo "Conservadores católicos se rendem à imodéstia" é ínsito do feminismo católico o combate e a desconstrução da modéstia do vestir, visto que feministas, como boas liberais, valorizam acima de tudo a liberdade e a autonomia de padrões e regras no modo de vestir.
Nesse sentido, citamos, mais uma vez, o Pe. Bremscheid para ilustrar o ponto:
Não há muitas pessoas que condenam um padrão definido de modéstia no vestir?
Naturalmente, assim como um homem de negócios desleal condena uma lei honesta. Uma sociedade que destruiu os padrões tradicionais de modéstia no vestir, com dificuldade tomaria esforços para reimplantá-los, Mesmo católicos liberais se opõem a padrões específicos de modéstia no vestir. Isto em conseqüência de que o Liberalismo procura uma falsa liberdade em relação às leis, as regras, às regulamentações e a todo tipo de restrições.
Entretanto, queiram as pessoas admitir ou não, todas as suas vidas são reguladas por padrões de uma forma ou outra. Ha padrões para sapatos, padrões para pesos. Temos cores padronizadas e tamanhos, padrões de qualidade e mesmo padrões de tempo que nos são impostos pelo sol. Temos padrões de maneiras e de modos de agir que nos influenciam até mesmo nos minimos detalhes.
A cada passo somos confrontados com padrões. As pessoas aceitam isso sem questionarem, até o ponto, por vezes, de chegarem à escravidão e ao absurdo.
Porventura somente a virtude da modéstia deveria ser privada de ser regulada e protegida por padrões? Se estamos prontos para aceitar o que quer que as autoridades seculares nos imponham, muito mais devemos nós, católicos, estar prontos para aceitar "o que quer que Maria Imaculada aprove", o que é nosso lema da Cruzada.
A seguir mostraremos uma sequência de deboches do feminismo católico em relação a pessoas que defendem padrões e regras na modéstia do vestir.
1) "Seita do véu"
Uma das bandeiras do feminismo católico é a batalha contra o véu. Feministas odeiam o véu, porque a devoção do véu é a maior arma católica contra o feminismo. O véu lembra a mulher que há autoridades acima dela, Deus e o marido.
Assim, tem sido cada vez mais comum feministas debocharem de moças que usam véu rotulando-as de "seita do véu". Todavia, tal escárnio simplesmente não faz sentido.
Primeiro, não há qualquer sentido de se falar em "seita do véu" quando o uso dele é obrigatório, conforme demonstramos no artigo "O uso piedoso do véu não é mais obrigatório?".
Segundo, ainda que não fosse obrigatório, é a ausência do uso dele que sempre foi considerada pelos autores católicos, como Santo Tomás, como um costume reprovável entre as mulheres.
"Salvo que nem mesmo às mulheres casadas convém trazer os cabelos descobertos, elas que devem cobrir até a cabeça. Caso em que certas poderiam ser escusadas do pecado, se não procedessem assim por nenhuma vaidade, mas, por um costume contrário, embora tal costume não seja louvável." (S.Th. II-II, q. 169, a. 2).
O moralista Donald P. Goodman III no ensaio "Por Causa dos Anjos: Um Estudo do Véu na Tradição Cristã" assim comenta a posição de São João Cristóstomo a respeito de mulheres que não usam véu:
"São João Crisóstomo foi o mais prolífico e mais contundente de todos os Padres a respeito do véu. Tanto no que diz respeito à importância do que disse quanto ao rigor de seus ensinamentos, Crisóstomo foi de longe o mais inflexível em insistir sobre o véu para mulheres. Ele afirma inequivocamente que “estar sem véu é sempre uma reprovação” para as mulheres, assumindo assim uma posição ainda mais rígida do que a leitura de I Coríntios nos levou a pensar que o apóstolo assumia.
Crisóstomo argumenta que uma mulher deve “estar coberta cuidadosamente em todos os lados em todos os momentos'', baseando diretamente seu argumento no texto da Epístola de São Paulo. Para São João Crisóstomo, São Paulo regrava o uso contínuo do véu mesmo fora da oração. Ao invés de interpretar esse verso - “porque é como se estivesse rapada” - como uma analogia, ele afirma que isso é uma identificação dos dois estados, dizendo que “se estar rapada é sempre vergonhoso, também é certo que estar sem véu é sempre reprovável.”
E chega à seguinte conclusão:
O véu é uma bela e autêntica parte da Tradição Católica, que proclama numerosos e elevados aspectos de nossa santa religião e fornece um sinal nobre e óbvio de contradição ao mundo que tanto odeia a mensagem que nosso Deus trouxe para nós. A própria existência da hierarquia natural, o reconhecimento de que Deus está acima do homem, desapareceu de nossa cultura; em toda parte triunfa a afirmação de que todos os homens são iguais.
O véu mostra nossa oposição ao mundo e ao ethos libertino que a Modernidade fez triunfar. As forças dominantes do feminismo, panteísmo, hedonismo e igualitarismo recebem uma repreensão permanente pelo simples fato de uma mulher católica cobrir seus nobres e abençoados cabelos. O véu é um costume bonito e valioso; deve ser preservado onde existe e restaurado onde não existe, e daí estendido à sua plena e adequada prática em todo o mundo católico.
Portanto, se há uma "seita", isto é, um cisma da Tradição católica, esta é a "seita das insubordinadas", que não aceitam qualquer referência, mesmo que simbólica, da hierarquia familiar estabelecida por Deus.
2) "Seita da saia e do vestido"
Outra grande bandeira do feminismo é o uso de calças. Diremos, no entanto, que a defesa da calça pelo feminismo, neste caso, não é pela calça em si mesma. Feministas não defendem o uso de calças por acreditarem que elas são adequadas para as mulheres. Feministas defendem as calças porque elas acreditam num princípio liberal, isto é, que mulheres devem se vestir como elas quiserem.
Assim, se uma mulher deve se vestir como ela quiser, então, nesta mentalidade, faz todo sentido falar em "seita da saia e do vestido", já que a modéstia, na prática, não existe. Seria simplesmente uma coisa de "seita" exigir padrões de modéstia e pudor dos outros.
Mas, como mostraremos a seguir, é a ausência de padrões que traz as maiores confusões sobre o tema.
Recentemente, Glória Küster, consultora de imagem e estilo, uma pessoa que já tratamos brevemente aqui, após falar das calças, alertou seus seguidores, em seus Destaques no Instagram, que, na sua página não se encontrará regras de modéstia.
Ela prova assim o que dissemos: a defesa da calça não é pela calça, mas pela libertação de padrões em favor da autonomia pessoal (princípio liberal).
O pensamento de Glória, obviamente, atrai pessoas que pensam igual a ela. Em uma nova postagem no Instagram, Glória respondia uma pergunta que não tinha qualquer relação com a modéstia no vestir, e sim com moderação na compra de roupas. Contudo, o simples fato de responder uma pergunta que pudesse envolver escrúpulos e roupas, já acionou o gatilho do deboche feminista de suas seguidoras para ironizarem a "seita da saia".
Aline Brodbeck é dona do "Blog Femina" e muito conhecida por ser uma das primeiras influenciadoras católicas a combaterem padrões de modéstia do vestir, principalmente daqueles defendidos por católicos tradicionais. Agora, pelo que tudo indica, ela já aderiu ao método feminista do deboche, pois rotula os desafetos de "seita da saia".
Pois bem, faz sentido falar de "seita da saia" como Aline e tantas outras falam? Não, não faz.
Aliás, em que época da História humana mulheres afirmariam que o uso de saia ou de vestido é coisa de uma "seita" senão a nossa, a mais feminista da História?
Saias e vestidos são as autênticas roupas femininas, como saudosamente afirmou o Pe. Paulo Ricardo:
Ora, seria o Padre Paulo um integrante da "seita da saia"?
Não, absolutamente não. Ele apenas disse o óbvio: historicamente, o normal da mulher é usar saia e vestido. O anormal é se apartar deste padrão. A única "seita" propriamente falando é das mulheres que querem imitar os homens no modo de vestir, como bem advertiu o Cardeal Siri aqui, isto é, a "seita das feministas".
Donald P. Goodman III no livro "The Modesty Handbook" assim salienta a importância da restauração do uso de saias:
A saia é, portanto, um sinal importante do poder que pertence às mulheres nos seus papéis naturais, um poder que, embora não seja evidente como o dos homens, é, no entanto, insondavelmente grande. Não é um sinal do seu domínio, como seria descobrir as suas cabeças, mas é um sinal do poder inerente aos seus papéis, um poder comparável ao dos reis, mas menos grosseiro e óbvio. A saia parece ser mais adequada para as mulheres, pelo menos considerada desta forma.
Mesmo assumindo, no entanto, que a cultura é a única que determina especificamente o vestuário masculino e feminino, as mulheres ocidentais ainda assim fariam bem em usar saias em vez de calças. Como a cultura ocidental tem removido progressivamente todas as distinções de sexo em qualquer vestimenta que não seja a mais formal, por vezes, até colocando as mulheres em ternos e gravatas, é evidente que os próprios padrões culturais a respeito entraram em colapso. As mulheres católicas fariam bem, portanto, em tentar restabelecer a distinção sexual no vestuário, readotando aquilo que antes era aceito sem questionamento: saias como vestes masculinas e calças como masculino.
Portanto, quer a natureza ou a cultura determinem tipos específicos de vestimenta, as mulheres católicas devem usar a saia. As saias não são pesadas nem opressivas; o desconforto que às vezes oferecem é pelo menos igual ao causado pelas calças em outros momentos. As saias são, como a maioria das práticas modestas, simplesmente honestas; são simplesmente uma expressão da natureza feminina, aquela natureza que foi a fonte até mesmo das virtudes naturais da Santíssima Virgem. Nenhuma mulher católica poderia ter qualquer objeeção a isso." (p. 31-33)
Acrescentemos, ademais, que Aline Brodbeck e Glória Küster também não se entendem quando o assunto é definir o que é imodesto. O que não é nenhuma surpresa, afinal, elas são contra padrões. Vejamos um exemplo a respeito da opinião de ambas sobre o uso de calças rasgadas.
Aline em seu Blog Femina, em 08.11.2017, mostrou um dos seus looks com calças rasgadas estilo "destroyed" dizendo "Podemos ser modestas sem ser cafonas":
Já Glória afirma que o estilo "destroyed" das ripped jeans detonam a imagem pessoal da mulher:
E Glória justifica sua posição (ao nosso ver, corretamente) citando a obra Filoteia de São Francisco de Sales:
De fato, não se passava pela cabeça de São Francisco de Sales "estilos modestos" de roupas rasgadas. Na verdade, transformar roupas rasgadas em estilo de moda trata-se de uma das muitas revoluções para descontruir o que é belo.
Neste contexto, perguntemos: como alguém da "seita da saia" resolveria o impasse entre Glória e Aline sobre calças destroyed serem imodestas ou não?
Simples. Vestiria uma saia. O que ilustra a nossa conclusão: padrões ajudam na modéstia do vestir, já entregar as pessoas ao seu próprio arbítrio atrapalha.
Podemos dizer com certa segurança que moças católicas que são contra padrões de modéstia são também completamente anárquicas no modo de vestir.
3) "Ana Francisca", "Incels"
O próximo deboche que iremos mostrar é de uma moça, dona de uma página no Instagram que fala sobre paternidade responsável e que adota um tom debochado (qual a novidade?) em suas postagens para criticar o que ela chama de "providencialismo".
Neste storie, a moça parece dar um aviso aos interessados em se relacionar com ela e que sejam envolvidos com apostolados de Missa Tridentina:
Evidentemente, a autora do comentário nunca refletiu seriamente sobre a busca da santidade, pois quantas santas se autodeclarariam "gostosas" para todos ouvirem?
A autora debocha ainda da modéstia de um grupo inteiro de mulheres rotulando-as de "Ana Francisca", personagem da novela "Chocolate com Pimenta". Este tipo de escárnio não é novo e já foi identificado em1944 pelo Pe. Bernard A. Kunkel no livro "Marylike Modesty Handbook of the Purity of Mary Immaculate":
Os padrões marianos não levam as mulheres a serem modestas de modo "ridículo"?
O diabo odeia mulheres "discretas, modestas e excelentes". Portanto, ele recorre à chavões e palavras de ordem, procurando levar as mulheres a aceitar roupas morais por medo do ridículo. O diabo associa a palavra "modéstia" com "trajes de Dona Benta" e tenta fazê-las crerem que a Cruzada Mariana defende saias abaixo do tornozelo jamais um centímetro a menos - e colarinhos até o queixo.
Muitas católicas têm um medo mórbido do ridículo, e permitirão que o diabo as conduza docilmente para escapar de ridículo. Contudo,ridículo não é um argumento de modo algum.Freqüentemente é o único recurso de pessoas que não estão sinceramente querendo ver a verdade. As Cruzadas Marianas, desafiando esta arma mortal do ridiculo, "ousam ser diferentes."
Por fim, a autora do storie escarnece de rapazes ligados à Missa Tridentina xingando-os de "incels" (celibatários involuntários) esquecendo-se, porém, que ambientes de Missa Tridentina são os mais prolíficos em casamentos e famílias numerosas.
Sabemos que essa moça é mãe. Perguntemos, então, o seguinte:
Se ela é casada, não bastava dizer educadamente aos rapazes interessados que está comprometida? Por que é preciso humilhar e se autodenominar "gostosa" para todos? Por que não usar a oportunidade para ser virtuosa e mostrar discreta e educadamente o valor do casamento?
Mas, se é mãe solteira, não seria ela própria uma "incel"? A menos que seja viúva, duvidamos muito que seu estado de solteira tenha se dado por razões voluntárias.
Perguntemos ainda:
Para que serviu essa exaltação desordenada do próprio ego e o deboche gratuito dos "inimigos"? Para que serviu destilar o veneno do escárnio? Para que serviu desferir golpes odiosos com a própria língua?
Respondamos já: Para absolutamente nada.
Vimos que essa atitude sarcástica, mordaz e de autoexaltação não é católica e muito menos adequada para uma mulher cristã. Uma mulher virtuosa deve, desde cedo, treinar sua docilidade, brandura e amabilidade. Deve com todas as forças extirpar de seu comportamento essa atitude "revoltada" e escarnecedora, já que se trata de um hábito destrutivo para o matrimônio e para a santidade.
É surpreendente como esta moça não repara a profunda desordem do seu comportamento. Citemos nesse sentido, novamente, as lições do maravilhoso livro "O Poder Oculto da Amabilidade":
"Mesmo quando a correção de um mal é necessária, o sarcasmo não serve a nenhum propósito útil; em vez disso, serve apenas para despertar profundo ressentimento. É a vontade de Deus que você respeite a integridade de seus semelhantes. Você não deve amontoar desprezo sobre eles, menosprezá-los, usar sua língua como uma ferramenta afiada contra eles."
"O remédio para o sarcasmo na raiva é a humildade, o sufocamento do seu ego e a honestidade em avaliar suas bênçãos e cruzes. Uma pessoa sarcástica tem um complexo de superioridade que pode ser curado apenas pela honestidade da humildade."
Quanto aos problemas morais mais comuns das redes sociais, eles são:
b) Atenta muito contra a mansidão. Muitas vezes leem-se coisas que não agradam e entra-se sempre em discussões infrutíferas, nas quais ninguém será convencido, mas no mínimo se perderá a paz. Frequentemente terminam em desavenças e ofensas contrárias à caridade, produzindo inimizades e ódios. Ocorre principalmente com publicações contra a Igreja, nos meios católicos. Mas com as pessoas não católicas as rixas acontecem a respeito das questões mais deploráveis.
Se as redes sociais estão sendo um meio para alimentar um comportamento escarnecedor, orgulhoso e feminista, não seria melhor não tê-las?
Conclusão
O deboche, o escarnecimento, a ironia mordaz não são comportamentos femininos. A moça católica é conhecida pela sua docilidade e brandura, pois tais virtudes são absolutamente essenciais para cultivar sua personalidade feminina e seus deveres como esposa, se vier a casar.
A feminista católica, contudo, é espiritualmente a anti-esposa. Ao contrário da amabilidade da esposa, a feminista será reconhecida pela sua acidez, amargura e sarcasmo. Usará principalmente o deboche como método de destruição da esposa ideal. Seu desejo profundo é a destruição da esposa tal como ensinaram os Papas e os santos.
Não estamos convencidos, contudo, que a maioria das moças do atual feminismo católico estejam totalmente conscientes do espírito que as move. Muitas promovem o feminismo sem perceber. As más companhias e influências são a principal razão de agirem assim.
Rezemos para que abram os olhos e retrocedam das suas atitudes.
Ultimamente tem crescido uma verdadeira onda de católicos conservadores contestando padrões sobre modéstia. Questionam paróquias com código de vestimenta e colocam ainda dúvida sobre a gravidade da imódéstia em certos ambientes (praias, piscinas, academias e alguns esportes).
Convém, portanto, demonstrar quais são os critérios seguros para a modéstia no vestir segundo consenso geral dos teólogos morais, a fim de esclarecer o mar de confusão que vivemos.
Partes honestas e partes desonestas. O que devemos cobrir?
Os autores, em regra, dividem as partes do corpo humano de acordo com o grau de influxo na comoção venérea delas. Assim explica Pe. Heribert Jone em seu "Moral Theology":
"Devido aos vários graus de influência que podem ter na excitação do prazer sexual, as partes do corpo humano são por vezes divididas em decentes (rosto, mãos, pés), menos decentes (seios, costas, braços, pernas) e indecentes (órgãos sexuais e partes adjacentes) . Que os moralistas têm justificação para dividir as partes do corpo com referência à sua influência no despertar da excitação sexual, pode ser deduzido do fato de algumas autoridades civis, no interesse da moralidade pública, fazerem uma distinção semelhante. Contudo, para evitar a implicação de que existe algo moralmente censurável em qualquer parte do corpo humano, falaremos de partes que são públicas, semiprivadas e privadas." (Moral Theology, p. 154)
Segundo a divisão comum dos moralistas, então, o corpo humano possui partes:
1. Decentes: rosto, mãos e pés.
2. Semiprivadas/menos decentes/semivergonhosas: seios, costas, braços e pernas;
3. Privadas/indecentes/vergonhosas: partes íntimas e adjacências.
Para que uma roupa seja minimamente decente, ela deve cobrir ao menos as partes privadas e semiprivadas. Este critério é facilmente deduzível pela razão natural e prescrito, por exemplo, por diversas repartições públicas:
Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul:
Art. 3º. Para os efeitos desta Ordem de Serviço, é vedado o ingresso de pessoas:
I - trajando bermudas, shorts, minissaias, camisetas masculinas sem manga, miniblusas, roupas de banho e de ginástica;
(Ordem de Serviço Conjunta nº 001/2021)
Conselho Nacional de Justiça:
Em 2009, o órgão decidiu vetar a entrada de pessoas trajando calção, short, bermuda, camiseta regata, minissaia, miniblusa, "blusa com decote acentuado", chapéus e bonés.
𝐓𝐑𝐓𝟏𝟏:
Em 2022, o Tribunal vedou a entrada de pessoas trajando minissaias, bermudas, camisetas tipo regata, mini-blusa, roupas transparentes e short.
Os exemplos poderiam ser dados indefinidamente, mas estes bastam para ilustrar o ponto: as partes privadas e semiprivadas devem estar cobertas. Mesmo num país tropical as repartições públicas reconhecem padrões universais de pudor.
Partes Semiprivadas
Que as partes privadas devam estar sempre cobertas parece evidente, mas o quanto as partes semiprivadas também precisam? O critério mais recomendado pelos moralistas segue a seguinte divisão:
1. Braços: ao menos os ombros cobertos;
2. Pernas: ao menos os joelhos cobertos;
3. Seios: totalmente cobertos;
4. Costas: totalmente cobertas.
Este critério é prescrito, por exemplo, no código de vestimenta do Museu do Vaticano, que traz as seguintes diretrizes:
Homens: calças pelo menos na altura do joelho. No verão é possível usar calças curtas mas os joelhos devem estar cobertos.
Mulheres: é proibido aparecer com as mangas descobertas. No verão a solução pode ser trazer um cardigan ou uma ombreira para usar dentro dos Museus. Calças ou saias devem cobrir até o joelho. É absolutamente proibido usar top que deixe a barriga aberta.
Este padrão tamém é semelhante ao solicitado pelo Papa Pio XI em 1930:
“Recordamos que um vestido não pode chamar-se decente se tem um decote maior que dois dedos abaixo da concavidade do colo, se não cobre os braços pelo menos até o cotovelo, e escassamente alcança um pouco abaixo do joelho. Ademais, os vestidos de material transparente são inapropriados.” (12 de janeiro de 1930)
O Instituto Bom Pastor também recomenda o mesmo padrão em seus sermões:
"1) As vestes devem cobrir tudo o que está entre os joelhos e os ombros, incluindo joelhos e ombros, e em qualquer posição (de pé, sentado, com pernas cruzadas, de joelhos). As vestes devem, portanto, possuir mangas e devem ser sem decotes. 2) As vestes não devem ser transparentes (colocar forro – anágua – do tamanho da saia, pois é relativamente comum a saia longa que se torna transparente contra a luz) nem em tom de pele e 3) não devem ser apertadas ou coladas ao corpo." (Pe. Daniel Pinheiro, Sermão "A modéstia no vestir", IX Domingo depois de Pentecostes, 26.07.2015)
O mesmo se observa na recomendação dos santos como é o caso de São João Batista de la Salle:
"A cortesia e o pudor exigem que se cubram todas as partes do corpo, exceto a cabeça e as mãos. É indecente ter o peito descoberto e os pés sem sapatos. Até mesmo é contra a Lei de Deus descobrir algumas partes do corpo que o pudor bem como a natureza obrigam a manter escondidas." (Regras de civilidade, p. 42)
Como se observa as variações entre os códigos de vestimenta são mínimas e são aplicadas por todos, cristãos e não-cristãos, quando possuem um mínimo de noção. Este fato coloca em xeque a tese da eventual influencer relativizadora que matiza os padrões de modéstia como uma coisa quase mística, escondida e misteriosa. Na verdade, o pudor (vergonha de mostrar aquilo que é agradável ver) é uma das coisas mais fáceis de se perceber e óbvias de se aplicar, pois a intuição que revela o que se deve descobrir para atrair é a mesma que evidencia o que se deve velar.
Roupas apertadas e transparentes
Também deve-se cuidar com a justeza e a transparência das roupas. Conforme a opinião comum dos teólogos e o ensino dos papas, roupas justas ou transparentes são indecentes. Neste ponto há uma especial atenção dos teólogos com o ornato feminino, tendo em vista que, não raramente, é a situação mais negligenciada por estilistas e por muitas mulheres. A respeito:
Del Greco:
"São culpados de escândalos. 1) As mulheres que vestem roupas muito justas e usam decotes indecorosos a ponto de provocarem os homens." (Compêndio de Teologia Moral, p.154)
John A. McHugh
"O Pecado do Defeito — É cometido quando o modo de vida de uma pessoa não está à altura do padrão razoável da sua comunidade, especialmente se isso for devido a negligência ou desejo de notoriedade ou desrespeito pela decência. [...] Também mulheres que se vestem com trajes masculinos, nudistas que aparecem nus em locais públicos e cínicos que desprezam as convenções da sociedade refinada." (Moral Theology, John A. McHugh)
Marcelinus Zalba:
"c) Gravemente desonesto, que pelas circunstâncias do tempo e do lugar provoca seriamente a concupiscência e, portanto, prepara a causa imediata de sérios danos espirituais aos outros. E isso também a despeito de qualquer intenção explícita, perversa, que pode estar realmente ausente em vidas tão leves e mundanas, entregues à vaidade e ao desejo de atrair para si admiração. A imodéstia grave já foi considerada a exposição excessiva dos seios. Ora, outras causas não menos provocativas costumam ser encontradas no aperto excessivo das roupas, nos contornos muito salientes do corpo, na transparência que provoca maior curiosidade e excitação, no encurtamento excessivo dos braços e principalmente das pernas, às quais se somam as posições extremamente provocativas no sentar e em todo o modo de andar, em que a indecência e o despudor podem ser mais exibidos nos vestidos menos indecentes do que na modesta vergonha das roupas desonestas." (Theologiae Moralis Compedium, p.118, vol. 2)
Ada Simoncini:
"Por outro lado, habituar-se a andar quase sem roupa, mesmo que seja num lugar onde sempre foi normal vestir roupas mais leves, equivale a anular as exigências do pudor. Deste modo, dificilmente se conseguirá preservá-lo em outros lugares em que, sem haver necessidade de sutis argumentações, a falta de critério reto conduz imediatamente ao erotismo, já sem nenhum tipo de disfarce. Um exemplo: se para praticar determinado esporte é necessário e conveniente vestir uma roupa mais curta e apertada, nem por isso se poderá pensar que já não há por que preocupar-se com o pudor no esporte. Ao suprimir essa preocupação nas práticas esportivas (não se trata de obsessionar-se, mas de tomar cuidado), pouco a pouco se irá esquecendo a necessidade de viver o pudor em qualquer situação." (O Pudor, p. 35)
Não é pedir demais, portanto, quando padres solicitam que as mulheres da pároquia não compareçam à igreja trajando leggings, vestidos transparentes ou mesmo calças e impeçam igualmente homens de vestirem regatas, shorts, para elevar a modéstia local. É totalmente razoável.
Conclusão
Os critérios do pudor são claros e até mesmo intutivos. Contudo, os tempos são difíceis e a corrupção da cultura e dos costumes dificultam o bom raciocício. Por isso é necessário de novo e sempre retomar os princípios.
A retomada dos princípios implica em buscar os autores lidos por todos e recomendados por todos e se formar pela clero fiel à doutrina da Igreja. Não haverá erro. A Igreja é a lua e os bons autores os luzeiros. Ambos iluminam as trevas do nosso tempo. Quem deles se aproveita muito se iluminará. Eles ajudarão a julgar os costumes corretamente.
A retomada dos princípios, por fim, jamais levará a conclusões revolucionárias de doutrina e moral, pois os princípios não admitem rupturas. Não é possível, por exemplo, que biquínis sejam considerados gravemente desonestos em certa época e em outra não. É necessário desconfiar de qualquer um que proponha conclusão diversa e inversa da que sempre foi consensual entre os melhores autores.