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terça-feira, 19 de maio de 2026

Católicas feministas odeiam homens católicos. E elas perderão tudo com isso.



Algumas páginas católicas feministas estão compartilhando um “estudo” que atesta que o movimento “tradwife” tem atraído homens que “odeiam” as mulheres. Um resumo do estudo foi publicado na página de Instagram do The Times.



Tradução: "Movimento Tradwife atrai homens que são hostis às mulheres"

O estudo é da Psychology of Women Quarterly e, segundo a publicação, o movimento tem atraído homens com forte inclinação sexista, defensores da ideia de que as mulheres não devem trabalhar fora de casa e de que devem submeter-se aos seus maridos

Primeiramente, esclareçamos o que é a revista Psychology of Women Quarterly. Trata-se de uma revista feminista e, como era de se esperar, possui noções bastante equivocadas de “sexismo”, incompatíveis com aquilo que a Igreja entende por autêntico sexismo.

A revista, por exemplo, publica artigos de pesquisadoras feministas que consideram “sexista” a retórica antiaborto, como se pode observar aqui. Não se trata, portanto, de um parâmetro confiável para medir o sexismo masculino.

O tema deste artigo, porém, não é a revista em si, mas o que certas católicas feministas entendem como “ódio às mulheres”.

O feminismo, no sentido condenado pela Igreja, é, em suma, a heresia que nega a submissão da esposa ao marido, bem como os deveres da maternidade. Vejamos, pois, a síntese magisterial:

Feminismo enquanto rejeição da submissão da esposa ao marido

"A mulher, criada como companheira do homem, deve permanecer sob o poder de amor e carinho, mas sempre sob seu poder. Quão equivocado, portanto, é esse feminismo que busca corrigir a obra de Deus." (São Pio X - Discurso para a Delegação do Sindicato das Senhoras Católicas Italianas em 1909)

Feminismo enquanto rejeição dos deveres da maternidade

"O enfraquecimento da presença materna, com as suas qualidades femininas, é um risco grave para a nossa terra. Aprecio o feminismo, quando não pretende a uniformidade nem a negação da maternidade." (Amoris Laetitia, 173)

Embora feministas católicas tentem argumentar que é possível existir um “bom feminismo”, ao endossarem estudos como os da Psychology of Women Quarterly, acabam apenas confessando aquilo que todos já sabiam: defendem precisamente o feminismo condenado, pois negam, em seus corações, a submissão ao esposo e os deveres da maternidade. No fim, o “bom feminismo” teoricamente aventado não passa de uma cortina de fumaça para justificar o feminismo herético.

Muitas católicas feministas, porém, ainda não têm completa coragem de negar explicitamente a doutrina da Igreja, então adotam um expediente diferente: tentam demonstrar o quanto o casamento tradicional é opressivo ou atrai opressão.

Desse modo, tentam impor a ilação de que quem defende a hierarquia familiar, a volta das mães ao trabalho no lar estaria igualmente contribuindo para cultura de "ódio às mulheres" sem que uma coisa tenha qualquer relação com a outra. E o mais constrangedor de tudo é travestirem esse feminismo mal confessado com roupagem de ciência, de "estudos". É patético. Simplesmente patético. Felizmente, na postagem da The Times, um homem desmascarou a farsa do "estudo":


Tradução: "Este “estudo” é um clássico exemplo de nonsense enviesado da Psychology of Women Quarterly. Ele destaca uma única correlação (“sexismo hostil”), enquanto ignora décadas de dados sobre a queda da felicidade feminina, o esgotamento de casais de dupla renda, o colapso da fertilidade e as razões pelas quais muitos casais escolhem voluntariamente a especialização de papéis para alcançar melhores resultados. Retratar o apelo do movimento tradwife como mero ressentimento masculino é um desserviço aos leitores — existe verdadeira agência e reais ponderações para além da ideologia. Jornalismo fraco."

O fato de feministas católicas atacarem tanto o matrimônio vivido de maneira tradicional nos leva ao tema principal de nosso artigo: católicas feministas odeiam homens católicos.


O ódio a homens católicos

Não é incomum encontrar católicas feministas alertando sobre os “riscos” de se relacionar com homens católicos, sobretudo os do meio tradicional, porque estes, por serem melhor formados que a média, são mais conscientes de seus deveres. Frequentemente compartilham relatos de supostos “abusos” praticados por esses homens, como exigir que suas mulheres usem véu na igreja - obedecer São Paulo! Que terrível ofensa a Deus, não é mesmo? -, deixem seus empregos para se dedicarem ao lar - exatamente o que o Magistério tradicionalmente recomenda - ou ainda regulem as roupas que elas vestem e as proíbam de frequentar certos ambientes, como praias e academias.




Estamos sendo irônicos evidentemente. Não há abuso em nenhuma dessas coisas, por óbvio. Abuso, no sentido empregado pela Igreja, seria exigir que a mulher pecasse contra Deus, mesmo que venialmente, em obediência ao esposo. Neste caso, seria verdadeiramente um abuso, pois a autoridade do marido vem justamente de Deus para que o homem possa servi-Lo. Fora desse caso, é apenas a autoridade legítima do marido acontecendo.

O marido pode regular o ornamento da mulher, proibir que frequente certos lugares e exigir que use véu na igreja porque, como chefe da família, ele tem o dever de liderar e corrigir seus membros. Ouçamos Antonio Royo Marín a respeito:

"Deveres especiais do esposo. Uma vez que o esposo é por direito natural e divino o cabeça e chefe da família (Gn 3,16; 1Cor 11,9; Cl 3,18), cabe-lhe governar a mulher, mas sempre na qualidade de companheira, não de escrava. E assim deve:

c) CORRIGI-LA CARITATIVAMENTE se delínque, com o fim de emendá-la e evitar o escândalo. Mas sem recorrer jamais aos golpes ou maus-tratos nem aos insultos soezes ou frases duras, que a nenhum resultado prático conduzem e perturbam terrivalmente a paz e tranquilidade do lar. (Teologia Moral para Seglares, n. 834.2)"

Contudo, sob a ótica de uma feminista católica, a liderança e a correção do marido são coisas absolutamente intoleráveis, porque elas negam, no fundo de suas almas, a submissão ao esposo no matrimônio.

O que leva ao passo seguinte: a rejeição de homens católicos que são absolutamente conscientes de seus deveres e a preferência da feminista por homens inferiores na fé.

O maior temor de uma feminista católica não é, curiosamente, a impiedade do mundo, mas a piedade do lar. Mais especificamente, o que ela teme é casar-se com um homem católico, devidamente formado e convicto, pois este lhe colocaria freios nos ímpetos revolucionários e nos gritos de independência. Assim, não é raro ver feministas católicas preferindo namorar protestantes, ateus, mundanos, católicos de IBGE, "feministos", sob o pretexto de que no meio católico está difícil encontrar “homens de verdade”.

Não duvidamos que encontrar o cônjuge ideal, ainda mais nos nossos tempos de fragmentação e desordem, seja um desafio digno de epopeia. Mas convém notar que a feminista católica não foge dos homens católicos porque não os encontra, mas porque os encontra e percebe, com um misto de admiração e horror, que eles são uma ameaça ao seu feminismo.

Optando, então, por homens inferiores na formação da fé, ela acredita poder moldá-los, talhando-os à imagem de suas próprias convicções. Quer ensiná-los o que é mais importante – a fé –, mas de um modo que esteja em conformidade com sua perspectiva feminista. 

Não percebe, entretanto, que, ao agir assim, mina os alicerces da própria família. Primeiro, porque há nisso um ato de supremo egoísmo: ela não busca um pai católico para seus filhos, alguém que os guie no caminho da santidade, mas um homem que satisfaça seus desejos e que não se oponha aos seus diálogos particulares com a serpente. No final, o risco de que todos se percam é imenso. Adão já nos deu uma bela lição do fim trágico que resulta um homem ser omisso e subserviente à esposa.

O mais irônico de tudo é que, ao buscar um homem que a deixe livre em suas ideias, ela se prende ainda mais aos seus próprios erros. Por isso o verdadeiro dever de uma feminista católica - se é que tal figura pode existir sem contradição - é justamente livrar-se do feminismo, e isso se dá, acima de tudo, pela submissão ao marido. Mas como poderá submeter-se a alguém que não a governa? Como poderá aprender a docilidade se escolheu um guia que teme guiá-la?

No fim, a busca por um homem que não imponha regras é, na verdade, a busca por um homem que também não siga regras. E um homem sem regras é apenas um menino grande, esperando ser educado.

O grande paradoxo é que, ao fugir de um chefe, essas católicas feministas acabam criando súditos. E nenhuma rainha governa sem pagar o preço da coroa.

No caso, o preço da coroa é a própria ruína da família.


A autoridade do marido e a graça divina

As Escrituras são categóricas sobre o modo como a mulher se salvará: pela maternidade (1 Tm 2,15).

Isto implica que as graças de uma mulher casada só serão dadas por Deus se ela cumprir seus deveres como esposa e mãe.

Deus, de fato, é Pai das bênçãos, mas não as distribui aleatoriamente. Ele as concede de modo ordenado, isto é, para um fim e, principalmente, de modo hierárquico, ou seja, pelos representantes que Ele instituiu.

No Antigo Testamento, antes da instituição do sacerdócio levítico, os principais dispensadores das bênçãos - inclusive das sacerdotais - eram os chefes de família, os patriarcas. Essas bênçãos eram tão ricas em graças que eram verdadeiramente disputadas pelos filhos. O exemplo mais conhecido dessa disputa foi o dos irmãos Esaú e Jacó. Jacó “roubou” a bênção patriarcal de seu irmão e foi imensamente bem-sucedido. Em outro episódio, o mesmo Jacó, ao deparar-se com um anjo, lutou com ele por uma bênção. O patriarca adotava como estratégia buscar sempre a bênção de seus superiores, porque sabia da importância dela para ter dias felizes na terra.

Após a instituição do sacerdócio levítico e, posteriormente, do sacerdócio católico, as bênçãos patriarcais foram redistribuídas. Se antes se concentravam exclusivamente nos pais de família, hoje estes dividem tal papel com os sacerdotes.

Todavia, mesmo com essa divisão de funções, a bênção patriarcal não deixou de ser grande e de vital importância para a prosperidade dos filhos e da família. A esse respeito, vejamos as luminosas palavras do grande Cardeal Isidro Gomá y Tomás:

"Entre nós, cristãos, a bênção paterna não tem o mesmo sentido profundo que a bênção patriarcal tinha para o povo de Deus. Esta era uma ação sacerdotal pela qual Deus, fiel às suas promessas de bênção feitas àquela raça, transmitia dos pais aos filhos todo o caudal de suas misericórdias para com ela. Agora, o sacerdote nos abençoe em nome de Deus, o bendito do Pai, sobre quem veio a plenitude da bênção com a plenitude da divindade.

Mas Deus não diminuiu a dignidade do pai na nova lei. "Quem ousaria dizer que a bênção paterna, na lei da graça, tenha perdido seu poder?", diz Dupanloup. "Não acredito nisso. Creio que a vida, que a conservação das raças e a prosperidade das famílias ainda podem encontrar nela a mesma segurança que a bênção dos velhos patriarcas; além do que, segundo o espírito e o caráter da graça evangélica, creio que desta bênção dos pais cristãos sai, mais abundante que em outras épocas, uma graça sobrenatural para produzir, aumentar e perpetuar nas famílias cristãs não somente a vida, mas, o que é ainda mais precioso, o bem de viver e o tesouro hereditário das virtudes domésticas e das esperanças celestiais.

Quem dera que se reavivasse o antigo costume de os pais abençoarem os filhos, sobretudo nos momentos solenes de suas vidas, e no transe soleníssimo, para o pai e para os filhos, de deixar ele o mundo para lhes legar o tesouro das tradições domésticas! Mas pobres dos pais de hoje! Como iriam abençoar seus filhos se a muitos faltam o sentido de Deus?" (La Familia, 1942, 4ª ed., p. 140-143)

O autor Craig Hill em seu livro "O Poder da Benção dos Pais" traz uma convicção semelhante. Craig explica que os judeus são prósperos em todas as partes do mundo justamente porque conservaram a cultura patriarcal dos pais abençoarem seus filhos:

"Talvez você se pergunte: “Que tipo de costumes e tradições os judeus praticam que podem fazer prosperar suas almas?”. Creio que a resposta reside no costume que discutimos no início do capítulo anterior: a bênção paterna. Como já vimos, todos os pais são profetas para seus filhos, mas nem todas as profecias vêm de Deus. Creio que as almas dos filhos judeus tendem a prosperar não apenas pela bênção paterna do Sabbath, a cada semana, mas também porque sua cultura naturalmente favorece a bênção dos filhos durante as sete etapas críticas da vida.

Embora o conceito da bênção seja claramente explicado na cultura hebraica bíblica, e vejamos remanescentes dela na cultura judaica de hoje, não creio que Deus tenha querido que os judeus tivessem um monopólio sobre a bênção. Creio que Deus quis que o estilo de vida de bênção e a transmissão da bênção durante as sete etapas críticas da vida funcionassem naturalmente em cada família e cultura da terra. Essas tradições de bênção não se originaram com os judeus, mas são caminhos ancestrais que provêm de Deus e que são para qualquer pessoa, em qualquer lugar."

Essas citações indicam que os maridos, justamente por serem chefes e representantes da família, são o canal ordinário que Deus utiliza para distribuir graças no lar. Um pai católico que ama a Deus, os filhos e a esposa, liderando espiritualmente sua casa, torna-se canal ordinário de prosperidade material e espiritual para todos os membros da família, como bem demonstra a ilustração abaixo.




Daí a grande desgraça, por exemplo, dos filhos órfãos, que não apenas perdem a ajuda material dos pais, mas também as graças que viriam por causa da autoridade paterna.

O Cardeal Isidro Gomá y Tomás, nesse sentido, afirma que há uma maneira de deixar os filhos “órfãos” das graças paternas mesmo com os pais vivos: o pai não ser católico.

Um pai que não pratica a religião e que não cumpre seus deveres enquanto pai e esposo atrai menos as graças divinas para sua família.

Sendo assim, é seguro dizer que uma católica feminista que, por puro egoísmo e espírito de independência, priva seus filhos de um pai católico ao casar-se com um homem do mundo, um “católico de IBGE” ou um “feministo” que não exerce sua autoridade marital, torna seus filhos órfãos das graças que seriam conquistadas por um pai católico consciente de seus deveres.

Os maridos, enquanto chefes de família, participam do poder das chaves concedido por Deus e são meios ordinários de graças para suas famílias. 

Portanto, se Deus quer que as mulheres se santifiquem e se salvem mediante a submissão aos maridos, segue-se a conclusão óbvia: se desprezam essa autoridade e buscam anulá-la, as graças que seriam concedidas por Deus por meio dessa submissão deixarão de ser dadas. E dois exemplos disso podem ser mencionados: Eva e Jezabel.

Os Santos Padres são unânimes em reconhecer que Eva caiu na tentação da serpente porque estava desacompanhada de Adão, e este igualmente caiu porque se deixou liderar pela esposa.

São Roberto Belarmino, em "A Arte de Bem Morrer", comenta o seguinte sobre Jezabel:
"O mesmo Apóstolo ensina posteriormente as mulheres a serem submissas aos seus maridos, assim como a Igreja é submissa a Cristo. Jezabel não observou este preceito; por querer controlar seu marido ela se perdeu e perdeu a ele, assim como todos os seus filhos."



Jezabel sendo devorada por cães. Por Andrea Celesti.

Portanto, é manifesto que a mulher que “demite” a autoridade do marido - quer desprezando-a, quer usurpando-a ao casar-se com homens não católicos ou temerosos de exercê-la - torna-se causa da ruína e da desgraça da família.

A estas que rejeitam a autoridade do marido, o Pe. Antonio Royo Marín chamaria de “aquelas que receiam receber um marido” ou, em outras palavras, que não estão aptas a receber o sacramento do matrimônio:

"O desprezo pelo homem a excessiva timidez diante dele, o espírito de independência, o horror aos deveres conjugais, o medo dos sofrimentos da maternidade ou o trabalho de educar, etc., levam-nas a renunciar ao matrimônio e ficar perpetuamente solteiras." (Espiritualidade dos Leigos, n. 375)

Como punição, se forem feministas solteiras, é provável que Deus permita que essas mulheres padeçam de solteirice perpétua, de relacionamentos caóticos e intermitentes ou ainda de um receio interminável de assumir um compromisso definitivo, passando quatro ou cinco anos namorando um rapaz para, no fim, não dar em nada. Isto quando não se tornam, por uma nota quase artística da ironia divina, mães solteiras, obrigadas a carregar o peso e a responsabilidade da maternidade sem as abundantes graças que ordinariamente decorreriam da chefia do marido. Assim, acabam vivendo sob o peso de suas próprias decisões e sob a desgraça de seu próprio feminismo.

Não estamos dizendo, evidentemente, que mães solteiras ou esposas cujos maridos não sejam católicos não possam alcançar tais graças. Santa Mônica é exemplo de esposa e mãe que, mesmo sem um marido católico, alcançou graças para a conversão da família. Contudo, Santa Mônica enquadra-se como caso verdadeiramente extraordinário. Sua santidade pessoal constitui um diferencial raríssimo em relação à média das pessoas. Sem essa perseverança heroica, dificilmente teria alcançado a conversão da família. E relembremos que a conquista dessa graça foi árdua: levou décadas. É perfeitamente legítimo pensar, portanto, que, se seu marido fosse católico, a conversão de Santo Agostinho talvez não tivesse levado trinta anos para acontecer.

Em suma, queremos dizer que mulheres que, por culpa própria, casam-se mal ou se revoltam contra a autoridade do marido acabam dificultando a obtenção das graças de Deus para a própria família. Essas graças tornam-se mais difíceis de alcançar, porque quem as solicita não é, na ordem estabelecida por Deus, a autoridade que Ele instituiu.

Um exemplo pode ilustrar melhor esse ponto. A consagração de um país a Nosso Senhor feita por um cidadão comum pode ser algo muito nobre; contudo, muito mais eficaz para a nação seria a consagração realizada pelas mãos do Chefe de Estado. Não sem razão, Nosso Senhor, nas aparições a Santa Margarida Maria Alacoque, não pediu que um cidadão qualquer consagrasse a França ao Sagrado Coração, mas sim o rei Luís XIV.

Deus quer comunicar Sua graça, mas deseja distribuí-la pelos meios ordinários que Ele próprio estabeleceu. Na família, esse meio é o chefe do lar, o homem. Se a esposa usurpa esse lugar, a graça dificilmente será alcançada da mesma forma.




Devemos dizer também que a autoridade, quando instituída por Deus, existe sempre para o bem daquele que lhe está subordinado. A autoridade dos pais é um bem para os filhos. Da mesma maneira, a autoridade do marido é um bem para a mulher.

Não constitui, portanto, uma "solução" para a católica feminista escolher um homem “feministo” que se recuse a liderar. Ela estará sendo "masoquista" e fazendo um mal contra si mesma. Um homem que não exerce sua autoridade também peca diante de Deus e igualmente será punido por isso, pois liderar a família é dever seu. Recordemos o ensinamento do imortal Papa Pio XII:

"Vós, maridos, fostes investidos da autoridade. Cada um de vós é chefe do lar, com todos os deveres e as responsabilidades que este título representa. Não hesiteis, portanto, em exercer a autoridade, não renegueis os deveres, e não fujais das responsabilidades." (Alocução aos Recém-Casados. 10 de setembro de 1941)

Quão patético é observar homens unindo-se à insubmissão de suas esposas e ostentando essa cumplicidade como símbolo de masculinidade. Mal sabem eles que também se tornam cooperadores da desgraça da própria família. Deus puniu Adão por sua subserviência à esposa com dificuldades materiais, um símbolo da dificuldade do marido "feministo" para obter graças para a família:

E disse em seguida ao homem: “Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. (Gn 3,17)

A Tradição da Igreja consigna igualmente que às mulheres de espírito livre e insubmisso - assim como aos filhos que não se submetem aos pais - estão reservadas as maiores infelicidades nesta terra.

São João Crisóstomo, nesse sentido, ensinava que mulheres assim eram causa da destruição do lar:

"A esposa é uma segunda autoridade. Ela não deve exigir igualdade, pois está sujeita à cabeça; nem deve o marido menosprezar sua sujeição, pois ela é o corpo... Onde há autoridade igual, nunca há paz. Uma família não pode ser uma democracia, governada por todos, mas a autoridade deve necessariamente repousar em uma pessoa. O mesmo se aplica à Igreja...."

“Mas se [o domínio/liderança do lar] for de outra forma, tudo é virado de cabeça para baixo e jogado em confusão. E assim como quando os generais de um exército estão em paz uns com os outros, todas as coisas estão em devida subordinação, enquanto que, por outro lado, se eles estão em desacordo, tudo é virado de cabeça para baixo; assim, eu digo, é também aqui. Por isso, diz ele, "Esposas, sejam submissas a seus próprios maridos, como ao Senhor." (Complete Works of Saint John Chrysostom, loc. 132419.1 32426)

O Papa Pio XI, em Casti Connubii, igualmente diz que a insubmissão é a causa da ruína da mulher:

"Além disso, essa falsa liberdade e igualdade antinatural com o marido torna-se prejudicial à própria mulher, pois, se ela se afasta do trono verdadeiramente real ao qual o Evangelho a elevou dentro dos muros do lar, muito em breve cairá — se não na aparência, certamente na realidade — na antiga escravidão e se tornará, mais uma vez, como no paganismo, um mero instrumento do prazer ou do capricho do homem"

Santo Tomás de Aquino nos Comentários às Cartas de São Paulo é ainda mais incisivo:

“O Filósofo diz que o domínio das mulheres é a morte de uma família, como tiranos de uma comunidade.”

O Aquinate acrescenta, no mesmo comentário, que a mulher que não se submete ao marido blasfema contra a Palavra de Deus, isto é, contra a própria Revelação divina:

“A outra coisa que ela deve observar é a subordinação, porque quando uma mulher tem poder, ela tenta se opor aos planos do marido: uma mulher, se ela tem superioridade, é contrária ao marido (Sir 25:30). Portanto, ele diz, “obedientes aos seus maridos”, daí é dito: seu desejo será para seu marido, e ele te governará (Gn 3:16). E isso, “para que a palavra de Deus não seja blasfemada”, ou seja, para que sua desobediência não seja uma ocasião para blasfêmia.” 

Essa observação de Santo Tomás conduz-nos a outra conclusão: mulheres que rejeitam a submissão aos maridos não apenas odeiam homens católicos, mas o próprio catolicismo, pois, no fundo, revoltam-se contra o próprio Deus e Sua Revelação.

Católicas feministas que escolhem relacionar-se com homens mundanos ou de formação religiosa muito inferior à delas o fazem porque a vida autenticamente católica lhes seria verdadeiramente insuportável. Preferem, assim, homens que não representem ameaça alguma ao seu feminismo.

Outro ponto importante é a observação feita pelas Escrituras: se a mulher assume superioridade, a tendência é opor-se ao marido. Como já dissemos, a autoridade do marido foi dada para o bem da mulher. Se o homem conscientemente não a exerce, ou se a mulher a usurpa, o resultado é desastroso para a família.

Conclusão

Diante de tais observações, a católica feminista possui apenas dois caminhos: ou abandona o feminismo e reconcilia-se com a ordem estabelecida por Deus, aceitando humildemente os deveres da maternidade, da vida doméstica e da submissão ao marido; ou nega a realidade e permanece encastelada no pequeno e ressentido “clubinho das feministas”, onde mulheres amarguradas contra homens católicos continuam afundadas nos próprios erros, guiando a si mesmas cegamente.

O grande problema é que a rejeição da autoridade do marido jamais permanece sem consequências. Quando a mulher rejeita o chefe que Deus lhe deu, frequentemente acaba submetida a senhores muito piores: às ideologias, ao orgulho, ao mercado, às paixões desordenadas e, muitas vezes, a homens fracos, omissos ou mundanos, incapazes de conduzir uma família à santidade.

Por isso, o verdadeiro dever da mulher católica não é lutar contra a autoridade masculina, mas santificar-se dentro da hierarquia querida por Deus. Porque a autoridade do marido, quando exercida segundo a lei divina, não existe para destruir a mulher, mas para conduzi-la, protegê-la e ajudá-la a chegar ao Céu.

sábado, 14 de setembro de 2024

Paul Fahey, feministo do "Where Peter Is", fala groselha sobre Efésios 5

 

Recentemente, o colunista Paul Fahey do site católico progressista "Where Peter Is" publicou o artigo "What the Church no longer teaches about Ephesians 5" (O que a Igreja não ensina mais sobre Efésios 5). No corpo do artigo, Paul busca argumentar que a Igreja abandonou ensino da liderança do marido sobre a esposa. Para tanto, baseia-se em alguns fundamentos:

1. O silêncio recente da Igreja a respeito da liderança do marido;

2. A ênfase na ideia de submissão mútua;

3. A recente ponderação do Papa Francisco da necessidade de interpretação de certas passagens do Novo Testamento a respeito das mulheres.

Tratemos desses pontos um por um.

Quanto ao suposto silêncio da Igreja acerca da liderança do marido

Fahey argumenta que o "Magistério vivo" da Igreja, desde o Concílio Vaticano II, não têm usado a linguagem da "liderança" nos seus documentos magisteriais:
"Com isso em mente, é importante declarar que nem o Catecismo, nem qualquer outro documento de ensino pós-Vaticano II sobre o casamento usa a linguagem de “liderança”. Em sua Carta Apostólica sobre a dignidade das mulheres , São João Paulo II interpreta a linha de liderança de Efésios 5 como significando submissão mútua. Ele escreveu: “o marido é chamado de 'cabeça' da esposa como Cristo é a cabeça da Igreja”, mas “no relacionamento entre Cristo e a Igreja a sujeição é somente por parte da Igreja, no relacionamento entre marido e mulher a 'submissão' não é unilateral, mas mútua” (MD 24)."

Contudo, como demonstramos no artigo "O que significa a submissão mútua de São João Paulo II?" é falso que a Igreja após o Concílio jamais tenha usado a linguagem da liderança para se referir ao marido. Na Encíclica "Laborem Exercens", São João Paulo II chama literalmente o homem de "chefe de família":

"Uma justa remuneração do trabalho das pessoas adultas, que tenham responsabilidades de família, é aquela que for suficiente para fundar e manter dignamente uma família e para assegurar o seu futuro. Tal remuneração poderá efetuar-se ou por meio do chamado salário familiar, isto é, um salário único atribuído ao chefe de família pelo seu trabalho, e que seja suficiente para as necessidades da sua família, sem que a sua esposa seja obrigada a assumir um trabalho retribuído fora do lar." (n. 19)

Portanto, se São João Paulo II, autor da expressão "submissão mútua", é o mesmo Papa que ensina que o homem é "chefe de família", então não é lícito pensar que a Igreja, pelo fato de ter diminuído a ênfase no ensinamento da liderança do marido, tenha descartado essa doutrina.

Na verdade, a Igreja, de tempos em tempos, enfatiza certas doutrinas por razões pastorais e isso é absolutamente normal. Podemos concordar ou discordar se a estratégia está sendo eficaz ou não, mas a simples mudança ênfase não pode nos autorizar a simplesmente descrer na doutrina "negligenciada", se a Igreja expressamente não "descreu".

Ademais, Fahey ignora que o Magistério já estabeleceu que a estrutura hieráquica da família não é mutável.

Nesse sentido, Pio IX na Encíclica "Arcanum Divinae Sapientiae":

"Os deveres de ambos os cônjuges foram plenamente definidos e os seus direitos perfeitamente estabelecidos."

Pio XI em "Casti Conubii":

"O grau e o modo desta sujeição da mulher ao marido pode variar segundo a variedade das pessoas, dos lugares a dos tempos; e até, se o homem menosprezar o seu dever, compete à mulher supri-lo na direção da família. Mas em nenhum tempo e lugar é lícito subverter ou prejudicar a estrutura essencial da própria família e a sua lei firmemente estabelecida por Deus.

No livro "Casamento e Família", publicado pela Castela Editoral, encontramos as seguintes alocuções de Pio XII:

“Toda família é uma sociedade; toda sociedade bem ordenada exige um chefe, e todo poder de comandar vem de Deus. Por isso, a família que fundastes também tem um chefe a quem Deus conferiu autoridade sobre aquela que se doou a ele como companheira, e sobre as crianças que, com a benção de Deus, virão aumentar e alegrar a família.”

“Ó esposas e mães cristãs, não cedais nunca à tentação de usurpar o centro familiar! O vosso cetro amoroso deve ser o cetro que o Apóstolo das nações põe nas vossas mãos: a salvação pela maternidade.” 

“O conceito cristão do matrimônio, que São Paulo ensinava a seus discípulos de Éfeso e Corinto, é claríssimo: “As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da mulher, como Cristo é o chefe da Igreja.”. [...] Não provém essa doutrina e esse ensinamento de Cristo?”

Disto vemos que (i) a Igreja pré-conciliar ensina que a estrutura hierárquica da família não é apenas um condicionamento cultural, como Fahey quer nos fazer crer, mas uma realidade imutável; e que (ii) a Igreja pós-conciliar continua ensinando que o homem é verdadeiro chefe da família. Simplesmente não há espaço para jogar a carta do "Magistério vivo" para legitimar heresias feministas.

Quanto à ênfase na ideia de submissão mútua

Fahey adverte o "fato novo" da Igreja, a partir da encíclica "Mulieres Dignitatem", estar enfatizando mais a doutrina da "submissão mútua" dos esposos.

Bom, nos perguntemos então: Isto quer dizer alguma coisa? Se sim, isto quer dizer alguma coisa nova?

Fahey simplesmente não fala no que consistiria de "novo" aqui. Apenas deixa no ar e na insinuação como todo progressista com prurido de novidades gosta de fazer. Insinua que a "Igreja está mudando", que a "doutrina está sendo aos poucos alterada", mas não diz porque nem como.

No entanto, conforme explicamos no artigo "O que é submissão mútua de São João Paulo II?", a submissão mútua dos esposos nada mais é, em termos tradicionais, do que a reciprocidade de deveres do casal.

A razão dessa ênfase é assim explicada pelo escritor católico Germain Grisez:

“Até recentemente, o ensino papal enfatizava o dever de obediência da esposa; mas João Paulo II centra-se na submissão mútua dos cônjuges. As expressões retóricas dos ensinamentos papais anteriores e atuais refletem, é claro, contextos sociais muito diferentes; mas as proposições ensinadas devem ser consideradas, não como inconsistentes, mas como diferentes elementos de verdade, a serem integrados numa visão única e coerente.

Não se deve supor que João Paulo II rejeite a tradição. Dado que os papas, assistidos pelo Espírito Santo, tentam articular a mesma fé, na ausência de provas convincentes, não se deve pensar que os novos ensinamentos contradizem os antigos. Assim, se possível, os diferentes ensinamentos papais devem ser entendidos como compatíveis, e uma leitura cuidadosa mostra que podem ser.” (The Way of the Lord Jesus, vol. 2)

Ele continua:
"Não se pode ler nos ensinamentos de João Paulo II a negação do dever da esposa de obedecer ao marido sem supor que ele esteja dizendo que as esposas não precisam estar sujeitas aos seus maridos. Contudo, o Papa não diz isto, mesmo quando compara a dominação masculina à escravatura. Em vez disso, enfatizando que um marido deve amar a sua esposa de uma forma abnegada, ele afirma que a sujeição deve ser mútua. A implicação não declarada é que, embora a esposa não precise submeter-se à dominação egoísta do marido, ela permanece sujeita à autoridade corretamente exercida por ele."

E depois conclui:

"Grande parte da nova ênfase no ensinamento de João Paulo II pode ser explicada por sua preocupação em reivindicar a dignidade das mulheres contra a dominação masculina. Quando um homem domina sua esposa, o abuso do seu papel perturba a harmonia entre dois aspectos essenciais do casamento: (i) comunhão de duas pessoas iguais em dignidade e direitos, e (ii) colaboração de duas pessoas com capacidades e funções corporais complementares. Quando o casal se sujeita um ao outro por reverência a Cristo, esses dois aspectos são inteiramente harmoniosos."

Como observamos, Grisez explica que a nova ênfase do ensinamento de São Paulo II se dá em razão da atual pastoral da Igreja de ressaltar a dignidade das mulheres contra o abuso de poder masculino. Em outras palavras, a ênfase dada à submissão mútua é simplesmente em razão do novo contexto social, e não por motivo de mudança doutrinária da Igreja.

Já indicamos neste blog que a Igreja nunca considerou a autoridade do marido sobre a esposa, em si mesma, como um abuso de poder.

A ausência de mudança doutrinária fica ainda mais evidente com as declarações do Diretório Homilético Discatério para o Culto Divino, que esclarece que a "submissão mútua" nada mais é do que as mútuas responsabilidades dos esposos. A esposa continua devendo obedecer ao marido. "Em troca" o marido deve dar a vida pela sua eposa:

"A instrução do Apóstolo de que as esposas devem ser subordinadas aos seus maridos pode ser perturbadora para as pessoas de nossos dias; se o homilista não planeja falar sobre essa diretriz, pode ser mais prudente usar a versão mais curta da leitura. No entanto, as passagens difíceis das Escrituras geralmente têm mais a nos ensinar, e essa leitura fornece uma oportunidade para o homilista abordar um tema que pode ser desagradável aos ouvidos modernos, mas que de fato faz um ponto valioso e necessário quando devidamente compreendido. Podemos obter uma visão do significado deste texto consultando um semelhante, Efésios 5:21-6:4. Lá também Paulo está falando sobre as responsabilidades mútuas da vida familiar. A frase-chave é esta: "Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo" ( Ef 5:21). A originalidade do ensinamento do Apóstolo não é que as esposas devem ser submissas aos seus maridos; que era simplesmente presumido na cultura de sua época. O que é novo, e distintamente cristão, é, primeiro, que tal submissão deve ser mútua: se a esposa deve obedecer ao marido, o marido, por sua vez, deve, como Cristo, dar a própria vida por sua esposa. "

Fahey ao falar de "submissão mútua" grita e espera por novidades revolucionárias, mas, para sua infelicidade, o que nos aparece é apenas o frescor da doutrina de sempre.

Quanto à recente ponderação do Papa Francisco sobre certas passagens do Novo Testamento a respeito das mulheres

Fahey, por fim, refere-se à resposta às dúbia feita Papa Francisco, em 2023, para insinuar que as passagens das Escrituras sobre a liderança do marido estão sob "revisão" do "Magistério Vivo" da Igreja, que hoje silencia sobre o tema. Vejamos a resposta dada pelo Papa:

“Embora seja verdade que a Revelação Divina é imutável e sempre vinculativa, a Igreja deve ser humilde e reconhecer que ela nunca esgota sua riqueza insondável e precisa crescer em sua compreensão. Consequentemente, ela também amadurece em sua compreensão do que ela mesma afirmou em seu Magistério. Mudanças culturais e novos desafios na história não modificam a Revelação, mas podem nos estimular a expressar melhor certos aspectos de sua riqueza transbordante, que sempre oferece mais. É inevitável que isso possa levar a uma melhor expressão de algumas declarações passadas do Magistério e, de fato, esse tem sido o caso ao longo da história.

Por um lado, é verdade que o Magistério não é superior à Palavra de Deus, mas também é verdade que tanto os textos da Escritura quanto os testemunhos da Tradição requerem interpretação para distinguir sua substância perene do condicionamento cultural. Isso é evidente, por exemplo, em textos bíblicos (como Êxodo 21:20-21) e em algumas intervenções magisteriais que toleraram a escravidão (Cf. Papa Nicolau V, Bula  Dum diversas , 1452). Esta não é uma questão menor, dada sua conexão íntima com a verdade perene da dignidade inalienável da pessoa humana. Esses textos precisam de interpretação. O mesmo se aplica a certas considerações no Novo Testamento sobre as mulheres (1 Coríntios 11:3-10; 1 Timóteo 2:11-14) e outros textos da Escritura e testemunhos da Tradição que não podem ser materialmente repetidos hoje” (resposta de 2023 a  Dubia).

O que de cara reparamos é que o trecho não menciona Efésios 5 e que o Papa Francisco não diz que esta passagem não pode ser repetida materialmente hoje. Se o fizesse, entraria em contradição com o Diretório Homilético, que ele mesmo aprovou, no qual se afirma que Efésios 5 pode ser repetido nas pregações.

O Papa também não diz que as passagens de 1 Coríntios 11:3-10 e 1 Timóteo 2:11-14 não podem ser mais ensinadas atualmente, mas apenas pondera que não podem ser repetidas materialmente, isto é, sem a devida contextualização e interpretação:

Por um lado, é verdade que o Magistério não é superior à Palavra de Deus, mas também é verdade que tanto os textos da Escritura quanto os testemunhos da Tradição requerem interpretação para distinguir sua substância perene do condicionamento cultural. [...] Esta não é uma questão menor, dada sua conexão íntima com a verdade perene da dignidade inalienável da pessoa humana. Esses textos precisam de interpretação.

Com efeito, ou tais trechos precisam ser contextualizados para distinguir o dogma da Igreja daquilo que é temporal, cultural ou disciplinar ou precisam ser interpretados para demonstrar a compatibilidade da posição da Igreja em alguns momentos históricos com a dignidade do ser humano. 

1 Coríntios 11,3-10 fala basicamente do uso do véu, ou seja, uma questão cultural dos povos e disciplinar da Igreja. Cabe, portanto, a distinção do que é dogma e do que não é.

Já 1 Timóteo 2,11-14 ensina que não cabe à mulher ensinar. Para os ouvidos modernos, o texto é verdadeiramente aterrador, dado que, hoje, há tantas mulheres em posição de ensino. Contudo, a essência do texto revela duas coisas:

(i) que não cabe às mulheres, no contexto do casamento, a posição de ensinar como se fossem guias dos seus maridos;

(ii) que as mulheres devem ser modestas no falar, pois a loquacidade feminina tende a lhe induzir a muitos erros. As mulheres possuem uma inteligência mais emocional que a dos homens. Por isto, ensina o Apóstolo, devem se preocupar mais em aprender do que falar. São Paulo ensina que quando a loquacidade feminina foi protagonista, ou seja, quando a mulher quis domar o homem pelo ensino, a humanidade caiu no pecado original. O mesmo é dito por  Pio XII quando explicou em 1949 a razão do homem ser o chefe do gênero humano. Ensina o Papa que o homem não se deixou enganar pela serpente e nem pela mulher, mas pecou em razão da sedução de Eva:

“Sim, a autoridade do chefe de família vem de Deus, assim como veio de Deus para Adão a dignidade e a autoridade de primeiro chefe do gênero humano, dotado de dons que transmitiria à sua posteridade. Por isso, Adão foi criado primeiro, e Eva depois. E, como diz São Paulo, Adão não foi enganado, mas foi a mulher que se deixou seduzir e transgrediu.” (Alocução aos recém-casados, de 10 de setembro de 1949:)

O homem é mais difícil de enganar por ter uma razão mais objetiva do que a da mulher. Por isso a liderança naturalmente lhe convém mais.

Essas lições são muito preciosas e explicam muito a razão de muitas moças católicas, na medida que usam, por exemplo, o Instagram, para serem "autoridades", ficarem mais progressistas e, quase sempre, caírem no malfadado feminismo. Mulheres tendem a se perder quando concorrem com os homens por liderança. 

Por isso ressalta São Paulo que a salvação da mulher vem pela maternidade. É na esfera da educação dos filhos (não do marido) que sua contribuição de ensino é valiosa. Em regra geral, se a mulher tentar dominar seu marido, o resultado será a ruína da família.

Quem nunca reparou que nos primeiros anos escolares a maioria dos professores são mulheres, mas, quando começa o Ensino Médio, a maioria já é de homens? Não é esta uma forma de ilustrar que a esfera adequada do ensino da mulher é junto dos filhos? Não ilustra a inadequação de uma mulher ficar guiando homens adultos?

A passagem de Timóteo, portanto, precisa ser explicada. Ela não quer dizer que a mulher nunca pode ensinar, e sim que devem ensinar na sua esfera adequada.

Vemos que Fahey erra em todas as ponderações que faz. Mas por que esse sujeito erra tanto? Primeiro, por não ter fidelidade real ao Magistério. É um continuísta cooptado por progressistas, o que facilmente se degenera em modernismo. Se o Magistério enfatiza certas doutrinas e não outras em certo período histórico, a cabeça dele já pensa em termos de "mudança doutrinal", "evolução do dogma", e não em uma eventual pastoralidade adotada pela Igreja para uma determinada circunstância. Segundo, por culpa dos pastores. A expressão "submissão mútua", de fato, não é muito bem explicada pelos pastores. Este blog precisou fazer uma acurada investigação para esclarecer o significado da expressão. Inserir expressões não tradicionais na Teologia é perigoso. Deixar ao vento expressões que, aparentemente, contradizem o Magistério anterior sem dar muita explicação, é abrir terreno para o Inimigo das almas e para os mestres do erro.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Divórcio e a prática jurídica

Vedado é ao jurista a aplicação das leis más.

Neste sentido, há dupla espécie de lei má, a injusta e a iníqua. O teólogo moral Antonio Peinador, em sua obra "Moral Profesional", as distingue do seguinte modo:

“Distinguimos a lei injusta da iníqua, na medida em que a primeira prejudica apenas direitos particulares e positivos, mas não contém matéria intrinsecamente má: tais seriam as leis que, de alguma forma, favorecem os interesses de uma classe em prejuízo das de outra; aquelas que condicionariam o exercício de certos direitos, de modo que estes seriam de fato anulados, etc. Por leis iníquas entendemos aquelas cujo objeto é algo intrinsecamente mau: por exemplo, aquela que sanciona o divórcio total ou o quoad vinculum; aquela que impôs a esterilização a certos doentes ou criminosos; aquela que permitiria a venda de anticoncepcionais, pertimisse aborto, eutanásia, etc.” (p. 269)
O autor exemplifica, da mesma maneira que a unanimidade dos autores católicos, como lei iníqua o divórcio total, isto é, que torna as partes solteiras perante a lei.
A lei é iníqua porque entre cristãos, católicos ou não, a Igreja é a única autoridade legítima para tratar sobre o matrimônio. Para cristãos, não há matrimônio que não seja indissolúvel e sacramental.
Para os não batizados, como afirma o teólogo moral belga Josef Salmans em sua obra "Deontologia Jurídica", como os judeus, muçulmanos, etc., a opinião comum dos teólogos é que, na falta de autoridade religiosa para eles, "Deus, soberano legislador, confia a regulamentação do matrimônio à autoridade do Estado." (p.89).
Portanto, matrimônio civil entre não batizados é válido, desde que a regulamentação não contrarie a lei natural.
Salsmans assim responde uma objeção e apresenta a malícia do divórcio de maneira eloquente:
“Finalmente, chama a nossa atenção outra objeção que vários juristas estatistas consideram sem resposta. «O divórcio civil, dizem, nada mais é do que a dissolução de um casamento civil. Se o casamento civil constitui um vínculo inválido perante a Igreja, um puro nada, o divórcio civil nada mais é do que a anulação perante o Estado de algo que não existe perante a Igreja; coloca a lei de acordo com a teoria eclesiástica; Então, do que eles estão reclamando?
Este raciocínio é impecável no caso de uma união inválida diante de Deus e diante da Igreja; bem, neste caso, o acordo entre a Igreja e o Estado é restabelecido de fato, se não em teoria, através de uma sentença de divórcio. Mas na maioria dos casos o divórcio tende a romper uma união válida na consciência; e então o desacordo entre a Igreja e o Estado é de fato muito evidente; essa união é indissolúvel perante a Igreja, enquanto o Estado autoriza uma das partes a solicitar a dissolução; então ele sanciona esta ruptura nos fatos; No caso de novo casamento civil de um dos divorciados civilmente, obriga os dois divorciados a viverem separados, com sanções civis e criminais, que não são apenas teóricas. Pode-se conceber uma contradição factual mais óbvia?" (Deontologia, p. 96)
Nesse sentido, sobre a atuação dos juristas, ensinava Pio XII que um juiz católico não poderia pronunciar uma sentença de divórcio quoad vinculum ou total:
"Um juiz católico não pode, salvo por razões da mais alta importância, pronunciar uma sentença de divórcio civil (quando tal for a prática) quando se trata de um casamento válido diante de Deus e da Igreja. Ele não deve esquecer que uma sentença num tal caso, além de ter uma influência prática nos efeitos civis, encoraja de fato a ideia errada de que o vínculo existente está realmente quebrado e que um novo é válido e vinculativo." (Discurso aos Delegados do Primeiro Congresso Nacional de Advogados Italianos. 6 de novembro de 1949)
O juiz deve assim recusar julgar uma causa de divórcio, a menos que seja o mal menor na situação concreta.
Já para os advogados, São João Paulo II ensina:
"Os advogados, enquanto livres profissionais, devem eximir-se sempre de usar a sua profissão para uma finalidade contrária à justiça como é o divórcio; podem apenas colaborar numa ação neste sentido quando ela, na intenção do cliente, não se orienta para a ruptura do matrimónio, mas unicamente para outros efeitos legítimos, que só por este caminho judiciário se possam obter num determinado ordenamento (cf. Catecismo da Igreja Católica, 2383)." (Discurso aos Prelados, Auditores, Oficiais e Advogados da Rota Romana na Inauguração do Ano do Judiciário. 28 de Janeiro de 2002)
O já mencionado teólogo Josef Salsmans detalha o ensino tradicional da Igreja que São João Paulo II destacava:
“Os advogados têm que aplicar máxima prudência antes de aceitar uma defesa de divórcio. - Antes façam todo o possível para induzir o cônjuge que lhes consulta, a renunciar a sua ideia; pondo-lhe diante as dificuldades do processo, a falta de motivos legítimos, se não perante a lei, ao menos ante a razão e a consciência; se a reconciliação parece impossível, procedam de sorte que os esposos se contentem com a separação de corpos. Em suma, pelo menos tome cuidado para não prosseguir com o assunto imediatamente, dando algum tempo para que a pessoa que pede o divórcio reconsidere e pense melhor, especialmente se for vítima de uma teimosia momentânea." (Deontologia, p. 248-249)
O advogado deve primeiramente atuar no sentido de buscar a reconstituição do casal, mas, se isso não for possível, deve tentar como resultado a mera separação de leito e mesa (tori et mensae) ou a separação de corpos, também chamada de divórcio imperfeito.
Todavia, se a separação de corpos não for suficiente, o divórcio só pode ser realizado diante das seguintes condições:
a) Se o casal tiver uma intenção reta, isto é, se buscarem romper apenas o laço civil sem pensar em contrair outro matrimônio;
b) Se houver alguma razão gravíssima, extrínseca e extraordinária. Ex: se a educação dos filhos estiver sendo confiada a um cônjuge ímpio; se for necessária a separação de bens para a sobrevivência do cônjuge inocente; se o outro cônjuge foi quem pediu o divórcio.
Mas, acautela Salsmans se os motivos não forem suficientes:
"Se a exigência dos cônjuges for pecaminosa, especialmente se planejarem outro casamento civil, ou se não quiserem submeter o seu caso ao julgamento da autoridade eclesiástica, o advogado deve recusar absolutamente tal má causa. A cooperação é, com efeito, demasiado direta, demasiado positiva, demasiado considerável para poder desculpar-se (n. 26); por outro lado, ele pode negá-la sem grandes inconveientes (n. 361, 403). Seria, pois, culpável de uma falta grave prestando seu concurso pelo motivo de exercer sua profissão ou ganhar dinheiro" (Deontologia, p. 249)
Diante do exposto, é preciso pontuar um erro comum entre juízes e advogados católicos que muito cauteriza a consciência: tratar o divórcio como uma questão meramente patrimonial, isto é, de partilha de bens. Milhares de advogados e juízes católicos, partindo desse pressuposto, fazem divórcios sem o menor escrúpulo de consciência.
Todavia, o divórcio é uma declaração de fatos, isto é, que uma determinada união já não existe mais na realidade e que, portanto, os efeitos civis devem cessar de existir.
Contudo, como vimos, esta declaração não pode ser realmente dita por ninguém, pois "a lei da indossulibilidade se aplica agora por vontade de Deus a todo o gênero humano sem que tenha outorgado ao Estado poder para dissolver qualquer matrimônio." (Deontologia, p. 90)
O advogado ou o juiz que faz o divórcio sem uma causa grave coopera mortalmente com o mal, pois, ao invés de ser um auxiliar da justiça, ele propaga uma mentira sobre o matrimônio e trabalha contra o bem comum.
Infelizmente, nenhum político católico busca o fim da lei do divórcio, nenhum jurista católico doutrina contra essa lei e a mercantilização da advocacia obscurece a consciência dos advogados, que assinam divórcios sem qualquer oposição.
Talvez, hoje, a profissão jurídica seja uma das mais desafiadoras para um cristão. Piadas sobre advogados não irem para o Céu, lamentavelmente, perigam ser verdade. Nunca foi tão fácil, como atualmente, um advogado perder a sua principal causa, a da salvação, e um juiz sentenciar a pior das sentenças, a da sua própria condenação.
É muito necessário que cresça entre os católicos uma maior consciência da moralidade da sua profissão.

terça-feira, 18 de junho de 2024

O que significa a "submissão mútua" de São João Paulo II?

A expressão "submissão mútua" foi introduzida pela primeira vez pelo Papa João Paulo II nas Catequeses de Teologia do Corpo em 11.08.1982. Na oportunidade, o Pontífice buscava explicar a famosa passagem de Efésios 5,21-33, na qual São Paulo exorta as esposas a serem submissas a seus maridos. O Papa explicar que a "submissão dos cônjuges é mútua" no temor de Cristo e que a maior expressão dessa submissão é o amor.

Alguns comentaristas adeptos do feminismo interpretaram que São João Paulo II mudou a doutrina da autoridade do marido sobre a esposa e os filhos e agora impugnam explicitamente que ele seja chefe de família.

1. O Magistério da Igreja sobre o dever dos esposos

Antes de tratarmos sobre a questão da submissão mútua, é preciso entender o que o Magistério ensinou até então.

O ensino da Igreja sempre foi constante em asseverar que o marido é uma autoridade real na família, a quem devem se submeter a esposa e os filhos. Citemos, apenas como exemplificação, alguns documentos a respeito do tema.

Catecismo Romano:
“Como ensinaram alguns dos Santos Padres, ela (a mulher) não foi formada dos pés, mas da ilharga do homem; da mesma forma, não foi tirada da cabeça, para reconhecer que não era senhora do marido, mas antes sua subordinada. [...]Finalmente, deve o marido governar bem a sua família, corrigir as faltas de todos os seus membros, e manter cada qua
l no cumprimento de suas obrigações.”

“As obrigações da mulher são aquelas que o Príncipe dos Apóstolos enumerou na seguinte passagem: "Sejam as mulheres submissas a seus maridos” [...] Outro dever principal, para elas, seja também educar os filhos na prática da Religião, e cuidar zelosamente das obrigações domésticas."
Leão XIII:
"Os deveres de ambos os cônjuges foram plenamente definidos e os seus direitos perfeitamente estabelecidos. Ou seja, é necessário que estejam sempre dispostos de tal forma que entendam que devem um ao outro o maior amor, a fidelidade constante e a ajuda solícita e contínua. O marido é o chefe da família e chefe da mulher, que, porém, sendo carne da sua carne e osso dos seus ossos, deve submeter-se e obedecer ao marido, não como escrava, mas como companheira; isto é, que à obediência prestada não falte honestidade nem dignidade. Tanto em quem manda como em quem obedece, sendo ambos imagens, uma de Cristo e outra da Igreja, seja a caridade o constante regulador do dever. Visto que o marido é o cabeça da esposa, assim como Cristo é o cabeça da Igreja…” (Arcanum Divinae Sapientiae, n. 8)
Pio XI:
“A sociedade doméstica confirmada, portanto, por este vínculo de amor, deveria florescer nela aquela “ordem de amor”, como a chama Santo Agostinho. Esta ordem inclui tanto a primazia do marido em relação à esposa e aos filhos, a pronta sujeição da esposa e a sua obediência voluntária, que o Apóstolo recomenda com estas palavras: "As mulheres sejam sujeitas aos seus maridos como ao Senhor, porque o marido é o cabeça da mulher e Cristo é o cabeça da Igreja»

Esta sujeição, no entanto, não nega nem tira a liberdade que pertence plenamente à mulher, tanto em vista da sua dignidade como pessoa humana, como em vista do seu nobre ofício de esposa, mãe e companheira; nem lhe ordena que obedeça a todos os pedidos do marido, se não estiver em harmonia com a razão correta ou com a dignidade devida à esposa; nem, em última análise, implica que a esposa deva ser colocada no mesmo nível das pessoas que por lei são chamadas menores…" (Casti Conubii)
Pio XII:
“Toda família é uma sociedade; toda sociedade bem ordenada exige um chefe, e todo poder de comandar vem de Deus. Por isso, a família que fundastes também tem um chefe a quem Deus conferiu autoridade sobre aquela que se doou a ele como companheira, e sobre as crianças que, com a benção de Deus, virão aumentar e alegrar a família.”

“Ó esposas e mães cristãs, não cedais nunca à tentação de usurpar o centro familiar! O vosso cetro amoroso deve ser o cetro que o Apóstolo das nações põe nas vossas mãos: a salvação pela maternidade.”

“O conceito cristão do matrimônio, que São Paulo ensinava a seus discípulos de Éfeso e Corinto, é claríssimo: “As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da mulher, como Cristo é o chefe da Igreja.”. [...] Não provém essa doutrina e esse ensinamento de Cristo?

Vós, maridos, fostes investidos da autoridade. Cada um de vós é chefe do lar, com todos os deveres e as responsabilidades que este título representa. Não hesiteis, portanto, em exercer a autoridade, não renegueis os deveres, e não fujais das responsabilidades.”

“Quanto a vós, esposas, levantais vossos ânimos! Não vos contenteis em aceitar e mal suportar esta autoridade do marido, a quem Deus as submeteu pelas disposições da natureza e da graça. Em vossa submissão sincera, deveis amar essa autoridade, amá-la com o amor respeitoso que tendes pela autoridade de Nosso Senhor, de quem provém todo o poder de comandar.”

(Discurso proferidos em 10 de Setembro de 1941 e 15 de Outubro. de 1941)

Síntese do ensino magisterial:

A relação entre marido e mulher é ao mesmo tempo recíproca e assimétrica. É recíproca no amor e na ajuda mútua, mas é assimétrica nos deveres. Por isso São Paulo compara a relação de marido e mulher com a de Cristo com a Igreja, porque, como Cristo, o homem tem o dever de liderar e sustentar sua esposa dando, se necessário, seu próprio alimento, suas próprias roupas e sua própria vida; e a mulher, como a Igreja, tem o dever de obedecer o marido e educar os filhos na fé. Temos assim a imagem perfeita de uma "igreja doméstica", na qual o marido representa Cristo, a mulher a Igreja e os filhos os fiéis.

É comum encontrar entre os moralistas (Del Greco, Royo Marín, Heribert Jone, etc) a seguinte divisão dos deveres dos esposos:

Deveres comuns:
a) amor mútuo;
b) coabitação;
c) ajuda mútua.

Deveres especiais:

𝐌𝐚𝐫𝐢𝐝𝐨: liderar a família (poder marital) e sustentar seus membros (poder pátrio).
𝐌𝐮𝐥𝐡𝐞𝐫: obedecer ao esposo e educar os filhos na fé cristã.

A partir dessas considerações podemos traduzir, em termos tradicionais, a "submissão mútua" de São João Paulo II.

2. Da Hermenêutica da Precisão

A primeira regra de interpretação é ter em conta a "hermenêutica da precisão", corolário da hermenêutica da caridade. A respeito, diz Jimmy Akin em sua obra "Teaching with Authority":
"Ler documentos magisteriais com precisão significa cuidadosamente observar o que eles dizem e o que eles não dizem. Devemos ser especialmente cautelosos quando tiramos conclusões deles. Por definição, inferências vão além do que uma pessoa disse e quanto mais nos distanciamos das palavras reais que uma pessoa usou, maiores são as chances de cometer um erro." (p. 186)
Quando lemos os textos de São João Paulo II a respeito da "submissão mútua", em nenhum momento o Santo Padre diz explicitamente que não cabe mais à mulher obedecer o marido ou que ele não é chefe de família. Ao contrário, São João Paulo II utilizou a expressão "chefe de família", para se referir ao marido na Encíclica Laborens Exercens, quando reafirmou a doutrina de Pio XI na Quadragesimo Anno, a respeito do salário familiar:
"Uma justa remuneração do trabalho das pessoas adultas, que tenham responsabilidades de família, é aquela que for suficiente para fundar e manter dignamente uma família e para assegurar o seu futuro. Tal remuneração poderá efectuar-se ou por meio do chamado salário familiar, isto é, um salário único atribuído ao chefe de família pelo seu trabalho, e que seja suficiente para as necessidades da sua família, sem que a sua esposa seja obrigada a assumir um trabalho retribuído fora do lar." (n. 19)
Portanto, não é lícito inferir que São João Paulo II quis negar o magistério anterior sobre a autoridade do marido ao usar a expressão "submissão mútua", já que em outros lugares de seu magistério ele reafirma essa autoridade.

Também não pratica a hermenêutica da precisão quem busca impugnar inteiramente as Sagradas Escrituras, o Consenso Unânime dos Padres, a Tradição e o Magistério consolidado da Igreja a respeito do tema baseado única e exclusivamente em uma expressão equívoca de um único pontífice.


3. "Submissão mútua" segundo os teólogos católicos

Assinalou o filósofo católico Germain Grisez no segundo volume de seu livro "The Way of the Lord Jesus":
"Não se pode ler nos ensinamentos de João Paulo II a negação do dever da esposa de obedecer ao marido sem supor que ele esteja dizendo que as esposas não precisam estar sujeitas aos seus maridos. Contudo, o Papa não diz isto, mesmo quando compara a dominação masculina à escravatura. Em vez disso, enfatizando que um marido deve amar a sua esposa de uma forma abnegada, ele afirma que a sujeição deve ser mútua. A implicação não declarada é que, embora a esposa não precise submeter-se à dominação egoísta do marido, ela permanece sujeita à autoridade corretamente exercida por ele."
O teólogo John S. Grabowski no artigo "Mutual Submission and Trintarian Self-Giving", publicado em 1997 pela Pontificia Studiorum Universitas a Sancto Thomas Aquinate in Urbe, também não vê evidências de rejeição ao ensino magisterial anterior:
"O fato de o contexto da passagem ser de mútua submissão entre os crentes indica que os cônjuges cristãos devem manifestar esta mesma reciprocidade no seu próprio relacionamento. No entanto, não elimina as suas diferenças como homem e mulher nem nega necessariamente a existência de papéis específicos. [...] A liderança servidora exercida em amor abnegado por parte dos maridos não é totalmente diferente da voluntária subordinação imposta às esposas, na medida em que ambas descrevem uma forma de deferência mútua - colocando as necessidades e desejos do outro à frente de si mesmo - em linguagem que será inteligível dentro de um horizonte cultural específico. [...] Deve-se notar que o ensinamento de João Paulo II não afirma nem implica uma negação desta formulação anterior. Ou seja, para João Paulo II, as mulheres ainda devem se sujeitar aos seus maridos. No entanto, para esta injunção ele acrescenta, com base no próprio texto, uma correspondência obrigação correspondente dos homens de se sujeitarem em amor às suas esposas. Ele não repudia a formulação anterior mas a coloca num contexto mais amplo."
O teólogo e professor de teologia moral William E. May do Pontifício Instituto João Paulo II, em seu artigo "The Mission of Fatherhood", também assevera que o São João Paulo II não alunou o ensinou anterior:
"Ao falar da submissão mútua de maridos e mulheres por amor a Cristo, João Paulo II, como Germain Grisez bem observou e discutiu longamente, não rejeitou de forma alguma a tradição representada pelo Papa Pio XI. Os diferentes ensinamentos papais são compatíveis. Como sublinha Grisez, Pio XI, ao mesmo tempo que admoestava as esposas a obedecerem aos seus maridos, teve o cuidado de enfatizar que um marido deve respeitar a igual dignidade pessoal da sua esposa e não deve dominá-la, porque ela é igual em dignidade ao seu marido."
O teólogo Ronald Conte Jr em seu livro "Roman Catholic Marital Sexual Ethics" também adverte do erro de se interpretar a "submissão mútua" de maneira revolucionária:
“O Magistério ensina claramente que o marido é o cabeça da esposa e que a esposa deve estar sujeita a ele em obediência. Alguns comentaristas das Escrituras, tentando anular este ensino, tentaram reinterpretar a sujeição, como se fosse submissão mútua ou obediência mútua. Esta abordagem está parcialmente correta. Há um aspecto mútuo na submissão e na obediência. Mas é um grave erro doutrinário afirmar que a relação matrimonial é inteiramente mútua e igual em todos os sentidos. Quem adere a este erro comete heresia material. Quem ensina este erro prejudica o Sacramento do Matrimônio. Deus ordenou, no casamento natural, e ainda mais no Sacramento do santo Matrimônio, uma distinção de papéis entre marido e mulher, de modo que o marido tenha um papel de primazia em relação à esposa e aos filhos, e a esposa tem um papel de sujeição e obediência a ele.
Ronald Conte alerta para um problema importante. Defender a horizontalidade completa entre os cônjuges ou que as diferenças sexuais entre homem e mulher não implicam em papéis sociais diferentes na família prejudica o ensino do Sacramento do Matrimônio e também comete heresia, pois, no fundo, é sustentar implicitamente o "casamento" LGBT e a teoria de gênero.

4. O significado de submissão mútua. Uma interpretação tradicional.

São João Paulo II, na mesma catequese de 1982, ensina que a "submissão mútua se exprime no amor":
"A fonte desta recíproca submissão está na pietas cristã, e a sua expressão é o amor." (Link)
Por incrível que pareça esta foi a única explicação do Pontífice acerca do que significava essa nova expressão. Ele não diz "mulheres estão livres da obediência ao marido", nem que "maridos não devam liderar seus lares" ou ainda que "não há hierarquia entre marido e mulher", mas apenas "a submissão recíproca é expressa no amor".
Ora, tomando esta frase como premissa temos que, o que o Santo Padre chama de "submissão mútua", nada mais é, em termos tradicionais, do que o "amor mútuo" que compõe os deveres comuns dos esposos, conforme já indicamos.
Claro, pode-se questionar se a palavra "submissão" é a mais adequada para se referir ao amor dos esposos, mas fato é que o Papa definiu o amor mútuo como uma “mútua submissão”. Se substituirmos“submissão mútua” por “amor mútuo”, tudo faz sentido. Segundo o Pontífice, é este amor que purifica eventual tendência do marido de abusar de sua autoridade, uma vez quem ama não comete abusos de poder. Por isso o Papa diz “o amor exclui todo gênero de submissão, pelo qual a mulher se torne serva ou escrava do marido, objeto de submissão unilateral”. Notemos que “submissão unilateral”, no vocabulário do Papa, não significa qualquer sujeição, mas a sujeição na qual a mulher se torna escrava do marido, ou seja, sem o amor dele que depura todo abuso de autoridade.

Evidentemente, não é o que ocorre no matrimônio cristão, uma vez que todos os Papas sublinharam que o preceito da obediência da esposa ao marido não implica que ela se torne serva dele e nem que deva atender a todos os seus caprichos e muito menos a coloca entre os cidadãos de direitos menores (minorias).
Esta interpretação foi ratificada pelo Diretório Homilético de 2014 do Discatério para o Culto Divino, aprovado pelo Papa Francisco, no qual explica "submissão mútua" reafirmando o Magistério de sempre acerca dos deveres dos esposos:
“A originalidade do ensinamento do Apóstolo não é que as esposas devam ser submissas aos maridos; isso foi simplesmente presumido na cultura de sua época. O que é novo, e distintamente cristão, é, em primeiro lugar, que tal submissão deve ser mútua: se a esposa deve obedecer ao marido, o marido, por sua vez, deve, como Cristo, dar a sua própria vida pela esposa".
Neste esclarecimento, o Papa Francisco também toma os deveres especiais dos esposos como uma forma de "mútua submissão". Nota-se bem que a Igreja, embora empregue a palavra "submissão mútua", não entende que essa submissão seja igual e no mesmo sentido entre os cônjuges. A submissão da esposa continua sendo a obediência ao marido e a "submissão" do marido é dar a vida pela mulher.

Estamos diante do Magistério tradicional sem tirar nem por, ainda que usando outras palavras. E, realmente, não há o que tirar ou por. Como ensinou Leão XIII na "Arcanum Divinae Sapientiae":
"Os deveres de ambos os cônjuges foram plenamente definidos e os seus direitos perfeitamente delimitados."
Em suma, submissão mútua é a reciprocidade dos deveres dos cônjuges, não a igualdade de papéis.

O que dizer, então, da frase de SJPII de 1982 na mesma catequese "O marido não é patrão da mulher"?
Significa que a autoridade exercida pelo marido é antes de tudo fundada no amor e não numa relação de servilismo, empregado-empregada, ou de domínio absoluto sobre a esposa. Existem algumas autoridades que são verdadeiras chefias, mas não são exatamente "patrões" como, por exemplo, os pais em relação aos filhos, o bispo em relação aos fiéis, o marido em relação à mulher. Todos eles são verdadeiros chefes, mas a autoridade deles é doce, flexível e política, porque busca o bem de todos. Eles exercem autoridade pedindo e se aconselhando, pois, como ensinava o Pe. Álvaro Negromonte em sua obra "Noivos e Esposos", "esta é a melhor forma de liderar".
É uma pena que o esclarecimento de "submissão mútua" só tenha vindo quase 40 anos depois do primeiro uso da expressão. Quantas moças não desfizeram namoros, não perderam ótimos matrimônios e não trouxeram a infelicidade para suas famílias, porque, corrompidas pelo feminismo, interpretaram mal a expressão do Papa e se deixaram levar por interpretações revolucionárias do Magistério?
É certo que isso não se deu sem grande culpa dos pastores, porém, convém também sublinhar a responsabilidade de muitas dessas moças. Quantas delas não desprezaram o Magistério anterior a São João Paulo II bem como o ensino dos grandes teólogos da Igreja por serem mais "antigos", e preferiram acreditar na primeira "influencer" feminista que decretou que São João Paulo II rompeu com tudo e com todos?

5. O feminismo é um pecado contra a fidelidade matrimonial

O feminismo que busca a destruição da liderança do marido na família sempre foi tratado pelos moralistas como contrário à lei natural e um pecado grave contra a fidelidade matrimonial, pois se trata de um "golpe de estado" contra a sociedade conjugal. Nesse sentido:

Santo Afonso de Ligório, em sua "Teologia Moral":
“A esposa peca gravemente: Se, desprezando o marido, vindicar para si a chefia na família.”
Antonio Royo Marín, no mesmo sentido, em sua "Teologia Moral para Seglares":
"Peca gravemente a mulher [...] se quer governar a casa com desprezo de seu marido."
𝐏𝐢𝐨 𝐗𝐈𝐈 igualmente:
“Ó esposas e mães cristãs, não cedais nunca à tentação de usurpar o centro familiar!" (10 de Setembro de 1941.)
É tão grave a esposa querer usurpar a chefia do marido quanto um leigo querer substituir um padre na celebração de uma missa. É grave porque Deus dispôs a hierarquia doméstica não para a opressão da mulher, mas para o bem das famílias. Quem se opõe a essa hierarquia trabalha contra a santificação delas e a salvação de seus membros.

6. Conclusão.

Diante de tão esmagadora evidência não é possível negar este ensinamento da Igreja sem grande temeridade e sem por em risco a própria salvação.
É preciso que toda moça católica de coração sincero, que, eventualmente, tenha sido levada pelo engodo das interpretações revolucionárias feministas, reconheça o erro dessas teorias e faça um verdadeiro trabalho de conversão da mente e do coração à Igreja, porque deve-se dizer de toda a doutrina de Cristo aquilo que diz o salmista das palavras do Senhor:
“Oh! Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar! Mais doces do que o mel à minha boca. Pelos teus mandamentos, alcancei entendimento; pelo que aborreço todo falso caminho." (Sl 118, 103-105)

Católicas feministas odeiam homens católicos. E elas perderão tudo com isso.

Algumas páginas católicas feministas estão compartilhando um “estudo” que atesta que o movimento “tradwife” tem atraído homens que “odeiam” ...