quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

As grandes bobagens de Viviane Varela (O Catequista) sobre as diaconisas e o serviço feminino do altar


A página O Catequista, conhecida pelo seu progressismo, atacou novamente. Desta vez, por meio de sua administradora Viviane Varela, que tem se notabilizado por aderir ao feminismo católico, a página veio justificar o uso de acólitas na celebração da Santa Missa.


O que foi mais notável, porém, foram as inumeráveis afirmações históricas falsas feitas por Viviane para defender o acolitato feminino. Vamos a elas.

Viviane busca responder uma pergunta da caixinha do Instagram que fazia o seguinte questionamento:


Viviane primeiro faz a distinção entre "Tradição" com "T" maiúsculo e "tradição" com "t" minúsculo e responde que a "Tradição" nunca proibiu. Em seguida afirma que na Igreja Primitiva as mulheres participavam do serviço do presbitério exercendo um papel litúrgico, como a unção do óleo do batismo nas mulheres, que eram batizadas nuas.

A primeira coisa que se nota é a imprecisão de Viviane a respeito do serviço feminino no presbitério. Não há evidências robustas de que os batismos antigos eram realizados no presbitério. Na verdade, as principais piscinais batismais dos primeiros séculos que hoje temos evidência encontravam-se em construções separadas das igrejas e eram chamadas de batistérios, como informa Tribe Shawn em artigo para a Liturgical Arts Journal:
"Nos tempos antigos, pelo menos para igrejas maiores, frequentemente se via um edifício separado como batistério. Pode-se pensar aqui no batistério da basílica de Latrão, localizado no edifício octogonal do século III atrás da basílica propriamente dita. Fora do duomo de Florença e Pisa, também se pode ver batistérios de formato semelhante."
O mesmo é atestado por Catherine Brown Tracz aqui:
"Na maior parte da Igreja, portanto, uma solução veio naturalmente quando um problema pastoral surgiu com o batismo. Inicialmente, o batismo era de adultos nus. Como a Igreja poderia salvaguardar a modéstia das mulheres sendo batizadas e dos homens que as batizavam? Parte da resposta foi construir batistérios com cortinas, uma com uma abertura pela qual o padre ou diácono pudesse alcançar para colocar sua mão na cabeça da mulher batizada e pronunciar a fórmula batismal." (p. 190)
Seguem algumas imagens desses batistérios:

Batistério de Latrão


Batistério de Pisa

Mesmo na Tradição das Igrejas orientais a evidência de mulheres no santuário é escassa. Pe. Aimé Georges Martimort, que realizou o principal estudo do século XX sobre diaconisas em seu livro "Deaconess: An Historical Study", afirma que, no rito bizantino, as diaconisas jamais tiveram acesso ao santuário:
"Em nenhum momento as diaconisas no rito bizantino tiveram acesso ao santuário, nem essa proibição foi de alguma forma baseada nas visões de impureza encontradas no Livro de Levítico. O único texto que fez alguma alusão a isso não era nem grego. Foi uma resposta do bispo sírio, João de Telia, e essa questão dizia respeito apenas à competência da diaconisa no convento na ausência de um padre ou diácono. Mas quando Teodoro registrou que “hoje as diaconisas não são mais ordenadas”, devemos levá-lo ao pé da letra? Ou ele, devido à ideia inexata que tinha da antiga instituição da diaconisa, considerou as diaconisas presentes em Constantinopla em seu tempo como não sendo verdadeiras diaconisas?" (p. 172)
A segunda coisa que se observa é que Viviane não traz um mísero exemplo da Tradição litúrgica da Igreja de serviço feminino no altar, que era, de fato, o objeto da pergunta. E falha por um motivo muito simples: ele não existiu na Tradição da Igreja.

Ao contrário do que alega o Catequista, o serviço feminino no altar sempre foi repreendido pela Igreja e sua prática sempre envolveu costumes de igrejas cismáticas que praticavam a ordenação de diaconisas. Um exemplo disso eram os chamados Montanistas. Eles ordenavam diaconisas e admitiam o serviço feminino do altar. Essa prática foi condenada pelos concílios regionais de Nimes, Oranges e Laodicéia. Aliás, sempre que o serviço feminino era retomado na História da Igreja havia Concílios Regionais que condenavam a prática apelando sempre à Tradição Apostólica e e à tradição eclesiástica da Igreja. Senão vejamos algumas dessas condenações:

Concílio de Nimes (394 d.C):
"Cânon 2. Naquela época, alguns sugeriram que, contrariamente à disciplina apostólica, até então desconhecida, as mulheres eram levadas para o ministério levítico em algum lugar; o que aliás, por ser indecente, a disciplina eclesiástica não admite; e tal arranjo deveria ser desfeito como contrário à razão: deveria-se tomar cuidado para que ninguém mais ouse fazer isso. ”
Concílio de Orange (441 d.C):
Cânon 26. As diaconisas não devem ser ordenadas sob qualquer hipótese: se houver, submetam a cabeça à bênção que é concedida ao povo.
Concílio de Laodicéia (365 d.C.): 
“Mulheres não podem se aproximar do altar.” (Cânon 44)

Concílio de Paris:

"Cânon 45. Temos procurado por todos os meios possíveis impedir a admissão ilícita de mulheres no altar. Soubemos por meio de um relato de pessoas confiáveis ​​que em algumas províncias, em contradição com a lei divina e com a instrução canônica, as mulheres se dirigem à área do altar, impudentemente pegam os vasos sagrados, estendem as vestes sacerdotais aos sacerdotes e — o que é ainda pior, mais indecente e impróprio do que tudo isso — dão ao povo o corpo e o sangue do Senhor e fazem outras coisas que em si mesmas são indecentes [ quae ipso dictu turpia sunt ].

É mais surpreendente como essa prática, não permitida na religião cristã, pôde se infiltrar; isto é, como as mulheres, a cujo sexo não é de forma alguma adequado fazer o que é contrário à lei divina, puderam se permitir fazer o que é proibido aos homens seculares. Sem dúvida, ocorreu por descuido e negligência de alguns bispos. Portanto, ai de nós, padres, em cujas mãos os fardos daquele padre passaram, como são descritos em Mach. 2: Pois eles realmente desconsideraram seu dever que lhes foi delegado para o culto e, enquanto o templo de Deus estava sem serviço sagrado, entregaram-se a paixões carnais e ações ilícitas, de modo que as mulheres, sem que ninguém as impedisse, se dirigiram a casas consagradas e ali puderam introduzir coisas não permitidas."

O Magistério dos Papas também não ficou em silêncio e igualmente confirmou a condenação do serviço feminino no altar.

Papa São Gelásio em Carta aos Bispos da Lucânia (496 dC):

"Com impaciência, ouvimos que as coisas divinas sofreram tanto desprezo que as mulheres são encorajadas a servir nos altares sagrados, e que todas as tarefas confiadas ao serviço dos homens são executadas por um sexo para o qual essas [tarefas] não são apropriadas" (Mansi VIII, 44).
O mesmo é confirmado pelo Papa Bento XIV:
“O Papa Gelásio, em sua nona carta (cap. 26) aos bispos da Lucânia, condenou a prática maligna que havia sido introduzida de mulheres servindo ao padre na celebração da missa. Como esse abuso havia se espalhado para os gregos, Inocêncio IV proibiu estritamente em sua carta ao bispo de Tusculum: 'As mulheres não devem ousar servir no altar; elas devem ter esse ministério completamente recusado.' Nós também proibimos essa prática nas mesmas palavras em Nossa constituição frequentemente repetida Etsi Pastoralis, seção 6, nº 21.”
Código de Direito Canônico de 1917:
"Cânon 813. Cuide-se para que nenhuma mulher ouse caminhar até o altar ou ministrar ao sacerdote ou ficar de pé ou sentar-se dentro da capela-mor" (c. 1, X).

Liturgicae Instaurationes (1970):

"Em conformidade com as normas tradicionais da Igreja, as mulheres (solteiras, casadas, religiosas), seja em igrejas, lares, conventos, escolas ou instituições para mulheres, estão proibidas de servir o sacerdote no altar."

Do exposto, devemos concluir que a Tradição da Igreja sempre proibiu a participação feminina no serviço do altar.

A qual Tradição pertence o serviço masculino do altar?

Convém questionarmos agora qual Tradição proibiu o serviço feminino do altar. Para tanto, expliquemos o que significa "Tradição".

"Tradição" não possui um sentido unívoco e diversos teólogos buscaram distinguir os tipos de tradição. Expliquemos seus sentidos:

Quando o autor da Tradição é Deus:
a) Tradição Dominical - Aquilo que Cristo instituiu oralmente. Ex: indissolubilidade do matrimônio e os preceitos da caridade).

b) Tradição Apostólica/Divino-Apostólica - Aquilo que os Apóstolos instituíram sob inspiração do Espírito Santo. Ex: ordenação de diáconos.
A Tradição fundada por Deus é imutável e não pode ser alterada.

Quando o autor da Tradição é a Igreja:
a) Tradição humano-eclesiástica: Tradições iniciadas pelos Apóstolos, mas que não foram divinamente reveladas. Ex: ritos da Igreja, leis de jejum e abstinência que diferem de igreja para igreja, etc.

b) Tradição meramente eclesiástica: é toda aquela instituída pela Igreja após o tempo dos Apóstolos. Ex: festas litúrgicas.
A Tradição fundada pela Igreja pode ser alterada. No entanto, cabe aqui uma observação oportuna. A mudança não pode ser arbitrária. Como observa o Pe. Chad Ripperger em se livro"Topics on Tradition":
"Além disso, quanto mais longa a tradição humano-apostólica, maior a causa para uma mudança deve ser manifesta. Portanto, se uma tradição humano-apostólica está em vigor desde o tempo dos Apóstolos, somente sob as mais graves circunstâncias ela deve ser mudada, já que a vontade de Deus é manifesta em Sua aprovação da tradição, já que ela permaneceu em vigor por tal duração."
Estabelecidas estas distinções, perguntemo-nos: a qual Tradição o serviço masculino do altar pertence?

Podemos afirmar, sem sombras de dúvidas, que pertence à Tradição divina, porque é um serviço ínsito aos poderes do presbítero e do diácono. Relembremos quais são eles:
"O presbiterado consagra os sacerdotes “à imagem de Cristo, sumo e eterno sacerdote (Hebr. 5, 1-10; 7,24; 9, 11-28), para pregar o Evangelho, apascentar os fiéis e celebrar o culto divino, como verdadeiros sacerdotes do Novo Testamento” (Lumen Gentium, 28).

"O diaconato serve o presbiterato. “É próprio do diácono, segundo for cometido pela competente autoridade, administrar solenemente o Batismo, guardar e distribuir a Eucaristia, assistir e abençoar o Matrimônio em nome da Igreja, levar o viático aos moribundos, ler aos fiéis a Sagrada Escritura, instruir e exortar o povo, presidir ao culto e à oração dos fiéis, administrar os sacramentais, dirigir os ritos do funeral e da sepultura.” (Lumen Gentium, 29)
Mas e as ordens menores? A qual Tradição pertence? Para responder essa pergunta, façamos uma breve digressão histórica das ordens menores.

Segundo Santo Tomás, no Comentário às Sentenças, as ordens menores foram instituídas pela Igreja como uma distribuição das funções do diácono:
“Na Igreja primitiva, todos os ministérios inferiores eram confiados aos diáconos por causa da escassez de ministros, como fica evidente no que Dionísio diz: “outros ministros ficam nos portões fechados do templo; outros trabalham em outra coisa de sua ordem própria; outros colocam o pão sagrado e o cálice da bênção sobre o altar com os sacerdotes”. No entanto, todos os poderes mencionados estavam lá, mas implicitamente no único poder do diaconato. Mais tarde, porém, o culto divino foi mais difundido, e o que a Igreja tinha implicitamente em uma ordem, ela distribuiu [tradidit] explicitamente sobre muitos; e segundo isso, o Mestre diz no texto que “a Igreja instituiu para si outras ordens”."

Dom Athanasius Schneider, no mesmo sentido, explica que o Concílio de Trento escolheu a expressão "ministros" ao invés de "diáconos" justamente para incluir as ordens menores ao poder implícito do diaconato:

"Definindo dogmaticamente a estrutura divinamente estabelecida da hierarquia, o Concílio de Trento escolheu o termo “ministros” ao lado dos termos “bispo” e “sacerdotes”, evitando o termo “diáconos”. Provavelmente o Concílio quis incluir no termo “ministros” tanto o diaconato quanto as ordens menores, para dizer implicitamente que as ordens menores são parte do diaconato. Esta é a formulação do cânon 6 da sessão XXIII: “Se alguém disser que na Igreja Católica não há hierarquia estabelecida por um arranjo divino, que é composta de bispos, padres e ministros, seja anátema”. Pode-se dizer, portanto, que ordens inferiores ou menores, como o leitorado e o acolitato, têm sua raiz no diaconato pela instituição divina, mas foram formadas e distribuídas em vários graus pela instituição eclesiástica (cf. Dom Gréa, loc. cit.)."

Dom Athanasius sublinha, portanto, que o diaconato é de instituição divina e as ordens menores de instituição eclesiástica. Porém, elas surgiram para proteger o diaconato, isto é, reafirmá-lo.

Quanto à historicidade das ordens, a Administração Apostólica São João Maria Vianney afirma que o subdiaconato foi instituído ainda na era apostólica, sendo, portanto, uma tradição humano-eclesiástica:

"O subdiaconato é a primeira das ordens maiores, embora não seja parte mesma do sacramento da Ordem, é a Ordem pela qual os ordenados são tidos na Liturgia como ministros sagrados pela qual a Igreja confere o poder de servir ao diácono na missa solene, de lhe oferecer o cálix e a patena, de preparar a água para o s. sacrifício, de cantar a epístola e de abluir as palas e os corporais.

[...]  

A origem do subdiaconato deve-se à necessidade de auxiliares para os sete diáconos, cujo número não se quis mudar. Por isso esse auxiliar subalterno é chamado subdiácono, pois que o diácono é o primeiro ministro. Foi instituído ainda no tempo dos apóstolos, “desde o princípio da Igreja.” Antigamente o subdiácono estava encarregado de ajudar o diácono, recebendo com ele as ofertas do povo e colocando no altar uma parte delas, suficiente para a comunhão dos fiéis. Devia guardar a porta das mulheres, ao passo que o diácono guardava a dos homens. Estava-lhe confiado o cuidado dos sepulcros dos mártires, das relíquias dos santos e das sagradas hóstias restantes da comunhão. Ocupava, portanto, uma posição muito honrosa de que ainda hoje está investido. Contudo esta ordem é sacramento. Na Igreja grega é ordem menor. Na Igreja romana só no século XIII (Inocêncio III) se começa a contá-la entre as ordens maiores. Mas a importância que a Igreja liga a este grau eclesiástico pode-se inferir das obrigações impostas aos que têm a honra de pertencer a ele. Cada dia o subdiácono deve rezar o oficio divino, e na Igreja romana deve guardar o celibato."

A obrigação do celibato é igual à do voto solene de castidade e é impedimento dirimente do matrimônio. A violação desta lei é um sacrilégio, de sorte que o transgressor pelo pecado, quer interno quer externo, comete dois pecados, contra a castidade e contra o voto."

Já acolitato tem o seu possível registro mais antigo datado no ano de 189 dC, sob o pontificado de São Vitor I.

O leitorado Tertuliano, já no século II, o testemunha.

No século III, encontra-se o registro das sete ordens completas, como testemunha Eusébio de Cesareia:

“Na Igreja Romana há quarenta e seis presbíteros, sete diáconos, sete subdiáconos, quarenta e dois acólitos, cinquenta e dois exorcistas, leitores e porteiros” (História Eclesiástica , VI, 43, 11)

Portanto, o registro dessas ordens é realmente antigo, sendo mais antigo, por exemplo, que as referências documentais à assunção de Nossa Senhora. 

Aqui convém relembrar que as tradições muito antigas, de origem oculta e extremamente duradouras na História da Igreja é muito provável que elas pertençam à Tradição Apostólica, como ensina o Pe. Ripperger em seu livro "The Limits of  Papal Autorithy Over the Liturgy"

Devido ao fato de Deus ser o Senhor da História, de ter estabelecido a Igreja para Lhe dar um culto bem ordenado, tanto que Ele deu instruções detalhadas, nada permanece na liturgia durante um longo período de tempo que não seja a Vontade de Deus que esteja aí. A partir disso, o princípio é que a longevidade de um elemento da liturgia dá indicação da Vontade de Deus em relação a esse elemento. Formulando de outra forma, a duração de algo nos livros litúrgicos determina o quanto Deus deseja isso na liturgia. Se algo é da Tradição Apostólica, isso indica que Deus geralmente quer esse elemento na liturgia por toda a duração da História da Igreja." (p. 42-43)

Mesmo considerando o atual status da pastoral litúrgica, a Igreja deixa claro que existe uma obrigação de conservar-se o serviço masculino do altar. Em 1994, a Congregação do Culto Divino e o Conselho para Interpretação dos Textos Legislativos fizeram o seguinte comunicado:

"A Santa Sé respeita a decisão que alguns Bispos, por determinadas razões locais, adotaram, com base ao previsto no cân. 230 § 2, mas contemporaneamente a mesma Santa Sé recorda que sempre será muito oportuno seguir a nobre tradição do serviço ao altar pelos meninos. Isto, como se sabe, permitiu inclusive um consolador desenvolvimento das vocações sacerdotais. Portanto, sempre existirá a obrigação de continuar a sustentar tais grupos de coroinhas."

Assim, mesmo que se considere a atual e confusa pastoral moderna de permitir mulheres no altar fundamentada na dignidade batismal do leigo, o que a Igreja ensino é que o serviço do altar tanto pela doutrina quanto pela conveniência é essencialmente masculino. O serviço masculino sempre será uma obrigação, enquanto o serviço feminino uma mera permissão.

Nestas premissas, é possível concluir que a Tradição que conservou o serviço masculino e proibiu o serviço feminino foi tanto divina quanto eclesiástica. A primeira por ensinar que o serviço do altar pertence essencialmente às ordens sagradas, a segunda por proteger as ordens sagradas com as ordens menores. 

O status atual das ordens menores

Se o serviço masculino do altar é uma Tradição divina e ela mesma proibe a participação feminina, como explicar a mudança operada pelo Papa Francisco de abrir o acolitato e o leitorado às mulheres?

Pois bem, segundo alguns teólogos, o que Paulo VI fez no Motu Proprio Ministeria Quaedam não foi apenas renomear as ordens menores, mas criar algo inteiramente novo. Em outras palavras, o Papa substituiu o uso das ordens menores na Missa Nova pelos ministérios laicais. Assim, o acolitato e o leitorado, embora recebam o mesmo nome das ordens tradicionais, eles só o são de maneira análoga, tal como o "coroinha" não ordenado é chamado "acólito".

Em reforço a esse entendimento, o Pe. Chad Ripperger em certa conferência explica que os ministérios laicais instituídos por Paulo VI não podem ser identificados com as ordens menores:

"Os ministérios que a Igreja regulamentou recentemente não são a mesma coisa que as ordens. Ministério é a permissão para fazer algo, é a capacidade de fazer algo sem obter permissão adicional. Não é um cargo oficial que você recebe que muda você de alguma forma. [...] O que acontece é que cada vez que você passa por essas ordens, você está passando por um ritual em que o bispo pede para você graças específicas para aquela ordem" (46'20")

Segundo o padre, embora as tarefas litúrgicas sejam materialmente as mesmas, as ordens realmente conferiam um poder ao ordenado, "graças diaconais", enquanto que os ministérios atuais concedem apenas uma faculdade ao leigo, isto é, uma permissão.

O entendimento de que Paulo VI criou ministérios completamente novos é baseado nos seguintes fundamentos:

a) Quanto à finalidade. Os ministérios laicais atuais não possuem como finalidade geral o exercício da diakonia na liturgia, mas, sim, a promoção do estado de leigo.

b) Quanto aos efeitos. Os novos ministérios recebem graças inferiores às das ordens menores. O acolitato e o leitorado, embora tenham incorporado as funções do subdiaconato, não tornam o ministro leigo um clérigo, isto é, uma pessoa sagrada, como era o caso do subdiácono, e nem lhe confere poderes diaconais, como o de benzer o pão e os frutos novos, como faziam os leitores no rito tradicional.

Portanto, é inequívoco que as ordens menores se diferem essencialmente dos ministérios laicais. As ordens menores conferiam poderes reais e permanentes aos ordenados, isto é, alguns poderes do diácono, enquanto que os atuais ministérios laicais são meras permissões para incentivar a participação ativa do leigo e que não transformam o status dele, isto é, não o tornam clérigo e nem lhe é atribuído qualquer poder especial típico das ordens sagradas, como o poder de abençoar.

Peter Kwasnieski, aqui, resume melhor:

"A conferência das ordens menores é mais do que uma mera delegação, mas menos do que uma ordenação sacramental no sentido pleno, que inscreve uma marca ou caráter indelével na alma. Se (como na opinião teológica mais comum) as ordens menores não conferem um caráter e não fazem parte do sacramento da ordem, mas são instituídas pela Igreja, elas devem ser classificadas como sacramentais. Isso parece estar de acordo com a definição de sacramentais dada no Código de 1917: “coisas ou ações que a Igreja usa em certa imitação dos sacramentos, a fim de, em virtude de suas orações, alcançar efeitos, acima de tudo de natureza espiritual”.

Especificamente, as cerimônias são bênçãos constitutivas que delegaram permanentemente as pessoas ao serviço divino, conferindo-lhes alguma identidade sagrada, pela qual assumem um novo e distinto relacionamento espiritual. Essas bênçãos dão direito aos seus destinatários a graças reais para o desempenho de seus ministérios, muito parecido com as graças sacramentais associadas à recepção dos sacramentos e semelhantes à bênção de um abade. Isso faz com que os homens em ordens menores sejam sacramentalia permanentia — tipos de objetos abençoados e consagrados! Por exemplo, a bênção de um rosário é um sacramental; o próprio rosário abençoado é um sacramental; o uso do rosário abençoado é um sacramental. Da mesma forma, podemos dizer que as cerimônias que conferem as ordens menores são sacramentais, as ordens menores são sacramentais e os exercícios de seus ofícios são sacramentais."

Pe. Louis Bacuez na obra "Minor Orders" ensina, por fim, que aqueles que recebem as orders menores recebem gradualmente os poderes do sacerdócio:

“Aquele que é investido com essas primeiras Ordens começa a ter uma parte nos poderes do grande Sumo Sacerdote.” (p. 160)

Assim, a substituição das ordens menores pelos ministérios laicais, em termos prudenciais, é altamente discutível, tendo em vista que os novos ministros recebem menos graças do que antes e se retira do Novus Ordo um importante monumento da Tradição. Igualmente discutível é a abertura feita pelo Papa Francisco do serviço do altar às mulheres, uma vez que o Magistério, em diversas ocasiões, ensinou que tais funções são inadequadas para o sexo feminino.

Certamente, Deus oferece graças aos ministros leigos para o cumprimento de suas funções, mas o sexo feminino, sendo inadequado para o ofício, traz elementos humanos que podem prejudicar a perfectibilidade da Tradição.

Nesse sentido, pontuam os teólogos Joseph Willhelm e Thomas B. Scannell, na obra "A Manual of Catholic Theology", que os elementos humanos inseridos numa tradição eclesiástica podem eclipsar parcialmente verdades fundamentais da Tradição revelada:

"No entanto, deve-se admitir que o elemento humano modifica a perfeição da Tradição. Pode haver uma quebra em sua continuidade e universalidade. Um eclipse temporário e parcial da verdade é possível, assim como desenvolvimentos posteriores. É possível que por um tempo uma parte do Depósito não seja conhecida e reconhecida por toda a Igreja ou expressa e distintamente atestada pelos principais órgãos do Apostolado." (p. 71)

O primeiro eclipse da Tradição é o mais óbvio de todos: a defesa do diaconato feminino. Uma vez que a Igreja já não mais protege o diaconato com as ordens menores, a verdade do diaconato católico é a primeira a ser atacada. Atualmente, membros do alto clero da Igreja discutem se é possível ordenar sacramentalmente diaconisas. Não existiria essa discussão se o serviço do altar fosse realizado só por homens.

O próprio O Catequista advoga pelo serviço de mulheres no altar presumindo que diaconisas tinham poderes diaconais para servir o altar. Em outras palavras, o acolitato e o leitorado feminino acaba por ser uma defesa da diaconato feminino por procuração.

O segundo eclipse da Tradição é a impugnação ao sacerdócio católico. Meninas já não sabem o porquê não podem ser sacerdotisas, uma vez que não há diferenciação das funções litúrgicas em função do sexo.

O terceiro eclipse da Tradição é a ideologia de gênero. Não havendo funções litúrgicas segundo o sexo de cada pessoa, a ideologia de gênero torna-se verossímil e mais difícil de se combater.

O quarto eclipse da Tradição é o feminismo. O serviço feminino do altar promove uma perspectiva horizontalista dos papeis sexuais. Isso pode trazer profundas dificuldades no matrimônio, pois mulheres podem pensar que, uma vez que já fazem funções inadequadas para o seu sexo, agora elas podem fazer outras igualmente inapropriadas, como liderar seu marido ou não reconhecê-lo como chefe da família.

Paremos por aqui. É patente que as inconveniências são muitas e a honestidade intelectual irá reconhecê-las.

Temos a tese inclusive que muito dos abusos litúrgicos que imperam sem controle no rito paulino ocorrem justamente em razão da ausência dos sacramentalia permanentia, isto é, de homens permanentemente consagrados e robustamente agraciados para o serviço divino. Mas isso é papo para outro dia.

O status do serviço feminino do altar

Viviane Varela buscou completar seu vídeo inicial com uma sequência de stories explicando melhor as supostas razões que teriam levado a Igreja ao abandono das diaconisas (que ela crê errôneamente que serviam no presbitério) e o consequente serviço feminino no altar. Viviane elenca duas razões:

1) Leis obsoletas de impureza ritual

Viviane de modo impreciso e sem nenhuma fonte afirma que "voltou com força na Idade Média uma distorção religiosa chamada impureza ritual".

Provavelmente, Viviane sequer fez uma pesquisa sobre o assunto e está literalmente chutando tudo o que fala.

Não há notícias de que no Ocidente mulheres fossem impedidas de acessar o altar em razão de leis de impureza ritual. Esta foi uma realidade abundantemente presente nas Igrejas Ortodoxas durante a Idade Média, mas não na Igreja latina. Tanto que essas leis levíticas de impureza ritual continuam até hoje em certas Igrejas ortodoxas, sendo o exemplo mais famoso a Igreja Ortodoxa Russa.

Segundo Christine Tracz, no artigo "Deaconess and Ritual Impurity", na Igreja Latina, a impureza ritual nunca foi levada a sério e foi exatamente por isso que as deaconisas não eram necessárias.

"No Ocidente, mesmo em grupos dualistas, não eram necessárias diaconisas nas paróquias. Isso foi positivo para as mulheres. As mulheres nas igrejas latinas podiam falar diretamente com o clero; nenhuma diaconisa era necessária como intermediária. As mulheres durante a menstruação ou a gravidez eram livres de adorar na igreja, pelo que não era necessária nenhuma diaconisa para levar a Eucaristia às mulheres grávidas nas suas casas. Na verdade, o Papa Gregório Magno ensinou que as mulheres menstruadas e as mulheres recém-partas podem frequentar a igreja e receber a Sagrada Comunhão, e explicou que as ações de Jesus (como no caso da Hemorrissa) tinham posto de lado as leis levíticas da impureza ritual. Também no Ocidente, enquanto o batismo de adultos era a norma, as batizadas eram assistidas por diversas mulheres cristãs, porque eram reconhecidas como qualificadas para preparar as batizadas na fé e para auxiliar no sacramento; novamente, nenhuma diaconisa foi necessária. Por exemplo, Gennadius de Marselha citou viúvas e freiras bem capazes aperto et sano sermone docere (para ensinar com um discurso claro e saudável), instruindo as mulheres para este sacramento." Embora os estudiosos modernos que desejam que as mulheres sejam ordenadas sugiram que a falta de diaconisas no Ocidente mostra uma restrição misógina às mulheres, o oposto é verdadeiro: as diaconisas evidentemente não eram necessárias no Ocidente devido ao reconhecimento adequado das capacidades das mulheres." (p. 195)

Viviane, portanto, ao pontuar que diaconisas foram extintas por causa de padres reaças e radicais que aderiam leis de impureza ritual, traz uma informação completamente fantasiosa. Na verdade, como atesta Catherine Tracz, foi a existência dessas leis levíticas que levaram ao crescimento das diaconisas:

"Uma característica comum de muitas cristologias heréticas é o dualismo cósmico, que implica a crença de que apenas o espiritual é bom e que a matéria é inerentemente má. Em seu foco na transcendência de Deus, esses grupos consideraram blasfêmia pensar que o divino de fato se tornaria humano. Muitos dos grupos que consideraram a Encarnação problemática também segregaram fortemente os sexos socialmente. Consequentemente, os sírios, coptas, paulinos, armênios e outros monofisitas tinham diaconisas. Manfred Hauke ​​observou em 1982: “O aparecimento de diaconisas pressupõe, portanto, condições patriarcais”.

Nessas igrejas, as diaconisas prestavam serviços sociais às mulheres, como os diáconos faziam pelos homens. Lá as mulheres não tinham permissão para falar com um clérigo, mas poderiam falar com uma diaconisa que transmitiria suas preocupações. As mulheres grávidas eram proibidas de ir à igreja e, como indica a Didascalia, teria sido considerado escandaloso para um homem visitar suas casas. Portanto, uma diaconisa levaria a ela a comunhão."

Martimort em "Deaconess" resume tudo informando que, de maneira geral, as diaconisas somente surgiram na Igreja, mais precisamente nas igrejas orientais, unicamente para suprir as necessidades de outras mulheres. Elas não surgiram num contexto de serviço litúrgico geral.

"As diaconisas surgiram na Igreja em uma região do Oriente onde a separação estrita das mulheres exigia um ministério feminino específico para servir outras mulheres." (p. 44)

Martimort informa ainda que nem mesmo o auxílio que prestavam no batismo de mulheres podia ser considerado um serviço litúrgico:

"As diaconisas não participavam da liturgia. Na verdade, sua parte no rito do batismo em si era muito restrita; elas simplesmente completavam a unção iniciada pelo celebrante. Nem pronunciavam a invocação, ou epiclese. De forma alguma elas poderiam ser consideradas no mesmo nível que os diáconos: elas eram suas auxiliares." (p.43)

Pois bem. A evidência histórica é devastadora contra a posição Viviane. Contudo, ainda que concedêssemos que durante a Idade Média as leis de impureza ritual fossem influentes no Ocidente, isso não explicaria a proibição da Igreja do serviço feminino do altar antes da Idade Média e nem séculos depois dela, uma vez que a proibição de mulheres no serviço do altar permaneceu formalmente até o século XX. Ou seja, a proibição por razões sanitárias somente poderia ser apenas mais um motivo para impedir mulheres de servirem o altar, não o único.

2) Invasões bárbaras e queda do Império Romano.


Viviane continua falando baboseiras sobre impureza ritual, mas agora acrescenta outra informação: as as diaconisas desapareceram da Igreja em razão das invasões bárbaras e da queda do Império Romano, o que veio a trazer muita insegurança para as mulheres.

Contudo, a informação é novamente imprecisa. No Ocidente, segundo Tracz e Martimort, a figura da diaconisa, tal como aparecia em algumas igrejas orientais, simplesmente não existia.

Tracz:
"Nas paróquias ocidentais, várias mulheres realizavam o trabalho atribuído no Oriente às diaconisas. Os estudiosos examinaram diversos documentos, buscando evidências de diaconisas latinas. Em Roma, na África e na Espanha, faltam registros que listem todas as funções da Igreja. O Papa Cornélio citou vários papéis, desde padres até viúvas, incluindo exorcistas e carregadores, mas nenhuma diaconisa. Eles também estão ausentes das orações da Missa, listando todos os grupos dentro da Igreja pelos quais orar: "Oremus et pro omnibus episcopis, presbyteris, diaconibus, subdiaconibus, acolythis, exorcistis, lectoribus, ostiariis [porteiros], confessoribus, virginibus, viduis [viúvas) , et pro omni populo sancto Dei." Apenas em alguns mosteiros femininos existiam diaconisas, e elas não são atestadas antes da Idade Média."
Martimort aduz que não há informação de diaconisas na Roma Ocidental durante os primeiros cinco séculos:
"Nas extremidades orientais do Império Romano, a instituição das diaconisas surgiu durante as primeiras décadas do século III e continuou a desenvolver-se de várias maneiras nas igrejas de língua grega e semítica. As igrejas de língua latina, porém, não experimentaram o mesmo desenvolvimento desta instituição, nem a igreja do Egito. Isto pode ter sido o resultado do fato de, tanto em Roma como em Alexandria, a Tradição Apostólica de Santo Hipólito de Roma ter permanecido o ideal para a organização eclesiástica. Observamos como este documento não previa lugar para qualquer ministério feminino. Mais do que isso, sem dúvida, a falta da instituição de diaconisas no Ocidente também foi o resultado do fato de tal ministério feminino não ser considerado necessário; até despertou suspeitas em alguns setores.

No entanto, alguns historiadores ficaram tão convencidos da existência de diaconisas em toda a Igreja antiga que procuraram diligentemente qualquer evidência que apoiasse a sua tese - procuraram mesmo para além dos limites da probabilidade."

Observemos a informação do autor. Nas igrejas do Império Romano do Oriente as diaconisas surgiram por volta do século III e continuaram a se desenvolver, mas nas igrejas ocidentais elas não existiram. Portanto, não houve decréscimo de diaconisas ocidentais durante as invasões bárbaras (III a VIII d.C), porque não havia essa instituição no Ocidente.

Novamente, Viviane destila groselha.

Prossigamos.


Viviane conclui o raciocínio afirmando que esses dois fatores históricos que impediam o acesso das mulheres ao serviço do altar eram circunstanciais e caíram e com base nisso os Papas decidiram abrir espaço novamente para o serviço da mulher no altar.

Como de praxe, Viviane fala coisas inventadas da própria cabeça. Nem na Ministeria Quaedam tampouco na Spiritus Domini, os Papas indicam que tenham sido essas as razões para abrir o serviço do altar às mulheres. O único que justificou essa abertura foi o Papa Francisco. Segundo o Pontífice:

"Uma prática consolidada na Igreja latina confirmou que tais ministérios laicais, baseando-se no Sacramento do Batismo, podem ser confiados a todos os fiéis que forem idôneos, de sexo masculino ou feminino, de acordo com quanto já é implicitamente previsto pelo cânone 230 § 2."

Em outras palavras, os ministérios laicais, por não estarem essencialmente ordenados às ordens sagradas e por serem meras permissões, podem admitir mulheres.

A justificativa do Papa apenas reforça o entendimento da diferença essencial entre as ordens menores e os ministérios laicais.

Sigamos.




Por fim, Viviane termina seu discurso com boas pitadas do bom e velho feminismo. Primeiro, orgulhando-se da filha que agora fará uma função litúrgica inadequada para o seu sexo. Depois, afirmando que os homens tem que começar a se acostumar a não se sentirem inseguros em ambientes predominante femininos. Dá como exemplo o ambiente de trabalho onde mulheres ocupam a maioria dos postos.

Primeiramente, nota-se que Viviane desconhece por completo a psicologia masculina. Ela ignora que os processos de aprendizagem de virtudes tipicamente masculinas são completamente diferentes dos processos femininos.

Homens, por exemplo, para aprenderem a serem homens, precisam de ambientes predominante masculinos. Joseph Shaw, comentando a obra León J. Podles “The Church Impotent”, explica bem este ponto:

"... Devo reservar um momento para enfatizar o fato de que os aspectos masculinos da Igreja não precisam ser desconcertantes para as mulheres. Afinal, as mulheres são capazes de apreciar as virtudes masculinas; elas tendem a ser heterossexuais. Muitas vezes são, de fato, portadores  de virtudes masculinas, assim como os homens podem ter virtudes associadas ao feminino. O ponto dessas postagens não é sobre a exclusão das mulheres, mas a não exclusão dos homens. Faça a missa parecer uma noite de garotas, e os rapazes fugirão paras colinas. As mulheres são muito mais tolerantes com uma liturgia que parece um pouco masculina. Sua feminilidade não é ameaçada por isso; não pode, de fato, ser tão facilmente tirado delas. A masculinidade dos rapazes, ao contrário, não é garantida de forma alguma. Eles devem se separar do reino feminino se quiserem ser homens."

Em outras palavras, meninos não aprendem a ser homens com mulheres. Mulheres tendem a ter maior inteligência emocional e, em regra, não são boas em ensinarem homens a se guiarem de maneira objetiva. Por isso homens precisam de outros homens para agirem como tais. Por esta razão, no passado, as escolas seguiam o costume da separação dos alunos por sexo justamente para potencializar as virtudes próprias de meninos e meninas.

Outro ponto, é que Viviane quer justificar uma postura pastoral da Igreja com base na cultura da mulher carreirista. O problema é que essa cultura é altamente corrompida, como já explicamos em outros artigos deste blog. O carreirismo não é um desenvolvimento normal da feminilidade. Da mesma maneira, o serviço feminino do altar não é um desenvolvimento normal da liturgia.

Vimos que as diaconisas que existiram na História da Igreja não eram ordenadas e surgiram unicamente para ajudar outras mulheres, não para agirem como homens tomando papéis litúrgicos essencialmente ordenados para eles. As únicas diaconisas que participavam do serviço do altar eram pertencentes a seitas cismáticas que aceitavam a ordenação diaconal de mulheres, ou seja, que destruíam o sacramento da Ordem.

Disso conclui-se, imperiosamente, que o serviço feminino do altar é realmente algo sem precedentes históricos e, no sentido mais rigoroso e científico do termo, uma novidade. Pe. Ripperger em "Topics of Tradition" define novidade:
"Novidade é aquilo que se opõe à tradição, já que a novidade por natureza suplanta ou contradiz a tradição. Novidade é ruim porque quebra a continuidade da tradição. Já que nossa salvação depende da tradição, a continuidade na tradição pela qual os meios de salvação são passados de geração em geração e para o maior número possível de pessoas é imperativa. Além disso, a continuidade da tradição garante que cada geração herdará a riqueza do patrimônio dos santos."
A novidade é um elemento humano que se mistura à Tradição e lhe retira força. Não é impossível que a Igreja em determinada circunstância aprove leis eclesiásticas que contenham esses elementos humanos, afinal, como ensinam unanimemente os teólogos, a Igreja não possui infalibilidade prudencial.

Nesse sentido, Adolphe Tanquerey:
“Esta infalibilidade consiste em que a Igreja num juízo doutrinal nunca possa estabelecer uma lei universal, que seja contrária à fé, aos bons costumes e à salvação das almas…(no entanto) em lugar algum foi prometido à Igreja um sumo grau de prudência para promulgar as melhores leis para todos os tempos, lugares e circunstâncias.” (Theol. Dogm. Fundamentalis, n. 932.)

Embora não devamos crer que a Igreja habitualmente se engana em seus juízos prudenciais, como assinala a Donum Veritatis, é possível que a Igreja não tenha o melhor juízo em determinadas circunstâncias, principalmente quando a decisão prudencial é de um ou outro pontífice e que não segue a tradição consolidada da Igreja. Quando a decisão prudencial não se apoia na tradição sólida da Igreja falta-lhe um dos requisitos necessários à virtude da prudência, a saber, a memória do passado.

A introdução de mulheres ao serviço do altar enquadra-se exatamente nessa situação, visto que somente foi oficialmente autorizada pelo Papa Francisco, que não fez qualquer questão de harmonizar a posição de seus predecessores com a nova disciplina adotada. Sua decisão, portanto, está mais sujeita a equívocos prudenciais, sendo possível que num futuro próximo ela seja revertida.

Por outro lado, tomando o mesmo critério da Donum Veritatis, é impossível que o juízo constante da Igreja, que condenou reiteradas vezes o serviço feminino do altar classificando-o como "desprezo das coisas divinas", "inadequado para o sexo feminino" e "prática maligna", ao longo de 2000 anos, esteja errado ou não corresponda de nenhum modo à verdade.

Conclusão

Viviane ao afirmar que mulheres a serviço do altar não contraria a Tradição da Igreja, seja ela divina ou eclesiástica, simplesmente não fala a verdade. Como demonstramos, a prática foi energicamente condenada pelos Papas até o século XX, tendo em vista que o serviço masculino do altar sempre foi considerado uma Tradição divina pela Igreja.

Também constatamos que Viviane também não fala a verdade sobre as diaconisas. O panorama histórico é que diaconisas só cresceram no contexto onde existiam leis de impureza ritual ou para atender demandas especificamente femininas. Em todos os casos em que foram inseridas no serviço do altar, houve condenação dos Concílios e dos Papas. Viviane ao distorcer esses fatos históricos para defender o serviço feminino do altar está, sem sombras de dúvidas, defendendo o diaconato feminino por procuração.

Não é a primeira vez que Viviane fala um monte de bobagens, mas é assustador como sobre este assunto ela simplesmente se superou. Recentemente, ela reclamou do "machismo" que sofre de seus seguidores que a acusam de ser incapaz de falar de qualquer assunto. Viviane alega que sofre isso por ser mulher. Claro, não duvidamos da capacidade de Viviane de falar acertadamente em outros temas, mas, a respeito do assunto do nosso artigo, ela se mostrou absolutamente incompetente. Ela foi incapaz de fazer a menor apuração histórica dos papéis da diaconisa e da posição constante da Igreja sobre a acolitagem feminina. 


sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Pe. Chad Ripperger e os ataques histéricos e desonestos de Mike Lewis


Recentemente, o editor do conhecido site católico progressista "Where Peter Is", Mike Lewis, publicou um artigo chamado "The bizarre and dangerous views of a celebrity exorcist", no qual tece críticas ao Pe. Chad Ripperger sobre sua visão sobre demônios, outras religiões e doenças mentais.

Lewis busca manifestar em seu artigo crenças potencialmente "perigosas" do Pe. Chad Ripperger. Como veremos, nenhuma delas é perigosa e Lewis é desonesto, como de hábito, ao abordar intelectualmente o padre.

Sobre  a hierarquia dos demônios

A primeira crítica de Lewis se dirige ao ensinamento do Pe. Chad Ripperger sobre a hierarquia dos demônios. Segundo Ripperger, abaixo de Satanás há cinco demônios generais: 

a) Baal, demônio da impureza;

b) Asmodeu, demônio da homossexualidade masculina;

c) Lilith, demônio da homossexualidade feminina;

d) Leviatã, demônio da homossexualidade feminina, mas de tipo masculinizado;

e) Baphomet, demônio do sacrifício de crianças.

Lewis então diz:
"Vários católicos, incluindo clérigos e teólogos, criticaram sua apresentação como bizarra e estranha à teologia e tradição católicas.

De acordo com um desses padres-teólogos, Pe. Matthew Schneider, LC, os ensinamentos do Pe. Ripperger sobre a hierarquia dos demônios parecem se desviar das visões tradicionais, que frequentemente retratam os demônios como caóticos sem uma hierarquia clara ou os alinham com os sete pecados capitais. Ele escreveu sobre as alegações do Pe. Ripperger neste vídeo: "Até onde eu sei, ele está inventando coisas do nada."

Aqui Lewis e Pe. Matthew Schneider (Regnum Christi) simplesmente falam bobagens e causa espécie que afirmem que a hierarquia dos demônios não pertence ao ensino da Tradição católica quando ela é endossada por inúmeros Padres e Doutores da Igreja, sendo o principal Santo Tomás de Aquino, que assim ensina:

"Assim, pois, a disposição natural mesma dos demônios exige que haja entre eles superior. E isto também convém à divina sabedoria, que nada deixa desordenado no universo, e que atinge fortemente desde uma extremidade à outra, e dispõe todas as coisas com suavidade, como diz a Escritura (Sb 8, 1)." (S. Th. Ia pars, q. 109, sol.)

Respondendo à segunda objeção, o Doutor Angélico afirma que há concórdia entre os demônios e que ela se orienta contra a humanidade:

"A concórdia, pela qual uns demônios obedecem a outros, não nasce da amizade que tenham entre si, mas da nequícia comum com que odeiam os homens e repugnam à justiça de Deus. Pois, é o próprio aos homens ímpios unirem-se e submeterem-se aos de forças superiores, para executarem a própria nequícia."

O mesmo ensinamento é reforçado pelo famoso exorcista espanhol Pe. José Fortea em seu livro "Summa Daemonica":

"Algo que fora comprovado através dos exorcismos é que, entre eles, há uma supremacia dos superiores sobre os inferiores. Em que consiste tal poder? É impossível sabê-lo, pois não se sabe como um demônio [por isso mesmo, feito livre] pode obrigar outro a fazer algo, pois não há corpo para ser compelido ou coagido. Não obstante, pude comprovar que um demônio superior pode proibir um inferior de sair de um corpo durante um exorcismo. Ainda que o demônio inferior esteja sofrendo e queira sair, o superior pode impedir-lhe. Como um demônio pode obrigar outro a fazer algo [ou proibi-lo], sendo este imaterial, repito, continua sendo um problema que escapa à nossa compreensão."

Lewis e Pe. Matthew simplesmente ignoram uma das principais fontes da teologia católica, Santo Tomás de Aquino, e acusam Pe. Chad Ripperger de estar "inventando coisas". No entanto, a ignorância de Lewis e do Pe. Matthew sobre o assunto depõe decisivamente contra si mesmos.

É preciso dizer ainda que Lewis e Pe. Matthew não apenas ignoram a Teologia, mas também a Revelação divina que claramente chama o mundo dos demônios de reino do qual Satanás é príncipe (Mt. 12, 25-26).

Lewis faz, portanto, reinvidicações bizarras sobre a demonologia, mas finge que afirma algo normal e ainda atribui maluquice ao próximo.

Lewis é um desonesto intelectual de marca maior.

Sobre opressão/obsessão demoníaca e bipolaridade

Em seguida, Lewis traz uma "preocupante crença" do Pe. Ripperger, que seria a de que casos de transtornos de bipolaridade são, na verdade, opressões/obsessões demoníacas:

"O padre Ripperger frequentemente fala sobre questões de ciência e saúde mental. Ele também escreveu extensivamente sobre esses assuntos, como em seu tomo de 826 páginas sobre The Science of Mental Health. Ele também rejeita a evolução como "contrária à razão" e vê a pesquisa empírica com ceticismo. Uma visão potencialmente prejudicial que ele mantém é sua crença aparente de que o transtorno bipolar é realmente uma opressão demoníaca (Fonte. O trecho citado começa por volta das 26:00):

Não houve um único indivíduo que tenha vindo até mim com diagnóstico de transtorno bipolar, que esteja tomando medicamentos e que eu não tenha conseguido parar completamente de tomar os medicamentos e melhorar em três meses se eles fizessem certas coisas.

[...]

E basicamente é por causa da contradição principal de uma pessoa, ou algum tipo de contradição na vida de uma pessoa. [...] A contradição leva a  psicologia da pessoa a extremos maiores. E eventualmente chega a um ponto em que os demônios se inserem no processo e ele se torna realmente extremo.

É chamado de estado maníaco e depressivo. E a pessoa não tem controle sobre isso. Bem, geralmente isso pode ser quebrado bem rápido. Geralmente elas param de tomar os remédios em três semanas. Eles geralmente estão normais, se endireitam, se sentem normais depois de dois ou três meses. O que isso significa? Toda forma de doença mental pode ser causada por demônios.

Este arquivo de áudio específico foi difícil de encontrar porque foi removido do site do Ripperger. A princípio, pensei que essa alegação sobre transtorno bipolar poderia ser única, porque ele frequentemente parece inventar coisas conforme avança. Mas então me deparei com um pequeno clipe de uma palestra diferente na qual ele novamente afirma que o transtorno bipolar é realmente uma "obsessão demoníaca". Ele diz:

Casos de bipolaridade são, na verdade, casos de obsessão demoníaca. Eu sempre, toda vez que ouço a explicação ou o diagnóstico de psicólogos modernos sobre um, hum, bipolar, eu simplesmente, bem, mando o cara para um exorcista.

Em outras palavras, eu tive um sucesso fenomenal em realmente usar essa bênção que a Igreja tem no antigo ritual — que expulsa o demoníaco — em pessoas que são bipolares. Elas realmente param de tomar seus remédios como resultado disso. O que apenas confirma para mim, e eu acho que a explicação por trás disso é, é o fato de que elas geralmente estão fazendo algo errado para começar, ou algo em suas vidas as desestabilizou emocionalmente ou psicologicamente.

Esta é uma crença preocupante, para dizer o mínimo. O transtorno bipolar é uma condição de saúde mental bem documentada, com extensa pesquisa apoiando a eficácia de medicamentos e psicoterapia. Ao atribuí-lo a demônios e alegar que é o resultado da pessoa "geralmente fazer algo errado para começar", Ripperger descarta a compreensão científica da saúde mental e desencoraja os indivíduos de buscar tratamento médico apropriado. Suas opiniões podem levar a resultados perigosos, como pacientes descontinuando sua medicação sem supervisão médica, resultando potencialmente em mudanças de humor severas ou recaída. Além disso, igualar as condições de saúde mental com influência demoníaca perpetua o estigma e o mal-entendido. As opiniões de Ripperger levantam preocupações éticas (para dizer o mínimo) e potencialmente colocam as pessoas em grande risco."

A primeira coisa que se nota é que Lewis trata como verdadeiro absurdo alguém pensar que alguns casos de bipolaridade possam ter causa sobrenatural.

Todavia, os exorcistas são unânimes em atestar que muitos sintomas de transtornos mentais são idênticos ou semelhantes aos casos de influência demoníaca. Todos também são consensuais em afirmar que demônios podem causar doenças e transtornos mentais ou agravá-los.

Nesse sentido, recorramos, novamente, ao Pe. José Fortea em seu livro "Summa Daemoniaca":

"Pode o Demônio causar uma doença mental?

Se o Diabo pode tentar, também pode fazê-lo contínua, intensa, incansável, e tratar de conseguir, portanto, instilar uma obsessão, fobia, depressão ou outras enfermidades. Se já dissemos que [o Diabo] pode transmitir espécies inteligíveis, poderia fazê-lo com tal frequência que perturbasse a vida diária da pessoa até que estivesse desequilibrada [mentalmente]. Fazer isso, ele pode. Mas, Deus impede sua livre atuação sobre nós. Toda ação do Demônio sobre os seres humanos deve ser permitida por Deus.

A resposta, para a pergunta de se o Demônio pode provocar doenças mentais, é sim, se Deus o permite. Resposta essa que vale para tudo mais.

Inclusive se perguntarmos se podemos contrair uma perturbação mental sem o dedo do Diabo. Sim, se Deus o permite, sim! Trata-se de uma resposta que tem um caráter quase universal. No entanto, por mais abrangente que seja ━ sendo que ela é adequada a quase todas as situações ━, temo que não haja qualquer outra alternativa a essa pergunta.

Tendo nós conhecido o mecanismo interno pelo qual o Demônio nos tenta ━ a introdução de espécies inteligíveis em nossa inteligência, memória e imaginação ━, este modus operandi pode também ser usado de forma tão intermitente que venha a desequilibrar [a nível psicossomático] a pessoa.

Está ao alcance do Demônio tal faculdade. A única coisa que pode embargá-lo nesse expediente é a Vontade de Deus. Mas, vejamos: o impede sempre? Sem dúvidas que não! Se Deus não impede sempre a atuação das causas naturais que provocam a enfermidade [aliás, quase nunca], tampouco impedirá sempre a atuação do Demônio. Assim sendo, tanto neste âmbito como no campos das causas das patologias físicas e psíquicas, a atuação do  Demônio é excepcional. Toda enfermidade mental provém de causas naturais, até que se prove o contrário.

Por outro lado, se colocarmos, lado a lado, uma pessoa perturbada mentalmente por causas naturais e outra por atuação demoníaca, não teríamos condições de distinguir uma da outra, pois só veríamos o efeito externo."

Pe. Ripperger em seu livro de saúde mental citado por Lewis afirma que alguns casos de bipolaridade (não todos como desonestamente afirma Lewis) podem ter como causa a opressão demoníaca:

"Esses extremos indicam que a pessoa está sendo movida para um lado e para o outro. O bipolarismo é frequentemente confundido com essa atividade demoníaca. Embora nem todas as formas de bipolarismo sejam demoníacas em causa, já que podem ter a nós mesmos como causa, no entanto, não se deve presumir imediatamente que tenha uma causa física." (p. 568)

Portanto, Pe. Ripperger reflete a mesma crença do Pe. José Fortea de que doenças psíquicas podem ter como causa o demônio. A diferença entre ambos é que Pe. Ripperger enxerga na bipolaridade um sinal bastante decisivo da atuação demoníaca, a ponto de dizer que não se deve presumir uma explicação natural para ela.

Então perguntemos: Por que Pe. Ripperger pensa assim?

Bom, a resposta está no próprio livro do padre e na natureza desse transtorno.

O padre ao tratar da opressão e da obsessão demoníaca as insere no campo das causas externas da doença mental. Ambas são descritas da seguinte forma:

Opressão diabólica

A opressão diabólica se manifesta em sintomas de doenças muito sérias a muito leves: "Não há possessão, perda de consciência ou ação e palavra involuntários." A opressão afeta a saúde, o emprego e os relacionamentos de alguém e seus sintomas incluem “raivas inexplicáveis ​​e uma tendência ao isolamento completo”. Jó (no Livro de Jó) é um exemplo claro desse tipo de influência demoníaca. Pode resultar em doenças físicas que não podem ser curadas por meios médicos. Pode afetar relacionamentos, por exemplo, quando inexplicavelmente há uma “briga” entre membros da família. Também pode afetar o emprego das pessoas, por exemplo, quando são demitidas repentinamente e sem motivo.
Obsessão diabólica

A compreensão dessa forma de influência demoníaca é particularmente importante para psicólogos e psiquiatras: Os sintomas incluem ataques repentinos, às vezes contínuos, de pensamentos obsessivos, às vezes até racionalmente absurdos, mas de tal natureza que a vítima é incapaz de se libertar. Portanto, a pessoa obcecada vive em um estado perpétuo de prostração, desespero e tenta suicídio. Quase sempre a obsessão influencia os sonhos. Algumas pessoas dirão que isso é evidência de doença mental, exigindo os serviços de um psiquiatra ou psicólogo. O mesmo poderia ser dito de todas as outras formas de fenômenos demoníacos. Alguns sintomas, no entanto, são tão inconsistentes com doenças conhecidas que apontam com certeza para suas origens malignas. Apenas um olho especialista e bem treinado pode identificar as diferenças cruciais.
Assim, a demonologia assenta certos sinais comuns da atuação diábolica, sendo estados mentais depressivos e maníacos sem uma causa aparente e nenhuma cura médica apenas alguns deles.

Ora, quando se analisa a bipolaridade, se verifica que ela possui todos esses sintomas, mas que não tem uma causa definida. E, embora tenha tratamento para sintomas imediatos, o transtorno não tem cura, como atesta a literatura médica a respeito.

Pe. Ripperger não está aqui cometendo a imprudência de "ver o diabo em tudo", mas analisando a natureza da doença e considerando suas possíveis causas. Para este tipo de transtorno mental ainda não há uma aparente causa natural, mas uma possível causa sobrenatural que funda-se no vasto conhecimento a respeito do comportamento diabólico.

Portanto, o padre está apenas considerando todas as causas possíveis, como ele próprio ensina em seu livro:
"Certas formas de psicologia moderna serão inerentemente inadequadas em relação a esses tipos de causas. Por exemplo, o behaviorismo que por sua natureza trata o homem não de forma diferente de um animal'” nega o papel do imaterial. Portanto, em seus esforços para “modificar o comportamento,” os behavioristas encontrarão o fracasso, já que a modificação do comportamento não resolve o problema da obsessão demoníaca nem qualquer doença mental que tenha sua raiz no voluntário. Qualquer psicologia que tire suas principais conclusões sobre saúde mental de um ponto de vista puramente materialista será inerentemente inadequada.
Somente uma psicologia enraizada no tomismo dará uma resposta adequada às dificuldades mentais das pessoas, pois somente o tomismo leva em consideração TODAS as causas possíveis, bem como uma delineação adequada da constituição ontológica do homem e, portanto, pode entender como as causas funcionam.
Com essa forma de atividade diabólica, duas abordagens do psicólogo devem ser mantidas em mente. A primeira é que o psicólogo deve esgotar as possibilidades naturais e auxiliar no aconselhamento do dirigido sobre o que fazer. Isso não implica que os psicólogos tenham que passar um por um pelas várias possibilidades naturais. Significa apenas que ele deve ter conhecimento delas e não encontrar nenhuma possibilidade natural em sua avaliação do dirigido. Além disso, ele deve garantir que os meios que o dirigido e ele, como psicólogo, podem empregar no nível espiritual sejam usados. Se a obsessão for uma que pode ser quebrada meramente pelas orações de alguém em estado de graça, psicólogos notarão, em casos onde esta forma de influência demoníaca está presente, melhora definitiva. Se depois que os vários meios forem usados ​​e o dirigido tiver feito fielmente sua parte, tanto no nível espiritual quanto no natural, pode ser prudente enviar o dirigido a um padre ou exorcista." (p. 559)
Lewis é desonesto, pois deixa a impressão de que o padre sugere simplesmente largar o tratamento médico e ir a um exorcista quando é exatamente o contrário do que o padre pede. O que o padre sugere é: Avalie as causas naturais. Se não existirem, procure um padre ou exorcista.

No caso específico da bipolaridade, a causa natural é desconhecida e seus sintomas se confundem com sinais da atuação angélica. Por isso, a origem natural do transtorno não é presumida. A forma de atestar se a causa é decisivamente angélica ou não é combater a doença sobrenaturalmente (por meio de orações, bençãos ou exorcismo) e verificar se ela cessa de existir.

O raciocínio do padre é perfeitamente lógico e prudente, pois considera todas as causas possíveis.

Lewis, contudo, raciocina o contrário. Por causa do seu progressismo teológico, o escritor, apesar de ser católico, pensa como um ateu. O demônio, embora não seja formalmente negado por ele, passa alhures do seu pensamento. Ou seja, ele não considera todas as causas possíveis. Se a doença é curada por meios sobrenaturais, o escritor não vê nisso uma decisiva intervenção divina. Afinal, como a doença "não tem cura", o perfeito estado mental da pessoa, nestes casos, só pode significar algum intervalo enganoso de ausência dos sintomas da doença, mas não sua dissipação total. Assim, mesmo estando bem, a pessoa deve continuar tomando antidepressivos e antipsicóticos a vida toda mesmo não existindo causa médica para tomá-los.

Este raciocínio, claramente, presume materialismo, pois rejeita o remédio espiritual quando há sinais de que ele deve ser tomado, mas aceita a continuação de pesados tratamentos farmacológicos, mesmo sem qualquer evidência da sua atual necessidade, bastando que se afirme que a doença é incurável.

Do ponto de vista moral, esse materialismo presumido leva à imprudência. Porque não usar os meios adequados para resolver um problema ou dissipar recursos com problemas inexistentes é uma nota característica do homem imprudente. Porém, Lewis está tão afundado no seu progressismo teológico que não consegue ver isso. Ele não consegue enxergar a imprudência da mentalidade ateia e materialista nessas situações.

Mais uma vez, o ataque de Lewis ao Pe. Ripperger apenas depõe contra si mesmo e revela profundas convicções suas que, no fundo, são anticatólicas.

Sobre os não católicos

Lewis alega que Pe. Ripperger faz afirmações heterodoxas sobre os não católicos:

"O padre Ripperger tem muitos títulos acadêmicos em teologia e filosofia e é padre há muitos anos, mas aparentemente ele dormiu durante a palestra sobre a declaração do Vaticano II Nostra Aetate sobre a "Relação da Igreja com as Religiões Não Cristãs". Parece que ele pode ter pulado o seminário sobre ecumenismo também."

Segundo Lewis, Ripperger, nesta conferência, contraria o ensinamento do Concílio Vaticano II nos seguintes pontos:

a) Ao afirmar que cristãos e muçulmanos não adoram o mesmo Deus;

b) Ao dizer que não se pode rezar com protestantes;

c) Ao asseverar que fora da Igreja qualquer ato religioso é ofensivo a Deus.

Quanto a "a", Pe. Chad Ripperger apenas constata que nunca foi uma reinvidicação dos teólogos que muçulmanos e cristãos adorassem o mesmo Deus.

Aqui, obviamente, Pe. Chad Ripperger também refere-se ao Deus revelado em cada uma das religiões, não ao Deus Criador/monoteísta alcançável pela razão natural e afirmado por cristãos e muçulmanos.

Esta obviedade fica ainda mais patente quando o padre diz que nem o Deus concebido pelos protestantes é o Deus católico. E, de fato, no plano da Revelação, o Deus católico é muito diferente de Allah ou do Deus "revelado" dos protestantes, que predestina as pessoas ao inferno ou que aceita o divórcio, contracepção, etc.

Ademais, a crítica tradicionalista a respeito de Nostra Aetate sempre apelou ao plano da Revelação. Não é uma crítica herética ou heterodoxa, mas que revolve a uma falha de precisão textual do documento conciliar. Afinal, o corpo predicativo comum do "Deus uno" de cristãos e muçulmanos só vai até certo ponto, conforme o esquema abaixo:


Quanto a "b", Lewis diz:

"Ripperger contradiz diretamente o Papa São João Paulo II, que (como todos os papas recentes) rezou com protestantes e outros cristãos não católicos em muitas ocasiões. Em sua encíclica Ut Unum Sint, ele explicitamente encorajou isso: “Quando irmãos e irmãs que não estão em perfeita comunhão uns com os outros se reúnem para rezar, o Concílio Vaticano II define sua oração como a alma de todo o movimento ecumênico. Esta oração é 'um meio muito eficaz de pedir a graça da unidade, uma  expressão genuína dos laços que até agora unem os católicos aos seus irmãos separados” (UUS 21)."

Lewis, contudo, mais uma vez, se mostra desonesto, pois o "orar", no contexto indicado pelo padre, refere-se à participação de cultos protestantes, não às orações ecumênicas. Pe. Ripperger inclusive indica, no min 18'47", o artigo "The Holy Office on Worship with Non-Catholics from 1622 to 1939de Craig Allen, para reforçar seu ponto.

Quanto "c", o contexto é, novamente, deturpado por Lewis. O padre buscava explicar justamente porque a participação de católicos em cultos protestantes é ofensiva a Deus. Vejamos o que o padre diz:

"Somente aqueles em união com aqueles Apóstolos e sucessores podem fazer uso legítimo deles [elementos de santificação], porque se não o fizerem, se usarem esses elementos fora dos apóstolos e seus sucessores eles cometem um pecado de injustiça contra os apóstolos ou seus sucessores cujos direitos são os de ser guardiões desses elementos de santificação.

O que significa que, se você não está na Igreja, qualquer coisa religiosa que você faça — como batizar alguém — é na verdade ofensiva a Deus porque é contrária ao fato de que deveria ser feita em união com aqueles que têm direitos sobre esses elementos de santificação.

Os bispos basicamente têm o direito de fazer determinações de quando os sacramentos são aplicados, etc., e isso inclui orar sobre as pessoas ou com elas."

Ora, Pe. Ripperger nada mais está fazendo do que uma bela apologia da necessária união com a Igreja (tão cara a Lewis, um continuísta) que devemos ter e explicando como isso é uma obra de justiça para com Deus.

E, de fato, um católico sabedor da verdadeira religião não pode realmente participar de cultos protestantes ou outras religiões, ainda que elas façam uso de sacramentos e de outros elementos de santificação, sob pena de pecar contra a virtude da religião.

Embora possam existir elementos de santificação em outras religiões, como ensina o Concílio Vaticano II, a Igreja não ensina a bondade dessas religiões enquanto tais. Afinal, elas são inspiradas em erros metafísicos crassos (Ex: Animismo, Hinduísmo, Budismo, Espiritismo), revelações falsas (Islamismo), revoltas contra a Igreja (Ex: Ortodoxia e Protestantismo), em suma, em pecados contra a verdade e em obras de injustiça contra Deus.

Nesse contexto, um ato religioso, como o ato de batizar ou de conferir sacramentos, pode não configurar um ato de pecado pessoal do indivíduo, a depender do seu grau de consciência sobre a verdade sobre a Igreja, mas é, por assim dizer, um pecado daquela religião que administra sacramentos usurpando a autoridade de quem tem direitos sobre eles.

Ademais, a Igreja "nada rejeitar o que é santo em outras religiões" é apenas uma outra forma de dizer que ela não pode rejeitar o que é naturalmente sagrado e, portanto, seu. Ela definitivamente não está defendendo o uso ilegítimo desses elementos por outras religiões, pois, se assim fosse, Lewis teria que adotar uma posição incômoda para o seu continuísmo de esquerda, a saber, que não haveria qualquer irregularidade na dispensação de sacramentos por ortodoxos, sedevacantistas e padres da FSSPX, afinal, a Igreja em nada rejeita o que é santo...

Por fim, é preciso dizer que, ao contrário da oração entre católicos, a oração de católicos com não católicos não se presume lícita. Não é simplesmente livre a oração conjunta de católicos com adeptos de outras religiões. Ela precisa ser regulada pela autoridade competente da Igreja, para ser devidamente autorizada, conforme define o Diretório para a Aplicação do Ecumenismo, e assim evitar o perigo do indiferentismo religioso:

"No nosso tempo há, aqui ou ali, uma certa tendência à confusão doutrinária. Portanto, é muito importante que, no campo do ecumenismo como em outros, evitemos abusos que possam contribuir ou levar ao indiferentismo doutrinário. Se as directrizes da Igreja sobre este assunto fossem desconsideradas, o progresso da autêntica busca da plena unidade entre os cristãos seria prejudicado. Compete ao Ordinário local, às Conferências Episcopais ou aos Sínodos das Igrejas Orientais Católicas garantir que os princípios e normas contidos no Diretório Ecuménico sejam aplicados fielmente e garantir que qualquer possível desvio seja evitado com cuidado pastoral.
(...) 
108. Se for caso disso, os católicos devem ser encorajados a reunir-se para rezar com os cristãos pertencentes a outras Igrejas e comunidades eclesiais, segundo as normas ditadas pela Igreja. Estas orações em comum são, sem dúvida, um meio eficaz de implorar a graça da unidade e são uma manifestação genuína dos laços com os quais os católicos ainda estão unidos a estes outros cristãos. A oração em comum é, em si, um caminho que conduz à reconciliação espiritual.
(...) 
110. Contudo, a oração comum deve ter como objetivo, antes de tudo, a recomposição da unidade dos cristãos. Pode centrar-se, por exemplo, no mistério da Igreja e na sua unidade, no baptismo como vínculo sacramental de unidade, ou na renovação da vida pessoal e comunitária como caminho necessário para tornar perfeita a unidade."

Ao que tudo indica, Lewis vê problema nas declarações do Pe. Ripperger, muito provavalmente, pelo fato da sua mente já não raciocinar com perfeita ortodoxia nesses temas.

Espíritos Geracionais

O próximo ataque de Lewis ao Pe. Ripperger refere-se à conferência feita pelo padre sobre "espíritos hereditários".

"Os exemplos acima, por mais perturbadores que sejam, podem não ser as ideias mais potencialmente prejudiciais e espiritualmente perigosas de Ripperger. Central para sua visão de mundo e abordagem do demoníaco é a noção de “maldições geracionais” ou “espíritos ancestrais” e coisas do tipo. Este conceito não tem lugar na doutrina católica.

(...)

Aparentemente, de acordo com o Padre Ripperger, espíritos malignos astecas ou maias podem afligir pessoas de herança latino-americana, e outros espíritos afligem nativos americanos — mesmo que suas famílias tenham adotado o cristianismo há séculos. Seria interessante saber se Ripperger alguma vez sugere ao seu público (na maioria branco) que eles podem estar sendo afligidos inconscientemente por demônios associados aos deuses nórdicos ou ao panteão romano.

Essa noção popular de espíritos e maldições geracionais merece uma análise mais aprofundada e uma crítica detalhada. Mas devo salientar que a maneira como Ripperger trata disso com seus contos sensacionais cheira a superstição e histórias de fantasmas tecidas para cativar seu público crédulo, feito de pessoas com apetite por contos fantásticos."

Aqui vemos um perfeito exemplo de como criticar sem dizer absolutamente nada.

Lewis afirma que os "conceitos de espíritos antecestrais e de maldições hereditárias não tem lugar na doutrina católica", mas também não esclarece se é algo contrário a ela. Afirma ainda que a noção popular de maldição hereditária merece ser criticada, mas não expõe a crítica. A única coisa que Lewis faz é sugerir "racismo" do padre, ainda que o Ripperger tenha afirmado em sua palestra que nunca viu uma família sequer que não padecesse do problema dos espíritos geracionais.

Não estamos aqui concordando ou discordando da tese do Pe. Ripperger, mas apenas pontuando a completa incapacidade de Lewis de demonstrar as "bizarrices" do padre como promete o título do seu artigo. Até aqui Lewis só bateu pezinho, mas não demonstrou absolutamente nada.

Quanto à tese em si mesma, apesar de não termos nenhuma opinião sobre ela, não parece irrazoável. Diz o padre que espíritos geracionais são demônios que influenciam famílias, raças ou sociedades por gerações inteiras aproveitando-se pecados, inclinações ou maldições feitas naquela família ou nação.

Pe. Rippeger afirma que um espírito geracional entra numa família de três formas:

1. Pecado mortal cometido pela autoridade da família. Quando um chefe de família comete um tipo específico de pecado mortal e ainda coopera com as sugestões do demônio a respeito desse pecado, ele sujeita a família inteira à influência despótica desse demônio.

2. Maldições. Quando uma pessoa amaldiçoa outra. Pe. Ripperger afirma que isso pode afetar inclusive bebês desde o útero e conta casos de crianças abaixo da idade da razão que sofreram possesões demoníacas. O padre diz que esta é a razão da Igreja fazer exorcismos no batismo e cita o caso bíblico de Marcos 9, em que Jesus expulsa um demônio que possuía um rapaz desde a infância.

3. Permissão de Deus. Deus pode permitir por um motivo desconhecido por nós que um demônio geracional tente ou influencie uma família por gerações inteiras.

Por mais que estas ideias não integrem formalmente a doutrina católica, elas parecem ser uma realidade fática constatada por muitos padres e exorcistas tais como o Pe. John Hampsch, Pe. Gabriele Amorth, Pe. Robert DeGrandis, Pe. Lou Cerulli, etc., e estão longe de ser uma "bizarrice" teológica perigosa como faz parecer Lewis. 

Conclusão

Lewis é um perfeito exemplo de como o progressismo teológico simplesmente detona com o sensus fidei de uma pessoa.

O que se nota nas críticas dirigidas ao Pe. Ripperger é um profundo ateísmo ou agnosticismo que permeia toda a sua mentalidade.

Sabemos que essa mentalidade é oriunda de uma adesão, ainda que implícita, ao modernismo teológico, que é profundamente agnóstico.

Acreditamos que o progressismo de Lewis é oriundo de uma certa paixão desordenada antitrad. Há certos continuístas que se inflamam tanto em sua batalha antitradicionalista que se enveredam de vez para o modernismo/progressismo teológico, como ocorreu com Paul Fahey, colunista do site.

Está nítido que o ataque ao Pe. Ripperger, um dos mais eruditos e respeitados dos EUA, não foi gratuito. Lewis quer demonstrar a seu público que absolutamente nenhum católico ligado ao catolicismo tradicional é digno de confiança. Por isso faz ataques virulentos ao sacerdote, ainda que com isso só deixe mais claro sua própria ignorância teológica.

O problema é que esse tipo de empresa, isto é, de não olhar o que se diz, mas quem diz, destrói a busca natural pela verdade e, ulteriormente, o senso da fé. Nesse sentido, Lewis já olha com desconfiança doutrinas completamente ortodoxas da Igreja (hierarquia dos anjos, unicidade da Igreja como meio de salvação, atuação demoníaca no mundo, etc) e as confunde com "bizarrices trads".

Esse modus operandi também faz Lewis tornar-se cada vez mais desonesto. Por que Lewis menciona o livro de saúde mental do Pe. Ripperger, mas não cita os trechos em que o padre orienta a buscar primeiro a solução médica para os transtornos mentais ou que afirma que nem todos os casos possuem causa sobrenatural? Por uma razão óbvia: ou Lewis não leu o livro ou omitiu deliberadamente. Ou ele critica sem ler ou ele omite informação para denegrir o adversário. Em ambos os casos está sendo desonesto.


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