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sábado, 17 de janeiro de 2026

Conservadores se rendem ao biquíni. Não sobrou nada para a modéstia.


Recentemente, houve grande repercussão nas redes sociais em torno do tema do uso do biquíni. O debate, no entanto, revela menos uma controvérsia moral genuína e mais a confusão generalizada de conservadores católicos acerca da natureza da virtude da modéstia.

Há dois anos, publicamos neste blog o artigo “Conservadores se rendem à imodéstia”, no qual já se apontava um processo de regressão moral: costumes que haviam sido corretamente rejeitados por católicos do espectro conservador passaram a ser novamente tolerados e, depois, defendidos. Desde então, o quadro apenas se agravou. Muitos que se autodenominam conservadores passaram a adotar, na prática, os mesmos critérios morais do progressismo, apenas com uma linguagem diferente.

O episódio mais recente envolve a influenciadora Aimê Gumiero, católica recém-convertida, que afirmou publicamente que o uso de biquíni em praias e piscinas não constitui pecado. Sua argumentação segue um padrão já bastante conhecido.

Primeiramente, ela afirma que a modéstia “não é um conjunto de regras”. Essa afirmação, embora verdadeira em sentido estritamente técnico - pois a modéstia é uma virtude e não um código de direito -, é quase sempre usada de forma sofística. Na prática, serve para esvaziar qualquer critério objetivo e tornar a modéstia refém do julgamento subjetivo do indivíduo. Trata-se de um erro frequente: negar padrões razoáveis em nome de uma virtude supostamente “interior”, quando, na realidade, toda virtude moral possui atos externos regulados pela razão.

Em seguida, Aimê apela à virtude da prudência. Argumenta que a prudência exige adequação da vestimenta ao ambiente: não se usaria biquíni em uma missa, mas seria legítimo usá-lo na praia ou na piscina, pois “é isso que o ambiente pede”. Aqui se encontra um erro clássico: confundir prudência com simples rendição ao ambiente local.

A prudência não consiste em adaptar-se automaticamente aos costumes vigentes, mas em aplicar corretamente os princípios às circunstâncias concretas. Um determinado ambiente pode ser, ele mesmo, objetivamente imodesto. Nesses casos, o católico não apenas não deve conformar-se a ele, como deve evitá-lo, se possível; e, se não for possível evitá-lo, deve agir de modo mais virtuoso do que a média.

Esse princípio é claramente exposto por Pio XI ao tratar de eventos públicos de ginástica:

"Que os pais mantenham suas filhas longe do público de jogos e competições de ginástica, mas se as suas filhas são obrigadas a frequentar essas exposições, deixá-los ver que elas estejam totalmente e modestamente vestidas." (AAS, 1930, vol. 22)

Em outras palavras, se não houver necessidade, devem ser evitados; se houver necessidade, exige-se vestimenta plenamente modesta. O ambiente não legitima a imodéstia; ao contrário, agrava a obrigação de resistir a ela.

A pergunta central, portanto, não é se o biquíni é aceito socialmente na praia, mas se há causa justa para homens e mulheres permanecerem juntos em estado de seminudade. A teologia moral responde negativamente.

Antonio Peinador Navarro em "Cursus Brevior Theologiae Moralis":

"Não devem ser escusados de pecado grave as pessoas de diferente sexo que mutuamente se olham, conversam, passeiam, etc., quase nuas, nos balneários públicos, com trajes sumaríssimos que cobrem apenas as partes genitais dos homens ou das mulheres e os seios destas últimas. Embora não se procurem movidos por má intenção, entretanto o convívio demorado será necessariamente gravemente excitante. Ademais, quem assim se expõe à contemplação pública, comete pecado de grave escândalo" (COCULSA, Madrid, 1956, t. III, p. 596.)

Henry Davis em "Moral and Pastoral Theology":

"Os banhos de sol e de ar tomados juntos por membros de ambos os sexos e sem fantasias são fontes férteis de pecados graves, e não há justificativa para eles. [...] Nos exercícios de ginástica, mesmo quando se usam uniformes, deve-se ter cuidado especial com a modéstia cristã das moças e meninas, que é tão gravemente prejudicada por qualquer tipo de exibição em público." (p. 228, vol. II)

Antonio Royo Marin em "Teologia Moral para Seglares"

"Apresentam especiais perigos as excursões campestres com banho misto em açude ou rio; pois aos inconvenientes do banho público em geral devem acrescentar-se os que provém da frivolidade, leviandade e liberdade excessiva de um dia de excursão. Os pais católicos não permitirão jamais às suas filhas semelhantes excursões mistas." (Moral Especial, 551.6)

Outro ponto relevante é a contradição interna no discurso apresentado por Aimê. Afirma-se que o uso do biquíni seria moralmente aceitável apenas em determinados ambientes; contudo, ao divulgar imagens de si mesma de biquini para toda a internet, elimina-se qualquer noção coerente de “adequação ao ambiente”. A internet não é um espaço privado nem restrito, mas um meio de difusão universal.

Do ponto de vista moral, isso agrava a culpa da influenciadora, pois introduz o elemento do escândalo. A teologia moral é clara ao afirmar que a difusão de imagens provocantes constitui escândalo, na medida em que expõe um número indeterminado de pessoas a tentações.

Relembremos o que disse Teodoro Del Greco em "Compêndio de Teologia Moral" a respeito da divulgação de fotos e imagens de mulheres de biquíni:

"Concursos de Beleza. Outra ocasião de pecado e de cooperação no mal, com escândalo, é constituída hoje pelos chamados "Concursos de Beleza", subproduto de uma sociedade depravada. São concursos de caráter regional, nacional e universal, nos quais é escolhida a jovem que apresenta maiores perfeições de beleza física, para receber o título de "Miss" ou "Rainha". O atual processo seletivo é repugnante não só à consciência cristã, mas também a qualquer pessoa que tenha o mínimo senso de pudor. As candidatas ao título devem usar trajes reduzidíssimos, geralmente de tecido muito sutil, que permita os relevos de todo o corpo, até nas suas partes mais intimas. O exame é longo e minucioso, e o chamado desfile realiza-se perante numeroso público. O fato é reprovável sob todo e qualquer ponto de vista, porque constitui ocasião direta de pecado. A responsabilidade agrava-se, outrossim, pelo escândalo que causa o comparecimento da jovem ante o público muita vez heterogêneo. Isso, sem falar nas fotos e minuciosas mesuras levadas aos quatro ventos pelos rápidos veículos de publicidade, quais são a imprensa, o cinema, o rádio e a televisão." (n. 147)

"É reprovável o costume vigente em muitas academias de exibir aos pintores modelos de mulheres, cobertas somente nas partes genitais. Aqueles que, por necessidade, são obrigados a frequentar tais academias, usando as necessárias cautelas, estão justificados. [...] São escusadas, desde que usem as devidas cautelas somente se isto é o único meio para se livrarem da miséria. (n.226)"

Observa-se que a única razão que a teologia moral justifica uma mulher ficar seminua perante o sexo oposto é a grave necessidade, como realizar um trabalho imodesto para não passar fome. Aimê, no entanto, sem necessidade alguma, divulga imagens suas de biquíni voluntariamente.


O progressismo conservador entra em cena

Depois das declarações iniciais da influenciadora, houve uma reação forte. Muitos católicos perceberam corretamente o problema moral envolvido e criticaram tanto a posição quanto a exposição pública da influenciadora. Até aí, nada de inesperado. O que chama a atenção é o que acontece em seguida.

Entra em cena aquilo que podemos chamar de a ala dos conservadores progressistas. Pessoas que mantêm uma aparência conservadora, mas que, diante de qualquer tensão com o mundo, tendem sistematicamente a ceder nos princípios. É o opusdeísmo cultural por excelência.

Um dia após a polêmica, o Pe. José Eduardo resolve se pronunciar. E aqui precisamos ser claros quanto ao peso disso. Trata-se de um dos sacerdotes mais conhecidos do meio conservador no Brasil, ao lado do Pe. Paulo Ricardo, do Frei Gilson e do Pe. Leonardo Wagner. E esses três têm posições públicas claras e coerentes sobre o tema do biquíni.

O Pe. Paulo Ricardo, ao tratar dos remédios contra a pornografia, insiste na tolerância zero com aquilo que ele chama de soft porn, e cita explicitamente modelos de biquíni como exemplo.


Frei Gilson também já se posicionou contra o uso de biquínis e sungas. 



E o Pe. Leonardo Wagner deu, à época, a resposta mais conhecida e direta sobre o assunto, que se tornou viral.


Aliás, é preciso ressaltar que o Pe. Leonardo Wagner forneceu a visão moral correta acerca da frequência às praias, em plena consonância com o consenso dos teólogos:


Vemos assim que, do ponto de vista da teologia moral, a expectativa era simples: uma resposta objetiva, alinhada com a tradição moral da Igreja e com aquilo que sempre ensinaram os moralistas e os próprios sacerdotes citados. A saber: a condenação do biquíni em banhos mistos.

Mas isso não acontece com o Pe. José Eduardo. Vejamos sua resposta ao problema:

A TRETA DO BIQUÍNI

O debate “biquíni: pode ou não pode?” já nasce defeituoso porque troca a pergunta moral pela pergunta material. E a teologia moral, quando é séria, não começa pela “coisa” (tecido, centímetros, modelo), mas pelo ato humano enquanto escolhido. É exatamente isso que São João Paulo II recorda na Encíclica Veritatis Splendor (nº 78), retomando São Tomás: o “objeto” moral não é a descrição física do que se faz, mas a electio, a escolha deliberada pela qual a vontade assume aquela matéria como expressão de um sentido: de um fim próximo, de um “para quê” concreto.

Em linguagem tomista: o ato moral recebe sua espécie do objeto enquanto ordenado pela razão e querido pela vontade (cf. S. Th. I–II, q. 18). Por isso, “usar biquíni” é uma fórmula moralmente vazia, porque descreve apenas a matéria externa. A mesma matéria pode estar sob escolhas moralmente diversas. Uma mulher pode usar um traje de banho num contexto terapêutico (fisioterapia, tratamento dermatológico, reabilitação), ou num ambiente ordinário de lazer, ou ainda como instrumento de vaidade exibicionista, de sedução deliberada, de provocação calculada. A matéria pode ser parecida; a eleição é outra. E é a eleição que especifica moralmente o ato.

Quando a discussão fica no nível do “pode/não pode”, ela transforma a moral em um catálogo de objetos materiais, como se o pecado estivesse nas coisas; e isso não é catolicismo nem tomismo nem moralidade, é caricatura e burrice qualificada. O que pode ser pecado, quando o é, não é “usar X”, mas escolher X como meio para um fim desordenado: por exemplo, a ostentação de si para dominar olhares, a intenção de excitar a concupiscência alheia, o desprezo prático pela caridade e pelo bem espiritual do próximo, ou a recusa habitual da modéstia como virtude que guarda a dignidade da pessoa.

E aqui aparece por que a internet é um lugar péssimo para esse “debate”: porque o discernimento moral exige atenção às circunstâncias (ambiente, cultura concreta, intenção, previsibilidade do efeito, responsabilidade pelo escândalo em sentido próprio) e até à formação da consciência, coisas que não cabem num tribunal de cliques. Perguntar “biquíni é pecado?” é perguntar errado; a pergunta moral é: que escolha estou fazendo com isso, em que contexto, com que intenção, e que bem estou servindo ou ferindo? Se a conversa não sobe a esse nível, ela não é teologia moral: é só gente brigando por rótulos, com a matéria no lugar onde deveria estar a electio e tentando enfiar a própria ignorância na ignorância do outro.

Eu me pergunto: o que chama mais a atenção, de fato, uma mulher normal de biquíni ou uma mulher estranha parecendo uma muçulmana bem na praia? Ou, será que você está tão bem na pista que vai chamar a atenção dos outros quando nem o seu marido se sente muito interessado em você? Não sei…

Eu não tenho o costume de andar por aí sem camisa, mas, se o fizesse, quem se sentiria atraído por um bucho, cheio por acolá, que nem um boi andando de pé? Imodéstia? Acho que é mais mortificação ao próximo!...

As pessoas ficam nas nuvens, opinando a partir do seu próprio autoritarismo, quando a vida é mais simples para quem é sensato. A minha experiência, francamente, é que ninguém está muito aí para a gente.

A questão é irrelevante, a pergunta está errada e o debate é ocioso.


Em vez de responder diretamente à questão moral - o uso de biquíni na praia - o Pe. José Eduardo passa grande parte de sua manifestação afirmando que “a pergunta está errada”. E aqui já aparece um problema sério. Quando alguém insiste que a pergunta está errada, mas evita responder ao ponto central que move o debate, normalmente isso indica uma fuga do assunto.

Quando o padre afirma que “usar biquíni” é uma fórmula moralmente vazia, ele está abstraindo o problema real. Porque ninguém está discutindo um cenário terapêutico, médico ou de necessidade extrema. O contexto concreto é o banho misto, a praia moderna. E, nesse contexto, a teologia moral nunca considerou a matéria moralmente indiferente.

Quando finalmente o sacerdote se aproxima da resposta concreta, ele abandona completamente o registro teológico e passa ao deboche:

"Será que você está tão bem na pista que vai chamar a atenção dos outros quando nem o seu marido se sente muito interessado em você?"

Isso não é teologia moral. É basicamente ironia fingindo complexidade.

O padre introduz ainda um critério que simplesmente não existe na teologia moral: a autopercepção estética. 

Quando os teólogos tratam de banhos públicos e mistos, não há um único que apresente a autopercepção estética como fator moderador da modéstia, porque ela não pode depender de um critério tão subjetivo, uma vez que busca uma regra comum, objetiva e válida para todos.

E o critério sempre foi este: não é lícito a ninguém - seja gordo, magro, bonito ou feio -expor-se nu ou seminu diante do sexo oposto sem causa grave. Isso decorre do direito natural. As partes íntimas e menos honestas do corpo estão ordenadas à procriação e à intimidade, e por isso devem ser cobertas.

Aliás, todos sabem disso na prática. Basta observar o comportamento em ambientes como baladas. Mulheres que desejam atrair olhares encurtam deliberadamente suas roupas, usam decotes, vestidos justos, minissaias. Isso demonstra que a exposição do corpo não é moralmente neutra e não depende da autopercepção subjetiva, mas da própria natureza do corpo humano e de seus efeitos previsíveis.

Além disso, o critério proposto pelo padre é completamente inútil do ponto de vista moral. Pessoas consideradas feias namoram. Pessoas consideradas feias se casam. Sempre haverá quem se sinta atraído por elas. Logo, a modéstia não pode depender de como alguém se percebe esteticamente. 

O mais grave é que o Pe. José Eduardo sabe disso. Como teólogo moral, ele conhece perfeitamente esses princípios. O problema não é ignorância (ele é muito inteligente), é omissão e tergiversação. E isso ocorre porque ele se encontra engajado numa batalha constante contra grupos tradicionais, que são os que mais combatem a imodéstia. Nota-se no padre que a paixão da disputa domina e a razão começa a ceder.

E isso tem consequências. Almas se perdem. Fiéis se sentem autorizados a continuarem com a vergonhosa defesa do biquíni. A influenciadora que iniciou toda a polêmica se viu confirmada em seu erro. 



O escândalo se espalha.

Aqui precisamos falar também do problema específico das redes sociais. O Pe. José Eduardo tornou-se, na prática, um comentador compulsivo. Tudo vira conteúdo. Tudo vira resposta. Tudo vira provocação. Ele já não fala como teólogo, mas como influenciador que reage ao fluxo da internet. E isso é profundamente nocivo ao múnus sacerdotal.

Aqui relembremos conselhos fundamentais de Santo Afonso de Ligório em "A Selva" para a piedade sacerdotal, que servem muito bem aos nossos tempos marcados por padres influenciadores e tagarelas:

"O padre deve falar pouco. Quem fala muito com os homens, mostra que fala pouco com Deus. As almas de oração são avaras de palavras; quando se abre a boca do forno, escapa-se o calor. Tomás de Kempis diz: É no silêncio que a alma faz progressos. E S. Pedro Damião: O silêncio é o guarda da justiça. O mesmo nos ensina o Espírito Santo: No silêncio e na esperança estará a vossa força. Está no silêncio a nossa força, porque nunca se fala muito sem algum pecado."

"Com doçura: não se deixe ir à cólera nos seus discursos; não deixe escapar palavras injuriosas, mais próprias para azedar os ânimos, que para mover à piedade."

"Por S. Gregório de Nissa é o padre chamado um mestre da santidade. Mas, se o mestre é orgulhoso, como há de ensinar a humildade? Se é intemperante, como há de ensinar a mortificação? Se é vingativo, como ensinará a doçura?"

"Sede pacientes na humilhação. Eis o que nessas circunstâncias é necessário fazer: não se irritar nem se queixar, mas receber esses desprezos como justos castigos dos próprios pecados."

O sacerdote é chamado a ser mestre de santidade. Mas se se deixa dominar pelo orgulho, pela ironia, pela agressividade ou pela necessidade constante de responder, como ensinará humildade, moderação e prudência? O sacerdote ao perder o silêncio perde também a autoridade.

Mas o problema não terminou aí. Em seguida, em nova intervenção, o Pe. José Eduardo declarou estar “preocupado com os homens da nossa geração”, afirmando que muitos não conseguem olhar para uma mulher em traje de banho sem se sentirem tentados. E aqui precisamos parar e analisar com calma, porque essa fala introduz uma inversão moral extremamente grave.



Essa linha de raciocínio dialoga diretamente com o discurso do feminismo católico. Como já analisamos inúmeras vezes, a imodéstia feminina é uma bandeira central do feminismo. Quando mulheres são corrigidas por se vestirem de modo indecente, a resposta quase automática é: “os homens que se controlem”, “cuidem da própria taradice”, “o problema está no olhar masculino”.

É evidente que o homem é moralmente responsável pelo seu olhar. Ninguém nega isso. Homens chamados à castidade devem lutar contra pensamentos, desejos e movimentos desordenados. Contudo, disso não se segue - nem nunca se seguiu - que a mulher esteja dispensada da obrigação da modéstia. A Igreja sempre tratou essas obrigações como complementares, não como excludentes.

Além disso, homens verdadeiramente empenhados na castidade tendem, justamente por isso, a ser mais severos com as ocasiões de pecado. Eles não apenas resistem melhor às tentações, como também continuam exortando contra os trajes indecentes, tanto para elevar o padrão moral da sociedade quanto para evitar recaídas futuras. Como adverte São Paulo: “Aquele que pensa estar de pé, cuide para não cair” (1 Co 10,12).

No contexto concreto dessa polêmica, não se está discutindo “trajes de banho” em sentido genérico. Está-se falando do biquíni, o menor traje de banho existente, que se aproxima o máximo possível da nudez sem sê-lo formalmente. O esforço pela modéstia é unilateralmente do homem neste caso. Não há nenhuma razão proporcional para que mulheres andem com ele em público. Ele é indecente por si mesmo no contexto do banho misto. Por isso, homens estão plenamente justificados em exortar contra o seu uso público, independentemente de se sentirem pessoalmente atraídos ou não.


PS: O padre foi dirigido por padres do Opus Dei... Que surpresa... Só podia ser o Chaves, não?

Aqui ocorre outra distorção grave.

A luta ascética positiva é válida e necessária nas circunstâncias ordinárias da vida: trabalhar, estudar, circular pelas ruas, cumprir os deveres de estado. Nessas situações, o cristão não pode fugir do mundo e deve, de fato, educar seus sentidos e seu interior.

Mas isso não se aplica às ocasiões próximas de pecado. A tradição espiritual é absolutamente clara: diante de uma ocasião próxima e voluntária de pecado, a regra não é “treinar virtude”, mas fugir. A luta, nesse caso, é NEGATIVA. Evita-se o ambiente. Afasta-se da situação. Ninguém é chamado a provar sua virtude se expondo inutilmente ao perigo.

Colocar-se voluntariamente numa ocasião grave sem necessidade é, em si, um pecado. E diversos autores espirituais ensinam que, nessas circunstâncias, Deus não concede a graça eficaz para resistir. Não existe “luta ascética positiva” contra uma praia cheia de pessoas seminuas. O mandamento é simplesmente fugir.


O padre ignora completamente o contexto real em debate. Ou melhor, omite. Uma praia moderna, com milhares de mulheres seminuas, não exige “bisbilhotice” para provocar tentação. Basta enxergar. Apenas um cego não vê. Os exemplos dados - andar na rua, ser abordado por uma mulher mal-vestida - não são comparáveis, porque não envolvem busca voluntária da ocasião. A ida à praia envolve.


Aqui a confusão continua seu curso.

Sim, o mundo oferece inúmeras ocasiões de pecado. Mas isso não significa que todas sejam equivalentes. A teologia moral sempre distinguiu ocasiões remotas de ocasiões próximas, e ocasiões necessárias de ocasiões voluntárias. Pessoas não andam ordinariamente seminuas nas ruas, nos mercados ou nos ambientes de trabalho. A própria defensora do biquíni reconhece isso ao dizer que ele só seria “adequado” à praia e à piscina.

Ao equiparar o ambiente público ordinário à praia moderna, o padre legitima justamente o pior dos ambientes. E, ao fazer isso, libera a prática para os fiéis. É o que se constata nos comentários da publicação.






O resultado é previsível: seguidores sentem-se autorizados não apenas a manter esse costume objetivamente desordenado, mas também a suspeitar de homens que exortam contra ele das piores perversões sexuais possíveis. 


E o mais grave: o argumento não prova absolutamente nada. Não prova que o uso do biquíni seja lícito. Nem prova que quem o critica esteja errado. Pelo contrário.

Primeiro ponto: quem pratica uma virtude adquire maior clareza intelectual para identificar e combater os vícios contrários a ela. O vício, ao contrário, obscurece o juízo prático. Um homem habituado à pornografia torna-se progressivamente mais tolerante às ocasiões próximas. Ele normaliza a nudez, depois a seminudade, e deixa de perceber o problema moral. Esse é um efeito clássico da habituação ao vício. Não há qualquer sentido em pervertidos sexuais serem mais rigorosos com a modéstia do que os virtuosos.

Por isso, todos os conselhos espirituais sérios para o combate à pornografia insistem na eliminação das ocasiões próximas. O Pe. Paulo Ricardo, como vimos, ensina explicitamente que o homem deve evitar olhar mulheres de biquíni. Não se combate uma cultura pornográfica ampliando estímulos sensuais, mas restringindo-os.

Segundo ponto: mesmo que alguém que defenda a modéstia esteja pessoalmente lutando contra um vício sexual, isso não invalida em nada o argumento moral. A verdade de um princípio não depende da santidade subjetiva de quem o enuncia. Um pecador pode exortar legitimamente à virtude.

Um homem pode condenar a gula mesmo sendo obeso. Santo Tomás era obeso, e isso jamais invalidou sua doutrina sobre a temperança. Do mesmo modo, um homem que luta contra a pornografia pode - e deve - condenar trajes imodestos, porque está promovendo um bem objetivo para toda a sociedade.

Mesmo que fosse um hipócrita, o erro estaria apenas na incoerência pessoal, não na verdade defendida. 

No fundo, o que estamos vendo é uma inversão completa: transforma-se a imodéstia em algo neutro, e a defesa da modéstia em suspeita de perversão sexual. Os inimigos da Igreja fazem algo parecido. O movimento LGBT, por exemplo, acusa a Igreja de ser homofóbica justamente por muitos dos seus líderes serem homossexuais, esquecendo-se que isso não torna o pecado da sodomia em algo virtuoso. Esta inversão é satânica, pois consiste exatamente em chamar o mal de bem e o bem de mal.


Conclusão 

Para concluir, é preciso deixar isso absolutamente claro: não estamos discutindo preferências pessoais ou costumes culturais, mas princípios objetivos da moral da Igreja. Quando esses princípios são relativizados, as consequências não são abstratas - são espirituais. Consciências se confundem, o pecado perde sua gravidade e as almas ficam mais vulneráveis à ação do Inimigo.

A modéstia não é opcional nem circunstancial. Ela é uma exigência do direito natural e uma forma concreta de caridade. Enfraquecê-la não protege ninguém; ao contrário, expõe os mais fracos e normaliza ocasiões próximas de pecado.

Sacerdotes têm uma responsabilidade particular nesse ponto. Suas palavras formam consciências. Quando a clareza é substituída por ambiguidades ou por omissões calculadas, o resultado é o escândalo. O sacerdote deixa de ser luz e torna-se pedra de tropeço. 

Por fim, o católico precisa escolher se seguirá a tradição moral da Igreja ou se continuará tentando conciliar a verdade com o espírito do mundo. Essas duas coisas são incompatíveis. É da obediência à verdade que depende a salvação da nossa alma e a vitória de Cristo sobre o pecado.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

A pastoral contra o altar: Diácono "feministo" Varela e o progresso que anda para trás


Em defesa do acolitato feminino, o diácono Varela sustentou que, além de as acólitas não atrapalharem, elas seriam até benéficas para as vocações sacerdotais, pois preparariam desde cedo os meninos a lidarem com o protagonismo e a liderança femininos na Igreja. Em resposta aos críticos, acrescenta que o seminário do Rio de Janeiro estaria repleto de vocações.

Todo o argumento é torto.
Do ponto de vista estatístico, embora o número de católicos tenha aumentado, o de seminaristas, em âmbito global, vem caindo de modo consistente. É o que aponta o Anuário Pontifício ano após ano. A própria CNBB, ao comentar o Anuário Pontifício de 2025, reconhece:
"A tendência temporal observada no mundo do número de seminaristas maiores denota uma diminuição ininterrupta desde 2012."
Portanto, apontar uma realidade local e atípica é manifestamente insuficiente para refutar um dado geral e universal. Um caso particular não invalida uma tendência universal, sobretudo quando esta se estende por mais de uma década.
Em segundo lugar - e aqui está o ponto decisivo -, o argumento fundamental em favor do acolitato exclusivamente masculino não é de ordem pragmática ou pastoral, como se sua finalidade primária fosse simplesmente promover vocações. O acolitato, assim como as antigas ordens menores, surgiu historicamente como uma redistribuição das funções próprias do diácono.
É à luz desse dado que se compreendem as reiteradas condenações, por parte de Papas e concílios, do serviço feminino ao altar.
É por essa razão que certos Papas afirmaram que o sexo feminino era "um sexo para o qual tais tarefas não são apropriadas" e que o serviço feminino do altar constituía um "desprezo pelas coisas divinas". Pela mesma razão, alguns concílios particulares - como os de Nîmes e de Paris - qualificaram tal prática como "antiapostólica", "indecente" e contrária às leis divinas.
O serviço feminino do altar não é, portanto, uma questão neutra ou meramente disciplinar: ele constitui, na prática, uma defesa do diaconato feminino por procuração. Se ainda não é - ao menos formalmente - uma defesa doutrinal do diaconato feminino, é inegavelmente uma defesa prática.
Por isso, mesmo quando a Igreja não podia contar com diáconos suficientes para todos os serviços litúrgicos, sempre protegeu o diaconato mediante a salvaguarda de uma certa ordenação e de uma semelhança objetiva nos ministros que os substituíam. O caráter exclusivamente masculino do acolitato é a evidência histórica mais clara dessa proteção.
Em terceiro lugar, o fato de os padres terem de lidar com mulheres na vida eclesial não constitui prova alguma de que a convivência mista seja adequada em qualquer circunstância. Menos ainda em um contexto que a própria Igreja sempre reprovou ou, no mínimo, cercou de muitas cautelas, como é o convívio misto dentro do espaço litúrgico.
Pio XI, na encíclica "Divini Illud Magistri", reprova explicitamente a chamada "coeducação" ou educação mista, qualificando-a como uma expressão do naturalismo que nega os efeitos do pecado original. O Papa recorda, ademais, que o Criador dispôs a convivência plena e harmoniosa entre os sexos apenas no contexto do matrimônio.
"De modo semelhante, errôneo e pernicioso à educação cristã é o chamado método da « co-educação », baseado também para muitos no naturalismo negador do pecado original, e ainda para todos os defensores deste método, sobre uma deplorável confusão de idéias que confunde a legítima convivência humana com a promiscuidade e igualdade niveladora. O Criador ordenou e dispôs a convivência perfeita dos dois sexos somente na unidade do matrimônio e gradualmente distinta na família e na sociedade. Além disso não há na própria natureza, que os faz diversos no organismo, nas inclinações e nas aptidões, nenhum argumento donde se deduza que possa ou deva haver promiscuidade, e muito menos igualdade na formação dos dois sexos. Estes, segundo os admiráveis desígnios do Criador, são destinados a completar-se mutuamente na família e na sociedade, precisamente pela sua diversidade, a qual, portanto, deve ser mantida e favorecida na formação educativa, com a necessária distinção e correspondente separação, proporcionada às diversas idades e circunstâncias. Apliquem-se estes princípios no tempo e lugar oportunos, segundo as normas da prudência cristã, em todas as escolas, nomeadamente no período mais delicado e decisivo da formação, qual é o da adolescência; e nos exercícios ginásticos e desportivos, com particular preferência à modéstia cristã na juventude feminina, à qual fica muito mal toda a exibição e publicidade."
Se a educação para o matrimônio não exige, nem mesmo recomenda, uma convivência indiferenciada desde a infância, com muito menos razão tal convivência se justifica na preparação para o sacerdócio, cuja essência inclui o celibato e a separação do mundo.
Constata-se, assim, que a posição constante da Igreja sempre foi a de promover o convívio misto apenas quando existe uma causa necessária, proporcional e, sobretudo, atual – jamais por motivos remotos ou hipotéticos.
Se o argumento do Catequista fosse correto, então os seminários deveriam estar abertos a moças interessadas em cursar teologia, promovendo um convívio irrestrito entre mulheres e seminaristas. Contudo, como todos sabem, isso não ocorre - e graças a Deus não ocorre -, pois é evidente a ruína que tal prática representaria para as vocações sacerdotais.
O erro de fundo que atravessa toda essa argumentação é o positivismo: a redução da Tradição a um conjunto de práticas contingentes, válidas apenas enquanto funcionam segundo critérios modernos de eficiência pastoral, que já se provaram bastante ineficientes. Tal mentalidade substitui o critério da continuidade pelo da utilidade imediata.
O positivismo não é apenas a causa formal daqueles conhecidos asteriscos lançados sobre a Tradição - isto é, de costumes e normas estranhos ao desenvolvimento litúrgico e doutrinal homogêneo que, vez ou outra, infiltram-se na história da Igreja. Ele também impede o exercício correto da prudência sobrenatural, que deveria ser o princípio norteador da ação pastoral.
Além disso, o positivismo produz uma mudança psicológica profunda: incapacita os pastores de julgar segundo a mens Ecclesiae. A mente da Igreja sempre julgou o presente à luz do passado, porque é justamente o passado - transmitido como Tradição viva - que exprime a sua mente.
Somente no tempo de Cristo foi possível olhar legitimamente para o passado com os olhos do presente, pois Cristo era o cumprimento do passado. Mas, como recorda o Pe. Chad Ripperger:
"Uma vez que a obra de Cristo se tornou parte da história e Ele ascendeu aos céus, devemos sempre olhar para trás, para Cristo e para a nossa tradição, a fim de obter uma compreensão autêntica do presente" (Topics on Tradition, p. 50).
O positivismo, portanto, impede o juízo conforme a mente da Igreja. Ao inverter o eixo do discernimento - passando a olhar o passado com os olhos do presente -, ele gera uma atitude de suspeita sistemática em relação à Tradição. E essa suspeita é, formalmente, a antessala do progressismo.
Por isso, a defesa da Tradição feita pelo conservador positivista é sempre frágil e quase sempre injuriosa. Reduz as razões profundas da Tradição a meras mesquinharias ou a preconceitos mal disfarçados. Quando uma disciplina tradicional e multissecular entra em conflito com uma pastoral moderna duvidosa, o conservador positivista não hesita em chamar a primeira de "uma grande bobagem".
Nessa mentalidade, é preciso dizê-lo com clareza: o conservador positivista não é um católico obediente, mas apenas um progressista envergonhado. Não preserva a Tradição: apenas a tolera provisoriamente, enquanto não se torna inconveniente.

segunda-feira, 30 de junho de 2025

Todo Católico é Tradicional? Só os que Tocaram a Tradição. Por que é Justo Ser Chamado Católico Tradicional.

Padres do Instituto Bom Pastor

Os debates recentes em torno do Centro Dom Bosco, conquanto tenham lançado muitos à febre da intemperança, têm servido, ao mesmo tempo, como ocasião para purificar as premissas da controvérsia. Nada como o fogo da discórdia para revelar os metais autênticos de um argumento — ou, pelo menos, separar o ouro das latas.

A última das querelas envolve católicos chamados conservadores que reagem com certa indignação ao apelo de católicos tradicionais para que se “abrace a Tradição”. O fundamento da objeção parece, à primeira vista, razoável: todo fiel que cumpre os preceitos da Igreja seria, em sentido pleno, um católico tradicional. Mas o problema — como quase sempre ocorre nos debates modernos — não está na lógica, mas na linguagem.

Tal objeção, todavia, revela mais uma incompreensão do que propriamente um argumento. Em geral, os chamados católicos tradicionais não empregam a expressão “aderir à Tradição” em sentido meramente canônico ou jurídico, como se bastasse observar os preceitos mínimos da fé. Trata-se, antes, de uma experiência existencial e espiritual: a redescoberta — muitas vezes tardia — da liturgia perene e dos costumes imemoriais da Igreja, quase sempre ausentes das paróquias comuns.

Expressões como “conheci a Tradição” ou “reencontrei a Tradição” nada mais são do que metonímias para descrever essa realidade interior: o assombro diante da liturgia tradicional, o encantamento de quem, pela primeira vez, respira o ar dos séculos, e não o hálito rarefeito das modas transitórias, e o grito de quem, após longo exílio, retorna à pátria. É sobretudo nos ambientes tridentinos que o fiel experimenta, muitas vezes pela primeira vez, essa impressão de eternidade: o contato concreto com a Tradição viva, que não envelhece porque, sendo verdadeira, permanece.

Dizer, portanto, que “toda missa é tradicional” ou que se assiste à “tradicional missa da paróquia do bairro” é, no mínimo, uma forma requintada de autossabotagem — ou melhor, uma forma velada de mentir para si mesmo. A honestidade intelectual exige reconhecer que, em muitas paróquias, o latim desapareceu, o canto gregoriano extinguiu-se, os paramentos clássicos foram relegados ao esquecimento e os costumes imemoriais da Igreja simplesmente deixaram de existir há décadas. Não se trata, aí, de uma questão de gosto pessoal, mas de uma constatação da ruptura cultural e espiritual com o passado.

É nesse ponto que a ironia se impõe: muitos católicos acham que podem preservar a Tradição sem jamais tocá-la. Como um homem que quisesse herdar o patrimônio de família sem nunca visitar a casa dos avós, nem abrir os baús, nem cheirar os livros.

Aqueles que conhecem, ainda que superficialmente, a realidade litúrgica da maioria das igrejas modernas sabem que canções como Romanos 12, entoadas por certos grupos ditos piedosos, não reproduzem — nem remotamente — a experiência da Tradição. Ao contrário, produzem uma espécie de anestesia espiritual, na qual se dissimula a ausência do sagrado com gestos mecânicos e palavras ocas. Persistir em negar essa evidência, sob pretexto de zelo ou obediência, é fechar os olhos ao que salta aos olhos: é escamotear a realidade com fórmulas inócuas — ou, para usar a palavra justa, é faltar com a verdade.

Liturgistas como Klaus Gamber sustentaram que o rito de Paulo VI, por sua gênese e estrutura, seria um criação essencialmente contemporânea, não podendo fornecer uma experiência autêntica da Tradição. Bento XVI, mais otimista, sugeriu que esse rito podia dar essa experiência sendo fecundado pela forma clássica, numa espécie de “mutua enricchitura”. Mas, qualquer que seja a posição, um fato permanece: a maioria esmagadora das paróquias não fornece, nem na forma nem no conteúdo, uma experiência sensível da Tradição. Fala-se da eternidade, mas tudo cheira ao efêmero.

Por isso, afirmar que o rito romano tradicional tem sido, nas últimas décadas, o principal veículo da experiência concreta da Tradição não é juízo opinativo, mas constatação empírica. Sem ele, é ilusório pensar numa restauração da memória litúrgica e espiritual que a Igreja contemporânea tanto necessita.

Eis, portanto, o núcleo da proposta tradicionalista: “aderir à Tradição” significa reconciliar-se com as fontes vivas da fé, reencontrar o elo perdido entre o presente e o passado eclesial. Foi essa também a intenção manifesta de Bento XVI ao liberar generosamente a Missa Tridentina, com vistas a permitir que a Igreja “se reconcilie consigo mesma”.  E se a reconciliação requer memória, a Missa Tridentina é seu álbum de fotografias: apagá-la seria como apagar a própria identidade.

A esse respeito, vale recordar uma lição do Pe. Chad Ripperger. Ao comentar a visão de Leão XIII sobre os cem anos de liberdade concedidos por Deus a Satanás para tentar a Igreja, o sacerdote observa que tal período simboliza o ataque sistemático a tudo quanto é imemorial. Satanás, ao pedir esse tempo, desejava justamente destruir os monumentos da Tradição. Recuperá-los, portanto, é a missão própria do católico tradicional: missão de resistência, de testemunho e de restauração.

É nesse contexto que se compreende, em toda a sua legitimidade, o convite dirigido aos fiéis de outros movimentos e sensibilidades a que conheçam e abracem a Tradição. Não se trata de exclusivismo, mas de coerência histórica e doutrinal. Tradição não é apenas aquilo que acontece dentro da Igreja, mas aquilo que, dentro dela, se transmite com longevidade e universalidade. Um carismático ou um membro do Caminho Neocatecumenal pode, sem dúvida, ser um católico fiel. Mas não pode, por definição, ser considerado tradicional. E a razão é simples: a Tradição exige tempo. A Tradição não se improvisa — ela amadurece no tempo. Um movimento cujo modo de ser tem quarenta ou cinquenta anos pode ser válido, mas ainda não é tradição: é juventude e juventude com todos os seus erros. A juventude pode não ser culpada por eles; mas tampouco pode ensinar com a sabedoria dos anciãos. Não se trata aqui de censura doutrinal, mas de um juízo cronológico.

Em suma: o convite a “abraçar a Tradição”, quando bem compreendido, é mais do que legítimo — é necessário. Pois a crise da Igreja contemporânea é, em boa parte, uma crise de amnésia. E quem perde a memória perde o nome, o rumo e até a fé. Porque não se apaga a memória da Esposa de Cristo sem apagar, pouco a pouco, o rosto do próprio Senhor.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Rejeito a Carona (Augusto Pola Junior)


Um amigo perguntou-me se eu iria falar da questão da “conversão” de Pedro Affonseca, ex-presidente do Centro Dom Bosco (CDB) que recentemente fez um “mea culpa” em favor de uma, digamos, vida paroquial mais pacífica. Respondi que não tinha interesse, pois o drama da Igreja pós-conciliar, cujos maus frutos são vistos nas paróquias, e cuja esperança de mudança não são vistas no horizonte quando se está dentro desses muros oficialistas, é realmente causador de dissonâncias cognitivas grandes. Diante da visão tradicional em contraste com os hábitos paroquiais, na impossibilidade de haver harmonia entre ambos, não cabe a mim ser fiscal de sua consciência. Se ele acha que seu tesouro está na paróquia e quer vender todos os bens para estar nesse terreno, que seja.

Em vídeos anteriores, ainda na época de CDB, Pedro Affonseca tinha dito que era continuísta, mas depois, estudando a crise, passou a ser tradicionalista, embora sem querer moralizar os continuístas, respeitando-os. Recentemente se retratou desta sua postura anterior, optando por “ficar em harmonia com a hierarquia da Igreja”, concretamente em sua paróquia. Ok. Minha opinião sobre isso nem é capaz de mudar sua situação, nem é importante. O máximo que fiz foi, no privado com alguns amigos, compartilhar algumas análises de conjunturas e fazer algumas ironias sobre a situação precária da Igreja. É que a repercussão sobre o vídeo do Pedro não é uma causa, mas o efeito de um estado de coisas. Estou mais interessado neste âmbito.

Mas isso é como eu decidi agir diante deste caso. Diferentemente é a mentalidade do influencer que precisa usar o caso para seu benefício. É o que fez o Santa Carona, que em seu Instagram montou todo um carrossel de textos e imagens que vamos analisar. Novamente, não estou interessado no Pedro (como ironizei em meu Facebook, sua retratação em nada impacta a indústria de anime, então, segundo este critério, não é importante), mas no âmbito mais psicológico-sociológico e, por que não, teológico (quando aplicável).


Mas que raio de título é esse? Tentação de Sempre? Até onde sei, a tentação de sempre é o “SEREIS COMO DEUSES”, ou seja, o pensamento que, uma vez consentido, causou o Pecado Original. O que isso tem a ver com uma posição diante da crise? Embora possa haver soberba em torno do debate acerca da crise da Igreja, tal vício capital não é exclusividade de uma só corrente. Todos – tradicionalistas, carismáticos, tradismáticos, continuístas, libertários, etc. – podem ter sua posição tanto por soberba (para querer se sentir superior aos outros ou para que suas próprias idiossincrasias estejam acima do bem e da verdade) quanto por humildade (de tudo que sabe e estudou, tem esse opinião).

Este título carrega consigo não só aquele sensacionalismo de que os influencers adoram (ditadura do like, como criticam corretamente os libertários, ainda que por motivos errados), mas também uma sugestão perniciosa, a saber, que a posição tradicionalista é fruto de uma tentação (a de sempre) enquanto que a posição continuísta estaria livre, não em potência, mas em ato, desta tentação.

Ainda bem que se trata de uma carona. Se fosse taxista, só pelo título já suspeitaria de que estaria trapaceando no taxímetro.


Claro, parou.




Parece que sentiu peso na consciência por criticar a hierarquia. Bom, isso é problema dele. Como não estou interessado no Pedro, mas na análise influencerística do Santa Carona, sigamos.





Zelo pelo sagrado é uma virtude. O problema dos zelotas é que trocaram o zelo religioso pela ambição política. O religioso deveria servir aos fins políticos, o que é obviamente uma inversão, o correto é que o poder temporal seja submisso ao poder religioso. Os zelotas inverteram os princípios. Neste sentido, descendente dos zelotas, hoje, seriam os teólogos da libertação ou, em sinal oposto a estes, os conservadores-direitistas, muito afoitos às narrativas ideológicas da política atual, não os tradicionalistas, que por princípio militam pelo Reinado Social de Cristo.

Aliás, o zelo, como dito, é uma virtude, muito em falta em nossos dias. Pecam terrivelmente pela falta de zelo, por exemplo, os laxistas, dentre os quais muito são conservadores-continuístas. É um zelo a mulher usar véu em lugar sagrado, ratificado perenemente por nada mais nada menos que São Paulo, mas os continuístas acham estranho usar véu. É um zelo comungar na boca e de joelhos, mas a maioria dos católicos não o fazem, apegando-se ao argumento do “direito” sobre a piedade. É um zelo o canto gregoriano na Missa, mas os continuístas não fazem questão de militar pela qualidade da música litúrgica… E assim poderíamos seguir passando por vários tópicos. O que quero mostrar é que essa falta de zelo é sempre em favor dos costumes do mundo contra o costumes tradicionais da Igreja (nem vou adentrar na questão doutrinal que fundamentam tais práticas, coloquemos em termo de costume, do jeito que o conservador gosta). Sendo assim, quem é mais zelota, espiritualmente falando, os tradicionalistas ou os continuístas, sobretudo em seu subgrupo laxistas?


As consequências do pensamento zelota não podem deixar de ser catastróficas, pois é a inversão da ordem que coloca o religioso a serviço de objetivos políticos.

Agora, o que isso tem a ver com os tradicionalistas? Estes não têm nem estão lutando pelo poder político. Quanto ao poder eclesiástico, eles são perseguidos. Por mais que se diga que se deva acolher a “todos, todos e todos”, sabe-se que, na prática, os tradicionalistas não são bem-vindos nas paróquias. Ademais, são, segundo a quantidade, minoritários. Tudo o que os tradicionalistas têm é a defesa de um conjunto de teses críticas ao Concílio Vaticano II, argumentando que dito Concílio rompeu com a ortodoxia da fé. Ou seja, o âmbito de influencia das correntes tradicionalistas é o campo cultural, sem influência sobre o poder eclesiástico vigente.

O tradicionalismo cresce “por fora” da Igreja, porque “por dentro” são perseguidos.


A preocupação dos zelotas era terrena. Quem se enquadraria melhor na descrição de “zelo exacerbado e desordenado pelo Templo” é o fariseu, justamente quem mandava no templo, quem detinha o poder espiritual. E precisamente porque não queriam que alguém reinasse acima deles no Templo, mataram o próprio Deus.

Toda uma bizarra analogia com os zelotas para chegar no grosseiro sofisma de que a culpa é do mensageiro?

Se as coisas estão ruins, a culpa não é do reformador e de quem detém o poder da ação concreta, mas de quem denuncia os maus frutos?

Malvados “zelotas” que falam o que estão vendo. Seria melhor que fizesse como o avestruz, que enterra a cabeça na terra para não ver.

forma mentis do Carona lembra-me uma passagem que escrevi na Apresentação da edição que fizemos das obras morais e pastorais de Santo Agostinho:

"Havia na época de Santo Agostinho os hereges priscilianistas que, além de muitas heresias doutrinais, defendiam um método de atuação a partir de um pensamento permissivo à mentira: “pode-se mentir para converter o próximo à nossa religião”. Por conta disso, eles fingiam ser católicos para, quando tivessem oportunidade, convencer os católicos a apostasiarem em favor da heresia de Prisciliano. Consêncio está preocupado com a refutação das heresias, e nisto foi elogiado pelo Doutor da Igreja, e com o desmascaramento dos hereges que se fingem de católicos para enganar os católicos. Neste ponto, consulta Santo Agostinho para saber se seria uma boa ideia imitar o método priscilianista “para o bem”, ou seja, mentir para fazer-se passar por priscilianista a fim de os converter à fé católica, isto é, à Verdade, ou pelo menos, quando isso não fosse possível, os descobrir para que não mais pudessem mais atuar a modo de espião no meio católico.

Eis uma obra obrigatória [A obra Contra a Mentira] para qualquer teólogo pastoralista moderno, incluindo também os defensores do ecumenismo irenista moderno, cuja abordagem pastoral se tornou hegemônica no período após o Concílio Vaticano II. Descobrirão que Santo Agostinho já refutava e previa o fracasso de seus intentos pastoralistas, pois, em relação ao que praticam hoje, no que diferem em essência do método priscilianista?

Em nome de um diálogo ecumênico, por exemplo, os católicos não devem fingir que a devoção aos Santos e a Nossa Senhora não são, assim, tão importantes? Não cedem os bispos as suas igrejas para serem sacrilegamente profanadas pelos cultos de falsas religiões? Não são marginalizados os católicos polemistas, porque supostamente estariam atrapalhando a pastoral da igreja com seus discursos dito rígidos? Na conversão dos próprios jovens, não omitem os padres aqueles preceitos doutrinais que mais contrastam contra o mundo moderno, principalmente os de modéstia e castidade, porque isso supostamente os entristeceria de praticar a religião? E o que dizer dos casados? Estaria a castidade conjugal fora de moda? E para que combater o feminismo em favor dos conselhos do Apóstolo Paulo aos Efésios, se em nome da “adaptação para conversão” a Igreja pode incentivar disciplinas feministas, até chegar ao ponto de aceitar que acessem a Sagrada Comunhão os adúlteros recasados? E o termo empregado para permitir esses e outros desvios escandalosos não é o tal do “discernimento pastoral”?"

Em nada ficaria surpreso Santo Agostinho em ver que, diante de tal pastoral enlouquecida, ou mais precisamente, mentirosa, pois não são estas as práticas que a Igreja crê e defende, mesmo os católicos supostamente convertidos seriam mais mundanos do que católicos, uma espécie de pagão batizado:

Ficaria, pois, muito claro que não hesitamos em condenar, com toda a sinceridade de nossa piedade, os perversos erros da heresia priscilianista acerca de Deus, da alma, do corpo e de outros temas; porém, no que se refere a mentir para ocultar a verdade, admitiríamos (Deus nos livre!) um dogma comum com eles? Ora, este é um mal tão grande, que mesmo se nosso empenho de os capturar e os mudar por meio da mentira prosperasse, de modo que fossem conquistados e mudados, nenhum ganho compensaria o dano que resultou disso: nós mesmos nos corrompemos ao buscar sua correção. De fato, ao utilizar este embuste, perverteríamos a nós mesmos em parte, e eles seriam corrigidos pela metade, visto que não corrigiríamos neles a opinião errônea de que se pode mentir em prol da verdade, pois seria o que lhes ensinaríamos e lhes mandaríamos pôr em prática a fim de poder capturá-los. E assim, não os emendaríamos ao não lhes arrancar essa patranha pela qual creem que se possa camuflar a verdade, e, além disso, enganaríamos a nós mesmos ao lhes buscar por meio dessa falsidade. Ademais, nunca poderemos saber a sinceridade da conversão daqueles aos quais mentimos quando estavam na perversão, pois provavelmente farão, uma vez capturados, o que fizemos para capturá-los, e não só porque estavam acostumados a fazê-lo, mas também porque encontraram o mesmo comportamento conosco” (Santo Agostinho, Contra a Mentira, 6)

Em essência, a pastoral moderna, que é permissiva com os pecados do mundo, e, por isso, favorece a corrupção dos costumes, junto com seu ecumenismo moderno, que pratica o relativismo religioso e favorece a difusão de heresias e erros doutrinais, já nasceram para fracassar. Não tinha como dar certo."

É verdade que Santa Carona não chega ao absurdo de propor a mentira, mas a simples omissão para “não expor” as fragilidades. Todavia, tais fragilidades são fruto de má doutrina e, portanto, expô-las não é zelo excessivo, mas zelo.

Estão errados os tradicionalistas em seus argumentos? Denunciam erros que não são erros? Que sejam refutados ou contrapostos. Rotulá-los de “zelotas”, porém, é desonesto.

O problema é que fazer isso significa adentrar no mérito de questões sensíveis. E para o Santa Carona, fazer isso não é zelo, mas “expor a fragilidade da Igreja”, como se a Igreja estivesse fragilizada por causa de seus críticos, e não por causa de heresias que obscurecem a sua pureza doutrinal…

É arriscado pegar carona com esse tipo de miopia.


Também não me espanta, ainda que por motivos diferentes do Carona. De fato, a dinâmica hodierna das paróquias modernas não são harmonizáveis com o conhecimento da Crise da Igreja à luz da Tradição. É um contraste muito grande que vai desde a música litúrgica (normalização do violão) até conteúdo catequético.


Novamente demonstração da miopia do Carona. Mas antes, vamos colocar um pingo no "i".

É um elemento desonesto da retórica na internet chamar de ataque o que é crítica. Santa Carona faz isso. Espero que o faça por vício inconsciente de influencers, que por usar muito a internet acaba pegando, sem notar, muitos cacoetes. Mas ataque é diferente de crítica. Quem ataca a Igreja é, doutrinalmente, a heresia, e, moralmente, os pecados públicos, que, por causa de seu mau exemplo, induzindo outros ao pecado e ao erro, se chamam escândalos.

Quem refuta uma heresia ou critica escândalos pratica um ato de zelo, na esteia de como disse Santo Agostinho: “Ficaria, pois, muito claro que não hesitamos em condenar, com toda a sinceridade de nossa piedade, os perversos erros da heresia“.

Os apostolados tradicionais não são um tabloide ou mídia de fofoca, senão que seus discursos, em sua atuação polêmica-intraeclesiástica – versam sobre a crise e/ou sobre os efeitos gerados por ela.

Ademais, os escândalos e heresias são tanto mais graves quanto mais alta é a hierarquia de quem cai neles. Assim, por ser maior os escândalos causados por prelados, maior a necessidade de corrigi-lo, sob risco de outras almas – sobretudo as sem instrução – perecerem juntas.


Outros artigos [aqui e aqui] já lidaram recentemente sobre essa questão do tradicionalista e a vida paroquial. Mas volto a repetir: Se a vida paroquial é nociva ao progresso espiritual [por causa do tal aggiornamento pós-conciliar que impregnou na pastoralidade moderna], é prudente o afastamento (que não necessariamente significa isolamento).

Sobre “se refugiar em centros ideológicos”, aqui já saímos da miopia para adentrar na absurdidade.

O “Maledicente Carona” sugere que a vida paroquial não é ideológica enquanto que os centros – associações civis criadas por católicos – o são. Primeiramente, não é porque uma associação de leigos católicos não está sob jurisdição paroquial que ela é ideológica. Segundo, sobre ideologia nas paróquias, basta voltar ao que escrevi na Apresentação que reuniu algumas obras de Santo Agostinho.

A coisa é absurda, porque é uma completa inversão. Centros como o Dom Bosco buscam ter uma forte base tomista, cuja característica é não ser ideológica. As paróquias, em geral, estão mais ou menos contaminadas por uma corrente teológico-ideológica chamada “Nova Teologia”.

Ok, talvez eu esteja sendo injusto com o Santa Carona. Ele toma paróquia em seu sentido ideal, que significa “estabelecimento no estrangeiro”. Seria o local onde os leigos, após seu período de trabalho no mundo, mas não sendo do mundo, iriam para poder estar em casa, ou seja, seguros quanto aos ensinos e atividades, todos eles iluminados pela fé e aquecidos pela caridade.

Ó Carona, pretensamente Santa, que imagem fazes da paróquia? Medita, recomendo, a passagem de São Lucas 18,1: “Acaso quando o filho homem voltar achará a fé na terra?”. Medita o que o Catecismo atual da Igreja (não vou recomendar o Catecismo Romano de Trento, para não soar ideológico) em seu n. 675: “Antes da vinda de Cristo, a Igreja deverá passar por uma prova final, que abalará a fé de numerosos crentes. A perseguição, que acompanha a sua peregrinação na Terra, porá a descoberto o «mistério da iniquidade», sob a forma duma impostura religiosa, que trará aos homens uma solução aparente para os seus problemas, à custa da apostasia da verdade. A suprema impostura religiosa é a do Anticristo, isto é, dum pseudo-messianismo em que o homem se glorifica a si mesmo, substituindo-se a Deus e ao Messias Encarnado“.

Medita e depois responde: Estão as paróquias blindadas da impostura religiosa? Coloque os óculos para não ver miopemente, e responde: A substituição do canto gregoriano por ritmos mais sentimentais, o padre rezando de frente ao povo, o leigo leitor em substituição às ordens menores, o não-uso do véu, a comunhão na mão, a imodéstia feminina, o dialoguismo, a escassez de parresia, etc., está mais próximo do homem que glorifica a Deus ou do homem que glorifica a si mesmo?

Responde Carona, quem é o responsável por esse estado de coisas? Todo esse turbilhão humanista (humanismo será a religião do Anticristo, isto é, o homem que se glorifica a si mesmo) propicia ou atrapalha o progresso na santidade?

Não é na Eucaristia onde mais gloriamos a Deus? Então por que a liturgia é onde a coisa está mais avacalhada? Por que é tão difícil achar um lugar onde a Adoração Eucarística seja feita de maneira recolhida, sem o barulho dos instrumentos e dos ritmos mundanos?

A realidade paroquial está ruim. E o que você faz? Culpa quem é vítima desse estado de coisas!

Honestamente, quem tu achas que causa mais mal do que bem às almas sem instrução, quem denuncia esse estado de coisas, mostrando que há uma riqueza que as próprias autoridades atuais estão escondendo, ou quem, devendo instruir as almas na ortodoxia da Fé, não só não o faz, como ainda o faz ensinando ao modo hegemônico, isto é, humanista?

Carona, para que a Igreja não fosse considerada machista, mudaram a tradução de São Paulo! Não é mais submissão (sede submissas a seus maridos), mas solicitude (sede solícitas). Isto é lido em plena missa, em determinado domingo!

Continuas tankando o que sugeriste? Não há ideologia nas paróquias?

É verdade que dirás, mais a frente, que há muito modernismo nas paróquias. Mas por que deixar vago demais? Por que, não mais sendo míope, mas se cegando, criticas aqueles que com palavras condenam os erros que a hierarquia pratica com ação?


Só pode haver comunhão na verdade. Na Igreja, a comunhão significa, efetivamente, concórdia na Fé. Ou seja, além do batismo (que nos dá a vida sobrenatural) é necessário a integridade da fé.

Aqui evidenciamos novamente a miopia de Carona. Ele inverteu a lógica. diz que “a fé católica só está verdadeiramente viva quando há comunhão com a Igreja”, quando na realidade só há comunhão com a Igreja quando a fé católica está verdadeiramente viva.

A régua não é a comunhão, mas a ortodoxia da fé. Xô fraternidade humanista!

Assim, quando o Papa Francisco mina a ortodoxia, gera escândalo. E criticar – filialmente, claro – o escândalo não será “ferir” a comunhão ou “expor fragilidade”, mas zelo.

forma mentis continuísta é uma bagunça mesmo.

Ele admite, corretamente, uma heresia em roga: o modernismo. Admite que o modernismo é canal para perdição das almas. Admite que invadiu as paróquias. MAS AÍ DE TI SE NÃO FREQUENTAR AS PARÓQUIAS E TENTAR FAZER APOSTOLADO PRESCINDINDO DELAS! Acima de tudo, é preciso a comunhão, embora a heresia não seja fonte de comunhão. Mas estar em comunhão é estar próximo da heresia, de outro modo, seria melhor afastar-se da vida paroquial. Mas se afastar da vida paroquial é não querer pagar o preço da comunhão. E o preço da comunhão é uma vida lado a lado com a heresia, em pleno ambiente paroquial, que é fonte de descomunhão.

Parece contraditório. Mas só o é do ponto de vista Tradicional. Do ponto de vista humanista, é perfeitamente possível conciliar esse estado de coisas. Basta colocar a “paz com o irmão” acima da ortodoxia da fé, e chamar isso de caridade ou prudência. Aos críticos desse estado de coisa – desse “fingimento pastoral-paroquial”, de fingir por exemplo, que comunhão na mão e tão piedoso quanto comunhão na boca, ou que o véu é mera questão de gosto, quando não esquesitice reacionária – basta chamá-los de “revoltosos” que lançam “ataques”. Jogo de linguagem, sim, mas a “comunhão” tem seus preços a pagar…

O Carona mira numa coisa e acerta noutra. De fato, é próprio da estratégia diabólica trabalhar com opostos igualmente errôneos (os revolucionários chamam de dialética e tomam isso como método de vida válido. Sim, os revolucionários pensam segundo a lógica dialética, ou seja, demoníaca). Diante de um problema real, sugerirá o demônio duas soluções falsas, ou se preferir, uma falsa solução à esquerda e uma falsa solução à direita. Em última instância, a nota para discernir se a solução é falsa ou não reside no que eu chamo de “critério do Anticristo”. Se a solução está baseada em humanismo, é falsa; se está baseada na glória de Deus e defesa da fé em sua integralidade, é provavelmente verdadeira.

De fato, diante do modernismo reinante, que atualmente obscurece a verdadeira Igreja, escondendo seus tesouros e combatendo sua Tradição, duas são as atitudes erradas. À esquerda, promover ou ser conivente com a heresia. À direita, revoltar-se contra a autoridade.

Em relação à autoridade, devemos ser dóceis sempre. Porém, não somos kantianos. Não pensamos segundo imperativos categóricos. O princípio da docilidade à autoridade existe porque é obrigação desta zelar (olha o termo de novo) pela verdade e pela retidão. Ora, se a autoridade é pela verdade e pelo bem, é insensatez revoltar-se contra ela. Contudo, quando o que está em jogo é a própria verdade e o próprio bem, a autoridade descumpre seu papel, então, neste caso, é lícito que o inferior não obedeça ao superior (Cf. Suma Teológica, II-II, q. 105, art. 5).

Mas como explicar essas nuances para quem confunde crítica com ataque e revolta?

Os tradicionalistas rezam pelo Papa. Suas adorações, muito mais sóbrias e solenes do que vemos nas paróquias diocesanas, suplicam a Deus a favor do Papa e a favor das autoridades.

Então, sim, a revolta é uma atitude errônea (é por isso que os tradicionalistas não passam pano para os sedevacantistas, senão que os desprezam). Mas também o é a condescendência e a omissão. Em termos de espiritualidade: a mornidão.

É fake news atrelar as críticas à Igreja pós-conciliar a uma atitude, em si, revoltosa. É pelos frutos que conhecereis. Os frutos dos modernismo são maus. Não dá para tapar o sol com a peneira do fingimento nem com truques linguísticos (rotulagem barata, chamar a crítica de ataque, falar de “comunhão” na paróquia num contexto de hegemonia herética, etc).


Deve ser fantástico dirigir-se ao grupo mais perseguido atualmente e, ao mesmo tempo, o mais doutrinalmente correto – os tradicionalistas – para difamá-lo chamando de ideológico e revoltado e, não obstante, crendo-se ser obediente e uma arauto da comunhão. É a receita para praticar o mal em ato, imaginando-se estar fazendo o bem. Cuidemos para não cair na tentação do “Santa” Carona.


Nominalismo nas alturas.

Ao contrário das ideias soltas do Carona, cuja forma mentis já criticamos (mas que ele, se ler, vai entender como um ataque), os católicos tradicionalistas, por sua base tomista, preferem discernir não com base em canetada ou carteiraço, nem surfar em modas doutrinais ou fazer malabarismo com costumes mundanos, mas com base na Tradição Magisterial, uma vez que a Verdade não se contradiz.

Enfim, está batendo num espantalho.


Quanta coragem! Curvar-se, na prática, ao status quo do conservadorismo católico e tornar vago problemas graves concretos no dia a dia paroquial, tudo em nome da “comunhão”, da “obediência” e, claro, implicitamente, da fraternidade #CNBB.

Novamente, não está nem no Catecismo Romano, mas no Catecismo atual (n. 675), “A perseguição (…) porá a descoberto o «mistério da iniquidade», sob a forma duma impostura religiosa, que trará aos homens uma solução aparente para os seus problemas, à custa da apostasia da verdade".

Não é uma impostura religiosa como o modernismo, que é o responsável pelas desordens na vida da Igreja (embora o Carona atribua a culpa aos tradicionalistas por uma inversão que é típica da mentalidade revolucionária), mas está mitigada nas posturas conservadoras e continuístas, onde a defesa da Tradição jamais deve cobrar o preço de descontentar o irmão ou criticar – sem revolta ou ódio, é claro – a má autoridade. Não deixa de ser um apreço por uma falsa paz à custa da apostasia da verdade.

Não se assuste o leitor. Chesterton já via essa marcha revolucionária no espírito conservador: “⁠O mundo está dividido entre conservadores e progressistas. O negócio dos progressistas é continuar cometendo erros. O negócio dos conservadores é evitar que erros sejam corrigidos“. Os católicos tradicionais têm o hábito de denunciar essa dialética hegeliana que faz avançar a Crise da Igreja. Naturalmente, isso causa raiva e unem sinistramente libertários e conservadores em ataque contra os tradicionalistas. Que coisa, não? #quico #chaves

Mas, claro, é sempre possível optar pela “obediência” e pela “comunhão”. Sendo assim, não esqueçamos! Se houver escândalo, ignore, pois, ignorando-o, não irá expor nenhuma fragilidade. Se for criticar, ainda que seja o modernismo, que seja de forma vaga; colocar as coisas em termos concretos pode ofender a sensibilidade dos sem instrução. E se for criticar os tradicionalistas, faça através de um espantalho sem nunca entrar no mérito de suas teses; para isso, chame-os de desobedientes e revoltosos, se eles têm razão ou não, é secundário, que tudo fique de forma vaga. Mais genialmente humanista que isso é impossível.

Fonte: Instituto Santo Atanásio

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